Notas iniciais
Um feliz novo ano! Boa leitura...

Quando a mulher sobre o palco olhou para Rachel Hudson com o que pareceu ser um aconchegante abraço quente numa noite fria, a esposa de Finn sentiu algo que jamais sentira antes. E sem saber como denominar apenas pôde deduzir que era muito diferente de sentir.

— CUBRA-SE, PROFANA!

Um homem de meia idade gritou de entre as pessoas. Todos o olharam. O homem parecia carregar a mais pura indignação consigo. Do lado dele estava sua mulher, que olhava para a mulher sobre o palco com nojo.

— Faça o que estou mandando. Cubra-se. Tenha o mínimo de descencia.

O homem ruivo sardento que momentos antes apresentava o show, tomou a frente pedindo que o homem exaltado mantivesse a calma. Entretanto ele não parecia disposto a dialogar.

Como um fantasma, o homem baixo que atraira o público para a atração materializou-se na lona para levar a mulher nua para longe do foco da luz.

— Vamos embora. — Puxou a mulher temendo por sua vida deixando para trás a confusão que se formava em volta deles.

Cerca de meia hora depois, longe de todo alvoroço, Finn e sua esposa observavam distantes enquanto Sam e sua esposa juntamente com o prefeito da cidade discutiam aflorados sobre o que, o casal supôs tratar-se de algo realmente urgente.

Depois do que pareceu ser uma eternidade, Sam aproximou-se do casal com uma expressão preocupada, enquanto sua esposa e o prefeito rumavam para o lado contrário.

— O que houve, Evans? — Finn perguntou verdadeiramente preocupado, apertando o ombro do amigo.

— Santana está irritadíssima com tudo o que aconteceu. E o prefeito encontra-se da mesma forma. — Exclareceu Sam passando as mãos pelos cabelos que lhe caíam sobre os olhos.

— Está? — O banqueiro parecia abismado, afinal, em dado momento Santana pareceu até mesmo ter se divertido com a situação.

— É uma longa história. — Disse Sam de forma reticente — Mas resumidamente, Lucy, esta mulher que apresentou-se, não faz parte do Circo, não exatamente. Ou melhor, ela fez parte, mas não faz mais. Isso pode ser um grande problema.

— Acho que não entendo...

— Lucy Quinn Fabray não é uma atração qualquer desse Freak Show, não mais. Hoje ela estava fazendo essa apresentação que foi um pedido especial de Santana, com aval do prefeito. Era uma forma de tornar o Circo mais atrativo, afinal ela foi e continua sendo a atração mais famosa dentre todas conhecidas entre os Freak Shows. E o prefeito pagou uma pequena fortura para que ela fizesse parte complementar das apresentações. Agora, ele teme que Lucy Quinn Fabray e sua representatividade acabe de certa forma prejudicando a imagem da cidade. Quer que Santana faça algo a respeito. Santana está conversando com Lucy Quinn Fabray agora, para pedir desculpas. Com sorte ela aceitará as desculpas e tudo será resolvido.

Finn coçou o queixo após ouvir a explicação do amigo. Então comentou:

— Você não deveria deixar que sua esposa tome atitudes que podem fazer mal a sua imagem, Evans. Se eu fosse casado com Santana ela saberia respeitar a autoridade de um homem.

Sam Evans riu abertamente como se tivesse ouvido uma excelente piada, antes de olhar para o homem mais alto pensativo e dizer:

— Sabe de uma coisa, Hudson? Eu pagaria para ver como você se sairia sendo casado com minha esposa.

Mas Finn não lhe deu resposta, em troca aprumou os ombros para partir. Apertou a mão que lhe era estendida.

— Nós precisamos ir. Foi uma noite complicada, e eu estou me sentindo indisposto. Queira nos desculpar.

O loiro sorriu compreensivo devolvendo o aperto do amigo.

— Venha amanhã até minha casa para uma pequena reunião que faremos em comemoração ao nosso retorno. É muito importante sua presença, Finn. Se Lucy Quinn Fabray estiver lá é bom que ela veja que as pessoas influentes desta cidade não pensam como aquele homem. E além do mais, nós ganharemos alguns pontos com o prefeito.

— Será um grande prazer. — disse Finn. Ele estaria lá, mesmo que pensasse exatamente como aquele homem retrogrado pensava.

Noah levou Finn e Rachel de volta para casa. O banqueiro reclamou por a noite ter acabado tão cedo durante toda viagem de volta, e acabou ficando com um humor péssimo, tão ruim que frustrou seus planos de ter satisfação com a esposa aquela noite.

Ao perceber que o marido havia caido em um sono profundo ao seu lado, Rachel — que fingia ler um livro desde que os dois deitaram na cama — suspirou profundamente.

Lembrar das palavras do marido durante a conversa dele com Sam fez crescer um nó em sua garganta. Aquilo que Finn dissera...

Rachel sabia como seu marido pensava. Ele sempre falava como as mulheres deveriam saber obedecer seus maridos, como a mãe dele era um exemplo desse tipo de mulher. Mas ouvi-lo externar pensamentos como aquele diante de outras pessoas deixou-a magoada.

Houve um momento enquanto ouvia Finn falar, que desejou ter gritado, mandando o marido calar a boca. Mas preferiu o silêncio. O silêncio ao qual se impôs ao casar com Finn. Era uma mulher sem opnião, que evitava as brigas, uma mulher que fazia seu marido feliz. Mas aquilo estava matando-a aos poucos.

Em seus pensamentos mais profundos, deixava-se imaginar como seria sua vida se tivesse encontrado um homem diferente. Ou simplesmente alguém que tivesse um olhar acolhecer e quente como o sol num dia de inverno. Imediatamente lembrou-se do olhar acolhedor que recebera da mulher do palco. Ninguém olhara para ela como aquela desconhecida tinha olhado.

~/~

Lucy Quinn Fabray estava sentada à mesa escrevendo tranquilamente em uma folha de papel. Foi quando ouviu o som de alguém batendo na porta do trailer em que estava.

Santana Lopez entrou no lugar mal iluminado. Havia a luz que iluminava para que Quinn pudesse escrever e somente essa.

Pelo espelho Lucy Quinn notou a presença da outra mulher. Parou de escrever e com uma profunda inspiração, levantou-se. Tinha uma expressão falsamente tranquila. Era possível supor que o que se passava em seus pensamentos era exatamente o oposto disso.

— Santana. — Cumprimentou sem qualquer emoção. — Por favor, sente-se.

Santana não esperava por algo diferente daquilo. Apertou a bolsa que trazia em mãos para aplacar o nervosismo. Costumava ser sempre a que estava no controle, mas agora precisava passar por cima de sua prepotência. Somente deus sabia quanto aquele momento estava sendo difícil para ela.

— Peço que seja breve, Santana. Este dia foi realmente bastante desgastante. Tudo que quero agora é poder descansar. — Disse Lucy Quinn Fabray sentando-se também, apoiando o rosto sobre a palma da mão.

Santana pensou brevemente no que dizer, então iniciou o discurso que havia preparado mentalmente.

— Nós não concordamos com o que houve em hipótese alguma. E quando digo 'nós' falo por todos os cidadãos que não estão de acordo com a atitude tomada por aquele homem. E eu gostaria de pedir desculpas em nome do prefeito pelo que aconteceu.

Quinn assentiu. Então respondeu:

— Em nome de nossa breve amizade que, aliás, eu gostaria que não fosse quebrada por esse evento isolado, eu aceito os pedidos de desculpa, Santana. Mas quero ressaltar, e que isso fique bem claro entre nós, que possivelmente você não poderá mais contar com qualquer ajuda advinda da minha pessoa. Pelo menos não por enquanto, principalmente se tratar-se de negócios. Também em nome do grande carinho que sinto por você, pretendo deixar que esse fato se perca no tempo. Esqueçamos dele.

— Absolutamente entendo. Você está certa por pensar dessa forma. Indiretamente, sinto que errei por colocá-la nessa situação, então peço desculpas por mim também. E agradeço por toda sua consideração. — Disse Santana, aliviada por as coisas terem tomado um rumo favorável a sua pessoa.

— Esteja tranquila, pois eu estou muito bem quanto a isso. De certa forma, essa situação fez-me bem. Então, sem mais preocupações.

Santana levantou-se para abraçar Lucy Quinn como uma velha amiga faria. Apertou-lhe os ombros sorrindo para ela.

— Amanhã, pela noite, meu marido e eu faremos um jantar para celebrar nosso retorno. Sei que provavelmente pode ser repentino, mas não será algo grande. É para amigos próximos. Gostaria que aceitasse meu convite e viesse celebrar conosco. Você não terá que se preocupar, trataremos de toda lógistica para que você possa comparecer.

— Eu irei. — Disse com um leve sorriso antes de se aproximar para beijar a face da espanhola. — Quero poder encontrá-la em uma outra oportunidade, onde os ânimos não estarão exaltados. Quero conversar com você, quero poder ouvir mais sobre suas histórias, e contar-lhe as minhas.

— Farei com que esse encontro aconteça. — disse Santana devolvendo o beijo na face da mulher.

Assim que Santana se foi, Quinn voltou para o papel onde escrevia antes da mulher interrompê-la. Retomou de onde havia parado:

Ultimamente a grande maioria dos donos de Teatro da Broadway têm focado em promover apresentações de música gospel e soul. Mas eu tenho uma ideia desde que me vi proprietária daquele Teatro. Li sua resposta na carta que me mandou enquanto eu viajava pela Espanha, e sei que você não concorda com minha ideia, mas não irei abrir mão dela. O que penso em fazer com o teatro vai ser o que atrairá as pessoas no futuro quando a Broadway for um lugar estabelecido. Posso ver adiante, não como as ciganas fazem, mas mesmo sem essa habilidade vejo um grande futuro surgindo.

Tenho estado em muitos lugares, e conhecido mulheres diferentes. A última foi uma espanhola por nome Jasmine que dança como nunca vi alguém dançar. Mas nem mesmo ela parece ter o que quero. Sinto que irei caminhar por muitos lugares errados até encontrar o lugar certo onde estará a pessoa certa. Felizmente sou uma pessoa paciente. Agradeço a você por isso.

Espero que esteja bem, e que não fique enfadada com minhas confissões. Eu estou na Carolina do Sul. É um lugar bastante retrogrado, mas cheio de lugares bonitos. Ficarei aqui até receber a resposta desta carta. Quero conhecer esta cidade melhor, então não precisa responder com urgência.

Ps, como prometido estarei em casa no próximo Natal e levarei presentes. Nunca esqueça que lhe amo como amo minha própria vida.

Para Judith Fabray, a mulher mais atenciosa e dedicada em quem já pus meus olhos.

Notas finais
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