Rachel Hudson flutuava de um lado a outro do aposento instruindo os empregados na organização da bagagem do marido. Na madrugada posterior ocorreria a viagem de Finn Hudson para Lima, e o homem precisava que tudo estivesse em perfeita ordem. Enquanto indicava aos empregados onde guardar as camisas do marido, foi interceptada uma outra empregada:

— Com licença, Sra. Hudson. O mulato Noah pediu-me para informá-la que acaba de chegar à residência a carruagem vinda da fazenda dos senhores Evans. Trata-se da Senhorita Lucy Quinn Fabray.

Ouvir o nome de Quinn Fabray fez com que Rachel não pudesse pensar em nada mais senão na presença da mulher ali. Gesticulou com a mão à empregada que esperasse e caminhou até a janela de onde viu o carro conduzido pelos cavalos. De dentro viu sair a mulher de cabelos louros, com um sobretudo a cobrí-la o corpo guardando-a do frio. Rachel esboçou um sorriso ao vê-la (um sorriso sutil e intranquilo, porém feliz.)

Voltou-se aos empregados no quarto e os instruiu pedindo que fizessem o melhor para que a Quinn Fabray sentisse-se confortável, dizendo que logo lá ela estarei para recepcioná-la.

Os empregados deixaram Sua Senhora sozinha.

Rachel fechou a porta do quarto e pôs-se diante do espelho analisando o próprio rosto com introspectivamente pela primeira vez. Observava os grandes olhos escuros inundados por esperança; os lábios esticados em um sorriso; os cabelos caídos pelos ombros; o peito subindo e descendo sob o vestido em uma respiração tranquila. Havia esperado ansiosamente por Quinn Fabray; estava convicta da decisão que tomara. Contudo, não conseguia deixar de temer as mudanças que novamente sua vida sofreria. Vivera o mesmo após o casamento com Finn, ao deixar Ohio e a família para viver em um lugar completamente desconhecido ao lado do marido. Porém, apesar do medo, sentia felicidade. Era a primeira vez que fazia a escolha certa.

Abriu a porta e saiu para o longo corredor até as escadas. Desceu-as lentamente. Do patamar pôde ver uma parte da sala, e todo seu corpo estremeceu com a consciência de quem estava ali, de pés, a esperá-la. Ergueu os olhos, e ao fazê-lo, por um breve segundo, sentiu que não havia nada mais certo que a escolha que fizera.

Lucy Quinn Fabray não percebera a chegada da mulher. Observava ao mesmo tempo admirada e entrigada cada parte da decoração que conciliava o antiguado e a beleza da casa dos Hudson. Virou-se para ver os quadros da parede oposta quando a viu. O rosto de Rachel Hudson encheu a visão de Quinn fazendo perder o ar. Os grandes e cativantes olhos da mulher de pele morena brilhavam com intensidade e ela nada pôde fazer senão perder-se neles.

Os grossos lábios de Rachel Hudson espandiram-se em um sorriso quando seu olhar encontrou com o de Lucy Quinn.

— Seja bem-vinda!

Por fim disse Rachel aproximando-se de Quinn Fabray. Notou então estando mais próxima, que a mulher de cabelos louros não usava mais o sobretudo. E surpreendeu-se ao ver que sem ele ela usava um par de calças e camisa de linho.

"Tão diferente!" pensava consigo. (Ainda que já tivesse avistado diante se si a mulher em sua forma mais visceral — nua sobre um palco — vê-la vestir-se como um cavalheiro deixava-lhe abismada.)

Quinn aproximou-se da anfitriã para pegar as mãos entre as suas, e sem importar-se com a presença da empregada, beijou ternamente o dorso.

Rachel quis tomá-la em um abraço caloroso dizendo quanto sentia-se regozijada por tê-la ali, mas conteve-se. Convidou Quinn a sentar-se. A jovem empregada esperou que as mulheres estivessem acomodadas para serví-las chá. Após cumprir o serviço retirou-se (ou fingiu fazê-lo...)

Rachel acompanhou os passos da empregada com os olhos e perbeceu quando a jovem mulher esgurrou-se sorrateiramente em um ponto de onde poderia espreitá-las. Isso a irritou. Principalmente porque sabia que Finn era o mentor de tal ato... O Banqueiro pagava aos empregados para ter os olhos sobre tudo o que acontecia na casa em sua ausência. Nas aulas de costura ou inglês, ou mesmo quando recebia o clube de leitura em casa, ela costumava notar algum empregado observando-a, reunindo informações (qualquer coisa que saísse do tema da reunião) para repassar a Finn, que por sua vez, recompensava-os.

Dessa vez seria diferente...

— HOPE!

Tão logo ouviu seu nome e a empregada surgiu na sala diante de Sua Senhora. Rápido demais. O que acabou por terminar de acusá-la. Rachel ignorou o fato, e disse:

— Diga a Noah que desejo falar-lhe.

— Sim, Senhora! Com licença.

Hope prontamente tomou o caminho para encontrar o mulato (pretendendo tornar às mulheres com rapidez.) Mas Rachel conhecia perfeitamente as intensões da jovem mulher...

— Volte aqui — Interceptando a empregada, que se viu obrigada a fazer o caminho de volta até Sua Senhora. Então Rachel disse: — Há algo mais que desejo que cumpra após contatar Noah. Quero que vá à casa do boticário em meu nome para tratar com a Sra. Mary Anne acerca do relatório de desempenho de cada jovem que faz parte do coral. Quero que ela me descreva detalhadamente sobre o progresso de cada um dos integrantes em uma carta. Aguarde lá até que ela tenha terminado. Não retorne sem esse relatório. Agora vá.

Visivelmente contrariada Hope se foi. Rachel esboçou um sorriso vitorioso pois sabia que a mulher gastaria um tempo considerável na tarefa (a mulher do boticário adorava falar sobre o coral, e escreveria por quantas horas pudesse sobre o assunto que amava.)

Rachel finalmente olhou para Quinn, e essa olhava para ela com a sobrancelha arqueada e um sorriso muito sútil de quem havia entendera tudo. Simplesmente ergueu os ombros corando, como que a desculpar-se (o que fez a mulher loira sorrir mais.)

Noah apareceu na sala alguns poucos minutos depois interrompendo-as, o mulato fez um breve cumprimento com a cabeça a Quinn, que retribuiu. Depois direcionou a atenção para Sua Senhora.

— Nós, Srta. Fabray e eu, vamos ter uma importante conversa e não queremos ser ouvidas ou interrompidas. Chamei-o aqui pois necessito que vigie as entradas enquanto conversamos.

— Assim será, Minha Senhora.

Noah plantou-se em um ponto fora de vista delas, onde não conseguiria ouví-las mas ainda teria controle sobre a passagem de quem quer que fosse.

Lucy Quinn respirou profundamente e então tomou as mãos de Rachel Hudson entre as suas acarinhando-a suavemente, e sorrindo, disse:

— Li com profundo prazer o bilhete que enviou-me. E sinto-me incapaz de fazê-la compreender quão feliz deixou-me as palavras que me escreveu. O seu "sim" é TUDO para mim. Tudo o que eu precisava... Mas, ainda sinto-me na obrigação de esclarecer alguns pontos que não estão claros entre nós. — Olhou nos olhos de Rachel buscando garantir que tinha atenção da mulher. — Tem certeza de sua decisão? Deve saber que não haverá retorno quando estiver feito.

— Tenho absoluta certeza! — assegurou Rachel. — Minha vida toda foi marcada por escolhas que fizeram por mim. Agora, quero eu poder fazer escolhas por mim. Se dará certo ou errado não importa, ao menos saberei que fui eu a culpada pelo fracasso de minhas escolhas.

Lucy Quinn ouviu cada palavra da mulher a sua frente. Era um dia frio, o clima era congelante, mas as palavras de Rachel Hudson carregavam uma confiança que transmitiam tranquilidade para seu coração; mostravam que a mulher verdadeiramente estava consigo. E isso fazia-a acreditar que cada dia à procura da mulher portadora da voz indescritível valera.

— Importa-se de ouvir uma história... Ou melhor, a minha história? — perguntou Quinn inclinando-se para frente olhando para Rachel com uma sobrancelha arqueada e um estranho sorriso nos lábios.

— Não, eu não me importo...

Logo os olhos de Quinn ficaram muito distantes, longe em um lugar do tempo. Na face bela da mulher de cabelos louros, além da beleza disconcertante, Rachel viu profunda melancolia. E Quinn quiser importou-se em esconder...

— Bem antes de ser uma criatura bizarra em um Circo de Horrores, eu costumava ser uma jovem garota normal. Ou melhor, quase isso. Ao menos eu tinha uma família. Não era exatamente uma com espírito de amor fraternal. Meu pai odiava-me por ter nascido como nasci, e passou a odiar minha mãe também por ter trazido ao mundo alguém como eu. Ma ao menos eu tinha uma família.

"Em um dia frio como agora está, tudo isso acabou para mim."

"Durante uma semana inteira meu pai estive estranhamente lúcido e calmo. Em nenhum momento desferiu qualquer palavra de ofensa ou machucou minha mãe ou a mim. Tudo estava indo bem. Então, no fim daquela semana, meu pai levou-me para passear. Nós saímos juntos e caminhamos pelas ruas pouco movimentadas de Nova York durante todo dia. Quando chegou a tarde, meu pai levou-me para um Circo. Vimos o que de melhor existe em um circo antes de conhecermos um homem de barba longa que dizia-se dono do lugar. O homem barbudo cumprimentou-me com um aceno. Olhei para meu pai uma última vez antes de ser dopada e guardada em um vagão de trem que sairia aquela noite para muito longe de Nova York. Muito tempo depois eu descobri que o meu pai havia me vendido para o homem barbudo, que era Barnum, dono de um Circo de Horrores."

Lucy Quinn limpou discretamente do rosto uma lágrima traiçoeira. A movimentação de Quinn fez Rachel, que permanecera muito quieta, atônica, erguer os olhos. Tentou aproximar-se para acalentá-la, mas se viu impedida pela mão erguida de Quinn; permaneceu onde estava.

— Eu... eu lamento por você, Quinn.

— Oh, não faça isso. Por favor, não lamente — pediu Quinn sorrindo para a esposa de Finn de forma singela. — Hoje sou uma mulher muito melhor do que seria se tivesse permanecido em um lugar onde eu não era amada. Não há razão para lamentar... O que quero que você veja é que eu também sei quão difícil é a decisão que tomou, e sei quão difícil será daqui para frente. Por isso quero estar ao seu lado para o que precisar. Quero ajudá-la.

— Isso é muito importante para mim. Significa muito — disse Rachel com um suspiro, emocionada.

Quinn Fabray levantou-se e caminhou até o canto onde havia depositado seu sobretudo. Sob o olhar indagador de Rachel, tirou de dentro de sua veste um tipo diferente de diário.

A esposa de Finn questionou com o olhar, e Quinn explicou:

— Você conhece a Broadway? — perguntou Quinn Fabray à esposa de Finn sentando-se outra vez ao lado da mulher com o diário em mãos.

— Acredito ter ouvido acerca — disse Rachel com certa incerteza.

Quinn assentiu levemente antes de passar às mãos de Rachel o diário com tamanha delicadeza como se os papéis pudessem desfazer-se. Rachel pegou-os com a curiosidade a pingar. Viu que não era um diário, mas um bloco de papéis antigos cobertos por uma capa broxura vermelho musgo sem nenhuma inscrição que estava envolto por uma fivela que os prendia juntos.

— A Broadway é um lugar onde você encontra arte por toda parte. Todo tipo de arte! Apesar de ser ainda um movimento amador se comparado aos ambientes artísticos da europa, todos que lá estamos cremos que esse movimento irá se expandir... Devo dizer que particularmente acredito como ninguém nisso. Por essa razão tenho investido meu dinheiro na Broadway. É importante que saiba que só invisto no que acredito que dará certo. E você Srta. Hudson... — Apontou para a esposa de Finn com uma sobrancelha arqueada sorrindo de forma enigmática.

— Oh! — A esposa de Finn exclamou diante do entendimento.

— Você tem um talento absolutamente singular. É o tipo de coisa que um lugar como a Broadway precisa. Imagine quão grandioso seria isso, Rachel? Você sendo a grande atriz em um teatro da Broadway.

— Acredito que... que isso pode ser um erro. Eu não sei nada sobre atuar.

— Você crê? Então ouça: quando Santana buscou-me para pedir que lhe desse uma chance, o argumento que ela usou para tentar me convencer foi que você não era feliz. É estranho, porque lembro-me de vê-la sorrir com aparente alegria durante o baile dos Evans. Mesmo agora, eu posso ver sua frustração vivendo esse casamento fracassado. Você tem fingido amar seu marido e estar feliz por todo esse tempo, mas acredita que nada sabe sobre atuar?

Rachel lembrou da conversa com Santana sobre como se sentia no casamento; foi quando a espanhola premetera ajudá-la. Não imaginara que a mulher compartilharia tal coisa com Quinn.

Sem palavras e constrangida, Rachel não conseguiu expressar-se se não por lágrimas que molharam-lhe a face.

Lucy Quinn nada fez, deixou que a mulher tivesse um momento para si. Apenas depois que percebeu que ela controlara seu pranto, apontou para os papéis que estavam sobre o colo da mulher e disse simplesmente:

— Leia...

Rachel fez o que Quinn pediu-lhe. Desfivelou o bloco de papéis passando os olhos pelas primeiras páginas onde encontrou um resumo do que seria a obra. Notou que tratava-se de uma Tragédia escrita em espanhol separada em atos e capítulos. Era uma peça de teatro. O idioma causou uma breve dificuldade de compreensão, mas logo permitiu-se mergulhar na leitura. Viu-se envolvida por cada frase da triste estoria...

— É tão lindo! — Rachel reconheceu com deslumbramento virando a derradeira página. — Você escreveu esta tragédia?

— Não. O que leu foi escrito pelo pai de Santana Lopez alguns anos antes de sua morte. Esse material me foi cedido sob um acordo feito com os Evans.

— Que tipo de acordo?

— Eu irei transformar o que leu em um Musical da Broadway, assim realizando um desejo que o Pai de Santana tinha: fazer essa estoria conhecida.

— O que é um musical?

— Um musical é como uma ópera, mas com muitas diferenças. Os atores atuam, cantam e dançam enquanto contam uma história...

— É um conceito novo, suponho.

— Pois você supõe corretamente, Rachel. — Disse Quinn sorrindo: — É bom que habitue-se a esse conceito pois pretendo lançá-la aos Teatros da Broadway com esse Musical.

Rachel Hudson se viu sem palavras. Era um enorme desafio. Quinn ficou séria de repente percebendo o estado da mulher.

— Oh, Rachel... Acalme-se. Nós faremos um trabalho de preparação antes que pise em um Teatro realmente. Não tenha medo quanto a isso. Nós todos ensaiaremos por meses até que o dia da estreia chegue. Você sentirá que estará pronta até lá. Confei em mim.

— Quando diz "nós"...?

— Há outros que assim como você, encontraram na arte um caminho diferente do que a vida apresentou. Quando falo de "nós" falo de mim, e agora de você, e de todas as outras pessoas que fazem parte da companhia de Teatro a qual pertencemos. — Explicou, e acressentou: — Quero que tenha em mente que agora você tem uma família ao seu lado...

Havia uma determinação nos olhos de Quinn Fabray que não permitia com que Rachel duvidasse.

Noah fez um som coma boca para atrair atenção das mulheres.

— Sim, Noah.

O mulato surgiu diante de Rachel para informar que era hora de sair ao encontro de Finn Hudson. A mulher disse apenas:

— Vá Noah.

Lucy Quinn evitou o embaraço de ver Rachel pedir para que partisse.

— É melhor que eu vá.

Rachel suspirou com tristeza, mas com a coragem a borbulhar, tomou Quinn Fabray em um abraço sussurando no ouvido da mulher loura:

— Obrigada por vir...

— Eu arrumarei uma forma para que possamos nos encontremos outra vez. Prometo. Há muito o que precisamos conversar ainda...

Rachel abraçou Quinn uma última vez antes de Quinn partir.