Adeus, Carolina do Sul
3 CAPÍTulo 03
Na casa dos Hudson as manhãs eram sempre muito silenciosas. Contudo, na manhã daquela segunda-feira, o silêncio costumeiro viu-se interrompido por um Finn Hudson em fúria.
— MALDITO! — Esbravejava o homem, esmurrando a mesa do escritório. A carta que tinha em mãos transformou-se uma bola de papel compressa — Nós fizemos um favor àquele maldito, e é assim que ele nos retribui. Bastardo!
Os gritos do homem tiraram Rachel da leitura de Hamlet na qual estava concentrada. Ela adentrou o escritório assustada e viu o marido tenso, olhando para algum ponto do lado de fora através da janela.
— O que houve, querido?
Finn bufou inclinando-se completamente na cadeira em que estava. Muito sério, explicou:
— Meu pai enviou uma correspondência que chegou esta manhã. Há pouco mais de uma semana Kurt saiu de casa e não mais retornou. Levou consigo todas as jóais de minha mãe.
Era a primeira vez que Finn falava abertamente acerca de seu irmão adotivo, Kurt Hummel, um jovem rapaz que os Hudson criavam como filho desde que ele perdera os pais em um trágico incêndio. O irmão que Finn Hudson desprezava.
O banqueiro prosseguiu despejando seu ódio:
— Nós o recebemos em nossa casa. E o que ele nos deu? Mergulhou o nome de minha família em lama deitando-se com um homem como se fosse uma mulher. Como se não fosse bastante, agora foge feito um escravo imundo, feito um corsário. Meus pais deviam ter deixado que ele queimasse como os pais queimaram.
Rachel ouviu atentamente as palavras do homem sem conseguir crer nelas. Deu-se conta de que não conhecia mais seu marido. Em algum momento, em todos aqueles anos de casamento o homem ao qual ligara sua vida perdeu-se nele mesmo. Em sua ambição, em seus dogmas. Sem que ela fosse capaz de perceber, seu marido foi aos poucos tornando-se exatamente como o pai: um homem desprezível tanto de pensamentos, quanto de alma.
Por fim, o homem fez uma promessa:
— Vou até Lima. E vou encontrá-lo.
Em silêncio, Rachel ouviu, mas não disse mais nada. Deixou o escritório, fechando a porta depois de sair em choque.
~/~
A propriedade dos Evans estava especialmente iluminada aquela noite. O belo jardim principal que adornava toda entrada era um belo espetáculo de flores coloridas. Ao fundo, um casarão era onde vivia o casal.
Sam Evans era abastado. Único filho de um dono de muitas fazendas na Carolina do Sul. Era um jovem rico cujo a única preocupação era viver uma vida de luxo em viagens com sua esnobe mulher, Santana Lopez. Aquela mansão era uma mostra do poder que o inconsequente casal tinha em mãos.
Os convidados deliciavam-se com a boa música e a excelente bebida. Não eram muitos, somente os homens realmente relevantes daquela cidade, acompanhados por suas esposas.
O sol estava lentamente se pondo por trás das grandes árvores ao redor, enquanto o conjunto de instrumentistas entoava uma composição de Mozart para distração dos que estavam presentes.
— Você está bem? Está tão calada desde que saímos. — Finn perguntou dando o braço para apoio da esposa.
Rachel acenou com a cabeça que sim. Mas antes que pudesse dar um passo a diante, o marido segurou-a no lugar fazendo-a parar.
— Não arruíne uma noite importante, querida. Hoje posso finalmente tornar-me um homem rico além das fronteiras dessa cidade. Coloque um sorriso no seu rosto e finja que é a mulher mais feliz desta festa, ainda que não seja.
Com uma respiração profunda ela plantou um singelo sorriso no rosto. Isso pareceu agradar Finn, que passou a caminhar mais tranquilamente enquanto sua esposa lutava para não desabar em lágrimas.
O belo casal Evans estava parado nos primeiros degraus que davam entrada para o casarão: Santana Lopez vestia um provocador vestido vermelho que abraçava-lhe o corpo. Sam Evans estava elegante em um paletó de cor clara (os cabelos estavam mais curtos.)
Foi ali, sem um aviso prévio, com os olhos rasos d'água e um sorriso sem vida nos lábios, que Rachel a viu pela segunda vez.
Lucy Quinn Fabray.
Ela estava parada alguns degraus atrás do casal Evans. Vestida de forma discreta, o vestido que usava fazia um lindo contraste com sua pele muito clara e seus cabelos loiros. Ela tinha uma postura perfeitamente relaxada.
Oposta a ela, Rachel respirava com dificuldade. De repente as palavras rudes de Finn não pareciam fazer nenhuma diferença. Seus próprios pensamentos tornaram-se um borrão desconexo. Em busca de algum equilíbrio, apertou mais forte no braço do marido, que olhou para a ação da esposa sem entender extamente se havia algo naquele toque.
Sam Evans sorriu calorosamente para o casal de amigos quando eles chegaram até ele. Com os braços abertos, deu um passo em direção aos dois.
— Nós pensamos que vocês faltariam. Sorte nossa estarmos errados. Sejam bem-vindos! — disse numa voz muito alegre.
Os casais trocaram cumprimentos bastante sociáveis entre si. Exceto as esposas, que evitavam-se.
De longe, Quinn observava a bela mulher ao lado do homem muito alto. E recordou aquele rosto. Lembrou de tê-la visto entre toda a confusão que acontecia na fatídica apresentação. Observou como ela era diferente das outras mulheres. Os traços do rosto eram grandes; os lábios, os olhos, a boca. E todos os traços incrivelmente proporcionais faziam-a ainda mais linda.
Finn olhou para Quinn com um sorriso.
— Eu sou Finn Hudson, e esta é minha esposa Rachel. Estamos felizes em conhecê-la. Gostaria de dizer também que sinto profundamente pelo que aconteceu durante a...
Santana Lopez olhou para Finn com com os olhos arregalados. Como ele ousava? Antes que ela própria pudesse cala-lo, ouviu a voz rouca e suave de Quinn interrompê-lo:
— Fico feliz em conhecê-lo, Finn. À sua esposa também. E espero não ser rude, mas eu gostaria de não mais falar sobre o que houve. Agradeço sua preocupação, no entanto prefiro não tocar mais no assunto. Esqueçamos e sigamos em frente.
Finn Hudson ficou sem cor. Sorriu sem jeito e calou-se. Quinn desceu os degraus que os separavam e estendeu a mão. Mas não para Finn:
— Olá, Rachel.
Era a primeira vez que ela falava diretamente com Rachel. E sua voz era doce e ao mesmo tempo arrebatadora. Tremendo levemente, Rachel pôs a sua mão sobre a da mulher sentindo o toque quente e confortável que tinha.
Quinn apertou os dedos trêmulos da esposa de Finn nos seus e lhe ofereceu um sorriso. Havia algo na mulher que inesperadamente interessou Quinn.
~/~
Rachel esperava pelo marido no jardim dos Evans. Observava os músicos guardarem os instrumentos. Um vento forte passou por ela levando algumas folhas dos galhos obrigando-a a fechar os olhos.
O som calmo do vento esvoaçando por entre as ávores a acalmava. Era surpeendente como os sons influenciavam em suas emoções. Desde a infância, quando o pai cantava-lhe antes de adormecer, ou mesmo durante as celebrações no templo quando todos entoavam os cânticos em uma só voz. Eram as melhores partes de seus dias, as que estava envolvida pelos sons.
Ao abrir os olhos, viu Santana parada a poucos metros de distância com uma postura hesitante, um sorriso tímido no rosto, parecia constrangida.
Rachel perguntou-se se a mulher estava bêbada. Mas apesar da escuridão da noite que ocultava-lhe parcialmente, a espanhola parecia sóbria.
Santana aproximou-se mais, com passos lentos, porém firmes. Então, quando a espanhola foi envolvida pela breve claridade, Rachel notou que ela tinha duas taças em mãos, e que estendia a que estava na mão esquerda para que pegasse.
— Por favor, aceite.
— Não, obrigada — Rachel cruzou os braços sobre os seios, indicando que aquela não seria uma conversa fácil. — O que você quer?
Santana deslizou para mais perto de Rachel, mas sem invadir seu espaço. Depois de um minuto inteiro em silêncio, ela não parecia inclinada a continuar. Mas então, quando parecia que o silêncio se prolongaria, a espanhola tornou a falar:
— Minha vida por muito tempo não foi vivida da forma mais decente. Você sabe, eu não tive uma juventude tranquila como a sua ou como de todas aquelas mulheres que estavam aqui naquela festa. E pode ser que isso tenha me influenciado mais do que eu gostaria. Porque eu casei com Sam sem amá-lo. Naquele tempo eu estava deslumbrada com sua riqueza. Com sua beleza. A última coisa em que eu pensava era quem era o homem ao qual eu tinha me ligado Eu não me importava com os sentimentos dele. Então, uma traição não me parecia nada demais.
Fez uma pausa para beber do líquido que estava em sua taça.
— Mas meu histórico de traições não é tão extenso quanto você provavelmente imagina. Meus erros foram por luxúria, porque eu não amava-o. Porque eu não entendia de fato o que Sam e meu casamento significavam. Mas agora... — Sorriu — Agora eu estou apaixonada por Sam. Acredite, Rachel, eu descobri um sentimento que jamais imaginei. Isso me tornou uma pessoa melhor. Você o vê sorrir o tempo todo. E eu sou responsável por esses sorrisos também. E isso me faz feliz, porque sei que faço a vida de Sam feliz. Nós estamos bem agora.
Rachel Hudson ouviu cada palavra em silêncio. Foi difícil para ela ouvir à espanhola sem um senso profundo de crítica. Mas em cada palavra de Santana ela conseguia ver uma completa sinceridade. Era uma mulher abrindo seu coração, assumindo seus erros. Soube então que a partir daquele dia a espanhola não mais seria sua inimiga, tão pouco sua amiga, mas teria seu respeito.
Santana ofereceu novamente a taça, sorrindo para Rachel, que mesmo à meia luz pôde ver o sorriso gentil que era-lhe ofertado juntamente com a bebida. Dessa vez a esposa de Finn aceitou a oferta.
— Um brinde... — Santana encostou a taça levemente na de Rachel, causando um tilintar.
— A quê estamos brindando?
Santana bebeu o que restava em sua taça, e com os olhos brilhantes anunciou:
— Eu estou grávida!
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