Adeus, Carolina do Sul
6 CAPÍTulo 06
"L' arl De Ia Guerre" em uma pomposa versão brochura foi posto sobre a secretária fechado, marcado por uma fita vermelha na última página lida por Finn Hudson quando a doce melodia atravessou as portas duplas de madeira polida que separavam-o do exterior.
Ele conhecia a voz que transpassava-lhe os tímpanos. Era a voz de Rachel, sua esposa. Que para si soava familiar e irrtava-o como a entrada do ar em um corte. Tomado pela cólera, ele saiu ao encontro da mulher.
Rachel Hudson deslizava os dedos pelo piano de calda. O piano que imaginara que serviria-lhe de deleite, "agora" apresentava as teclas amareladas, e envelhecia sem uso. "Você terá aulas. Quero ouví-la tocar para mim", dissera o marido ao presenteá-la com o requintado orgão. Era mais uma dentre tantas promessas levianas feitas por Finn.
Afastou-se do orgão ao ouvir os passos do marido. A presença do homem a fez sair do entorpecimento causado pelas lembranças.
No arco que separava sala e antesala, Finn estava de pé. Os lábios envoltos pela desleixada barba grossa contorciam-se. Então, disse:
— Hoje Sam procurou-me. Aparentemente o Evans pretende custear uma produção artística da amiga de Santana, Lucy Quinn Fabray, para realizar um desejo da esposa... Houve um tempo que os homens costumavam honrar sua autoridade. Nos dias de hoje, vivem a mercê dos caprichos de suas esposas. — Falava com desgosto, cheio de raiva.
Rachel sentiu o corpo arrepiar com a menção do nome familiar.
O Hudson calou-se. Lançou um olhar para algum lugar além dali e deixou-se pensar longamente. Mais calmo, continuou:
— A atitude do Evans fez-me refletir daveras acerca de como os valores tão invertidos. Muito mudou desde que tirei-a daquela fazenda fétida em que vivia como uma camponesa iletrada para torná-la minha esposa, uma mulher de valor. O mundo está diferente, as pessoas já não têm raízes. As mulheres são como folhas que o vento carrega para onde deseja. Os homens submetem-se a essas mulheres.
Os olhos escuros de Finn Hudson ficaram duros como pedra quando ele olhou para ela e disse:
— Mas eu não me tornarei um homem que subjulga-se. Tão pouco permitirei que torne-se esse tipo de mulher... Por isso... assim que eu retornar de Ohio, nós vamos nos mudar. Vamos nos mudar para algum onde as pessoas são descentes. Onde você não terá contato com pessoas que possam sujar sua mente com ideias nortistas. Um lugar dos Estados Unidos onde nós voltaremos e ter paz. — Disse Finn com inflexibilidade.
Rachel encarou o marido verdadeiramente pela primeira vez. Todas as palavras caladas por anos queriam ganhar voz. Mas como infeliz anedota, foram impedidas por um nó em chamas que formava-se na garganta.
De forma sutil, Finn Hudson aproximou-se da esposa e beijou-a nos cabelos. E olhando para ela com um sorriso tranquilo, prometeu:
— Você será feliz longe de Carolina do Sul.
Rachel Hudson foi incapaz de mover-se enquanto o marido afastava-se. Milhares de pensamentos passavam por sua cabeça enquanto era tomada por uma consciência avassaladora: Anos antes, olhava para o futuro e tudo o que via era o marido e a vida com ele em um casamento onde a felicidade parecia estar atrás de uma neblina intensa. "Agora", contudo, a felicidade era eminente. Bastaria que esticasse as mãos para tocá-la. Tão viva e clara para uma manhã de verão... Se permitisse escapar jamais teria uma chance igual.
Juntou fôlego e chamou a empregada pelo nome. Rapidamente Hope surgiu diante de si.
— Sim, Sra. Hudson.
— Peça para que Noah venha até aqui — disse à empregada que respondeu um simples "Sim, senhora" e se foi.
Minutos depois ela viu o mulato bem vestido surgir diante de seus olhos cumprimentando-a formalmente, mostrando-se disposto a servir.
Rachel levantou-se e falou para que somente ele pudesse ouvir:
— Necessito que faça uma entrega.
~/~
Na poltrona Quinn repousava frente a janela do escritório, tendo a visão exuberante do jardim dos Evans mesmo com a manhã cinza e opaca.
Vez e outra deslizava os olhos da janela para as páginas do documento entregue a si pelo advogado de Samuell Evans.
"O Senhor Evans quer garantir que o desejo da esposa será feito com excelência", disse o advogado de cabelos ralos e olhos acinzentados entregando o documento e sugestivamente, uma caneta à mulher.
"Meu advogado precisa analisar este documento antes que eu assine-o. Tratarei disso quando estiver em Nova York", respondeu Quinn ignorando a linha horizontal onde deveria rubricar seu nome. (Blaine Anderson precisaria ter conhecimento de um documento de tamanha importância.)
"Como queira." Disse por fim o advogado tomando de volta a caneta retirando-se do escritório contrariado.
Do lado de fora algumas gotas de chuva começavam a molhar o vidro da janela. Olhava a chuva intensificar e mergulhava em si mesma...
Tudo começava a caminhar para onde desejava. Emocionava-se ao imaginar que em um lugar de seu passado havia sido subjulgada, desacreditada. "Agora" podia finalmente ajudar aos que necessitavam. No Teatro, Marcedes Jones, uma cantora em decadência encontrara um lugar. Além de Jesse St. James, um ator dispensado de outro teatro. Harry, Marley, Kitty e uma dezena de outros jovens; artistas talentosos que por alguma razão tinham sido descriminados e renegados. Alegrava a Quinn poder ajudá-los a continuarem vivendo seus sonhos... Imaginava-se fazendo o mesmo por Rachel. Queria que um sorriso verdadeiramente feliz dançasse no rosto de olhos marrons.
Latipha (a governanta dos Evans) forçou-a a sair de sua introspecção batendo insistentemente na porta do escritório sobrepondo-se à chuva, mas ainda tendo cuidado de chamar educadamente por seu nome.
— Entre — pediu Quinn por cima do barulho da chuva.
Uma mulher negra de meia-idade e cabelos grisalhos adentrou o escritório para entregar à Quinn a correspondência. Com a voz doce, informou a mulher sobre o jantar que os Evans fariam para recepcionar Brittany Pierce (enfermeira chamada para cuidar de Santana Lopez nos meses de gravidez.)
— Obrigada... Estarei lá.
A governanta retirou-se sem mais palavras.
Quinn observou por algum tempo a porta fechada; o silêncio era preenchido pelo som da chuva. Então, apanhou a correspondência sobre a mesa e leu a primeira (que era a resposta de sua mãe.)
Na carta de letras miúdas e palavras simples a mãe se dizia preocupada com a filha e confidenciava o anseio de revê-la tão logo fosse possível, acrescentando que a famíia reuniria-se para recepcioná-la em sua volta para casa.
Quinn quebrantou-se com as palavras doces da mãe. Meses tinham se passado desde que deixara a família em Nova York para embarcar em uma longa viagem pela Europa. Entendia precisamente o anseio da mãe em revê-la, pois sentia-se da mesma forma. A falta de casa era um cilício em torno da perna que apertava e flagelava. Contudo, voltar sem Rachel já não parecia ser uma possibilidade; não quando vira nos olhos da mulher o quanto precisava de si.
Deixou a carta da mãe ao lado pegando a seguinte. Na superfície do papel leu o sobrenome JONES. Uma carta de Marcedes Jones... Ergueu uma sobrancelha em desconfiança. Temendo o conteúdo, opitou por reservá-la para lê-la em um outro momento.
Por fim... Deparou-se com a última carta. O envelope trazia escrito no papel em letras cursivas "Para Quinn"; sem qualquer identificação de remetente ou selo. Ela rompeu o lacre do envelope e tirou a carta levemente amassada de dentro. Então, intrigada, pôs-se a lê-la...
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