Across Time
3 Capitulo 3
Notas iniciais
Mais um dia estava se iniciando
Maldita luz que atravessa minhas persianas todo dia de manhã, preciso lembrar Milo de trocá-las, ele sempre deixa tudo que peço pra depois.
Praguejando, me levanto da cama. O sol arde em meus olhos, mais uma noite mal dormida, mais sonhos atormentadores, meu filho debaixo d’água gritando por mim e eu não conseguia alcançá-lo, não importando o quanto eu nadasse; então, lentamente, ele sumia, afundando cada vez mais nas águas escuras e geladas. Eu via algo prendendo suas pernas, arrastando-o- para o fundo.
— Droga- praguejei logo cedo.
Mais uma vez fui rude com Milo, o mandei embora de casa, ele não compreendia o que estava se passando comigo, e jamais compreenderia, ele não tem pupilos, nem filhos e jamais se prendeu a ninguém, nunca viu o sofrimento de perto. Sua vida sempre foi tão mais prática, sempre com aquele sorriso nos lábios, como se nada de ruim jamais tivesse lhe acontecido. Claro que seu treinamento deve ter sido árduo mas ele continuava sempre com a mesma expressão sorridente, então lógico que nada de muito grave acontecera com ele.
De qualquer modo teria que me desculpar pelo ocorrido, estava cansado de manter essa fachada para ele e Hyoga. Ambos me amavam e eu os amava também, no entanto faltava algo, algo estava errado e jamais poderia ser consertado. Como sentia falta de meu outro filho! Se não fosse por minha incompetência, ele ainda estaria aqui.
Por que tive que viajar à Grécia e por que me demorei tanto em voltar? Se eu tivesse voltado na dada prevista eu estaria presente e o salvaria, mas não, eu tinha que ficar mais um dia para ver meus amigos.
Falhei como mestre, como tutor, como pai.
Sou uma decepção.
— MESTREEEE! — alguém grita e me sobressalto no mesmo instante, pulando da cama e correndo para fora do vestíbulo.
Algo devia estar acontecendo, algum ataque, algum inimigo, Milo colocando fogo na cozinha de novo, Milo atazanando Hyoga de novo, o que seria dessa vez?
Corri o mais rápido que pude para minha sala, estaquei no meio do cômodo no mesmo instante.
Parado à minha frente estava ele, meu filho, muito maior do que na época em que o perdi; estava forte e alto, sua voz engrossara e parecia o homem que deveria ter sido quando crescesse, se não tivesse falecido tão cedo.
Era uma ilusão, tinha que ser, eu estava ficando louco, depois de tanto tempo sonhando e imaginando como seria se ele estivesse ali para que eu pudesse abraçá-lo. Eu estava delirando com sua presença. Meus joelhos falharam e me ajoelhei no chão cobrindo meu rosto com as mãos, e chorei como nunca tinha chorado.
— Meu pobre menino, sinto tanto sua falta- disse, entre soluços
Eu estava louco.
Eu estava morrendo.
— Mestre — senti aquele ser me abraçar.
Engraçado, senti seu calor e seu aperto, eu estava realmente ficando louco.
— Olha pra mim, mestre, por favor.
— Estou sonhando, tenho que estar – solucei, doía demais, por que eu tinha que continuar vendo isso? Devia ser um sonho, só podia ser um sonho.
— Mestre...- eu o ouvi implorar em sua voz carregada de dor.
Levantei meu olhar pra ele lentamente, aquele cabelo... tão loiro e tão pálido, aqueles olhos vermelhos e claro, aquele semblante sério, mesmo sendo apenas uma criança, agora não mais tão pequena. Ele chorava e tinha um diminuto sorriso nos lábios, meu garoto.
— Isaak- sussurrei, sem acreditar no que estava à minha frente
— Estou aqui mestre... pai, estou aqui — lágrimas escorriam de seus olhos.
O agarrei com toda força que tinha e o envolvi em meus braços, queria prendê-lo para que ninguém o tirasse de mim. Nem a morte, nenhum deus, ninguém, meu filho voltara para casa, graças, graças dos deuses.
— Meu garoto- chorei por muito tempo agarrado a ele, e ele a mim, não sei quanto tempo fiquei parado aqui, apenas vi Hyoga se juntar a nós e nos abraçar. Nossa família finalmente estava completa, meu garoto voltara para casa. E nada mais tinha importância, agora tudo ficaria bem porque o mundo estava de volta no eixo e tudo se encaixaria.
— Isaak, você precisa conhecer Milo, você vai adorá-lo e ele a você, ele mora conosco agora, ele faz parte da família- eu disse extremamente animado, agora tudo estaria certo, Milo poderia conhecer Isaak e tudo estaria bem.
— Sim, Mestre- disse entre soluços e risos.
— Isaak, mas como você voltou? – Hyoga o questionou, enquanto secava os olhos com as mangas da blusa.
— Eu... eu não sei ...- ficou sério, de repente — apenas ... apareci no templo de Athena... não sei o que aconteceu.
— Deve ter sido a Saori, mestre – Hyoga constatou animado – a nossa deusa é incrível, ela é fantástica.
— Isso não importa agora- voltei a abraçar meu filho, como há muito tempo desejava.
A luz do sol entrava pela entrada do Templo de Aquário e refletiu a luz em algo no pescoço de Isaak, cegando seus olhos.
— I... Isaak .. O que é isso? – perguntei, incomodado pela luz
— Eu ... eu não sei – assustou-se, pois não tinha notado nada em seu pescoço e retirou a peça dourada.
— Isso é do Milo, onde conseguiu? – espantei-me. Meu namorado jamais tirava aquele colar, nem no banho, e nem quando fazíamos amor.
— Onde conseguiu, Isaak?- repeti a pergunta.
— Eu não sei mestre, não me lembro de ter pego nada, acho que quando eu apareci no templo já estava usando, realmente não sei — o garoto pareceu confuso
— Mas qual o problema, mestre? — Hyoga questionou, para ele parecia algo banal — o Milo deve ter deixado cair em algum lugar- obviamente ele não via motivo para tanto alarde, era apenas um colar, uma bijuteria qualquer.
— Isaak, me dê esse colar, por favor- estendi a mão para o rapaz.
— Claro, mestre — ele retirou a peça e me entregou.
Eu estava muito intrigado. Conhecia Milo muito bem para saber o quanto o mesmo era ciumento com suas coisas, principalmente com as que eu lhe dava. Isso era muito estranho e não era de seu feitio.
Resolvi procurar pelo cosmo de Milo para averiguar se estava tudo bem com ele. Mas o que senti foi algo inesperado.
Não havia sinal do cosmo de Milo em parte alguma da Grécia.
Meu loiro sumira e não deixara nenhum vestígio, seu cosmo não se encontrava em parte alguma, nem uma centelha de cosmo. Nada.
Com desespero me deparo com a verdade inegável.
— Milo... desapareceu — disse, em um fio de voz, sentindo o desespero tomar conta do meu corpo e cada parte de mim tremer com medo... onde foi parar o meu grego?
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