Across Time
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Mais uma vez ele estava suando e se debatendo enquanto dormia. Entre gemidos angustiados ele chamava por um de seus filhos, não teria outra maneira de se referir aos seus pupilos. Ele chamava por Isaak, o filho que não pôde salvar. Sempre, noite após noite, ele chamava por ele, por anos, mesmo antes de morrer, antes da Guerra, e muito antes desta nova vida com a qual fomos agraciados, mas isso não pacificava sua alma em busca de seu filho.
A culpa sempre este presente nele, mesmo nos menores momentos, mesmo nos almoços de domingo com Hyoga e Shun, o namorado do russo. Ele se esquecia, sempre o via com aquele olhar perdido, como se faltasse uma peça importante nele... e de fato, faltava, apenas uma pessoa seria capaz de suplantar essa falta, e mesmo eu ou Hyoga não éramos mais capazes de apaziguar essa dor em seu peito.
— Amor... acorda .. é só um pesadelo – mexi nele de leve para não o assustar.
— Isaaakk !- gritou Camus acordando de sopetão, procurando normalizar a respiração, com o corpo molhado de suor e os olhos injetados
— Calma meu anjo, foi só um pesadelo – me aproximei, procurando lhe dar apoio e conforto naquele momento tão delicado.
— Não, Milo, não foi nada, eu estou bem – disse sério e seco. Então se levantou, foi para o banheiro e trancou a porta.
Pude ouvir seus soluços através da porta por causa do silêncio da madrugada, já fazia 2 anos que tínhamos revivido após os acontecimentos da Guerra Santa mas já tínhamos uma vida toda de relacionamento; mesmo assim ele não abria esse espaço para mim, continuava a sofrer essa perda e não me permitia carregar esse peso com ele, sempre se mantendo distante e sofrendo sozinho.
Camus sempre foi um homem sério e frio, mas com um coração extremamente grande e bondoso, muitos se enganavam pensando que ele era apenas um homem frio e sem sentimentos que não valorizava o amor e o carinho.
— Camus — sussurrei para o vazio deixado por ele na cama, fazia meses que ele não dormia direito e tampouco comia. Mesmo nossos momentos íntimos se tornaram mais raros, ele sempre estava cansado e com olheiras fundas, não queria forçá-lo sabendo que ele estava passando por um momento difícil.
Levantei-me e fui até a porta, tocando-a gentilmente.
— Camus, meu amor, está tudo bem? Posso entrar?- perguntei gentilmente, esperando que desta vez ele permitisse que eu partilhasse sua dor e pudesse acalmar seu coração.
— Me... deixe... só – respondeu pausadamente através da porta trancada.
— Camus, eu.. — mas fui interrompido
— JÁ DISSE PARA ME DEIXAR SÓ, MILO! – gritou, exasperado.
Mesmo depois de anos, Camus jamais foi descortês comigo, jamais me faltou com respeito, tanto por sermos amigos como por sermos companheiros de batalha, eu realmente não sabia lidar com aquele tipo de rejeição.
— Milo... por favor, me deixe sozinho, eu... preciso respirar. Você poderia ir para sua casa? Por favor, só hoje — ele disse, de forma tão fraca que não passava de um sussurro, como se cada palavra lhe custasse muito.
Legal, mais uma vez ele me manda embora de madrugada, não sei como lidar com isso, eu realmente amo esse ruivo, mas o que posso fazer para diminuir o sofrimento dele?
Athena não pôde reviver Isaak, pois ele era um Santo de Poseidon e não dela, e não lhe cabia esse direito. Camus ficou desolado quando recebeu a notícia da deusa.
Mas o que poderia ser feito? Nada, a quem poderíamos recorrer? Ninguém, não tínhamos contato com outros deuses, e mesmo nós mesmos termos revivido foi uma grande e agradável surpresa. Não esperávamos por isso e pelo que nos foi dito foi a primeira vez que a deusa fez isso em todas em suas reencarnações. Nos foi dada uma chance de viver esse amor e de poder viver a vida que sempre nos foi negada.
Desde o dia em que nascemos nossa vida foi em prol da deusa. Por ela vivemos e morremos, mesmo com o amor nascido em todos no santuário, nossa vida e nossos destinos pertenciam a ela, e deles ela seria dona até o fim.
— Está bem... te amo, ruivo... fique bem, meu anjo rubro – eu disse, em meio às lágrimas, com a testa encostada na porta. Apertei contra meu peito o colar que Camus me dera há anos, meu maior tesouro — Boa noite, meu anjo — e assim, parti da casa de Aquário, sem rumo e sem saber como salvar meu amado ruivo do buraco em que ele vivia.
Isso acabaria por matá-lo.
Eu preciso arrumar um jeito.
Vagando sem rumo pelo Santuário às 4 da madrugada. Não conseguiria dormir mesmo se quisesse: o sofrimento do meu amado era o meu, cada noite mal dormida, cada lágrima, cada grito, é como se adagas fossem cravadas em meu peito... não sabia mais o que fazer.
Mesmo Shaka não sabia o que fazer para amainar o sofrimento do meu Aquário, nem mesmo Saga, Shion, Dohko, ou a Deusa. Todos sempre me davam as mesmas respostas:
— Tempo, Milo, ele precisa de tempo — todos diziam.
Foi quando finalmente vi a resposta para tudo.
Para o sofrimento do meu amado.
Absolutamente tudo.
Tempo. O Deus do tempo, Chronos.
Ele poderia resolver tudo, poderia salvar Isaak e reverter sua morte, e então Camus não se culparia. Talvez ele pudesse mudar aquele afogamento do Isaak antes de ele ser tragado por Poseidon, então Camus não carregaria essa culpa por não ter salvado seu filho.
Milo partiu para o templo de Athena na velocidade da luz; não era apropriado utilizar o cosmo àquela hora, mas estava tão animado ante a expectativa de salvar seu amado que não pensou, apenas correu o mais rápido que pôde.
Chegando ao templo de Athena o encontrou vazio como era de se esperar, pois a deusa estava no Japão com seu cavaleiro Pégaso.
Milo elevou seu cosmo e então chamou pelo deus.
— Chronos, Deus dono do tempo e do espaço, venha até este plano, ouça este pobre mortal que vos pede uma audiência, ó deus onipotente capaz de transformar em poeira a maior das montanhas e secar toda a água do oceano — recitou o verso por cosmo .
Um raio partiu o céu em dois acima da cabeça de Milo, fazendo-o fechar os olhos, com medo.
Porém nenhum som se fez ouvir. Quando Milo abriu os olhos estava em meio a um lugar estranho com estrelas e relógios flutuando ao seu redor, todos com etiquetas presas com fitas amarradas com esmero e cuidado, surpreendeu-se por estar em um lugar tão estranho.
— O que queres, jovem criança de Athena?- fez-se ouvir uma voz grave e potente, que ecoava por todos os lados, de modo que Milo não pôde identificar de onde vinha — Espero que valha a pena tirar-me de meu tão merecido sono.
— Chronos, gostaria de pedir que revogasse a morte de um cavaleiro, ele foi morto de forma injusta e essa perda ainda machuca alguém que me é muito importante – disse Milo, apressado e animado por seu plano ter dado certo.
— Ora criança, que bem me traria lhe fazer este humilde favor? Creio que não seja importante a vida de um simples mortal, o que é a vida de um mortal no fluxo do tempo? Um grão de areia apenas- respondeu o deus com desdém.
— Pensei que fosse um deus poderoso, não imaginei que fosse tão difícil assim voltar no tempo e salvar uma vida... pelo visto, me enganei em meu julgamento- disse Milo, de forma maliciosa atraindo o deus para uma armadilha engenhosa – Vejo não é tão poderoso, deus – pronunciando a última palavra com desdém.
— COMO OUSA DUVIDAR DE MINHA ONIPOTÊNCIA, RAPAZ? PODERIA REDUZIR-TE A PÓ, APENAS PARA MEU DELEITE! — esbravejou o deus, fazendo com que todo o mundo à sua volta tremesse e apresentasse rachaduras.
— ENTÃO PROVE, DEUS DO TEMPO! — gritou furiosamente o cavaleiro defensor da oitava casa, na esperança que nesse rompante Chronos revivesse Isaak.
— Pois bem, criança, farei o que me pediu... mas saiba que tudo tem preço e peso neste universo. Uma vida será dada ao preço de outra, o tempo não para e não pode ser retrocedido, mas tenho meus meios para resolver isso — disse o deus, firmemente.
O mundo ao redor de Milo começou a girar e raios precipitaram-se à sua volta, de modo que alguns resvalaram em seu corpo, causando-lhe grande dor. As partes de sua armadura desapareciam a cada golpe.
— Ouça, cavaleiro de escorpião, lhe darei o que pede, mas lhe tomarei algo de igual valor: a sua vida será testada, e se passar em meu teste, poderá voltar para aquele que tanto preza – sua voz adquiriu um tom cada vez mais grave, assemelhando-se a um trovão rompendo por todo o ambiente estranho — Contudo, se você não passar por essa provação sua vida lhe será tomada e sua constelação desaparecerá contigo, cavaleiro... sua alma jamais reencarnará e você será apagado da linha do tempo. Pois então diga, cavaleiro, aceita tal pedido? Acredita que sua causa seja justa o suficiente para colocar sua existência em xeque?
A cada palavra raios resvalavam em Milo fazendo-o gritar. Sentia como se cada golpe que recebera em sua vida estivesse lhe sendo infligido, todos aos mesmo tempo. Com o gosto acre do sangue em sua boca, Milo gritou:
— Minha vida sem ele não tem valor! Contanto que ele possa sorrir novamente, darei tudo de que disponho. Aceito sua proposta, deus do tempo, e passarei pelo seu teste, aceito seu desafio! – anunciou em tom arrogante.
Dito isso, seu corpo começou a queimar em todos os pontos e em seu peito algo explodiu, fazendo-o ver estrelas e ao poucos perder a consciência.
A última coisa que viu foi seu colar flutuando no fluxo do tempo cada vez mais longe dele.
— Camus... – foi tudo que conseguiu dizer, em um último sussurro dolorido.
Havia feito a coisa certa: agora seu amado poderia ser feliz, e talvez com o tempo Camus encontrasse alguém que cuidaria dele. Ele poderia sorrir novamente, pois sua família estaria completa.
Sim, havia feito o certo, seu amor por Camus era como seu colar, estaria para sempre com ele.
Então sua visão perdeu o foco e tudo apagou.
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