Acordes Perdidos
8 Sagrada desgraça
Notas iniciais
Essas sombras projetadas em sua garganta mais parecem garras retalhadoras prontas para te dilacerar. A escuridão agora é mais tenebrosa que jamais antes. Ó, mas que pecado! Pandora abriu a caixa! Fujam para suas casas, atiçadas em chamas. Lá é mais seguro, mais seguro que essa terra endiabradas, enfestadas de grosseiras bestas que nem sequer podemos descrever. Fujam do pecado! Não dividam comida, não aceitem estranhos em suas casas, não permitam aos diferentes regressarem ao lar! Isso é pecado.
– E quem disse tal coisa?
– Deus.
Que deus é esse, e da onde ele vem? Porque sua chegada anuncia nossas funções? Nem sabemos se isto é certo. Mas é isso mesmo! O que é certo? O que é errado? O que é pecado nessa vida, nesse mundo já feito de posse pela morte e pela fome? Todas essas sombras bruxuleantes que espreitam a soleira são um lembrete concomitante dos sacros deveres. Ah, Pandora, porque abriste a caixa! Mas mesmo que o fizeste, o mundo já estava bem sujo, mesmo sem sombras, mesmo sem pecados. Contudo, ontem era melhor, ontem nossas casas eram ricas em asseio, begônias ladrilhando nossos dias. Hoje o açoite repentino dos caninos na madeira da porta a fazem estalar e nos impedem de com serenidade lavar os pratos ou varres os escombros. Nos enclausuramos, rasgamos nossa carne com a dilaceração do conflito doméstico, apontamos o dedo como o dardo letal da fúria inconclusa. As janelas fechadas inibem nossos pensamentos e só nos levam a nos depararmos ininterruptamente com a noite. Esses espectros ardilosos jamais entraram, mas assombram a todas as casas com a possibilidade, levando-as à ruína.
Oh, Pandora, que desgraça lhe acometeu! Você diz que tem medo do escuro, mas então por que não simplesmente acende a luz?
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