Acordes Perdidos
9 My holy angel, you cursed me
Notas iniciais
Me detalhavam que parte do ritual dos anjos para abençoarem aqueles que nascem é carimbar-lhes um tépido beijo na testa. Sua benção se transformava em asas para voar por acima das adversidades, mas passei o resto de meus dias questionando se abrir asas e fujir dos seus problemas é realmente o certo a se fazer. Não deveria enfrentar as coisas com minha própria força? Mas vejo as pessoas rezando a todo um momento, como um processo mecânico que lhes garante a existência. Não para agradecer. Seus “obrigados” não caminham para além da superfície de seus significados. Rezam para pedir por algo que sabem que não conseguirão sozinhas, rezam porque não querem enfrentar os obstáculos, para que as bonanças de uma lúdica vida prometida finalmente sejam concretizadas. Com medo do mundo, elas se apoiam em personificações superiores a elas na hierarquia sistemática das sociedades. As pessoas superiores, indivíduos carregados da mesma porcentagem de carbono e fósforo da pele aos cabelos, por mais graúdos que sejam também buscam alguém além para lhes suster. É estando no topo de todos esses que precisam de apoio de alguma entidade que esteja além de sua compreensão que os deuses se erguem e pleiteiam seus tronos.
Se a benção dos anjos nos joga em tal maldição de sustentáculos e andaimes corrosivos, não se trataria isso de uma praga horrenda? Não obstante, ter asas não parece um mal questionável. Tudo na vida nos prende, grilhões arrochantes, cujo chacoalhar retumba em nossas almas amassadas pelo peso da respectiva posição na pirâmide social. Estás acorrentado a sua família, aos seus amigos, ao seu passado e a sua bagagem de mão. Ao que você fez, e mais acorrentado ainda com o pesar daquilo que não fez. Porém, a malévola dádiva dos celestiais nos financia um artifício para o escape tão almejável. Com asas, é possível escapar das amarras.
Vamos pensar com mais calma. Ofanins estariam nos ridicularizando com seu amor urgente e material? Uma piada muito boa para vocês, que riem desses humanos que só sabem erguer a cabeça quando começa a chover. Essas asas vãs que nos prendem a dependência de um poder maior, nos tornando incapazes de confiar em nós mesmos, nem para produzir a liberdade nos adiantam.. Afinal, será mesmo possível viver, sem estar preso há nada?
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