Acordes Perdidos
5 Sad Turquoise, aren't you?
Notas iniciais
Acompanho o crescer dessas flores por toda uma vida. Elas despontam, desabrocham e se colorem da pigmentação que as define e as difere. Num jardim, são flores demais para se pensar em dar nomes para cada uma delas, para ter tempo de ouvir a todas, de aplicar uma candura específica e regular para cada uma. Apenas podemos rega-las coletivamente. Se uma delas chora, ninguém percebe. Talvez pare-se para olhar se uma das tulipas se desmanchar em tons cinzas e cair inclinada para baixo, mas só talvez. Afinal, quantos botões perdem todas as pétalas sem tal crime ser testemunhado? Para só depois de infinitos amanheceres seu corpo ser encontrado, uma perene carcaça seca. Tão frágeis, cada uma dessas flores necessitam de nós. Somos os deuses delas. Quando se olha no espelho ao acordar depois de uma noite coberta de lágrimas e lençóis, se vê como um deus?
O desafio dessa ato não é a inconcebibilidade dessa perspectiva, as pessoas na verdade se desviam desse fato por medo de serem deuses. É uma função medonha, aterradora. Tantas vidas dependentes do seu olhar atento sobre todas, tantas pétalas queimadas descendo suavemente e roçando pela sua palma ressequida. O caráter divino que as flores nos implicam é o mesmo que supomos para figuras maiores de ação. E assim como elas morrem sem nome, sem atenção, esperando ser regadas, nós desfalecemos igualmente. E assim o deus das flores ri, faz zombaria de como somos tristes, perecendo à espera de sermos regados.
Quem sabe as flores seriam mais afortunadas se aprendessem por si a dança da chuva, podendo dispensar seus deuses.
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