Notas iniciais
História encontrada nos arredores de uma estação meteorológica na Ilha Willis, localizada no Mar de Coral, Austrália:

Na taxativa burocracia do céu, me pergunto se existe uma saturação de estrelas registradas tão indiscutível que para mim não haveria vaga. O som das ondas ecoa lá fora enquanto suas águas cristalinas refletem a infinita ubiquidade do território da noite. Quando sozinho em terras alheias, se entende a vastidão do que amiúde se via como ínfimo. Nas cidades, o universo parece ser apenas o chão em que pisamos, o resto sendo relegado ao status de ilusão. Proponho a hipótese de que talvez seja assim, verdade e mentira se perdem na neblina dos nossos suspiros. Espaço longínquo? Toco-o com o espelho convexo do telescópio. Ainda que a distância ressoe como uma canção sem graça que se acabou, ela ainda me aprisiona em outro mundo que não aquele no qual você está, mais distante de mim que o Sol.

Nisso reside meu delírio de me equiparar às estrelas. Estando entre os astros, poderia refletir nas águas noturnas nas quais você se banha, e te iluminar, enquanto seu corpo brilha de sal. Poderia acompanhar seus passos apressados e simples, mas ainda assim graciosos, que projetam sua trajetória. Ficaria triste, todo dia que não fosse noite. Seria capaz de te possuir em meio às luzes da cidade. Te abraçar, mesmo enquanto abraça outros. Alimento, na resignada aceitação da minha condição aquela capitosa inveja confortável que se instala no coração que não possui nada suficientemente grande para lhe suster. Todo esse amálgama de sentimentos disformes e mal posicionados na razão são raízes com as quais me prendo, tal qual uma trepadeira, intensamente presa a terra, que só em absurdas divagações pensaria em ser capaz de ir em direção ao céu.

Sobretudo, o que mais me comove e provoca desejo no semblante das estrelas é sua aptidão para jamais chorarem perante a noite. Até porque algumas delas já morreram de tanta retenção.