Notas iniciais
Frequência encontrada na Savana de Serengueti, próxima à Tanzânia:

Veja as altas gramíneas, nos ocultando num labirinto mortal, nesse campo de vegetação alta. As zebras correm como anjos fugindo do apocalipse, mesmo que o mundo nunca acabe na selva. O mundo, a priori, nunca sequer existiu. O que há ou não entre a sobrevivência e a dilaceração é a vontade do rei. Nosso rei, todos o saúdam! Seu rosnar espanta as sombras dementes. Nosso rei, subjuga a carne dos súditos com as presas que moldaram seu inabalável trono.

Na savana, os bosques, as árvores, são distantes uns dos outros. Não se abraçam, pois à uma grande planície entre eles. As tristonhas fomas de vida vegetais clamam pelas patas que os veados usam para patinar na terra, enquanto tentam fugir inutilmente do julgamento divino do leopardo. Nesse mundo sem início, não há leis da natureza, afinal a natureza nunca ditou suas regras. Só há as leis do vencedor, aquele que sobe em quilômetros amontoados de cadáveres vitimados pela sua vontade. Esse justificável apetite pela fraqueza alheia enganosamente surge aos reis com um caráter frugal, uma modesta dieta, quando em sua definição é o mais insaciável e implacável desejo.

Fujam, todos, pois como animais, esse é vosso destino. Deus não os condena por fugir, pois é isso que devem fazer, caso não, deixaria de haver a caçada. Esse pensamento animalesco é intensamente refletido nos homens que nos encaram por de trás das cercas de proteção. Eles têm medo, pois sabem que o senhor destas planícies é mais poderoso que o deles. Então, se escondam! Fujam! Esse é o método de veneração que o rei lhes incutiu.

Se é preferível ser temido a ser amado, é ainda mais interessante aplicar o pavor pelo sangue do que pelas palavras.

Nosso rei, leão sagrado. O poder é vosso. O poder sobre todo esse mundo que se estende, sobre todos esses leais súditos, pois ninguém é maior que você. Mas, eu pergunto à vossa alteza, agrada-lhe ser o monarca dessa vastidão de defuntos destripados?

O seu trono inabalável também é um trono solitário.