Acordes Perdidos
20 Entre o nosso pequeno corredor
Notas iniciais
Aquilo era mais do que uma passagem. Um portal. Um transe, uma medida escapatória infalível. Naquela pequena cidade de alegorias e sorrisos, os dois amantes podiam se encontrar. Nesse hiato, eles seguravam as mãos e traçavam simbologias de uma profundamente ingênua paixão incipiente, cúmplices ocultos de sua relação. Ninguém mais precisava saber do amor que percorria seus corações como um corredor que liga duas portas. Aquele era o esconderijo ideal de ambos.
Seus lábios não se tocavam diante dos olhares atentos. Isso ocorria apenas às noites, entre os dois, num intervalo que alcançavam entre o se conhecer e o se abandonar. Suas canções são também, mistérios que apenas eles conhecem. Tudo que perscruta aquela passagem fica ali, exceto as memórias. Entre uma porta e outra, o corredor era um ponto-cego das câmeras, assassinas do sigilo, sempre espiando as soleiras de forma a garantir a segurança de nossos bens e nossa virgindade. Ao fecharem a porta e se encaminharem para o Sol radiante que aquela cidade esplendia com um abraço, antes eles se davam ao luxo de alguns segundos naquele corredor, cogitando um universo paralelo. Ali, longe de tudo, não havia títulos nem rótulos, sequer nome para a cor dos tijolos. Só seus beijos, que eram mais um segredo. Talvez, de fato eles entrassem num outro mundo quando passavam por ali. Um mundo que desconhecia a finalização das formas e o mapeamento dos caminhos, provocando mistério em cada fuga sem registro.
Eles poderiam correr pela cidade vendo os corações felizes. Das almas obliteradas pelo gelo da mágoa, o ritmo das areias e das ondas tomaria conta. A regra era ser feliz. E sem sombra de dúvida os dois apaixonados eram imensamente afortunados em sua pausa finita. Mas, na verdade, o corredor entre eles nunca deixou de existir, mesmo os endereços mudando. Só ficara mais longo, expandindo o universo outro, aumentando as possibilidades de ludibriar seja as câmeras, seja o mundo. Não precisavam estar de mãos dadas para isso, bastava meramente encontrar a mesma estrela à noite.
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