Acordes Perdidos
21 Ghost Town
Notas iniciais
Não sei quando o pesadelo teve início. Isso porque já me cansei de me perguntar quando iria acabar. Havia desistido dessa tortura inenarrável. Sequer consigo mais conceber um mundo aonde os fantasmas não existissem. Eles nos perseguem desde que aprendemos em nossa pueril estupidez o significado do medo. Assim que temos o receio, a dúvida, estamos sujeitos ao açoite dos bruxos de capas negras e mãos esqueléticas que, sem unhas ou garras, rasgam nossa pele de dentro para fora.
A vida sempre foi assim, se é que isso possa se equiparar ao que os poetas romantizam como “viver”. O conceito da morte me parece muito mais encaixável a toda essa gritaria. Por mais ilógico que pareça, mesmo com essas sombras nos encurralando , não lutamos contra elas. Permitimos que elas guiem nossos passos na penumbra, parcimoniosamente nos encaminhando ao abismo. Gastamos nossas armas, nossas vozes, contra nós mesmos. Uns contra outros, porque nos apavoramos de lidar com essas aparições.
Moldamos esse mundo corrupto de hoje com nossas próprias letras. Brincando de tabuleiro, um lado foi chamado bom e o outro de nem tanto. Afirmamos que matar é errado, mas arrancamos a carne por luxo. Afirmamos que roubar é horrendo, mas somos ladrões orgulhosos e egoístas de qualquer dignidade que supra nosso ego. Geramos o preconceito e nos posicionamos como superiores ao que é diferente. Extremamente obedientes peças carcomidas de uma jogatina.
Repudiamos o que distinguimos pelo brilho ser muito ofuscante. Apavorados, desligamos a luz e voltamos ao conforto embriagado dos espectros. Estamos enraizados nesses velhos hábitos a milênios e não aceitamos que outro método ou forma de se viver seja superiormente benéfica. Isso é certo ou errado? Você faz essa pergunta para aqueles que são mais velhos e experientes que você e as repassa num ciclo interminável. Nunca torne a perguntar o que se deve fazer para os humanos. Pergunte para si mesmo, mas não ao teu ser com nome e sim àquele que só conhece a fome e a vontade, entidade inteira da natureza perdida do indivíduo.
Pois o instinto não mente. Na natureza não existem regras, não existem fantasmas que nos assediam e gozam de nossa confusão. Mas esse mundo vibrante, sem assombrações horripilantes, pode ser conquistado? Eles não sabem, mas enlouquecidamente salivamos ao supor um mundo em que não precisemos fechar os olhos para voar.
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