Acordes Perdidos
7 Pequeno rogue de ninguém
Notas iniciais
Podemos seguir com o jogo. Metade das peças já estão caídas, esparramadas sobre a mesa. A peça do cavalo negro segue. Um peão cai. O penúltimo no tabuleiro, agora só resta um. Solitário, ali no fundo do campo, ele não têm mais utilidade, mas continua vivo. Uma vida sem finalidades pode ser nomeada de vida, ainda assim? Sob esse matutino Sol de inverno, que mescla suas luzes à névoa secante das ruas de Domingo, não consigo achar uma definição para o que seria essa vida. Uma infusão de sobrevivência desperdiçada em conveniências do hábito? Não saberia dizer, mas concluo que encerrar a vida cativo do próprio cotidiano implacável, vitimado pelas raízes dos costumes apáticos corrobora a mais vil forma de se existir. Todos os sintomas que reconhecem esse tipo de infelicidade movida a cacoetes do costume são reconhecidos. Eu conheço todos, de fato.
– Sua vez — Ela me diz.
– Ah, sim, claro — Movo o último peão que sobrara no campo, mas ele ainda é irrisório perante aquela Torre logo em frente. Estou apenas jogando ele para morte, para livrá-lo de uma miserável sequência de injustiças que permeiam sua situação como soldado de descarte? Isso não é maligno, é? Eu estou sendo bom.. Ou mal?
O Sol continua a brilhar intensamente, mas não consigo comparar seus raios de Sol à felicidade. Não consigo comparar nada à felicidade, tendo em vista que desconheço seus meandros particulares. Afinal, porque eu estou vivo mesmo? Ah, eu cuido da Igreja, oras! Eu não sou inútil. Tudo bem que ela está abandonada e caindo as pedaços, tudo bem… Tudo bem que só serve de abrigo para os indigentes expulsos pelo excesso de contingente na paróquia da cidade vizinha, tudo bem… Também aceito que não tenhamos mais visitas que não sejam cobradores há mais de dois anos. Ah, mas sem mim o que seriam daquelas obras de arte? As estatuetas tão belas que outrora traziam esperança para jovens perdidos, agora são elas que estão sem caminho. E também, o que seria da minha mulher se mim? Com quem ela jogaria xadrez, pobre velha?
– Sua vez — Ela repete. Sua voz nunca deixa de ressoar graciosamente no meu ouvido, como se houvesse uma peculiar adaptabilidade nos meus tímpanos para negar qualquer som que não seja suas canções de donzela angustiada pela imensidão de dias que o resto de sua vida ainda púbere lhe reserva.
– Claro, amor — Falo tentando imitar a doçura tão afável de sua voz, mas falho. Impossível para um velho rouco como eu copiar aquele Mi de harpa. Movo o peão, e o jogo à morte. O último peão se vai. Mas ele não era uma vida, era só uma peça… Tudo bem se jogarmos com elas, eu suponho. São só peças mesmo. E mesmo que fossem vidas, estaria tudo bem jogar com elas também, não é? São só peças, dadas suas proporções.
– Sua vez — Sua voz me arranca de meus devaneios sem localização. Mesmo que ela só faça falar isso, agradeço por poder ouvi-la. Paro um instante depois de mover a peça para reparar em como odeio aquele quarto. Não existe nada de vidro nele, apenas material acolchoado ou resguardado por plástico bolha. Nem que eu quisesse, me machucaria. Sem nada para me cortar. E esses macacões de lã? Intragáveis. Sua falta de coloração me irrita. Tudo me irrita. A droga do peão que morreu inutilmente! Ele poderia ter lutado para achar algo que tornasse sua vida proveitosa. Não, ele não conseguiu nada disso! É um covarde que fugiu para as vicissitudes do próprio medo.
– Sua vez.
– CALA A BOCA!
Pego a mesa e arranco de sua estrutura. Fiquei receoso pois sabia que ela só jogava com um conjunto de peças de vidro que sua irmã deu para ela. Mas nem isso tinha. Aquelas peças eram de borracha gasta. Aquela mesa, estufada. O Tabuleiro, de papel. O que mais me doía naquele cenário era que eu estava sozinho. Sozinho. Eu e as peças. E todos eramos dispensáveis como peões.
– Desculpa… Fala comigo, por favor. Não vai embora — Fico no chão e choro. Eu a expulsei.
– Senhor, é hora do seu jantar — Diz um homem que entra no quarto. De inicio me irrito, queria que fosse ela, mas eu a mandei embora em minha imprudência mirrada. Mas depois, esqueci. Quero comer, estava com fome. Esqueci de tudo que não fosse a fome. O Homem está com uma roupa branca que também me irrita. Aquela cor me rasgava as fibras da sanidade. Eu gostava mais das peças pretas. Lembro ter avançado contra ele. Lembro de dormir profundamente nos intervalos entres os blocos alvos e negros. Em silêncio, me deparo com um Xeque-mate.
A maliciosa modorra da melancolia sempre sabe como desguarnecer meus cavalos.
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