Notas iniciais
Como prometido! Enjoy... :)

Eu nunca o tinha visto daquela maneira. E para falar a verdade estava me assustando um pouco. O episódio do metrô mais cedo tinha sido algo surreal e de certa forma aterrorizante, mas agora, aqui a sós com ele, estava sendo mais.

No entanto, eu não queria me sentir assim com Adrian. Geralmente ele me passava confiança e não medo.

Seus olhos negros como breu continuavam a me analisar de cima á baixo, faminto; seu corpo se projetava levemente para onde eu estava me fazendo recuar. Ele não me machucaria realmente, apesar de não estar cem por cento certa de que tipo de atitudes ele poderia tomar agora que estava fora de si.

—Adrian... O que pensa que está fazendo? – minhas palavras pareceram não fazer efeito, pois ele continuava me olhando e sorrindo de forma assustadora.

— Nada ainda, por quê?- sua cabeça virou lentamente, sem deixar de me fitar — Porque você está andando de costas?

Olhei para os lados percebendo os bons quatro ou cinco passos que eu havia dado e me apoiei em uma das portas do privativo.

— Eu te assusto?- ele perguntou o sorriso sumindo de seu rosto.

— Geralmente não, mas no momento estou um pouco preocupada! – consegui falar quando encontrei minha voz.

Várias expressões passaram por seu rosto, das quais não consegui identificar nenhuma. Adrian parecia em uma luta interna, claramente tentando obter o controle novamente. Suas mãos ainda tremiam na lateral de seu corpo e sua respiração era difícil.

— Adrian eu vou me aproximar agora – comecei colocando as mãos para o alto em sinal de rendição. — Preciso que respire fundo e siga o som da minha voz.

Meus passos eram calmos e comedidos e lentamente eu ia me aproximando. Ele ainda tinha o olhar perdido, os olhos negros e estreitos, porém as mãos já começavam a se estabilizar, parando na lateral. Sua luta para controlar sua respiração era perceptível e eu sabia que estava me arriscando ao me envolver assim. Desde que o vi praticamente rosnar em desejo para Lana no restaurante ou deixar que as flores morressem ao passar por elas no corredor vindo para cá eu sabia que algo estava errado. Mas eu tinha que tomar alguma providencia, tinha que protegê-lo. Nem que fosse dele mesmo.

—Está tudo bem, sua respiração está se normalizando e suas mãos pararam de tremer – sem reação aparente ele continuava a me ouvir, mais dois passos era o que eu precisava para chegar até ele — eu estou aqui, está tudo bem, eu vou te ajudar! Você tem controle absoluto sobre seu corpo Adrian, só você pode fazer isso! Respire fundo e volte, volte para mim.

Já podia sentir o calor de seu corpo à medida que me aproximava e tinha quase certeza, mais uma esperança do que certeza, de que ele me ouvia e estava mais calmo. O tempo parecia se arrastar entre nós, nunca cinco passos foram tão longos. Quando ele finalmente olhou para cima, notei os últimos resquícios de escuridão se esvaindo e o verde de seus olhos voltando a ter vida.

—Já acabou Adrian, você conseguiu! Tudo voltou ao normal. – afirmei dando meu ultimo passo e parando á sua frente.

Ele me olhava confuso e cansado, mas sobre tudo aliviado. Pousei uma de minhas mãos em seu ombro o sentindo se contrair. Pensei em tirar mas logo ele relaxou e respirei fundo. Não havia mais perigo.

— Como se sente?

— O que está acontecendo comigo?

— Eu não sei. – disse sincera.

— Eu preciso me alimentar!

Tirei minha mão de seu ombro e recuei o fitando.

— Eu não vou fazer isso, não sou uma meretriz! – senti o leve pânico se instalar dentro de mim, lutando contra toda a barreira que eu tinha construído.

Eu queria mais do que tudo sentir aquela sensação novamente. O frenesi, o torpor por todo o corpo, a sensação de flutuar e ser plena, feliz. Era maravilhoso e viciante, mas errado. Extremamente errado! Eu não podia me submeter àquilo mais uma vez, não se eu quisesse ainda ter algum orgulho próprio.

— Então me arrume alguém!

— Não posso te deixar aqui sozinho para procurar um alimentador, não com o espirito tão instável assim! – podia sentir o desespero em meu tom.

— Mas eu preciso... e rápido!- Adrian agarrou meus pulsos,os olhos suplicantes e a voz esganiçada.

— Eu não vou conseguir me controlar se eu voltar lá e me sentar em meio á todas aquelas pessoas que estão felizes e liberando endorfina em sua corrente sanguínea, ficando cada vez mais saborosas... Não posso fazer isso com Lana!

Bufei irritada. Ele tinha razão, mas quem? Chamar Baruel e Isaac não me acrescentaria tempo, mas sim mais problemas. Eu estava sozinha para resolver isso e não tinha ideia do que fazer. Adrian tinha voltado para a pia e jogava agua em seu rosto. Qual a melhor solução? Pense, pense e pense! Não posso o deixar voltar ao que era há segundos atrás, mas também não posso dar meu sangue para ele. Afastei essa ideia antes que ela se tornasse viável.

No momento em que eu abria a minha boca para falar algo a porta do banheiro se abriu e um senhor de meia idade, vestindo um terno caro entrou rindo. Quando me viu parou e ficou com olhos questionadores.

— O que faz aqui? Entrei no banheiro errado?

Olhei para Adrian do outro lado de onde estávamos e seus olhos fitavam o homem pelo espelho, uma fina camada de escuridão se apoderando dele novamente. O pavor começou a voltar para mim. Droga, de novo não!

— Anda mocinha, me responda! – permaneci em silencio apenas me preparando para qualquer atitude inesperada que Adrian poderia tomar. O homem se aproximou e pude sentir o forte cheiro de bebida alcoólica vindo dele.

Ele era extremamente arrogante e gordo e não me importaria em socar a cara dele ali mesmo se eu não estivesse tão preocupada com Adrian. As mãos daquele velho agourento se fecharam em volta de meu braço me pegando desprevenida e olhei para ele.

— Você é uma serviçal muito desobediente, merece levar uma boa lição! – seu olhar sobre mim era de pura luxuria e senti meu estômago revirar. Ele se inclinou me cheirando como um animal faz e passou a língua pelos lábios finos e rosados.

— Larga ela! – olhei para onde Adrian estava e agora, de frente para nós, o olhar era completamente escuro.

— Ah qual é, não seja egoísta. Vamos aproveitar juntos dessa belezinha aqui. Ela não pode recusar. – ele sorriu o sorriso perfeito de um louco e colocou a outra mão em minha bunda, me fazendo desvencilhar de seu aperto e andar para trás. Eu não deveria estar me mostrando tão fraca e indefesa assim, mas estava mais preocupada com o que Adrian poderia fazer.

— Com certeza você precisa de algum dinheiro para ajudar sua pobre mãe doente e irmãos pequenos que estão em casa morrendo de fome. Venha, eu estou acostumado a ajudar pessoas assim! – mais uma vez ele se aproximou, um pouco mais cambaleante do que antes, um soluço escapando por sua boca.

— Não se atreva a dar nenhum passo a mais em direção á ela! – Adrian avisou com a voz mais rouca. Levantei minha mão pra ele tentando de alguma forma impedir que viesse em nossa direção.

— Você já pagou pelo serviço individual então? – o gordo no terno perguntou sem tirar os olhos de mim, uma leve expressão de desapontamento em sua face.

Adrian deu seu primeiro passo em nossa direção e eu prontamente me coloquei entre eles, as mãos levantadas.

— Adrian não!

— Eu já saquei a sua. Você é do tipo filho rico mimado, que sempre teve tudo que queria sem medir esforços. – ele começou a falar enquanto nos rondava, como um predador. — Aos quinze teve sua primeira transa o que o fez se apaixonar pela doce... Maddie. Não é mesmo? Vocês começaram a namorar, mas ela te traiu com seu melhor amigo, Trevor. Então desgostoso com a vida você se tornou o babaca que é hoje. – Adrian continuava a nos cercar, a certeza em suas palavras me deixava confusa em saber se essa era mais uma de suas invenções ou se realmente ele sabia do que estava falando. O asqueroso olhava dele para mim indignado, tentando entender o que era tudo aquilo.

— Quem é você? O que quer? Minha mulher te mandou aqui?

— Aos vinte e cinco estuprou sua primeira vitima. Sim, estupro, por que ela não te queria, assim como Maddie, mas você não aceitou bem a rejeição. Desde então vem "ajudando" garotas inocentes a darem um sustento melhor para suas famílias com a condição de apenas serem suas escravas sexuais por uma noite.

Adrian balançava a cabeça em sinal de desaprovação, ao passo que o homem estava apavorado.

— Como sabe dessas coisas? Quem foi que te contou? Isso é algum tipo de brincadeira?

—Não meu caro Jhon, é apenas a verdade. E ela dói não é mesmo? — o sorriso que Adrian deu ao dizer isso me fez tremer.

— Adrian...- adverti. Ele pareceu enfim notar-me e se virou sério.

— Não vou matá-lo, não quero ser Strigoi! Mas ele precisa aprender uma lição. É para o seu bem, o bem de todos!

— Adrian não... – eu realmente não tinha o que dizer para pará-lo. Na verdade eu não tinha certeza se queria. Esse velho escroto merecia uma punição. Engoli em seco concordando e segui para a porta.

— Seja rápido e, por favor, não faça nada que vá se arrepender depois. – lhe dei um ultimo olhar sofrido e abaixei a cabeça. – Ou que eu me arrependa.

— Do que vocês estão falando?

Esperei por sua confirmação e saí fechando a porta atrás de mim. Espero não me arrepender por isso!