Academia Do Amanhã
2 Capítulo 2 - O Assassino Frenético
Notas iniciais
Jean-Paul ficou calado com o que eu disse. Não falou nada em sua defesa. E nem tinha o que dizer, ele não tinha como negar o que ele sentia pelo novato. Então era isso que ele escondia o tempo todo? Eu já tinha uma leve ideia...
— Como você conseguiu guardar esse segredo por tanto tempo? – Eu perguntei.
Ele continuou sem responder. Olhava para os lados, mordendo seu lábio inferior e com as mãos escondidas no bolso. Ele parecia ter vergonha de sua condição.
— Eu posso ajudar você. – Ele levantou os olhos, se enchendo de esperança. – Talvez eu possa... Fazer ele sentir por você, o mesmo que você sente por ele. Compreende?
— Você faria isso por mim, Manuel!? – Finalmente ele abriu a boca, se animando com a minha proposta e colocando as mãos no meu ombro.
— HAHAHAHA – Não contive a minha risada. A condição medíocre dele era cômica. – Tire as mãos de mim! – Eu falei, dando dois passos para trás. – É claro que eu não faria isso. Resolva o seu drama amoroso pessoal por conta própria. E agora eu sei o motivo de você ser o preferido da Dona Frost. Ela com certeza deve saber que você é... Hmf. Un puto maricón.
Dei as costas para ele e entrei no dormitório. O sentimento dele pelo novato era tão ridículo e digno de pena! Dessa vez eu não captei os sentimentos dele porque eu quis. Eram sentimentos tão gritantes, que eu simplesmente não consegui bloquear, afastar de mim, como eu fazia na maioria das vezes com os sentimentos alheios.
No dia seguinte, novamente nos levantamos depois das 10h. Era sábado, o único dia livre da semana. Sem nenhum tipo de aula, sem treinamentos suicidas, estávamos livres da Srta. Frost.
Marvin e Ray passaram o dia inteiro no vídeo game, comendo e vendo TV. Shiro, o novato, ficou isolado no dormitório. Sempre que tentavam se aproximar, ele praticamente cuspia fogo. Não queria falar com absolutamente ninguém. Jean-Paul ficou treinando e eu aproveitei o dia para ficar lendo um pouco.
Eu fiquei tão centrado na minha leitura que nem percebi o cair da noite. Quando me dei conta, tudo lá fora estava escuro. Me sentia preguiçoso e indisposto — isso devido à rotina pesada de treinamento semanal, que sugava as minhas energias. Um pouco mais tarde, quando eu terminava o meu banho, ouvi uma movimentação estranha. Ray e Marvin estavam arrumados, como se fossem sair para algum lugar.
— Tsc. – Olhei para eles, com extrema desaprovação. – Vão tentar desrespeitar o toque de recolher de novo?
O sábado era inteiramente livre. Todos poderiam sair durante todo o dia, mas depois das oito, todos deveriam estar dentro da Academia. Ray já tentou desrespeitar esse horário por inúmeras vezes. Da última vez, ele saiu pra uma balada e voltou pra casa quase ao amanhecer. Como castigo, a Dona Frost fez ele pensar que ser um cachorro durante uma semana inteira. Os castigos dela sempre eram cruéis e eles estavam pedindo por mais.
— Não vá dedurar a gente! – Marvin falou, apontando o dedo pra mim.
— Vamos ao bar que foi inaugurado há pouco tempo aqui perto. A Frost nem vai perceber a nossa ausência. – Ray falou em seguida.
— Vocês vão se dar mal, como na última vez... – Jean-Paul estava estirado na cama. Ele ficou mais calado e recluso depois que o seu segredo foi descoberto por mim.
— Não sejam chatos! – Marvin exclamou novamente. – Eu e Ray estamos indo. Não aguentamos ficar presos aqui no meio de tantas cuecas.
HAHAHA, pois eu poderia garantir a eles que Jean-Paul adorava. Minha boca coçou para soltar esse comentário maldoso. Eu me contive...
— Vocês vem com a gente ou não? –Ray perguntou.
Jean-Paul ficou relutante, pensando se deveria ou não fazer aquilo. Acabou se levantando, decidindo por fim que acompanharia os dois.
— Se vocês prometerem que não vamos demorar... – Ele dizia, enquanto calçava seu tênis.
E então, Marvin e Ray olharam para o novato, que estava na cama mais isolada do dormitório. Com a sua cara carrancuda, sempre calado, sempre distante.
— E você? Vem com a gente? – Jean-Paul perguntou a ele.
O novato não respondeu. Permaneceu calado, ignorando a todos nós.
— Eu me visto em um minuto... – Eu falei, me livrando da toalha enrolada na minha cintura e procurando alguma roupa no meu armário.
Me permiti relaxar um pouco. De certa maneira, Marvin tinha razão. Sair um pouco talvez nos ajudasse a espairecer. Eu queria ficar mais relaxado, pra suportar o treinamento de domingo – os de domingo sempre eram os piores.
Quando estávamos prestes a sair, o novato gritou, correndo atrás da gente.
— Me esperem! – Ele andava a passos largos, se dirigindo para o nosso grupo.
Jean-Paul tentou disfarçar, mas não era preciso ser um empata para ver que ele quase saltitou de alegria quando viu o novato se aproximar. Durante todo o caminho ele puxou conversa com o Shiro.
Não demoramos a chegar no tal bar. O lugar estava movimentado e principalmente, repleto de garotas, para a alegria de Ray. Nos sentamos em uma das mesas da calçada, próximos a um grupinho de moças bem interessantes.
Ray pediu uma cerveja pra beber e Marvin o acompanhou. Jean – que era o único maior de idade presente na mesa – pediu uma coca e Shiro, um suco de limão. Eu resolvi acompanhar Ray, e também fiquei na cerveja.
Jean torceu o nariz, porque não tínhamos idade o suficiente para beber. No entanto, ele não insistiu em nos dissuadir.
— Ela tá te encarando, Ray! Vai deixar passar? – A voz de Marvin era alta, chegava a ser irritante. Ele apontava descaradamente para o grupo de garotas da mesa ao lado.
— Não. Ela não está afim de você, Ray. É só impressão do Marvin. Você acha que alguém vai olhar pra você com esse moicano mal feito? – Eu dei um choque de realidade nele.
— Te garanto que o meu moicano faz muito mais sucesso do que esse seu sotaque espanhol de merda. – Ray respondeu em tom de brincadeira, derramando cerveja boca adentro.
— Calmo amigo. Te voy a ayudar, sí? Mira. – Eu gesticulei, para que ele voltasse a sua atenção para a garota.
As meninas da mesa ao lado estavam sorridentes demais. Não paravam de sorrir e cochichar coisas inaudíveis entre si. Mas nenhuma delas demonstrava interesse em Ray.
Eu resolvi ser bondoso, pelo menos uma vez. Por que não ajudar o colega?
Eu mantive a garota para a qual Marvin apontou na minha mira. Meus olhos assumiram um tom de violeta brilhante, que chamou a atenção das garotas na mesa. A menina começou a sorrir de um jeito estranho e voltou a sua atenção para Ray. Ela se contorcia na cadeira, mordia os lábios e de repente começou a gemer.
— Manuel? O que você está fazendo? – Jean perguntou, nada feliz por eu estar usando os meus poderes em público.
— Eu estou aprendendo a fazer muito mais do que apenas controlar emoções. Observem...
E a garota continuou gemendo. Os gemidos ficaram mais e mais altos e então ela teve um orgasmo ali, na frente de todos. Olhou para baixo, percebendo que estava molhada. Um sentimento de vergonha tomou conta dela, ela queria enfiar a cabeça debaixo da terra.
— HAHAHAHAHAHA – Marvin se acabava de rir – O que foi que você fez com a garota?
— É isso que a Frost ensina vocês a fazer com os seus poderes? – Shiro falou, com extrema desaprovação.
As meninas da mesa não conseguiam entender o que havia acontecido. Todas olhavam chocadas para a colega, estavam um pouco assustadas. Algo fez com que nós também ficássemos assustados.
— SEUS MUTUNAS NOJENTOS!
Foi isso o que ouvimos, depois do barulho de tiro. Tiro de uma espingarda, que acertou bem o centro da nossa mesa. Isso nos deixou em estado de alerta, nos pegou de surpresa – Marvin saltou de sua cadeira, se afastando do homem que segurava a espingarda. Era o dono do bar.
Ray agiu no puro impulso. Assim que ouviu o barulho do tiro e viu quem era o causador do disparo, ergueu a mão direita para ele e disparou uma descarga elétrica contra o homem.
O cara caiu no chão, de boca e olhos abertos. Com o disparo, todos no bar se afastaram, correndo para longe da confusão.
— Oh, merda! – Ray parecia desesperado. – Eu nunca usei isso contra ninguém antes.
— Ele tá morto, Ray! – Jean falou desesperado, abaixado próximo ao corpo.
O que eu não tinha percebido é que havia uma viatura policial encostada do outro lado da rua. E os policiais estavam vindo em nossa direção. Eles se moviam com cautela, segurando firme em suas armas. Eram quatro deles. Com certeza viram o acontecido e sabiam com o que estavam lidando.
— Eu posso cuidar deles. – Shiro foi o único que prestou atenção neles, além de mim.
Eu me perguntava o motivo de eu ter aceitado participar disso. Não deveríamos ter saído da academia fora do horário estipulado pela dona Frost. Eu me negava a pensar no castigo que ela dos daria, quando soubesse do acontecido.
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