Academia Do Amanhã
3 Capítulo 3 - Consequências
Notas iniciais
O comportamento daqueles pirralhos me enojava. Tão inconsequentes e agindo de forma impensada. Não tinham controle sobre seus próprios atos. Acho que a Frost deveria rever suas capacidades como educadora, pois seus métodos não estavam surtindo o menor efeito com aquele grupo de rapazes.
- Pra trás! Todos vocês! – Eu ordenei, assumindo o controle da situação. O meu tom de voz naturalmente imponente fez com que eles me obedecessem.
Os policiais gritaram “Parados aí, mutunas! Acabou pra vocês!” O termo utilizado por eles... “Mutunas”. Algo tão pejorativo. Como eles ousavam se referir a nós dessa maneira? Eu calaria aquelas bocas com um castigo flamejante do qual eles jamais esqueceriam.
- Se ajoelhem e coloquem as mãos por trás da cabeça! – Eles esbravejaram com tanta força que seus rostos chegavam a ficar corados.
Nenhum de nós obedeceu. Assim que eles ergueram suas armas, dando a entender que pretendiam atirar, eu agi. Ergui as minhas mãos na direção deles e ondas intensas de calor foram disparadas contra as mãos dos pobres policiais. De imediato eles largaram suas armas e saíram correndo, gritando por conta da dor que sentiam devido às queimaduras causadas por mim. Eram apenas americanos imbecis... Eu não sentia um pingo de pena os atacando.
- Oh, Shiro! – Jean-Paul exclamou. – Não devia ter feito isso! Não era preciso atacá-los! Manuel poderia ter resolvido isso sem uma estratégia tão ofensiva e hostil.
Ele estava visivelmente preocupado com a situação. Havia um morto e quatro feridos. Tudo isso por conta da ideia “inofensiva” de quebrar o tal toque de recolher e dar uma escapadinha para azucrinar as garotas no bar.
- Eles nos ameaçaram. Se eu não tivesse atacado, poderíamos estar feridos agora. — Eu o respondi.
- Só espero que a dona Frost resolva me “transformar” em um pitbull. Caso ela aplique o mesmo castigo que deu ao Ray daquela vez, quero passar a semana pensando que sou um cachorrão imponente. – Marvin tentou fazer piada da situação.
- Acho que o melhor é fazer é dar o fora daqui. Não podemos ser pegos na cena do crime. Vai que eles chamam reforços? – Ray disse e eu concordei.
Tinhamos que sair dali o mais rápido possível. Certamente outras viaturas chegariam, era melhor evitar mais confusão.
Já na Academia, eles chegaram bastante afobados. Os outros pareciam assustados, apavorados com o possível castigo que a Frost nos daria. Não havia nenhum sinal da presença dela lá. Sem fazer o menor barulho, nos trancamos no dormitório e eles passaram o resto da noite pensando em como fariam pra escapar daquela situação.
Eu voltei a ficar recluso, quieto, completamente afastado dos outros. Eles eram muito exagerados e pra mim, estavam se preocupando sem muita necessidade. Acho que a minha calma perante a situação se deve ao fato de que a Frost não me enxergava como um mero aluno. Ela me via mais como um aliado, pois ela sabia das minhas capacidades e viu o que eu consegui fazer com o grupinho de Xavier sem a ajuda de ninguém.
No domingo pela manhã, estranhamente todos estavam de pé antes do horário que era de costume. Não eram nem 6h e eles já estavam vestidos com os uniformes e seguindo para a sala de treinamento. Calados, sem fazer nenhuma piadinha ou reclamar por conta do horário que tinham de acordar. Bem sérios, com uma expressão rígida e uma postura que eu jamais pensei que eles poderiam adotar, como se fossem levar o treinamento a sério. Chegava a parecer engraçado.
- Tiveram uma boa noite de sono? Parecem tão bem dispostos. – A voz da senhorita Frost soava irônica, ecoando através do microfone pela sala metálica que até então não tinha tomado sua forma.
Não houve resposta. Eles permaneceram rígidos, sérios, mantendo a postura.
- No exercício de hoje não haverá tanta ação e pancadaria. O que será motivo de comemoração para Manuel, já que é o que mais faz corpo mole, sempre reclamando dos treinamentos pesados... – Enquanto ela falava, o cenário ao nosso redor se formava. – Vocês terão que dar um jeito de impedir o conflito que está acontecendo e impedir que o número de feridos aumente. Nada além disso. Tentem não morrer.
O cenário daquele treinamento era de pura destruição. Prédios caindo, bastante entulho e escombros por todo lado. Uma nuvem densa de poeira prejudicava um pouco a minha visão, mas dava pra se ver claramente pessoas trajadas em trapos correndo de um lado para o outro, fugindo de alguma coisa. Logo depois, foi possível notar também homens vestidos com uniformes negros e máscaras. Seguravam armas sofisticadas e atiravam incessantemente para todos os lados.
- Ouch! – Manuel gritou. Um tiro de raspão lhe atingiu a perna e antes que ele caísse, Jean-Paul o segurou, dando apoio para que ele permanecesse de pé.
- Mutunas nojentos! Mutunas nojentos! Mutunas nojentos!
Os homens de preto gritavam isso em alto e bom som, enquanto continuavam a disparar.
Uma sensação ruim me invadiu. Uma angustia, uma aflição inexplicável. Algo tão intenso e complexo que parecia ser externo a mim e não gerado no meu interior. De súbito, imagens de destruição e horror faziam a minha mente sucumbir. Muito choro, pessoas sendo presas, aniquiladas, da forma mais cruel que um ser humano poderia fazer. Aos poucos a sensação se dissipou, aliviando a minha cabeça lentamente. Não percebi que eu fiquei curvado no chão, encolhido de dor, intimidado com toda aquela combinação de sensações e imagens horrendas que se instalaram no meu pensamento. Quando finalmente me senti livre daquilo, abri os olhos e vi que eu não era o único naquele estado. Todos estavam curvados e encolhidos no chão, do mesmo modo que eu. A sala tinha voltado ao normal, em seu aspecto naturalmente metálico.
- O que acabaram de presenciar não foi exatamente um treinamento. – Dessa vez a Frost surgiu em carne e osso na sala. Andando naquele salto enorme, exibindo o seu decote que dava a impressão de que faria seus seios saltarem pra fora a qualquer instante. E é claro, inteiramente vestida de branco. – É apenas uma pequena demonstração do que acontecerá à nossa espécie se mutantes arruaceiros e sem propósito como vocês continuarem a usar os seus poderes para se exibir ou atacar gratuitamente os que são inferiores a nós em público. Nada de castigos, nada de punições. Espero que reflitam a respeito. – Ela abandonou a sala lançando um olhar especialmente reprovador para Ray.
Ela estava claramente desapontada. Sua expressão estava carregada e bastante séria, nada satisfeita com o que ocorreu na noite passada. Já era de se esperar que não conseguiríamos esconder isso dela.
Depois do treinamento, eles ficaram em um clima estranho. Mais sérios e pensativos do que antes. Certamente, as palavras da Frost os atingiram com tudo.
Durante a tarde, aconteceram as visitas. Os pais dos alunos vinham até a academia para conversar com a Frost, reverem os seus filhos e acompanharem o progresso que estavam tendo. Na cabeça deles, aquela academia era uma espécie de super escola, pra onde só os mais aplicados entravam. Algo mais importante do que uma faculdade.
Eu procurei ficar o mais afastado que consegui de toda aquela cena. Querendo ou não, presenciar aquele clima tão familiar me trazia lembranças ruins. Me fazia lembrar de como a minha família praticamente havia acabado. Tudo começou quando eu ainda era um adolescente. Tio Tomo descobriu as minhas habilidades e desde então passou a me treinar. Todo o vilarejo onde eu vivia mantinha um forte sentimento de ódio pelos americanos e em minha casa não era diferente. Por isso meu tio me enviou para os Estados Unidos, onde pretendia me usar como um “castigo” para os americanos, pelo que eles fizeram ao meu país no passado. A primeira etapa era destruir o Capitólio em Washington, mas os X-Men tentaram me impedir. Eles foram derrotados sem dificuldade, mas instantes depois, foi a vez de meu pai tentar me deter. Ele eu não poderia enfrentar, acabei cedendo. Tio Tomo apareceu e o feriu covardemente, para que ele não atrapalhasse mais os “nossos” objetivos. Meu pai morreu em meus braços e isso me deixou enfurecido. Não permiti que Tio Tomo ficasse vivo depois disso.
Todas essas memórias me deixavam mal e eu não tinha como disfarçar isso. Fiquei no dormitório, quieto no meu canto, contando faíscas até que a hora da visita acabasse. Não percebi que Jean-Paul também estava no dormitório e seu estado não parecia muito diferente do meu.
- Seus pais não virão? – Foi a primeira vez que eu abri a boca para falar com alguém por minha própria iniciativa.
Ele arregalou os olhos, provavelmente surpreendido com o fato de eu estar puxando assunto com ele.
- Não... Eu vim de um orfanato. Não conheço os meus pais. – Ele se limitou a dizer isso.
Com um pouquinho de esforço da minha parte, a conversa fluiu. Poucas frases foram ditas, a maioria quase em um tom automático, pelo menos da minha parte. Mas dentro daquele dormitório naquela tarde, eu com certeza falei mais do que nos últimos anos, pelo menos desde que descobri os meus poderes. Conversar sobre assuntos alheatórios com Jean-Paul me ajudou a esquecer dos pensamentos ruins em relação ao meu pai.
Ficamos até a noite conversando. Durante várias vezes eu pensei em sair do dormitório e dar uma desculpa qualquer para evitar mais aproximações, mas parece que... As minhas defesas caíram. Lá no fundo eu fiquei levemente animado com a possibilidade de fazer amizade com alguém. Mesmo que esse alguém fosse Jean-Paul. Eu não sabia como lidar com ele. Aliás, eu não sabia e não gostava de lidar com nenhum dos garotos, mas com Jean-Paul tudo era mais complicado. Ele me tratava com uma atenção tão especial e eu não sabia como reagir a isso.
- Então... Quer ir ao salão de jogos? – Lancei a pergunta. Conversamos tanto que eu nem vi o tempo passar, já estava escuro lá fora.
— Certeza? Falta pouco tempo antes de irmos pra cama. Você sabe, os horários... – Ele respondeu depois de olhar para o relógio.
- Então vamos aproveitar esse pouco tempo. – Eu tentei encorajá-lo.
E então nós saímos do dormitório, rumo ao salão de jogos, para aproveitar o que restava da noite. No caminho, nos encontramos com a Frost. Seu salto batendo contra o chão chegava a fazer nossos ouvidos doerem e seu decote estava muito mais exagerado do que pela manhã.
- Hmm... Rapazes, sabem me informar onde está o Sr. Crisp? – Ela perguntou.
- Não o vi desde que o horário de visitas terminou... – Jean-Paul respondeu.
- Uhhh. Então assim que o virem, avisem que eu estou esperando por ele no dormitório. Até mais, queridinhos.
O jeito com que ela falava era muito estranho. Um tom de voz tão suave e educado. Nem de longe parecia a Frost que conhecíamos.
Fale com o autor