Abstinência
10 Problemas no paraíso
Notas iniciais
– Isso não pode sair em nenhum meio de comunicação, está de ouvindo?!
– Quero que vá atrás daqueles repórteres. Pague o quanto pedirem!
– Diga a eles que o tumulto foi causado por uma confusão de trânsito em frente ao hotel.
– Eu não sei. Ela acabou de aparecer.
Enquanto era guiada pelo braço por dois seguranças até o salão principal, pude ouvir outras pessoas da equipe de Subaru falando ao telefone com expressões que variavam entre puro estresse e puro alívio. Acabei me sentindo um pouco mal por eles. Suas carreiras dependem do sucesso da Yollow-K e, se nós causarmos um escândalo eles seriam punidos seriamente.
Chegando ao destino, vejo meu empresário sentado com os braços cruzados encima do colo. Seu olhar é frio e vejo que suas olheiras estão maiores do que nunca.
Os seguranças me soltam e se retiram do ambiente. Só eu e Subaru permanecemos.
– Que bonito, Rin. – ele diz batendo um dos pés.
– Me desculpe... Eu queria ajudar a encontrá-lo...
– Nós tínhamos uma equipe de busca. Tínhamos um plano. – ele se levantou e veio até mim ainda com uma energia furiosa – Quando você sumiu também, meus problemas dobraram. Sabe disso, não é?
– Desculpe... – baixo a cabeça.
Ele suspira e esfrega as têmporas.
– Onde estava com a cabeça? Aliás, onde você estava?
– E-eu...
– Olha, não quero saber. Você e seu irmão conseguiram dessa vez. – levanto o rosto a tempo de vê-lo apanhar o telefone e discar um número.
– O que vai fazer?
– A partir de hoje, estarão sempre sendo monitorados. Dia e noite. Nem pense em reclamar, mocinha. Eu gosto de vocês, mas está ficando difícil de lidar com essa adolescência rebelde de vocês.
É claro que eu queria protestar, mas senti que não tinha esse direito. Permaneci quieta até que ele acabasse de discutir com a pessoa do outro lado da linha. Não pude evitar uma lágrima que desceu silenciosa pela minha bochecha e ele notou.
– Rin... – Subaru desligou o aparelho e veio me abraçar. Retribui o gesto fungando baixinho. – Eu sou o empresário de vocês, mas isso não quer dizer que não me importe. Quero que estejam sempre em segurança, entende isso?
– Entendo...
– Você está bem? Se machucou lá fora? — neguei — Agora vá até Len. Ele está uma pilha e nervos desde que descobriu sobre seu sumiço. Veja se consegue acalmá-lo.
Assenti com a cabeça e ele sorriu de forma paterna antes de me largar. Antes de deixá-lo, lhe entreguei o cachecol e pedi para que levasse à lavanderia para mim (pois não queria devolver em mau estado). Apesar de parecer confuso com o pedido, Subaru não fez mais perguntas. Não perdi tempo e corri em direção aos elevadores enquanto enxugava os olhos.
★★★
No bolso da calça, encontrei meu cartão para abrir a porta do quarto. Depois de destrancada, girei a maçaneta sem medo e entrei pronta para o que viesse.
Ou pelo menos eu pensei que estava pronta para qualquer coisa...
– Neru. – convoquei ao constatar sua presença. Ela também foi a primeira, entre os dois, a me notar.
– Rinzinha, você voltou! – a loira, cheia de falsidade saiu do lado de Len e veio me abraçar. Obviamente, recuei ao seu toque e desviei dela até chegar ao meu objetivo real.
– Oi, Len. – cumprimentei inquieta. Podia sentir o olhar da balconista me fuzilando pelas costas.
– Oi, Rin.
A tensão entre nós era tamanha que pude ouvir nossos corações palpitando. Seus olhos eram duros, mas depois de alguns segundos começaram a se render e eu não perdi a oportunidade para fazer com que nos envolvêssemos num abraço apertado.
– Len... – Neru interrompeu o momento e eu quase rosnei de raiva – Acho que vamos continuar nossa conversa depois. Só não se esqueça de passar no hall mais tarde.
– Vá embora, porra! – gritei sem me virar para ela.
– Depois resolvemos isso, Neru. Nos deixe sozinhos por enquanto. – meu irmão também não fez esforço para encarar a garota enquanto se dirigia a ela.
– Claro, sem problemas. – ela respondeu seca. – Até mais, querido. E tchau pra você também, Rin.
Ouvimos então a porta se fechar com mais força que o necessário. Senti-me vitoriosa por um instante.
– Ah, Rin... – ele sussurrou em meu ouvido e tive de apertá-lo com mais força – Onde você se meteu esse tempo todo?
Desgrudamo-nos para que eu pudesse encará-lo nos olhos. Seria uma boa ideia mencionar meu novo amigo desabrigado? Não. Len morreria se soubesse que passei a noite com outro cara mesmo que nada de mais tenha acontecido. Enquanto pondero sobre minhas opções, ele analisa meu rosto com paciência. Isso é algo que ele sempre teve e nem o estresse nem a fama conseguiram apagar.
– Eu fiquei num hotel qualquer. – o gosto da mentira era amargo.
– Mas por quê? Não faz sentido.
– E-eu não podia voltar enquanto não te encontrasse.
– Mas você sabia que eu estava em casa. – protestou apertando os olhos com desconfiança e então deu uma olhada no visor do celular que estava ao seu lado na cama – Eu mandei uma mensagem de madrugada. São quatro da tarde!
– Eu sei, eu sei... – estava ficando nervosa. Não sou boa mentirosa, e fico pior quando sob pressão. – É que me perdi. Não achava o caminho de volta.
Torci para que ele engolisse a história e fiquei o máximo de tempo possível com um sorriso amarelo nos lábios na intenção de soar mais convincente. Por fim ele riu e me apertou as bochechas.
– Não posso deixá-la sozinha nem por um segundo e você se perde na cidade.
– Não foi um segundo, Len. – tendo um bom álibi, agora era minha vez de atacar. Saí de perto dele e comecei a tirar as roupas quentes começando pelas botas e depois o casaco. – Você sumiu por horas. Quase um dia inteiro. Onde você estava?
Então vi algo que não esperava que viesse de meu irmão nem em um milhão de anos: ele desviou o olhar e de a volta na pergunta.
– Me desculpe por não participar das tarefas de ontem. Imagino que tenha ficado com uma carga pesada.
– O quê?!
– Não se preocupe, pois vou compensar nas tarefas de amanhã. – declarou enquanto se levantava – Por hoje, acho que devemos ficar no quarto e esperar a poeira baixar com o pessoal.
– Len. – ele olha para mim – Onde você estava?
– Isso importa?
– É claro que importa! – explodo chutando um pé da bota e largando o casaco no chão. Ele suspira e se aproxima para me abraçar, mas eu desvio. – Por que está se esquivando desse jeito?
– Quem se esquivou foi você. – sorriu tentando ser engraçadinho. Eu não acompanho seu humor e permaneço de cara fechada. – Olha, você deve estar cansada. Por que não descansa um pouco? Eu faço cafuné até você dormir, que tal?
– Não. Quero conversar com você... Quero saber o que aconteceu para que ficasse tanto tempo fora.
– OK. – estalou os dedos – Peço perdão por deixá-la preocupada.
– Acha que é assim que as coisas se resolvem? – pergunto indignada.
– Com você? Sim. – sua voz não escondia a raiva crescente – Na verdade não. Até dois dias atrás tudo era motivo para sexo. É isso que você quer? É por isso que está tão brava?
Não respondo devido ao choque. Ele tenta agarrar meus braços mais uma vez, mas eu saio de seu alcance e caminho até o banheiro sentindo-me enojada.
– Pensei que confiássemos um no outro. – acuso.
– Eu confio em você. – declara com a voz um pouco menos alterada atrás de mim. Não parei até chegar à porta e agarrar a maçaneta. Antes de entrar no ambiente luxuoso de banho, lhe dou uma última olhada.
– Eu é que não consigo confiar em você.
Ele não reage, mas eu também não espero que o faça e me tranco atrás da porta do banheiro. Fico parada em silêncio por vários minutos e não escuto nada do outro lado da parede. De repente, no entanto, Len começa a pisar duro no chão. Parece caminhar sem rumo pelo quarto até que enfim pára e murmura algo impossível de se identificar de onde estou. Continuo ouvindo quando ele volta a se mover, dessa vez indo em direção à saída.
Depois, apenas silêncio. Estava sozinha de novo.
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