Abstinência
11 Teia de mentiras
Notas iniciais
Era finalmente noite, como eu podia ver pela janela do quarto — a hora certa eu não tinha como saber, uma vez que não estava mais em posse de um celular – Mas era uma noite incomum para a área urbana onde se encontrava o hotel: não ventava e as ruas estavam silenciosas. Tudo parecia estar de luto e contribuindo para meu isolamento.
Quando saí do banho mais cedo, Len não havia voltado. Cheguei até a cogitar a possibilidade de ele ter fugido outra vez, mas logo percebi o quão idiota era a ideia. Obviamente ele estava estressado e não queria contato comigo tão cedo.
– Como se eu ligasse. – resmungo para as paredes. Estou sentada em minha cama com o queixo apoiado nos joelhos. – Também não quero falar com você.
Ouço batidas na porta.
– Rin, estão te esperando para jantar. – era Jones.
Não respondo. Apenas me levanto e procuro por algum casaco para vestir por cima da camisola. Vejo meu casacão cinzento no chão do quarto e imediatamente lembro que em um de seus bolsos há algo extremamente valioso.
O pego e remexo o compartimento onde pensava ter deixado o presente de Kaito. Não há nada ali.
– Ai não! – surto. Começo então a vasculhar todos os bolsos, mas não há nada em nenhum deles. – Não, não, não, não, não... — continuo repetindo o mantra enquanto revisto a peça de roupa mais uma vez. Chego até a por o casaco do avesso, mas o resultado ainda sim é decepcionante.
Vencida, passo a procurar pelo chão. Olho debaixo das camas e dou uma chance até ao piso do banheiro apesar de estar ciente da improbabilidade.
Nada.
– Senhorita Kagamine? – Jones ainda estava no corredor? Será que me ouviu lamentando?
– E-eu estou me vestindo. – grito do banheiro e corro para pegar quaisquer peças de roupa no closet.
Um short e uma regata? Não. Os hematomas em minhas coxas ainda estão super visíveis. Que merda!
Troco-o por uma calça de moletom e a visto com pressa. Quando saio do quarto, meu guarda-costas está de braços cruzados e um olhar desconfiado. Dou-lhe meu melhor sorriso e ele revira os olhos.
– Só espero que não esteja armando nada, mocinha. As coisas já estão feias pro lado de vocês.
– Ah, Ronald... – dou-lhe um soquinho no braço e ele nem se move. O homem é uma pilha de músculos – Já aprendi a lição. Não vou fugir de novo. E eu já disse pro Subaru que minhas intenções eram ajudar nas buscas.
Ele descruza os braços respirando fundo e não diz mais nada. Jones sempre foi caladão, mas naquele momento parecia particularmente distante. Aproveito seu silêncio enquanto descemos os andares no elevador para me concentrar na questão do papel perdido. Tentei imaginar onde ele poderia estar que não na suíte. Talvez o tivesse deixado cair no saguão. E se por acaso algum zelador o jogou fora? Oh Deus!
– Senhorita Rin. – Jones me convoca de volta para o agora quando chegamos ao térreo. — Gostaria de dizer que foi um prazer trabalhar na equipe do Yollow-K por tantos anos.
– O quê?
– E também gostaria de desejar a vocês muito sucesso. Sei que têm talento e, quando largarem essa fase rebelde, vão perceber o quão grandiosos realmente podem ser.
– Ronald, do que você-
– Eu já devia ter ido embora, mas não achei adequado ir sem um adeus. Já conversei com Len mais cedo, então não se preocupe. – dito isso, meu guarda-costas literalmente me deu as costas e tranquilamente até a entrada.
Não consegui reagir. Ele estava indo embora? Para sempre? Por quê?
Assim que vi o porteiro dar um leve aceno de cabeça para o homem que deixava o hotel, fui para o salão de refeições. As portas estavam abertas e, diferentemente do que eu esperava, à mesa não estava apenas meu irmão e alguns membros da equipe, mas sim uma dezena de homens e mulheres desconhecidos e de cara de poucos amigos além do próprio Subaru que se encontrava na cabeceira. Quando me viu, levantou-se com um sorriso.
– Rin! Que bom que pôde se juntar a nós! Sente-se. Temos muito sobre o que conversar.
Enrugo a testa sentindo que não gostarei da conversa e procuro me sentar numa cadeira não muito próxima de Len. Ele me olha com o canto dos olhos, mas eu percebo. Assim que regulo a distancia entre mim e o encosto da cadeira, ele continua falando:
– Pois bem, pois bem. Hoje é o marco do início de uma nova era. – Subaru ergue um copo de espumante e todos os engravatados imitam seu gesto. Observo Len e ele não reage. — Rin, como eu já informei ao seu irmão, estes a nossa volta são a nova equipe de segurança da Yollow-K: Mirna, George, Aoi Lee, Joseph, Jackson, Longinus, Érica, Loren, Nami e sua irmã Sawa. Espero que agora entendam quando eu disser que é proibido deixar a companhia de seus guarda-costas.
– Você não pode estar falando sério... – Len se manifestou pela primeira vez desde que cheguei. Seu tom zombeteiro me incomodou.
– Ah eu estou. – Subaru não pareceu se importar – Hoje vocês me vêem como o vilão, mas mais tarde vão agradecer todo o cuidado e carinho que tive.
– Vai nos manter sob o olhar de dez pessoas? – perguntei.
– Cinco para cada. Acho que é o bastante.
Meu irmão joga a cabeça para trás e assim fica durante todo o resto da conversa. Começo a ficar irritada pois ele sempre foi o responsável entre nós dois. Por que esse comportamento infantil de repente? Eu é que tenho o direito de estar zangada, e não ele!
– Subaru, e quanto a Jones? – finalmente chego ao ponto que queria desde que cheguei ao salão.
– Ele não é mais um membro da Golden Records. – responde sem remorso e fico chocada.
– Você o despediu? Depois de anos conosco?
– A senhorita sabe tão bem quanto eu que ele não estava dando conta do que foi encarregado. – ele aponta indiscretamente para o loiro rabugento – E depois desse último episódio de sumiços, sinceramente ele não me deixou escolha.
Protesto mais um pouco, mas o homem não está a fim de mudar de ideia. Peço a Len que diga algo, mas ele apenas me encara por alguns segundos e então levanta da cadeira.
– Eu tenho muita coisa pra fazer, então acho que vou indo. – imediatamente cinco dos seguranças se levantam também e o escoltam.
O jantar continuou como se nada tivesse acontecido. Depois disso, só o vi – ouvi – quando veio se deitar. Permaneci de costas para ele e fingi que já estava dormindo para evitar qualquer conversa. Estava esperando que a luz de seu celular se apagasse a qualquer momento, mas, no entanto, fui pega de surpresa com um beijo em minha bochecha exposta.
– Boa noite. – sussurrou – Eu te amo.
Então desaproximou-se e finalmente o ambiente escureceu por completo. Tentei, com todas as forças, continuar atuando de Bela Adormecida, mas foi inútil. Com nenhuma delicadeza, sentei na cama.
– Len?
– Sim?
– Naquele show, três anos atrás, você disse que nunca soltaria minha mão. – minha voz estava falhando. – Mas você soltou.
– Não é verdade. – ele acendeu o abajur entre nossas camas e sentou-se assim como eu.
– É verdade sim. – continuo ao sentir as lágrimas quentes descendo pela face – Eu estou te perdendo aos poucos. Estamos presos por apenas um dedo, mas nossas mãos não estão mais unidas, eu sei disso.
Vejo seu rosto entristecer.
– Rin... Me perdoe, por favor. Não tenho sido eu mesmo há algum tempo. Está tudo tão difícil...
– Não está dificil só pra você! – explodo – Será que não entende? Eu também estou sentindo a pressão. Estamos juntos nessa!
Rapidamente, ele vem ao meu encontro e nos abraçamos com urgência e inquietude. Era como se o mundo estivesse prestes a acabar e a única coisa que o mantinha era aquele abraço. Se nos desconectássemos, tudo estaria perdido.
– Não. Você não tem nem ideia de como é difícil. Eu sempre tento aliviar a sua barra de responsabilidades, sempre vou aos encontros executivos, sempre fico com a maior carga nas declarações à imprensa. – sem afrouxar os braços a minha volta, ele falava com firmeza, mas pude perceber um toque de desespero. – E não estou tentando jogar tudo isso na sua cara. Eu adoro o que faço. – expôs — O problema é que estou cansado. Estou cansado de sentir medo.
– Do que tem medo, Len?
– De mim mesmo. Do que sei que sou capaz de fazer.
Afastei-o de mim para poder encarar seus olhos azuis, sempre idênticos aos meus, naquele instante se assemelhava aos de uma criança aterrorizada. Ele tremia e suava.
– Do que está falando? Deixe-me te ajudar, pelo amor de Deus! – implorei com o coração na boca. Ele demorou a responder. – Len!
– Eu não queria ser um monstro, Rin... – declarou ao jogar-se em meus ombros. Agora ele estava chorando – Sou um sádico sexual, um ladrão da inocência. Meu desejo mais obscuro é corromper minha própria irmã gêmea. Isso faz de mim um enorme narcisista também. – ele geme voltando a ficar de frente para mim – Mas o pior de tudo é que sou um idiota, um trouxa, por sofrer por você.
– O quê?!
– Eu sou um enorme imbecil por estar sofrendo há tanto tempo por nosso amor proibido, não sou? Enquanto eu estou por um fio de surtar, você está tranquila. Nunca se preocupa sobre sermos pegos. Nunca lhe ocorre que, caso aconteça, fiquemos separados para sempre. Ele puxava os fios de cabelo que estavam grudados na testa enquanto limpava as lágrimas em cuidado — Sempre achei que fosse apenas ingenuidade e confiança, mas hoje descobri que não. A verdade é que nada disso importa pra você.
– Por que está dizendo essas coisas horríveis? – minha voz é fraca.
Ele começa a rir e tenho calafrios. Então se levanta de repente, vai até seu closet e, de uma gaveta, pega algo como uma bola e a joga para mim. Por reflexo, defendo o rosto, mas o objeto não passa nem perto de minha cabeça e pousa suavemente no chão a minha frente. Espero por algum comando, mas meu irmão continua parado do outro lado do quarto sorrindo de forma macabra. Engulo em seco e abaixo-me para pegar o objeto.
É, na verdade, uma folha de papel amassada. Abro-a com cuidado e passo os olhos pelo conteúdo. É um texto? Não, são versos. Uma canção.
Uma sensação de náusea domina meu corpo à medida que vou analisando as estrofes e, no fim da página, uma letra: K. Agradeço por estar sentada, pois as pernas falham e o mundo silencia por um segundo. Era, obviamente, a letra que Kaito compôs e me deu de presente. Engulo em seco encarando-o. O sorriso assustador havia ido embora.
– C-como achou isso?
– Estava pulando para fora de um de seus bolsos hoje cedo. – explicou. Tento pensar em qualquer coisa para lhe dizer, mas as palavras me faltam. – Você não se importa conosco porque já tem um namorado reserva. É tão obvio!
– Len...
– Agora me diga: há quanto tempo está se encontrando com esse poeta de merda?
– Eu não estou te traindo! – defendo-me.
– Há quanto tempo!? – insistiu berrando fiquei acuada. Minha cabeça latejava e eu não sabia o que dizer a ele.
É verdade que não estava traindo-o com Kaito. Eu o conhecia há apenas um dia, droga! Não haveria problema em contar-lhe a verdadeira origem do presente, mas algo em mim me instigava a mentir e manter a existência do ladrão de cabelos azuis em segredo.
O que fazer? Não queria enganar Len. Ainda mais depois do tanto que ele revelou. Mentir traria apenas mais desconfiança para nossa relação.
No entanto, se eu contasse a verdade, não deixaria nenhum detalhe sobre aquela estranha noite de fora e ele poderia encarar mal o fato de ter dormido junto do rapaz solidário, dentre outras coisas. Ou seja, isso com certeza traria discórdia e preocupação para o coração e mente lotados de meu irmão.
O que fazer?
O quê!?
Com os olhos bem fechados e uma semente de arrependimento já brotando pelo que eu estava prestes a fazer, abri a boca:
– Não é nada disso, seu maluco! – berrei usando todas as minhas energias – Fui eu que escrevi essa música. Não vê o K? Kagamine!
Me desculpe, Kaito. Me perdoe, por favor! Por favor..!
– Não me faça de idiota, maninha. Eu conheço sua letra e não é nada parecida com esta. Por que andaria com ela por aí dentro do casaco? Além de que, se estava escrevendo para si mesma, por que assinar?
Dei uma risada forçada e caminhei até ele pensando rápido.
– Isso era um presente para você. – expliquei mantendo o papel bem preso debaixo de meus dedos – Eu finalmente terminei e iria entregar quando o nos víssemos ontem. Mas infelizmente não fui eu a encontrá-lo, então acabei esquecendo que estava comigo. – vendo sua expressão mudar por completo, senti-me confiante a continuar – E sobre minha letra de mão... Saiba que é muito difícil escrever encima da colcha da cama, o único lugar em que eu poderia fingir que não estava fazendo nada. Por muitas noites eu fingi estar dormindo, mas na verdade estava elaborando essa belezinha!
Finalizei a cascata de mentiras e desejei morrer naquele minuto.
Desprezível! É isso que eu sou.
– Rin, eu... Eu nem imaginei... Me perdoe...
Uma pessoa horrível!
– Eu te amo. – sussurro e é quando seus lábios encontram os meus em puro êxtase.
Uma traidora!
– Eu também te amo. Mais do que posso suportar. – acrescenta aumentando a intensidade dos beijos.
Quando dou por mim, estamos no chão. Estou no modo automático. Não sinto nada, não entendo o que estou fazendo quando arranco sua camisa. Len faz o mesmo comigo, mas está tudo confuso. Minha mente não acompanha os fatos.
Sou repulsiva!
Seu peito nu contra o meu me faz arrepiar e, antes do que percebo, estou gemendo. Ele também está.
Deplorável!
– Len, eu preciso de você. – murmuro em seu ouvido. Era a única maneira de aliviar a dor que o peso das mentiras proporcionava. Seus dedos exploram minhas costas com impaciência.
– Não podemos negar o desejo. – ele responde fazendo alusão ao que dissera algum tempo atrás. Assim que acaba a frase, usa os lábios para traçar uma linha entre meu queixo e a clavícula.
– Não desista de nós. – pedi.
O loiro me puxou para mais perto de si e começou a se movimentar com maior velocidade. Senti que a qualquer momento eu poderia explodir. Todo meu corpo queimava apesar de ainda não estar em total sintonia com o “agora”.
Não demorei a chegar ao ápice e segundos depois Len saiu de dentro de mim e ficamos ambos jogados no piso frio de madeira. Estávamos arfando.
– Basta que você continue me convencendo de que vale a pena. – ele interrompeu o silencio — Como fez hoje. – não disse nada. A vergonha estava voltando e tudo que eu queria era adormecer para fugir da dor.
Estou chorando novamente.
– Não fique tão emocionada. – sorri ao meu lado – Eu também tenho uma surpresa para você no estúdio amanhã. Agora vamos dormir. Eu te levo para a cama.
– Durma comigo. – peço num gesto desesperado. As lágrimas não são de alegria.
– Claro, meu amor. – então nos cobrimos no colchão e dividimos a cama como sempre gostei. O alívio não é duradouro. – Eu te amo.
Então é isso: sou a razão para os demônios de meu irmão; sou mentirosa; sou aproveitadora. Usei Len para aliviar meus pesares. O que ele é para mim? Uma droga barata? Uma lata de álcool onde posso me afundar quando as coisas não vão como planejadas? Sei que não, mas então por que o usei como tal?
Porque você é uma viciada imunda.
– Me desculpe... – deixo sair e Len apenas me abraça por trás e fecha os olhos.
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