Abstinência
5 Em alta velocidade
Notas iniciais
Desci até o térreo com meu casaco em mãos e um gorro na cabeça. Não estava tão frio assim, mas não queria ser reconhecida e causar mais confusão ainda.
Dei uma olhada pelos corredores e notei que estava tudo muito calmo em comparação a mais cedo naquela noite. Resolvi checar o celular e constatei, assustada, que já passava de duas horas da manhã.
– Isso explica o sossego...
Comecei a ouvir vozes e me escondi atrás de uma pilastra grossa que estava ao meu lado. Senti-me uma agente secreta.
– Ainda não encontraram. – disse uma das mulheres que passava – E eu ouvi que só voltarão ao hotel quando acharem o garoto.
Contei até 10 antes de sair de meu esconderijo e seguir em direção ao hall.
Lá, encontrei cinco seguranças postos de guarda, além de dois hóspedes. No balcão, adivinhe: Neru.
Como poderia chegar à porta desse jeito? Mesmo com o casacão, seria reconhecida pelos seguranças.
Um deles pôs a mão direita na orelha, bem em cima da escuta que todos usam para trabalhar e olhou para os fundos da recepção, em direção ao lgar de onde eu vim. Meu coração foi parar na boca.
Ele então fez um gesto para os outros que o observavam com atenção, disse alguma coisa que não pude ouvir e todos os cinco começaram a andar em direção ao corredor de acesso aos elevadores.
Ou seja, em minha direção.
Rapidamente, voltei para trás da pilastra agradecendo a Deus por ser tão pequena. Eles nem sequer olharam para os lados. Entraram todos no elevador e sumiram atrás das portas de aço.
Respirei fundo sentindo-me aliviada e espiei a entrada notando que os hóspedes não estavam mais na recepção.
Isso! A sorte estava do meu lado, afinal! Estava tudo caminhando convenientemente bem para mim.
Agora eu só precisava passar por Neru e hoje eu particularmente não me incomodaria em dar uns tapas nela se fosse necessário...
– Vai sair?
Gritei quando a própria surgiu a minha frente. Como conseguiu me ver?!
– Shh! Quer parar de escândalo, por favor? – ela cruzou os braços e revirou os olhos – Se você for procurá-lo, tem de sair agora ou não terá outra oportunidade. — permaneci encarando-a sem compreender nada – Anda logo! – disse enquanto me puxava pelo pulso até a porta giratória que levava para a rua.
– Ei, Neru. O que você...
– Escute. – ela me interrompeu. Sua expressão deixava transparecer impaciência – Ele sempre volta depois de uma ou duas horas, mas hoje... – ela então soltou meu braço e pude ver seus olhos ficando úmidos. – Ele está demorando de mais.
– Pois é. – puxei meu pulso de volta — Eu sei. Onde ele está? – perguntei nem um pouco a fim de sentir pena dela.
– Ele não disse para onde ia...
Uma pequena alegria passou por mim ao constatar que aparentemente ele também não era tão aberto com ela quanto eu pensava, mas não foi o bastante para me fazer sorrir. Ainda estava preocupada e tinha uma missão a cumprir.
– E por qual motivo você espera que eu o encontre? Por que não foi você mesma procurá-lo já que está tão preocupada?
Desgosto passou por seus lábios e ela uniu as sobrancelhas.
– Vocês têm essa coisa irritante de gêmeos... Parecem imãs! Um sempre vai para onde o outro está. – ela passou a mão pelos olhos que lacrimejavam. – Odeio dizer isso, mas tenho certeza de que vai conseguir encontrá-lo por causa dessa... Conexão. — o vento do lado de fora era gélido e balançava nossos fios dourados enquanto arranhava minha garganta e meu nariz. Permaneci em silêncio. – Se ele se machucou, a culpa foi minha...
– Não quero ouvir sua auto-piedade.
Neru não pareceu se incomodar com minha apatia.
– Vou te manter informada quanto aos locais por onde o grupo de busca está passando. Tenho esses dados pois estou acompanhando tudo com os seguranças que sobraram no hotel. — ela estava fungando, mas mantinha a voz firme em contraste com seu rosto devastado. Com determinação, levantou a mão direita e nela havia um pequeno aparelho celular. – Mandarei mensagens. Ainda tenho seu número.
Assenti e virei sem me despedir. Atrás de mim, pude ouvir seus soluços e minha vontade era de arrancar-lhe os dentes com um soco, mas compreendia sua dor e segui meu caminho pela noite.
– Evite ser descoberta e encontre-o, Rin!
★★★
Chegando ao centro da cidade, passei por bares e restaurantes lotados. Perguntei-me se Len poderia estar dentro de um deles, mas logo depois me dei conta de que meu irmão é anti-social demais para beber com a população festeira daqui. Além do mais, ele é um integrante da Yollow-K e não seria tão burro a ponto de se expor assim em público, portanto continuei andando até me afastar por completo do tumulto e do barulho.
Meu celular vibrou no bolso do casaco.
O visor informava que eu recebi uma nova mensagem. Selecionei “abrir” e me recostei a um poste de luz para ler:
"Estão dando uma segunda olhada no Parque Municipal."
Olhei para frente para assegurar-me de que não estava perto do parque e uma sensação horrível me percorreu dos pés a cabeça.
– Oh, Deus... Onde estou?
Acabei saindo demais da minha área habitual e parei neste lugar que parecia mais uma vila fantasma cheio de casinhas maltratadas e ruelas silenciosas. Tentei dar meia volta e seguir por onde achei que tinha vindo, mas só terminei por me afundar mais ainda no estranho bairro.
Maldição!
Continuei caminhando mesmo sem saber onde iria parar. Tinha de sair dali e rápido. Meus instintos diziam que ali não era lugar para alguém como eu.
Meu aparelho voltou a tremer e levei um enorme susto. Por sorte, o choque foi tanto que não pude gritar chamando a atenção de um suposto morador.
"Estão no centro da cidade."
OK, mas e onde eu estou?
A noite ia ficando cada vez mais fria e a sensação de medo me rodava. Estava sozinha num lugar abandonado e escuro e não podia contar com Neru para pedir ajuda. O que ela poderia fazer? Estava perdida e não é como se eu pudesse enviar coordenadas.
Minha determinação em encontrar Len era maior que o temor de morrer, por isso continuei sem olhar para trás.
– Rin, acalme-se. Vai dar tudo certo. – murmurei. Devo ter andado por dez minutos sem parar. Ao longe, pude enxergar luzes mais fortes de faróis de carros e uma estátua de pedra que retratava um homem de cartola e bengala.
Fiquei aliviada ao reconhecer o Parque Municipal, mas a sensação durou pouco pois reconheci a voz de Jones, meu guarda-costas. Ele não podia descobrir que também saí do hotel sem permissão! Parei de supetão e voltei alguns passos.
Sem escolha, resolvi fugir. Infelizmente, virei o corpo rápido de mais e acabei caindo com tudo no chão de pedra.
– Ah... – gemi baixiho. Pus as mãos em volta de meu tornozelo esquerdo. – Ah! – dessa vez não pude evitar o grito alto. Foi como se eu tivesse golpeado o local. Tentei levantar, mas a dor me fez cair novamente.
O vento da madrugada me atingiu as orelhas. Olhei para trás e vi meu gorro no asfalto. Ainda estava decidindo como proceder quando ouvi passos atrás de mim.
Merda, merda, merda!
– Len! – ouvi a voz de Jones aproximando-se. – Todos vocês, venham aqui!
Meu cabelo era da mesma cor e comprimento que o de meu irmão. Não foi absurdo de sua parte deduzir que essa pessoa sentada no asfalto era na verdade o fugitivo que eles buscavam.
– Não! Droga! – tentei me mover desesperadamente, mas senti o pé queimando. Seria esse o fim da minha busca?
Estava aceitando o terrível destino quando um par de pés surgiu em meu campo de visão.
– Problemas com a polícia, garota? Eu te ajudo!
Olhei para cima e me assustei com o homem que aparecera do nada com a mão estendida, mas não dispunha tempo para analisar a situação. Só tinha que dar o fora dali e ele estava disposto a fazer exatamente isso.
– Tenho que fugir deles, mas acho que torci o tornozelo. – disse pondo-me de pé com seu apoio – Me ajude, rápido!
Ele olhou para os homens que se aproximavam gritando ordens para que não nos mexêssemos.
– Relaxa, loira. Vou ter que te carregar, então com licença. – antes que eu pudesse responder qualquer coisa, ele puxou meu corpo para si e me levantou passando-me para suas costas sem dificuldades.
– Vamos, por favor! – gritei olhando para trás e apertando bem os braços contra seus ombros.
– Se segure! – alertou e então começou a correr.
Ele era muito rápido e parecia conhecer bem as ruas. Fazia curvas e desviava de carros com bastante facilidade, deixando nossos perseguidores perdidos e para trás.
O homem diminuiu o passo e só então reconheci o lugar. Ele estava me levando diretamente para vila fantasma.
– Aqui não mora ninguém! Vão nos encontrar facilmente! – adverti.
– Deixa comigo, loira. Não vão nos pegar, prometo. — suas palavras soavam tão confiantes que não tive escolha senão acreditar que estava segura.
Passamos por um portãozinho de metal arrombado e fomos em direção a uma casinha humilde e de aparência frágil. Quando chegou perto da porta de entrada, uma luminária de luz branca automática acendeu com nossa presença, iluminando tudo com um clarão inesperado. Pude reparar de verdade em meu salvador e o que mais me chamou a atenção foi seu cabelo.
– Azul... – sussurrei antes de ele esmurrar a porta e nos levar para dentro do cômodo, que ao contrário da parte de fora, estava completamente escuro.
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