Abstinência

6 Príncipes e princesas


Notas iniciais
Bom dia! Mais um capítulo, mas não se enganem: eu só to postando rapidinho assim pq é uma reescritura e portanto já tenho tudo pronto e só preciso mudar um detalhes aqui e ali. Quando chegar na parte que terei de criar do zero, pode ser que leve uma semana até sair capítulo novo. Gomen :c No mais, espero que gostem desse de hoje!! Bjs Hoe~

Assim que fechou a porta, meu salvador foi em direção a janela deixada entreaberta por onde entrava a pouca claridade da lua.

Eu ainda estava em suas costas, agarrada com os braços e as pernas, portanto pude sentir sua respiração e os batimentos cardíacos acelerados provocados pela corrida.

O homem de cabelos azuis ficou observando em silêncio, talvez esperando por nossos perseguidores.

– Os despistamos? – sussurrei constrangida por quebrar o silêncio.

Ele levou os olhos azuis até os meus e lançou um belo sorriso.

– Acho que sim. — respondeu quase sem fôlego e pude reparar pela primeira vez em como sua voz era grossa e aveludada.

Ele retomou a caminhada e seguiu lentamente pelo cômodo, o que deu tempo para minha visão se acostumar à escuridão e começar a distinguir as formas.

Estávamos numa sala que, apesar de possuir o mesmo aspecto abandonado que o lado externo exalava um ar mais humano. Alguém vivia ali.

Um sofá manchado, uma mesinha de centro e duas estantes de livros compunham a mobília. Alguns quadros empoeirados enfeitavam as paredes descascadas e um tapete modesto separava a área de estar da área de jantar — que só possuía uma mesa de plástico para duas pessoas e uma cadeira com encosto trançado de palha.

Chegando ao centro do espaço, ele me desceu de suas costas com cuidado, pondo-me sentada no sofá. Senti que me olhava com curiosidade, mas nenhum de nós disse nada, então aproveitei para analisá-lo de cima a baixo: o corte de cabelo era irregular com mechas que caíam pelo rosto, que por sua vez, era belo e angular apesar de levemente empoeirado. Um cachecol comprido lhe cobria o pescoço e isso me fez sentir secura na garganta já que eu não estava usando um. Percebi também que tinha braços e pernas bem fortes. Tanto que os músculos podiam ser notados mesmo por debaixo das roupas de frio. Ah, claro, isso tudo para não falar de sua altura. Com certeza media mais de um metro e oitenta, e sem senti uma anã com meus um e sessenta.

– Obrigada... — quebrei o silêncio novamente sem fitar seus olhos — Não sabe como eu ficaria encrencada se me pegassem.

Ele sorriu mais uma vez e eu baixei mais ainda o rosto por vergonha. Não sabia o motivo, mas estava ficando encabulada com sua presença.

– Não precisa agradecer, é sério. – anunciou e veio sentar-se comigo.

Como se aquela proximidade já não fosse desconfortável o bastante, o homem de cabelos azuis levou uma das mãos até minha perna esquerda, agarrando e pondo-a em cima de seu colo, o que fez com que todo o meu corpo virasse em sua direção.

Eu não sabia o que fazer e senti meu coração acelerar. Seria meu herói na verdade um estuprador?!

– Então... Você é nova nisso? — perguntou num tom de voz macio e despreocupado enquanto desamarrava o cadarço da minha bota.

Meu Deus! Como a situação ficou desse jeito?

– N-nova? — perguntei tentando manter a calma. Em resposta, ele voltou a me encarar em silêncio. Tive a impressão de que eu explodiria por pura tensão.

– Só estou dizendo que você não tem cara de quem tem experiência com esse tipo de coisa — deu de ombros.

Agora eu tinha certeza: aquele homem não era um herói como pensei. Ele me carregou até seu covil de estupro e eu, tola, fui de boa vontade. Tinha de tomar uma providência ou seria violada ali mesmo! Como fui ingênua!

Não podia lutar contra ele. Também não podia correr. Percorri o cômodo com os olhos em busca de algo com o que me defender, mas não encontrei nada.

Segurei o choro.

Enquanto isso, o homem continuava a retirar o laço e o nó com uma calma torturante. Por fim, perdi totalmente a coragem e desmoronei:

– Por favor... — pus as mãos cobrindo os olhos para segurar as lágrimas que vinham — Eu... Eu...

Não conseguia encontrar o que dizer. Tudo que eu queria era evitar a continuação dessa cena de horror, mas ele não pareceu me ouvir e poucos segundos depois eu estava descalça.

Senti sua mão descendo lentamente por minha canela agora desnuda. Um arrepio me fez congelar.

– Vamos começar. — declarou o malfeitor — Vê se não faz muito escândalo, loira.

É agora!

– Len... — sussurrei o mais baixo que pude esperando pelo que vinha a seguir.

Então uma dor dilacerante veio do meu tornozelo e eu por pouco não caí do sofá.

– Ah!! — Gritei com todo o ar que tinha nos pulmões – O que está fazendo?!

– Cuidado. — o azulado me segurava com firmeza, impedindo que eu me debatesse mais. — Sei que dói, mas eu tenho que verificar se não está quebrado antes de enfaixá-lo. Eu pedi para que não fizesse escândalo, poxa...

– O-o quê?! – berrei — Então era isso que... Ah!!

Ele continuou a tocar e apertar meu calcanhar e tornozelo. Eu gemia e gritava agarrada a uma das almofadas que compunham o sofá. As lágrimas desciam a toda velocidade e eu não conseguia parar de me contorcer.

Não sei quanto tempo durou aquela tortura, mas quando terminou eu estava banhada em lágrimas e suor.

– Parece que foi só um mau jeito. – concluiu antes de descer minha perna para me pôr sentada novamente — Não vamos precisar enfaixar.

Olhei para seu rosto tranquilo e tive vontade de voar em seu pescoço. Como podia sorrir depois de tudo o que passei em suas mãos?! E como assim "só um mal jeito"? Meu tornozelo parecia estar em chamas!

– Se iria só examinar, por que não disse isso logo?! Evitaria todos os pensamentos estranhos que tive!

– Como assim? – coçou a cabeça.

– E você é médico por acaso? — questionei talvez com um pouco mais de grosseria do que pretendia. Ele pareceu notar meu humor nada discreto e sorriu sem graça.

– Na verdade não... Eu só tive que aprender a me virar com lesões simples desde bem cedo. – deu de ombros — Bom, foi a minha primeira vez com pés e você foi uma cobaia e tanto. — riu.

– O que queria dizer com aquelas perguntas estranhas de antes? – ignorei sua piadinha.

– Perguntas?

Eu estava ficando sem paciência.

– Sobre eu não ter experiência, ou ser nova nisso... – enumerei — Do que diabos você estava falando?

– Você não tem cara de quem rouba muito. — explicou — Só com aquela fuga mal executada, eu diria que faz menos de uma semana que está no mundo do crime. — ele riu como se recordar daquele momento fosse divertido. – Mas pode relaxar. Um malandro não delata o outro.

Do que esse maluco estava falando?

– Eu não sou ladra! Nunca fui nem pretendo ser! – esclareci — E que história é essa de malandros? — rebati indignada enquanto me ajeitava no sofá. A dor que senti minutos antes já estava esquecida.

Ele pareceu não entender.

– Então por que aqueles homens estavam atrás de você? Havia policiais te perseguindo. Nem pense em negar porque eu vi com meus próprios olhos.

Droga... Como responder àquela pergunta? Resolvi realocar o foco do assunto.

– E quanto a você? Parece entender de fugas emergenciais e escolheu justo essa casa dentre tantas... Por quê?

– Tudo bem... — ele coçou o topo da cabeça e curvou-se para que a diferença entre nossas alturas diminuísse — Vamos começar de novo, que tal? Ficamos em silêncio por exatos 30 segundos (sim, eu contei) até que ele resolvesse abrir a boca – Olá. Meu nome é Kaito, mas meus amigos me chamam de Príncipe Azul. E você é..?

Ignorei o quão estranho era aquele apelido. Continuei fitando seu rosto que estava bem próximo ao meu e tentei não rir quando ele repetiu a pergunta sobre meu nome. Ele não podia estar falando sério...

– Você não sabe quem eu sou? — perguntei revirando os olhos.

Ele piscou com cuidado.

– Desculpe, loira. Já nos conhecíamos antes? – sua pergunta parecia sincera e deixei o queixo cair tamanha minha perplexidade.

– Não sabe mesmo quem eu sou? – insisti sem querer acreditar. Não é que eu me ache a rainha da música pop e que todos deviam nos idolatrar, mas meu rosto e o de Len apareciam diversas vezes em propagandas na TV, em outdoors pelas cidades de todo o país e até mesmo em capas de revista, portanto não era sempre que se esbarrava com alguém que não nos conhecia nem ao menos de vista.

– Não, desculpe — ele parecia um pouco envergonhado.

– Bom, meu nome é Rin, mas as pessoas me chamam de Princesa Amarela. — sorri soltando meu lado brincalhão. Ele pareceu receber bem a piada e deixou de lado o desconforto anterior.

– Nossa... Então somos os dois da realeza – concluiu fazendo uma reverência e pegou minha mão para beijá-la de leve. Acabei soltando uma gargalhada curta e tímida — E qual é a idade da princesa?

– 17.

Ele arregalou os olhos.

– Estou surpreso. Você é tão...

– Pequena, eu sei. – completei sem me deixar abalar pela falta de tato de Kaito. — E quanto a você, príncipe?

– 23. — ele fez uma pausa, o que me deu tempo para ficar surpresa também. Ele não parecia ser tão mais velho. — Mas me diga: o que levou vossa alteza as ruas esta noite?

Suspirei. O melhor seria manter o senso de humor.

– O castelo estava em crise. Um dos meus servos fugiu e não conseguimos localizá-lo. — à medida que narrava a história metafórica, todo o sentimento de preocupação e perda iam me invadindo pela segunda vez na noite — E sabe como dizem: se quer algo bem feito, tem de fazê-lo você mesmo. Por isso fui atrás dele pelas ruas do reino mesmo não tendo permissão para deixar o palácio.

Kaito agora me observava com um olhar difícil de decifrar.

– Aposto que aqueles homens são guardas reais e te levariam de volta se te pegassem. — não foi uma pergunta, mas assenti cabisbaixa de qualquer forma. – Então está decidido! — ele deu um pulo e eu me assustei — Hoje eu serei o seu acompanhante, vossa alteza Rin! Com o meu auxílio, encontraremos seu servo fujão e os dois poderão retornar ao castelo sem serem vistos. Eu prometo.

Eu permaneci imóvel. Ele realmente propôs me ajudar a encontrar Len? Perderia mesmo o resto da madrugada apenas para guiar uma pessoa que acabara de conhecer?

– O que você ganha com isso? — perguntei apreensiva. No ramo artístico, aprendi a não confiar em nada que venha fácil demais.

Ele deu mais um de seus sorrisos calorosos.

– Sou um cavaleiro. Não posso aceitar recompensas.

Corei mais uma vez. Esse homem de fato existe? Estaria eu alucinando?

– Acho que terei e aceitar sua escolta, Príncipe Azul. — apontei para meu pé — Não estou em condições de ir sozinha, de todo modo.

Então, sem mais delongas, Kaito me ajudou a ficar de pé e fui, apoiada em seu braço musculoso, mancando até a porta.

– Se vir um dos guardas, basta subir em minhas costas. — disse abrindo a porta e checando se estávamos a sós.

– Quando chegarmos ao castelo, lembre-me de nomeá-lo Sir Especialista em Fugas. — esperava que risse de minha piada boba, mas ele apenas apertou os olhos fitando a lua crescente.

– Fico honrado... – respondeu com o tom de voz baixo. — Mas esse título eu já possuía antes de te conhecer, princesa.

★★★

Mal chegamos ao centro da cidade e eu já estava cansada. Talvez pelas atividades do dia somadas à adrenalina da noite. Bocejei nada discreta.

– Não prefere continuar a busca amanhã? — perguntou gentilmente.

– Impossível. Eu preciso encontrá-lo ainda esta noite.

Kaito pareceu animar-se.

– Por que essa urgência?

– Ora, eu já disse. Ele fugiu e eu tenho que encontrá-lo... — um novo bocejo me interrompeu — ...o mais cedo possível.

Ele não pareceu convencido.

– E eu posso saber como se parece o servo desaparecido? Seria mais fácil de identificá-lo na multidão, sabe?

Engoli em seco. Como descrever seu irmão gêmeo sem revelar esta informação?

– Ele... Bem... – cocei a garganta — Na verdade eu não sei direito. — senti o gosto amargo da mentira — Mas se o vir saberei quem é.

Ele parou de repente e suspirou.

– Rin, não posso te ajudar se continuar se esquivando assim.

– Não estou me esquivando.

Ele revirou os olhos como uma criança.

– Não acha que está em débito comigo depois do que fiz esta noite? Do que ainda estou fazendo?

Ele tinha razão, mas o fato era: eu não sabia se podia confiar nele a ponto de contar quem realmente sou. E se o azulado resolvesse me sequestrar? O dinheiro ganho com o resgate poderia sustentá-lo pelo resto de sua vida.

Mas não só isso: E se a história de que Len some de vez em quando for parar na mídia? Subaru ficaria furioso e meu irmão também.

Eram muitas perguntas, porém, com o pé machucado, não havia muito que eu pudesse fazer sozinha. Teria de manter meu salvador no escuro por mais algum tempo. Pelo menos até encontrar Len.

– Kaito, eu... — mas ele já não estava prestando atenção em mim.

– Única apresentação dia 25 no Club Wazz. Ingressos no site. Não perca a pré-venda. – franzi o cenho a fim de entender de onde aquilo surgira. Ele não deu nenhuma informação e também não exibia expressão alguma. Nervosa, segui seu olhar e assim que vi o cartaz, fechei os olhos com força. Agora não estava mais em posição de mentir.

Bem a nossa frente, no muro lateral de um edifício, uma propaganda de talvez 2 metros de altura estava iluminado por um foco de luz branca vindo do poste na calçada. Nela, eu e meu irmão exibíamos enormes sorrisos e nossas poses chamavam pelos fãs com uma mão estendida e a outra segurando nossos microfones.

Engoli em seco e esperei pela reação do homem de cabelos azuis. Sequestro? Abandono? A prova de fogo seria a qualquer momento.

– Você é a de laço na cabeça?

– Sim.

– E ele é quem estamos procurando?

– Sim.

– Então você é famosa. — dessa vez não foi uma pergunta. Pôs as mãos na cintura e voltou-se para mim com um olhar tristonho. – OK. Voltemos ás buscas.

Ele virou-se rapidamente e só tive tempo de dar uma última espiada na foto de antes de segui-lo. Kaito dava passos largos e eu mal pude acompanhá-lo, mesmo sem mancar (já não sentia mais a dor no tornozelo. Era um mau jeito afinal), mas não reclamei. Não tinha mais saída ou desculpas pois ele já sabia a verdade, além de eu estar exausta demais para qualquer confronto. Resolvi entregar-me à sorte já que, das duas uma: ou ele realmente iria continuar ajudando a encontrar meu irmão...

...Ou eu estava mais encrencada do que poderia imaginar.

Notas finais
Diga o que achou! "Sua opinião é muito importante para nós" - agora sou atendente de telemarketing? uhauhahu Ah, sim: boas vindas aos novos leitores!