Abstinence
28 Capitulo 28
Notas iniciais
DEZ DIAS DEPOIS
Meu sogro marcou o encontro com a mulher que diz ser a minha mãe. Eu sei, eu deveria estar feliz, ou pelo menos com o coração aberto.... Mas, eu não estava. Meu coração estava cheio de raiva e ressentimento.
— Amor, você precisa se acalmar... – Regina sussurrou contra meu ouvido e me deu um beijo na bochecha.
— Não tem como... – Sorri olhando para ela. – É como se todo o inferno que eu vivi estivesse voltando e me puxando, sabe? – Respirei fundo.
— Eu estou aqui com você.... Talvez esse inferno possa ser um pouquinho melhor comigo do seu lado. – Sorriu e entrelaçou nossos dedos.
— Com certeza, ele seria mil vezes melhor.
E definitivamente seria. Regina chegou na minha vida mudando tudo.... Algumas coisas para melhor e outras nem tanto, mas mudou. Lembro de quando começamos a nos envolver, aquela festa maluca da Victoria me trouxe o melhor presente que eu poderia ganhar: O amor da minha vida.
Regina.... Ela é feita como eu, pedaço de passado mal vivido, ou acontecimentos inesperados que causam grande estrago dentro do coração. Entretanto, ainda chegando de mansinho pude encontrar nela uma parte de alguém que tem um coração tão cheio de amor, e tão meiga. Ainda pequena por fora, mas tão grande por dentro, podendo encantar apenas com o sorriso, parar seu respirar somente com o olhar. Ela é o reverso daquilo que se encontra em qualquer lugar. O oposto de comum, ela é rara de se encontrar. Mas eu encontrei.
Foi inesperado, ela apareceu de forma tão comum, e pareceu tudo que eu queria. Foi tão arrasador, seu sorriso fácil, seu jeito de agir, era tão banal, tão seu, tão natural, e atraia toda minha atenção, era onde meu mundo acabava, e começava o desconhecido, ou não sei, algo que eu queria muito fazer parte. Sabe, eu sou bem louca, tento descrever o indescritível... Mas, uma multidão de ideias que me vem à cabeça e a única certeza que eu tenho é que ela é o que faltava na minha vida...Ela é a pessoa que eu vou cuida para sempre.
Eu acredito em amores eternos, daqueles que acompanham a gente pela vida inteira, como se tempo e amor se fundissem num só elemento, tornando-se imutáveis, indestrutíveis. Acredito em amores eternos, daqueles que vão com você para qualquer lugar, não importando o quão distante você esteja, por que a pessoa amada reside em seu próprio coração. Acredito em amores eternos e sublimes, capazes de reconsiderar tudo, com suavidade, ternura e perdão. Acredito, sim, em amores para toda a vida, e além da vida, pois seria um tipo de amor unido à própria alma, e sem alma a vida não tem razão.
Me desculpe, fiquei falando da mulher que eu amo e acabei esquecendo da mulher que eu ia encontrar em poucos minutos. Ah, essa de certa forma acabou com a minha vida antes mesmo de começar.
O senhor Henry estacionou o carro em frente uma casa simples perto de onde eu morava com a minha mãe adotiva. Meus pensamentos começaram a ficar ainda mais agitados, ou seja, queria dizer que ela sempre esteve por perto! Ela morava ali perto e nunca falou comigo! Nunca tentou contato a minha vida inteira e do nada queria reestabelecer um contato que completamente nunca existiu? Não, eu não iria permitir.
— Chegamos, Emma. – Meu sogro sorriu docemente.
— Eu morei a minha adolescência toda a duas ruas daqui. – Passei uma das mãos no cabelo.
— Sim, ela arrumou uma maneira de ficar perto, uma maneira de que ela pudesse te ver.
— Quer que a gente fique no carro? – Regina perguntou.
— De maneira alguma... Eu preciso que vocês entrem comigo, caso contrário eu não vou conseguir. – Sussurrei.
— Okay... – O homem abriu a porta e tocou a campainha.
Logo uma mulher baixinha, de cabelos pretos e bem branquinha abriu a porta. Eu arriscaria dizer que ela parecia a branca de neve... Mas, um pouco menos cuidada. Apertei fortemente as mãos da minha namorada e ela me deu um selinho.
— Vamos... – Regina abriu a porta e eu fiz a mesma coisa, mas lentamente. Meu medo queria que eu saísse correndo dali.
A tal mulher começou a chorar desesperadamente quando nossos olhares se encontraram e eu não me reconhecia. Eu estava fria, sem reação alguma... As lágrimas não escorreram e eu fiquei apenas lhe encarando. Talvez fosse a raiva falando mais alto... Ou novamente aquela sensação de abandono me dominando. Não sei explicar o que aconteceu naquele momento.
— Eu quero ir embora. – Olhei para o meu sogro.
— Emma, você precisa resolver o seu passado... Sabe disso. – Ele se aproximou e me abraçou. — Está tudo bem, nós estamos aqui... Nada de ruim vai acontecer. Eu prometo.
— Filha... – A mulher começou a se aproximar e eu dei um passo para trás.
— Para você é Emma. – E pela primeira vez eu consegui lhe encarar intensamente.
— Você é minha filha... – Continuou se aproximando.
— De sangue. – Retruquei.
— Eu sei... Eu te devo milhões de respostas. Vamos entrar, posso falar tudo o que quiser saber.
Respirei fundo e entrelacei meus dedos ao de Regina novamente, ela sorriu e acariciou meu rosto.
— Vamos, amor... Dê uma chance. Uma única chance que ela consiga pelo menos se explicar. – Sussurrou e eu assenti.
— Vamos entrar... – Encarei a mulher novamente.
Nada nos dá mais confiança e coragem que a superação. Quando todos pensam que você já deu tudo de si, que não é capaz de seguir adiante, você surpreende dando mais um passo, quebrando o ciclo de sofrimento. A superação é um criadouro de esperança, ela faz nascer uma nova pessoa, cheia de segurança, força e fé em si mesmo.
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