Abstinence
29 Capitulo 29
Notas iniciais
Quantas vezes, ainda na presença de alguém, temos a nítida sensação que em qualquer momento podemos ser abandonados? Quantas vezes, diante de um atraso, sentimos o verdadeiro pânico? Quantas vezes nos desesperamos diante da possibilidade da pessoa amada nos deixar?
Quem viveu o abandono durante a infância sente um medo incontrolável de ser deixado e procura a todo instante arrumar um jeito de não sentir essa sensação novamente. Crianças abandonadas como eu, tendem a entrar na vida adulta com inúmeros traumas. O mundo nos assusta, tudo parece perigoso e temos a tendência de não confiar em ninguém além de nós mesmos.
Cada vez que vivenciamos uma situação de perda é como se estivéssemos revivendo a situação original do abandono, eu cresci a minha vida toda com essa sensação de rejeição. Podemos sim, tentar fugir dessas situações e sensações... Mas, é em vão, nunca vamos conseguir lidar de uma maneira tranquila ao termino de um relacionamento ou a morte de algum parente querido.... Porque aquilo, sempre vai representar o abandono, não vai mais existir, sabe? É realmente como se aquela pessoa estivesse nos deixando para sempre.
Para uma criança a coisa mais difícil é entender que foi abandonada, costumo a falar que essa dor é parecida a dor de tomar um tiro e ficar entre a vida e a morte. Não, eu nunca tomei um tiro... Mas, acredito que essa seja a sensação. E com o tempo, além de construir relacionamentos fracassados você mesma acaba se abandonando e automaticamente abandonando a vida.
Entramos na casa da tal mulher que se dizia minha mãe, o local era simples, porém muito bem arrumado.... Nada parecido com a casa de uma mulher que abandonou a filha logo quando nasceu, porque não tinha outra escolha.
Lembro-me de deixar minha bola cair várias vezes nessa casa e nunca apertei a campainha por medo, algo me dizia para nunca falar com a pessoa que morava aqui. Meus amigos sempre falavam com essa mulher, pediam a bola... ganhavam doces e riam, mas meu subconsciente nunca deixou com que eu me aproximasse.
— Perdi inúmeras bolas nessa casa... – Comentei com a minha namorada,
— Minha maior dor era o seu medo de se aproximar. – A mulher sussurrou e eu a ignorei.
Eu sei, estou sendo dura demais.... Porém, não é nada fácil ter que lidar com isso. Uma parte do meu passado que eu nunca quis procurar, nunca quis saber e agora tudo vem à tona como se eu quisesse saber.... E não, eu não queria.
— Emma, quero que saiba que a qualquer momento podemos ir embora... – Meu sogro se aproximou. – Vai doer? Claro... Mas, você precisa resolver isso aqui... – Colocou uma das mãos próximo ao meu coração.
— Sentem-se... – A mulher sussurrou. – Querem uma água, café...
— Não, obrigada. – Respirei fundo. – Quero saber o que fez você me abandonar e o que quer comigo agora.
Mary, o nome dela era Mary.... A tal mulher puxou uma cadeira e sentou na minha frente, logo entrelacei meus dedos com os de Regina. Eu precisava dela, precisava de uma pessoa que eu soubesse que jamais me abandonaria.
— Seu pai se chamava David, infelizmente ele se matou logo depois de deixar você no orfanato. – Uma lágrima escorreu de seus olhos. – Nós éramos uma família feliz.... Passei a sua gravidez tendo tudo o que eu queria, seu pai era um homem maravilhoso. – Sussurrou. – Só que ele perdeu o emprego e começou a mexer com drogas...
— Sempre as drogas... – Sussurrei e senti uma lágrima escorrendo do rosto da minha namorada. Regina estava com a cabeça deitada em meu ombro.
— Me perdoa... – Ela sussurrou.
— Está tudo bem, meu amor... – Acariciei seu rosto e encarei a mulher para que a mesma continuasse falando.
— David começou a fazer dividas e dividas com traficantes, além de drogas ele pegou dinheiro emprestado para montarmos o seu quarto... – Estendeu uma foto de um pequeno quarto montado de rosa e branco. – Ele teria que pagar em três meses todas aquelas dividas, por mais que ele fosse viciado em drogas e bebidas, nunca fez nada de mal a mim e muito menos a você.... Quando deu o tempo máximo, seu pai ainda estava desempregado e não tinha como pagar. Você já tinha nascido... Era uma bebe linda, parecia uma princesa. – Sorriu deixando as lágrimas saírem.
— Parecia uma princesa que logo foi abandonada... – Ironizei. – Porque? Você tinha a opção de ficar comigo e enfrentar todos eles! – Gritei. – Você tinha a opção de não me abandonar! Tinha a opção de proteger de todas essas merdas de traumas que eu tenho!
— Eu fiz isso para proteger você! Eles iam te matar, Emma! Foi um mês fugindo com você, noites sem dormir velando seu sono para que ninguém atrapalhasse! Até que o traficante deu ordens para começarem a invadir nossa casa. Seu pai apanhava todas as noites brigando para que eles não encostassem em nós duas.... Não tínhamos mais saída, meus pais tinham morrido e não conhecíamos mais ninguém. Em uma certa noite depois de quase um mês vendo seu pai apanhar eu resolvi tomar uma atitude...
— Matar. Bela atitude... – Ri irônica.
— Deixe- a falar...- Henry acariciou meu braço e a mulher respirou fundo.
— Eu fui atrás do chefe da quadrilha de traficantes. Nós começamos a discutir.... Não existiam os seguranças dele, estávamos a sós e eu o matei a facadas para proteger a minha família. Mas, eu sabia que minha consciência não iria aguentar e me entreguei para a polícia sabendo que você estaria segura com o seu pai. Alguns dias antes do julgamento, recebi a notícia de que seu pai tinha se matado por não ter aguentado a pressão. Ele ainda usava drogas e te deixou na porta daquele orfanato para que alguém lhe desse uma vida digna... a vida que nós nunca poderíamos te dar.
— Digna? Você tem noção do que é ser uma criança abandonada? – Meu tom de voz era alto, eu não conseguia me acalmar. – Tem noção do que é ser tratada igual um animal? Pessoas que me julgavam pela aparência.... Mandavam eu me arrumar, porque se não ninguém iria querer me adotar! Você nunca vai conseguir apagar as vezes em que eu fui conhecer casais na esperança de que me adotassem e logo depois receber a notícia que eles não tinham gostado de mim ou que me achavam velha demais, porque queriam alguma criança que crescesse com eles. Até os meus dez anos eu chorei todas as noites tentando entender o porquê eu tinha sido rejeitada pelos meus pais! Até que aquela senhora apareceu! Serei grata todos os dias da minha vida por ela ter me tirado daquele inferno.... Ela foi minha mãe! A que me deu amor, a que me criou! Com todo o esforço do mundo pagou escolha, me deu comida.... Me deu um lar!
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