Abstinência

8 Um pouco sobre mim


Notas iniciais
Oi oi! Ninguém me respondeu sobre o tamanho dos capítulos, então só de pirraça vou ser totalmente aleatória quanto a isso u.u ahuauha. Bom, estarei viajando essa semana, então nada de capítulos novos. Volto dia 8, então é só a partir daí que começo a escrever. Sem mais delongas, espero que gostem do capítulo 8! Beijoss Hoe~

Como Kaito havia dito, um roupão cor de piche pendurado acima da pia me esperava após o banho e eu o vesti rapidamente devido ao frio.

Sentindo-me muito pouco a vontade, abri a porta do banheiro vagarosamente e espiei o corredor. Tomei coragem e segui o percurso até o portal que dava passagem à sala por onde entrara e, de lá, fui até a entrada da cozinha de onde vinha a única fonte de luz da casa.

O rapaz mexia no forno e pareceu não notar minha aproximação. Estava com outras roupas e os cabelos azuis estavam quase secos.

– Hm... Kaito?

Ele seguiu o som da minha voz até encontrar meu olhar e já começou a falar.

– Desculpe deixá-la no escuro, mas eu só tenho essa – ele apontou para o lampião que estava em cima de uma das bancadas – e iria precisar.

– Não se desculpe... – me aproximei timidamente – Quem deve dizer isso sou eu. Comportei-me de forma horrível, mesmo depois de toda a ajuda que você me deu. Sou uma pessoa ruim então, por favor, me perdoe.

Fechei os olhos com força e baixei a cabeça, sem coragem para testemunhar sua reação. Fui surpreendida com um cafuné no topo de minha cabeça.

– Relaxa, Rin. Não estou mais bravo, juro. – ele se afastou um pouco – Na verdade só fiquei zangado porque você parecia chateada de verdade... Sou muito influenciável pelas emoções alheias, sabe? – riu.

Fitei-o perplexa.

– Mas eu o chamei de ladrão...

– E eu sou um, não sou? – deu de ombros — Vivo do roubo e moro escondido da polícia.

– Mas isso não justifica minha grosseria. – insisti.

– É verdade, mas mais importante que isso: não está com medo de mim?

Cruzei os braços sentindo-me confusa. Onde ele queria chegar? Por que não estava nervoso comigo?

– Não. – respondi – Deveria?

Ele alargou seu sorriso, voltando a parecer o Kaito de horas antes e por algum motivo (alívio?) eu também sorri.

Estava me sentindo realmente bem pela primeira vez naquele dia, mas o ronco horrível vindo de meu estômago estragou o momento. O rapaz caiu na gargalhada apoiando-se na parede ao meu lado.

– Eu não jantei! – gritei morrendo de vergonha.

– Vamos comer então, que tal? Também estou faminto. – e virou-se novamente para o forno. Quando não estava mais prestando atenção em mim, pus as mãos no rosto, desejando desaparecer. – Rin?

– O que? – separei os indicadores dos dedos médios, abrindo uma passagem pequena apenas para a visão, ainda mantendo meu rubor escondido.

– Me ajude com os talheres e pratos, por favor. Estão no armário – apontou.

Apanhei os talheres e fui até a “mesa de jantar”. Ele veio atrás de mim e nós dois paramos pela mesma razão: havia apenas uma cadeira.

Estava prestes a dizer que não me importava de comer em pé, quando ele estalou os dedos e animou-se.

– Mas isso não é problema. Por que não nos sentamos a medinha de centro?

– Em estilo japonês? – perguntei.

– Exato! Está tudo bem para você?

Assenti abrindo um sorriso tímido, mais para mim mesma.

– Espero que goste de macarrão. – disse sentando-se no chão e abrindo a panela que pusera em cima da mesa. Ao sentir o cheio da massa, não pude esconder minha satisfação. – Isso é um “sim”, loira? – perguntou apoiando-se nos próprios joelhos. – Sei que pela hora eu deveria propor um café da manhã. Mas infelizmente não tenho nada mais para oferecer e não podia deixá-la com fome...

– Mas eu adoro macarrão. Não precisa se preocupar. – garanti. – Na verdade tudo isso está me deixando nostálgica e faz lembrar a minha infância. – mexi na franja, sentindo-me sem graça.

Ele sorriu e me serviu com uma quantidade generosa de molho e macarrão. Quando já estava no meio do prato, notei que ele me encarava por debaixo de seus fios rebeldes. Ao ser pego, coçou a garganta e desviou o olhar.

– Conte-me mais sobre essa sua infância, senhora adulta. – ele soou sarcástico — Por que a situação te lembra dela?

Engoli o que mastigava e demorei a responder. Aquilo me pegou de surpresa e não estava certa quanto a querer conversar sobre isso.

– Por que quer saber? – enrolei.

– Sou curioso, só isso. Prometo não vou vender sua história.

Respirei fundo. Não havia mais motivos para duvidar dele e eu estava tão cansada que me abrir com ele soava menos trabalhoso do que esconder meu passado atrás de desculpas esfarrapadas.

– Tudo bem. – disse – Contarei uma história. Está pronto para ouvir?

Kaito parecia calmo no exterior, mas o modo como mastigava revelava sua exaltação interior. Aquilo foi o bastante para continuar:

– Minha mãe era japonesa. – comecei – Moramos com ela até os 10 anos no nosso país de origem. Éramos só nós três até ela... – calei de repente. Olhei para minha própria comida. – Promete realmente não contar a ninguém?

O que eu estava fazendo? Não que ele não fosse digno de minha confiança, mas ninguém além de eu e Len conhece esse passado nebuloso. E se ele não estivesse de acordo com esse compartilhamento?

– É claro! – Kaito se inclinou um pouco para frente e esticou o mindinho – Façamos um pacto.

Suspirei revirando os olhos e estiquei o meu até alcançá-lo.

– Devo estar muito cansada mesmo...

Ele sorriu.

– Juro que jamais revelarei seus segredos, Princesa Rin.

Sorri de volta.

– Então eu juro não contar os seus também, Príncipe Kaito.

Voltamos para nossas posições iniciais e eu não pude segurar a gargalhada que veio logo em seguida.

– O que somos afinal? Crianças? – perguntei.

– Que tal amigos? – propôs rindo também — Amigos confidentes.

– Você é estranho. – eu ainda tinha um sorriso nos lábios.

– Quero que confie em mim.

Esta frase fez com que eu corasse mais uma vez. O tom sereno com que o falara soou tão acolhedor que fez sentir como se realmente fôssemos amigos de longa data. Pensar nisso quase me fez chorar e resolvi ajeitei os cabelos pela milionésima vez para disfarçar.

A única pessoa em quem havia confiado durante toda a vida foi meu irmão e cá estou eu prestes a revelar um dos seus maiores segredos. Que tipo de irmã/amante sou eu?

Engoli em seco. Com o banho, a raiva havia passado e mágoa foi tudo o que restou. A mensagem de Len foi um soco na cara, mas talvez ele estivesse certo quanto a minha estupidez. Talvez eu merecesse ler aquilo, mesmo que minhas intenções tenham sido as melhores ao fugir do hotel para procurá-lo.

Mas se sou tão irresponsável assim como ele disse, acho que é natural que conte tudo a Kaito. Resolvi continuar:

– Nossa mãe nunca gostou muito de nós. Nosso pai não queria assumir as responsabilidades e muito menos se casar, por isso, a abandonou quando ainda estava grávida, voltando para seu país. — dei uma pausa esperando sua reação, mas ele não disse nada – Somos tão parecidos com ele, o homem que a abandonara, que ela não conseguia o ódio por nossa imagem. Quer dizer, ela até que se esforçou bastante para esconder isso e nem eu nem meu irmão desconfiávamos desse seu lado. Tivemos uma convivência bem agradável até os 10 anos.

– E quanto aos pais dela? Seus avôs?

– Eles já haviam morrido muito tempo antes.

Ele assentiu e eu percebi que estava realmente interessado na história.

– Havia problemas financeiros e sociais demais para ela lidar sozinha, por isso nós dois cantávamos nas ruas em troca de dinheiro desde pequenos. Foi quando descobrimos nosso dom. – sorri – Mas isso foi pouco antes de Len ouvir nossa mãe conversar ao telefone com um homem.

A tempestade lá fora começava finalmente a dar trégua, mas um relâmpago repentino iluminou todo o ambiente. Esperei o som do trovão para então continuar:

– Esse homem era nosso pai há tanto tempo esquecido em nossas memórias, já que mamãe nunca falava dele. – expliquei — Então tudo aconteceu muito rápido: ele veio até nossa casa e a pediu em casamento. Ela aceitou apesar de tudo pelo que passara nos últimos anos e fomos todos para seu apartamento do outro lado do oceano. Eu e Len, ingênuos, acreditamos que tudo ficaria bem e que seríamos uma família afinal.

Dei uma última garfada no macarrão e mastiguei sem pressa. Apesar da decisão de contar tudo a ele, não estava exatamente confortável com a situação. No entanto, me recusava a parar antes de chegar ao fim.

– O que pensamos até chegou a acontecer. – afastei o prato, pondo-o sobre o de Kaito — Aprendemos inglês e vivemos com luxo, mas não frequentávamos a escola e, por isso, tínhamos lições em casa com professores contratados por Darren.

– Darren?

– Ah, desculpe. É o nome de meu pai. – expliquei – E minha mãe se chama Myo.

– Desculpe, pode continuar.

Ele parecia envergonhado por ter perguntado. Sorri pois achei seu semblante coagido um tanto encantador.

– Ele não nos tratava como filhos e, pensando bem, ele não ligava nem um pouco para nós. Hoje temos consciência de que Darren havia feito tudo aquilo apenas para poder ter uma mulher a sua disposição quando quisesse. – bufei com desprezo – Mas o pior não foi ele, mas sim a Myo. Ela acabou por nos abandonar também e deixar os seus verdadeiros sentimentos a mostra. Tudo o que ela fazia da vida era cozinhar, limpar para agradar aquele homem desprezível.

Eu estava ficando indignada ao lembrar-me de como tudo parecia errado naquela casa. Kaito pôs uma das mãos sobre as minhas que estavam fechadas em punho. O gesto me fez relaxar os dedos, mas nem quando continuei falando ele retirou a mão.

– Os dois bebiam demais nos ignoravam completamente. Tivemos de nos juntar para não ficarmos solitários.

– E quanto aos professores? – agora era ele quem parecia angustiado, então afaguei de leve a palma de sua mão.

– Aos poucos Darren parou de pagar as mensalidades e eles pararam de aparecer. Len e eu ficamos presos com aqueles animais que, quando não estavam trabalhando ou bebendo, estavam transando. — então percebi o que havia dito e sorri sem graça – Desculpe. Detalhes de mais?

– Não, não. Pode me contar o que quiser.

Encorajada e sentindo que estava tirando um pouco do peso de meus ombros, tomei ar e prossegui:

– Estávamos com 12 anos e tivemos de assumir nossa própria guarda. Ou melhor, o Len assumiu, uma vez que eu sempre fui mais infantil que ele. – admiti – Ele se tornou o meu porto seguro, a pessoa mais importante do mundo. Passávamos noites em claro lendo ou conversando, e os dias eram encarados com música, pois assim conseguíamos aliviar nossos corações de algum modo.

Kaito retorceu o nariz como se sentisse o mesmo desconforto que eu. Nossas mãos ainda estavam se tocando.

– Havia uma saleta com alguns instrumentos musicais na casa e nós dois aprendemos a tocar e ler partituras com ajuda da internet e aos poucos tomamos um real gosto pela coisa. Então veio a grande ideia: Poderíamos ganhar dinheiro fazendo o que gostávamos e melhor de tudo é que iríamos embora daquela casa.

– Foi aí que se tornaram artistas famosos?

Ri.

– Claro que não. Acha que tudo é fácil assim? Infelizmente precisávamos da ajuda deles no processo e obviamente não deram o braço a torcer. Eram nossos tutores legais e não havia nada que pudéssemos fazer quanto a isso.

– Sinto muito, princesinha. – ele parecia solidário.

– Tudo bem, isso não importa mais. Eles não importam mais. – consertei — E já esperávamos essa reação deles, por isso decidimos fugir.

– Entendo. – sorriu brevemente ao entrelaçar seus dedos longos nos meus. Ficamos encarando aquela união por alguns segundo e então ele se levantou e pegou tudo o que estava em cima da mesinha levando para a cozinha e pondo dentro da pia antes de voltar. Esperei que se sentasse no chão novamente, mas não foi o que aconteceu.

Kaito largou seu corpo no sofá e se espreguiçou.

Olhando pela janela, vi que a chuva havia parado de vez. Notei que alguns pássaros podiam ser ouvidos. Já estava amanhecendo?

– Pode subir também, se quiser. – ofereceu.

– Não acho que seja uma boa idéia, Kaito... – cruzei os braços em volta do corpo. O que ele estava pensando? Eu estava só de roupão!

– Ei, não vou fazer nada. – tratou de avisar enquanto fingia enxugar uma lágrima de decepção – Pensei que confiasse em mim. Que tipo de homem você pensa que eu sou?

– Desculpe, senhor dramático. – bocejei. – Não era minha intenção ofender.

– Ah, relaxa. – bateu de leve na almofada ao seu lado. – Venha logo. Você está claramente com sono e eu lamento dizer, mas não tenho uma cama. Terá de se contentar com isso.

– Mas e quanto a minha história? – tentei desviar o assunto.

– Não acabou? Pensei que terminava com vocês fugindo na calada da noite e se tornando famosos. — neguei com a cabeça e mais um bocejo fugiu de meus lábios – Então eu ficarei contente de ouvir o restante dela quando você acordar. Mas agora, é sério, você precisa descansar. E eu posso acariciar sua cabeça até pegar no sono, que tal?

Não respondi de imediato, mas a cada segundo a ideia parecia mais tentadora e pouco tempo depois eu já estava aninhada em seu ombro.

Ele pegou uma almofada e acomodou-a no colo, fazendo menção para que eu me deitasse. Não estava mais em condições de discutir, então apenas fiz o que me pedia.

– Confortável? – perguntou.

– Hu-hum – murmurei enquanto me encolhia no pequeno sofá para impedir que qualquer parte de meu corpo fosse exposta durante o sono.

– Boa noite, princesinha... — sussurrou antes de começar a afagar meus cabelos e eu quase caí no sono instantaneamente com a sensação que seu toque proporcionava. Era simplesmente maravilhoso.

Tive a impressão de que ele cantarolava algo bem baixinho...

– Certo dia, num certo lugar, um prisioneiro se apaixonou por uma moça do outro lado da cerca. Isso é triste... Muito triste.

...Mas eu devia estar apenas sonhando.

Notas finais
Reviews? Favoritos? Recomendações? PS: ainda não respondi todos os reviews do capítulo anterior, mas foi por falta de tempo. Bjs!!