Abstinência

16 Tutorial de como amar


Notas iniciais
Oi oi! Esse capítulo tá bem doido. Espero que gostem! Hoe~

— Len, está ouvindo?

Estou sentada ao lado de Subaru, então consigo ver quando uma veia salta em sua têmpora depois de chamar a atenção de meu irmão pela quarta vez desde o início da reunião. Mordo os lábios e lanço um olhar para o loiro do outro lado da mesa, mas ele não está prestando atenção à nenhum de nós.

Nosso empresário está por um fio de explodir, então resolvo fazer algo:

— Len! – grito jogando minha borracha em sua testa. Por um milagre, eu acerto o alvo e o garoto pisca várias vezes ao voltar para a realidade. Seus olhos azuis pousam sobre mim durante alguns segundos e faço sinal com o ombro para que olhe na direção de Subaru que não parece menos furioso. Len entende o recado e pede desculpas ao homem de terno que, agora, ajeita a postura para continuar falando.

— Como estava dizendo, o programa não é mais ao vivo como antes. Os donos tiveram muitos problemas em relação a isso e agora todas as entrevistas são pré-gravadas. Vocês também terão acesso a todas as perguntas e todo o roteiro da programação de antemão, o que garante a descrição que a senhorita Rin tanto deseja.

— Quer dizer que podemos descartar qualquer pergunta da qual não gostemos? – questiono ligeiramente interessada na informação.

— Exatamente isso, querida. – ele sorri brevemente – Eu e vocês vamos receber essa papelada assim que chegarmos ao centro de produção da emissora, algumas horas antes da gravação. Depois de revisarmos tudo com calma, será a hora da maquiagem.

— Vamos cantar no programa? – Len interrompe bruscamente.

— Eu acredito que sim, mas a dublagem é uma opção caso não estejam dispostos ou com as cordas vocais aquecidas. – ele responde ajeitando as abotoaduras do pulso. Parece nervoso.

Pergunto-me se é por causa de Len. Quer dizer, estável não é exatamente a característica mais marcante do meu irmão nesse momento e, pensando bem, talvez seja pedir demais que ele se desgaste fazendo uma performance.

— Não será necessário. Eu quero cantar. – o outro diz.

— Bom, acho que tudo bem. – Subaru volta-se para mim – Rin?

— Ah, por mim tudo bem. Não é isso que fazemos: cantar? Vamos cantar.

O empresário parece decepcionado com minha resposta.

— OK... O programa é pré-gravado de qualquer forma. Se algo sair errado, editamos.

Depois dessa declaração estranha, prolongamos a reunião por mais meia hora e enfim estávamos livres desse estresse. Na sequência, encontramos com Yuhi e Blanca e ensaiamos algumas coisas que podem ser úteis para a apresentação no dia seguinte. Len parece perfeitamente profissional em todas as notas, tanto as cantadas quanto as tocadas, então sinto-me menos receosa quanto a um desastre qualquer que venha a acontecer no palco.

Tento me convencer de que preocupar-me com isso é besteira, já que Len tem feito uso de tóxicos há muito tempo e nem por isso arruinou algum show ou qualquer aparição pública. Se não fosse a tremedeira e os outros sintomas como falta de apetite e sono, apatia e violência, eu jamais desconfiaria de nada.

OK... Muitos sintomas, mas eu não tinha como ligar um ao outro e muito menos cogitaria a hipótese de uma dependência química.

Observo o semblante do loiro enquanto toca seu teclado e concluo que apesar do desastre que foi a conversa de hoje cedo, ele está bastante tranquilo.

Na verdade, tranquilo demais para o meu gosto...

— Len, você está bem? – pergunto enquanto os dois DJs discutem o arranjo de alguma música.

— Por que? Quer escrever sobre isso na carta-resposta ao seu amiguinho? – sua voz é firme e desinteressada, como se estivesse com essa resposta pronta há horas na ponta da língua.

Inspiro e suspiro delicadamente.

— Eu não vou me desculpar por defendê-lo, nem tomar a culpa por uma carta que recebi.

— Tanto faz. Acha que ele vai ver o programa?

— Ah, acho que não. Ele não parece ser do tipo “ligado” no mundo pop.

— Talvez seja, agora que te conheceu. – dá de ombros e eu checo se Yuhi e Blanca não estão prestando atenção.

— Não sei, Len. Não em importo. – sussurro mais agressivamente – Ele é meu amigo, e eu adoraria poder vê-lo de novo, mas sinceramente a coisa mais importante para mim nesse momento, é te ajudar. Estarei no quarto. Venha conversar quando acabar de dar chilique.

Viro de costas para abandonar o estúdio, mas ele segura meu pulso.

— Desde quando você é tão madura e decidida?

— As pessoas mudam. – digo seca antes de puxar o braço de volta e seguir meu caminho.

★★★

Que merda! Que merda! Que merda! Que. Mer. Da!

Len está o dia inteiro testando minha paciência com tanta intensidade que esqueço que tenho de pegar leve com ele.

— Ele está fragilizado. Ele está fraco. Ele precisa de você. – são as frases que fico repetindo mentalmente para me acalmar, mas infelizmente o efeito não é duradouro.

Ouço batidas na porta de repente.

Serviço da lavanderia. – uma voz feminina se identifica e vou recebê-la. A mulher que não deve ter nem 20 anos, usa uma roupa de camareira e trás num carrinho várias roupas lavadas e bem dobradas. Deixo-a passar com tudo para que arrume tudo nos cabides e gavetas do closet, mas uma das peças me chama a atenção.

— Com licença, posso ficar com isso? – pergunto apontando para o tecido azul vibrante cuidadosamente enrolado encima da pilha. A moça faz que sim com a cabeça e sorri para mim. Imediatamente reflito sobre o fato de que todos os trabalhadores do hotel me tratam cordialmente, com exceção de Neru.

Não sei por que meus pensamentos vagaram até a loira irritante da recepção, mas acabo ficando irritada com sua presença em minha mente. Decido pegar o tecido de uma vez e mudar o rumo de meus sentimentos.

Ao desdobrá-lo, posso confirmar o que suspeitava: é mesmo o cachecol de Kaito. Não consegui ter certeza antes porque ainda não o tinha visto limpo dessa maneira. Aproveito que os olhos da camareira não estão em mim e levo o cachecol ao nariz para checar o perfume e a maciez.

— Tenha uma boa noite, senhorita. – a moça repete o sorriso e o aceno de cabeça ao sair do closet e eu quase deixo a peça cair no chão devido ao susto. Ela não parece perceber e deixa o quarto sem mais delongas.

Mal acabo de fechar a porta, deixo escapar o ar que prendi desde a hora do susto. Não sei o motivo, mas sinto que acabei ficando com as bochechas vermelhas também. Talvez seja pela vergonha, mas não tenho tempo de pensar mais, pois ouço o “click” da tranca sendo destravada.

Como se estivesse com a arma de um crime em mãos, jogo o cachecol para baixo de meu travesseiro e sento por cima.

— Oi. – Len cumprimenta sem emoção na voz ao entrar – Os caras queriam saber sobre Prisioner e Paper Plane.

— O que você disse? – pergunto com o coração já acelerado por antes.

— Eu cuidei de tudo, relaxa.

Estudo seu rosto e decido acreditar em suas palavras.

— Vai jantar conosco hoje? – tento parecer natural. Ele franze o cenho.

— Por que não jantaria?

★★★

Mais tarde, descemos juntos para o salão de refeições e somos surpreendidos pelo tumulto que acontece no saguão: nossos seguranças e os do hotel formam uma roda ao redor de Subaru, que parece estar completamente fora de si enquanto sacode pelos ombros – como se para tornar tudo aquilo mais incompreensível ainda – Neru Akita.

Assim que vê o mesmo que eu, Len dispara em direção ao conflito e eu vou logo atrás.

— Solte ela! – ele grita quando nenhum dos seguranças o deixa chegar ao centro da roda. Subaru se vira em direção ao garoto e posso ver a expressão de pura raiva em seu rosto.

— Agora eu entendo de onde você consegue sua mercadoria! – grita o empresário sem largar a menina que parece estar assustadíssima.

— Pai! – ela berra com toda a força dos pulmões.

— Cale a boca, sua marginalzinha. – Subaru ordena antes de voltar-se novamente para meu irmão – Len, você só vai acabar se prejudicando mais ainda se manter essa garota por perto. Sua recuperação só será possível bem longe dela!

Len não responde. Ao invés disso, olha para mim com os olhos suplicando por ajuda. Não consigo responder ao chamado, pois para mim a ficha cai de forma violenta. Finalmente entendo a relação estranha entre Len e Neru: traficante e usuário.

— Você trabalha pra mim, seu gordo imbecil! – Len avisa de maneira grosseira – Se eu mandar, você tem de obedecer. Largue-a imediatamente!

— O quê?! Você e sua irmã estão ficando impossíveis! – acusa – Vocês não seriam nada sem mim, ouviram? Nada! E já aguentei demais essa ousadia!

Eu, que estava apenas de expectadora, sou a primeira a notar a aproximação de um novo participante da briga: senhor Kotatsu Akita, dono do hotel e pai de Neru. O homem alto abre caminho sem esforço entre seus empregados e chega até Subaru, que snão parece se importar com sua presença.

— O que diabos está acontecendo aqui, senhor Subaru?

— Estou detendo uma criminosa que tem prejudicado diretamente meu tabalho. – ele responde.

— Pai, eu-

— Calada, Neru. – ele ordena sem levantar o tom de voz – Não sei sobre isso, senhor Subaru. O que eu sei é que você está impossibilitando a paz de meus hóspedes, além de agredir minha filha. Não sei o que suas testemunhas dirão sobre isso, mas as minhas serão de forte influência num tribunal.

Imediatamente o empresário solta a loira, que corre para trás de Kotasu. Len consegue abrir caminho e vai ao seu encontro.

— O senhor não entende o que está acobertando. – Subaru adverte.

— De minha família, cuito eu, senhor Subaru. Obrigado. – o homem vira a cabeça apenas alguns graus para olhar para mim e sinto a espinha congelar. – E espero que você seja capaz de cuidar daqueles que lhe são responsáveis. Do contrário, acredito que terão de procurar outro hotel para manter estadia.

O outro nada diz, mas está explodindo de raiva, com o rosto completamente vermelho. Vendo sua vitória, Kotatsu Akita retira-se e a rodinha de seguranças é desfeita. Neru não o segue e Len ainda está ocupado acalmando-a. Sem pensar muito, me junto aos dois loiros.

Atrás de nós, Subaru volta a gritar:

— Vocês me fizeram de idiota pela última vez, Kagamines!

Dito isso, ele sai do ambiente pisando grosso. Eu fico bastante preocupada com a declaração, mas meu irmão parece não ligar nem um pouco.

— Neru, o que vai acontecer com você? – ele pergunta.

— Nada. Meu pai é influente e vai me proteger. – ela responde enquanto fita, sem piscar, a porta por onde o senhor Akita passou.

Penso comigo mesma que é um jeito estranho de se amar. Se eu descobrisse que uma filha minha está metida com tráfico de drogas ou fosse o que fosse, tentaria tirá-la desse meio, e não acobertar suas acusações e deixar por isso mesmo. No entanto, não falo nada sobre o assunto.

Depois disso, deixamos o peso do corpo vencer e ficamos sentados no chão em silêncio. Algumas pessoas passam por nós e nos observam enquanto cochicham, mas nenhum de nós se importa.

— Dias difíceis, não? – a loira de rabo de cavalo fala de repente.

— Um pior que o outro. – Len concorda.

— Tenho medo do que o amanhã trará. – confesso. Os dois olham para mim, assentem, e voltam a fitar o vazio.

Depois de algum tempo, meu irmão comenta em voz baixa:

— Isso que está sentindo, Rin é o que eu sinto o tempo todo. Me diga com sinceridade: se alguém te oferecesse uma forma de amenizar essa angústia, você seria forte o bastante para recusar?

Não preciso dizer nada, ele sabe a resposta: não.

Neru, que está entre nós, solta um suspiro.

— Eu não vou vender mais nada pra ninguém, já aviso.

— É, você deixou isso bem claro em nossas últimas conversas. – Len acrescenta.

— O que pretende fazer? – pergunto.

— Me desintoxicar.

— Sozinho?

— Sozinho.

Neru pega o celular de um dos bolsos e digita algo antes de mover a tela apenas o bastante para que eu leia a mensagem:

"Está preparada para enfrentar uma crise de abstinência?"

Nego com a cabeça.

Ela segura minha mão e encaro-a sem saber o que fazer sobre isso. Len não percebe nossa comunicação, então me rendo à trégua momentânea e permito que nossos dedos fiquem entrelaçados.

Em dado momento da noite, percebo que aceitar a ajuda da pessoa que mais prejudicou meu irmão também é um jeito bem estranho de se amar.