Abstinência

17 Encontro da realeza


Notas iniciais
Olá, como vão? Mais um capítulo! Boa leitura :3 Hoe~

Não sei dizer por quanto tempo eu, Len e Neru ficamos sentados no chão do hotel. A única coisa da qual tenho certeza é de sentir fome em determinada hora da noite e me dirigir à lanchonete, uma vez que o jantar não estava mais sendo servido. Eu poderia pedir serviço de quarto, mas precisava comer imediatamente. Neru disse estar sem apetite, então se despediu e foi para seu quarto. Len esperou que eu comprasse um sanduíche qualquer, mas não quis pedir nada, e em poucos minutos já estávamos em nossa suíte.

Apesar de todos os últimos acontecimentos, o clima entre nós não estava de todo estranho. Peguei meu travesseiro e arrisquei esgueirar-me para sua cama quando já estava deitado e, para minha surpresa, recebi até um beijo de boa noite. Foram poucas, mas boas horas de sono.

Quando acordei com o chamado de Subaru do outro lado da porta, Len já estava de pé. Foi uma manhã corrida devido à entrevista a qual devíamos comparecer, o que foi bom, uma vez que nosso empresário não teve tempo de – ou esteve evitando – ficar conosco. No carro, ele foi no banco de carona da limusine junto ao motorista, enquanto que eu e Len dividíamos o enorme espaço de dentro.

Confesso ter ficado bem calma durante o percurso e até me diverti com as reclamações de meu irmão sobre ter de usar brilho labial sempre que vamos aparecer na TV.

Nesse momento, estou nos bastidores da emissora, lendo todo o roteiro do programa junto de Len e Subaru.

— Por que eles sempre querem saber dos nossos pais? Que saco! – indago ao riscar de caneta vermelha todas as perguntas relacionadas ao nosso passado.

— Rin, você não pode tirar tudo. – o empresário suspira enquanto tenta tirar de mim a caneta, mas não deixo.

O loiro resolve ajudar:

— Rin, basta que digamos o mesmo de sempre: "Foi uma infância difícil, mas somos artistas focados no amanhã e não no ontem", ou qualquer baboseira que deixe a ideia de inspiração e superação.

Reviro os olhos.

— É fácil para você ser carismático com a platéia e os fãs. Todos sabemos quem é o favorito do grupo.

— Isso não é verdade. – ele replica e eu faço uma careta.

— Len, as meninas caem aos seus pés e quase não temos fãs homens. – continuo.

— E qual o problema? – Subaru interfere.

— Exatamente. — Len concorda e cruza os braços – Por acaso está sentindo falta de algum homem na sua vida, Rin?

Desvio o olhar e volto a riscar, com uma raiva adicional, vários parágrafos de meu roteiro. Len se dá por satisfeito e volta a ler em silêncio. O empresário esfrega as têmporas, mas resolve não se meter no que ele deve considerar apenas uma briga de irmãos.

Logo depois, uma moça de sorriso simpático e cabelos encaracolados entra na sala e nos avisa sobre a hora da maquiagem. Sem esperar por meu irmão, entrego os papeis para Subaru e vou na frente. Chegando lá, descubro feliz, que seremos arrumados em camarins diferentes.

Sento-me na cadeira giratória e tento relaxar enquanto uma outra mulher aparece e começa a escovar meus cabelos. Quando o maquiador chega, insiste para que eu escolha entre os diferentes tons de batom que ele tem.

— A partir da sua preferência, vou criar um look arrasador. – seu sotaque de interior é carregado e engraçado, então automaticamente esqueço-me dos estresses da vida. Uma terceira mulher entra logo em seguida para pintar minhas unhas e, no meio de todo o processo, sinto-me muito bem com os paparicos.

— Tinha esquecido o quanto gosto disso. – comento em voz alta sem querer e os três sorriem serenos.

Não faz muito tempo desde que fui produzida por profissionais, mas tantas coisas aconteceram nessa última semana, que é quase como se o trabalho como estrela pop fizesse parte de um passado muito distante.

— Pronto, querida. – o maquiador sai da minha frente e libera a visão do espelho. Assim que me vejo refletida, deixo o queixo cair. – Eu não disse que ia te deixar com um look arrasador?

— Meu Deus, sim. – concordo estupefata. Eu realmente estava muito acabada quando cheguei ao estúdio, além de fazer dias que não passava nem mesmo uma base nas olheiras. A Rin do espelho não podia estar melhor – Obrigada!

— Eu não fiz nada, boba. Você que é linda. – ele me manda um beijo.

— O cabelo também está maravilhoso. – elogio. Meus fios loiros e lisos estavam moldados com vários cachinhos volumosos e uma presilha com um fio de pérolas caía suavemente apenas do lado esquerdo.

— Achei que combinaria com seus sapatos. – ela aponta para minha botinha. Na ponta dos cadarços, de fato havia duas pérolas.

Olho para as unhas e solto um suspiro.

— Vocês são incríveis. Obrigada.

— Agora vá lá e arrase! – o maquiador fez uma pose confiante e tive de rir.

— Rin Kagamine? – a mesma moça de antes pôs a cabeça para dentro do camarim – Vamos começar a gravar em 15 minutos.

— OK. – respondo já me levantando. Respiro fundo ao passar pela porta e viro-me apenas para despedir do pessoal.

O corredor até o estúdio não é muito longo, então decido me aventurar à procura de um banheiro. Ao passar pela área de produção, algo no meu campo de visão me faz parar, dar meia-volta e olhar mais uma vez.

— Não acredito. – deixo escapar ao ver quem está lá dentro.

Sozinho e de uniforme, Kaito luta contra vários fios embolados. Quando me ouve, vira o rosto. De início ele parece chocado, mas logo depois abre um enorme sorriso. Na verdade, é tão grande que ele precisa apertar os olhos azuis, o que o deixa com uma aparência adorável.

— Oi, Princesa. – cumprimenta. Nem checo para ver se há mais alguém no corredor comigo e entro na área restrita.

Acelero o passo até ele, que abandona os fios e levanta do chão para me receber. Quando ficamos cara a cara (não exatamente, uma vez que minha cabeça quase mal chega ao seu peito) ele me abraça. Sou surpreendida pelo gesto, mas não o afasto. Ao contrário: aperto-o também.

Quando nos soltamos, ele olha para mim e arregala os olhos.

— Nossa! Você está... Linda.

Não consigo responder ao elogio. Coço a garganta ao me sentir corar e tento contornar o assunto:

— Mas como veio parar aqui, Kaito?

Ele puxa a parte da frente da camisa, revelando um crachá, e sorri de forma mais boba.

— Meu nome é Kaiko*. Sou assistente de câmera.

— Meu Deus, você roubou um uniforme para entrar no estúdio? – questiono pasma.

— Mais ou menos. Eu iria entrar de qualquer forma porque soube que estariam aqui hoje. Esse uniforme estava largado no banheiro e eu apenas pensei que seria mais fácil de me locomover se fizesse parte da equipe técnica.

— Você é louco... – murmuro com as mãos na face. – E se for descoberto?

— Aí eu corro. – ele dá de ombros e tenho de rir. Que pessoa mais despreocupada. – O importante é: você está bem? O que aconteceu no hospital?

— Ah, isso... – engulo em seco – Na verdade não foi nada. Estou bem.

— Isso é ótimo. – ele expira aliviado – E seu irmão? Fugindo muito?

— Não, na verdade não. – rio outra vez. Seu jeito de falar é tão divertido e de alguma forma me acalma – Estamos sendo mantido de refém por nosso empresário. Cinco guarda-costas para cada um.

— Uau. – ele faz uma careta – Que exagero.

— Nem me diga...

— E como está a relação de vocês?

Penso um pouco antes de responder.

— Melhor. – uno as sobrancelhas – Acho. É que às vezes ele age como um babaca e outras vezes é um amor. Difícil acompanhar as mudanças de humor.

— Vai ver ele está de TPM.

— Ei, não faça piadas sobre isso. – brigo dando-lhe um soquinho no braço. Kaito reage como se eu o tivesse realmente golpeado e finge muita dor. Caio na gargalhada e ele rapidamente tapa minha boca.

— Vão ouvir a gente. – murmura fazendo sinal com o dedo indicador à frente dos lábios.

Encaro seus olhos travessos e imediatamente sinto o coração bater mais forte devido a uma lembrança que invade minha mente. Há talvez um ano atrás, Len disse a mesma frase enquanto nos beijávamos dentro do armário do zelador de um outro hotel mais afastado da capital. A expressão de Kaito está idêntica a de meu irmão naquele dia e isso me desconserta.

Limpo a garganta no intuito de afastar esse pensamento e ele liberta minha boca.

— Acho que ninguém vai vir para cá. Todo o pessoal das câmeras já deve estar posicionado e você, Kaiko, — aponto para os equipamentos no chão — está atrasado.

Ele estava pronto para responder quando nós dois ouvimos a porta sendo aberta sem cuidado. Dou um pulo para virar na direção de quem vem e me surpreendo ao ver quem nos descobriu.

— Len! – grito.

— Por que não está no estúdio? – o loiro pergunta com uma voz dura. Apesar de se dirigir a mim, ele olha fixamente para o homem de cabelos azuis rebeldes que está um pouco atrás.

— Len? Irmão da Rin, não é? – Kaito dá um passo para frente e sorri sem perceber o clima tenso – Claro que sim. Olhe só como vocês dois são idênticos!

— Quem é você? – o outro não se preocupa em ser educado, o que me enfurece.

— Ah, desculpe. Eu devia ter começado me apresentando. Meu nome é Kaito e eu ajudei sua irmã rebelde algumas noites atrás. – ele estende a mão na maior boa vontade.

Len estuda o homem de cima a baixo e não o cumprimenta.

— Rin, nós vamos começar a gravar agora. Não demore. – diz antes de se retirar fechando a porta com violência desnecessária.

— OK... Acho que ele não é muito extrovertido. – Kaito abaixa a mão que estava suspensa até agora e vira-se para mim. Quando me vê, seu rosto muda e ele parece ficar realmente preocupado – Ei, tá tudo bem?

— S-sim. – tento tranquilizá-lo com um sorriso falso – Só me bateu um nervoso agora. Aparecer em rede nacional não é tão divertido, sabe.

Ele não parece convencido, mas sorri também (dessa vez, sem os dentes) e afaga meus cabelos de leve para não destruir o penteado.

— Sei sim. Quando eu apareci não foi nas melhores condições, mas com vocês é diferente. Aposto que vão se sair muito bem.

Envergonho-me por não ter me tocado de que ele já foi alvo de jornalistas enxeridos quando teve os problemas com o pai e acabou sendo internado injustamente. Não acredito que estou reclamando de barriga cheia.

— Desculpe, eu-

— Ah, relaxa. – ele me corta com um ar gentil – Sei que vai se dar bem em frente as câmeras porque está incrivelmente linda.

— Você já disse isso. – tento amenizar a situação e fugir do tema embaraçante.

Ele cora e se afasta com uma tosse nada natural.

— Vá logo. Devem estar te esperando, menina rebelde. Vou estar na platéia em lugar privilegiado graças ao meu trabalho. Esse tal de Kaiko é um sortudo.

Acabo rindo da brincadeira boba e esqueço completamente do problema que arranjei com Len.

— Obrigada.

— Pelo que?

— Por vir, acho. Foi bom te ver de novo.

Ele faz uma reverência e eu finjo puxar a saia de um vestido longo para completar a cena típica da realeza. Definitivamente, somos muito idiotas juntos, mas isso é maravilhoso.

Notas finais
*: Kaiko é uma versão feminina do vocaloid Kaito. No caso da fic, esse tal de assistente de câmera existe e Kaito roubou mesmo as roupas do cara que deve estar perdido até agora, mas "no mundo real" foi só uma brincadeira que quis fazer para que entendedores entendessem hehe. Beijos e até!!