Abraçada pelo Mar
10 Capítulo 09
Eu não a segui, parecia ser algo justo. Eu menti pra ela sobre eu e Caspian, Kai tinha todo o direito de ficar chateada comigo. Droga, Delilah! Por que você fez isso? Dados segundos, sinto um cheiro forte de mar; era Caspian, que me abraçou pelas costase beijou minha nuca.
— O que eu perdi aqui? Algum entregador de pizza?
Evitei olhar pra ele, mas o garoto sabia, de uma forma ou outra, que eu estava chorando. Ele ergueu meu queixo pela segunda vez e me fitou, como se ver alguém chorar fosse tão extraordinário. Caspian limpou uma lágrima que ainda percorria minha bochecha.
— Kai. — respondi num sussurro quase inaudível — Eu estraguei tudo entre a gente.
— Shh. — acalmou-me, me abraçando com força — Você não tem culpa de nada, Delilah. Você tinha o direito de conhecer sobre si mesma e aquela era a melhor oportunidade.
— Sou uma péssima amiga.
— Claro que não é, amor. — a última palavra foi suficiente para aquecer meu coração, que já estava a mil — Não se preocupe com ela. Kai irá entender futuramente.
— Como, Caspian? — ergo a voz, como nunca — Não posso falar sobre nós, sobre eu ser uma sereia. Agora, pela primeira vez, eu tenho um segredo tão grande que nem posso compartilhar com a minha melhor amiga.
Tenho certeza que ele iria dizer algo, mas não estava com cabeça para ouvir suas palavras. Corri para meu quarto e tranquei a porta. Minha primeira tentativa de resolver aquela situação estava em minha cama: meu celular. Procurei pelo contato de Kai feito uma louca liguei pra ela com o coração na mão.
— Atende, Kai... por favor.
De primeira não funcionou. Tentei mais 4 vezes, apenas na 5° me dei bem.
— Alô, Kai?
— O que você quer? — uma voz cansada surge do outro lado da linha. Fiquei paralisada ao ouvi-la.
— Kai, me desculpa pelo que eu fiz. Eu tô completamente arrependida, mas tinha uma razão. Eu posso explicar tudo!
— Não importa, Delilah. Você escolheu ele a mim. Escolheu um cara que conheceu há 2 ou 3 dias a uma pessoa que conhece desde pequena.
— Você... você tá com ciúmes? Essa é a questão?
— É claro que não. — murmurou ela, parecendo mais chateada — Incrível como você consegue ser tão ingênua algumas vezes. — aquilo me deixou irritada, mas não reclamei. Eu merecia, afinal.
— Então me diz logo!
— Você mentiu pra mim, Delilah. Isso nunca aconteceu entre nós. Eu te conto tudo o que acontece comigo e você também. Qual é o problema de não me contar?
— É que aconteceu algo muito... estranho comigo, Kai. Algo que eu não consigo explicar e talvez você nem acredite. É para seu próprio bem. — houve um silêncio de 6 segundos e eu não ousei dizer nada.
— Escuta, quando estiver pronta pra dizer isso, você volta a falar comigo.
— Mas, Kai-
— Adeus, Sherwood.
Ela desligou, ou melhor, jogou o celular contra algum lugar sólido — deu pra ouvir o barulho antes mesmo de a ligação terminar -. Eu realmente tinha estragado tudo, era minha culpa e não tinha nada que pudesse mudar isso. Levei uns minutos pra enfiar a cabeça no travesseiro e chorar até meus pulmões arderem. Com o tempo, ouço o barulho de chaves roçando na porta. Acabei esquecendo que Tyler tinha uma réplica de todas as chaves da casa.
— Lilah. — a voz do meu irmão invadiu meus ouvidos, mas não foi capaz de me acalmar.
— Por que eu fiz isso, Ty? — ele não respondeu, mas pelo menos me abraçou com força. Eu estava precisando daquilo.
— Sinto muito por você passar por esse turbilhão, mas não falar nada pra Kai é a decisão certa. — Tyler levantou minha cabeça e a colocou em seu colo. Ele começou a ajeitar umas mechas de cabelo e eu quase adormeci.
— Não é só isso. Eu menti pra ela.
— E ainda precisará mentir, mas isso não a torna uma pessoa ruim. Às vezes é melhor não falar certas coisas.
— E às vezes é melhor falar a verdade.
— Lilah, me escuta. — Tyler segurou minha mão e a apertou — Eu te amo e quero te ver sorrir. Talvez você não entenda isso agora, mas é para seu bem. E lembre-se, você tem a nós.
Fitei o chão. Suas palavras entravam em um ouvido, mas a sensação era que elas apenas saíam pelo outro. Sim, eu admirava a esperteza e a hospitalidade do meu irmão e eu o amo por essa e por todas suas outras qualidades. Tyler era como o meu anjo da guarda, mas às vezes eu sentia a necessidade de tomar minhas próprias decisões, de tomar meus próprios riscos.
— Está tudo bem? — ele pergunta e eu balanço a cabeça monotonamente, como um verdadeiro robô faria. Tyler beija minha testa e me deixa sozinha no quarto.
— Isso não pode ficar assim. — sussurro para mim mesma, encarando o celular.
Eu tinha um pensamento na minha cabeça, um que poderia estragar tudo (ainda mais). Mas não tinha jeito. Era eles ou Kai e eu tinha que escolher.
Correção: eu já havia escolhido.
[. . .]
Eu sabia de cor e salteado onde ficava a casa de Kai. Eu sempre a visitava quando éramos crianças e esse hábito ainda permanece em nossa adolescência. O sr. e a sra. Mohoe me conhecem perfeitamente e me tratam como sua 3° filha — bem, tecnicamente, como a 2°, já que Owen é um garoto. Era pra lá que eu deveria ir, meu coração dizia isso.
Chegando na porta da casa dos Mohoe, toquei a campainha. Certifiquei-me de que não havia muita gente por aqui, não queria chamar mais atenção. Depois de esperar um tempo, um garoto moreno e esbelto atende a porta. Ele me dá um sorriso de aquecer o coração, mas não tão cativante quanto os de Caspian.
— Delilah, não esperava que viesse aqui. — Owen declara, apoiando uma mão na borda da porta.
Conhecendo o garoto muito bem, diria que essa foi uma tentativa — extremamente falha — de flertar. Ele gosta de mim desde os 13 anos, mas sempre deixei claro que isso não funcionaria.
— É... preciso falar com sua irmã. Ela tá aí? — ele assentiu.
— No quarto dela. Mas eu tomaria cuidado se fosse você. Ela deve estar naquele período que vocês, mulheres, não suportam.
— Acredite, ela não está. — claro que não. Kai estava assim por minha causa, eu a conheço como a palma da minha mão — Posso entrar?
— Fique a vontade.
Agradeci e subi as escadas. Ao chegar na porta de seu quarto, não bati. Sabia que ela perguntaria quem era e não me responderia. Fui logo invadindo. Lá estava ela: deitada e olhando pro teto, como fazia quando estava mal.
— Oi. — sussurrei, quebrando a paz do quarto. Ela deu um pulo que até me assustou e levantou as sobrancelhas.
— O que pensa que está fazendo aqui? Não dei permissão de me ver.
— Acha que eu te devo satisfações?
— Preciso responder? — inclinei a cabeça para o chão, era o melhor que eu pude fazer.
Sentei-me na cama dela e a garota se afastou, abraçando um travesseiro e olhando para a persiana que deixava seu quarto mais escuro e menos cheio de "Kai".
— Kai, me desculpa. Eu realmente me sinto mal pelo que fiz. Eu deveria ter falado sobre eu e o Caspian.
— Óbvio. — resmungou e eu sorri — O que foi?
— Você tem esse jeito idiota e fofo de ter ciúmes. — falei — Kai, sabe que você é a minha irmã. Nenhum garoto tomaria o seu lugar.
— Ah é? Bem, me diga só um motivo pra eu acreditar em você.
— Porque você é mais importante do que todas as estrelas do céu, Kai.
Uma lágrima se formou em seu rosto, o que me fez ter a mesma vontade de chorar. De repente, ela me abraçou e começamos a soluçar feito duas tiazinhas, após assistir ao último capítulo de uma novela. Ela me largou e sorriu pra mim.
— E para que não tenha nenhum segredo entre nós, eu vou te mostrar algo. Mas você tem que prometer não contar a ninguém.
Ela assentiu, mesmo confusa. Eu a puxei para o banheiro e pedi que ela trancasse a porta de seu quarto. Enchi a banheira de água e suspirei profundamente, antes de entrar lá.
— O que você está fazendo?
— Só observe e não grite.
Mergulhei ambas as pernas na banheira e depois todo o meu corpo. Estremeci pelo atrito da minha roupa molhada contra minha pele — estava morrendo de frio -. Kai não tirou os olhos de mim e eu me concentrei. Após alguns segundos, a água da banheira começou a se agitar e a cauda finalmente surgiu. Eu abri os olhos para então encarar uma Kai incrivelmente surpresa.
— V-Você é uma... uma...
— É, Kai. — respondo, um pouco mais confiante — Uma sereia.
O local, então, fica estranhamente mais mórbido.
~ ● ~
— E-Ela quebrou. — o homem musculoso e de barba espessa sussurra, mais para si mesmo do que para o mar — A garota acabou de quebrar a regra principal vigente em nosso reino! Como pôde?!
— Você já sabe o que deve fazer nessas circunstâncias. — a voz serena do oceano ecoa nos ouvidos do soberano. Era tão calma e vívida que se assemelhava ao sussurro de uma pessoa.
— Sim. Onde está o comissário dos mares? — ao fazer a pergunta, um garoto moreno e alto se aproxima de seu mestre, fazendo uma mesura antes mesmo de falar algo.
— Aqui, mestre.
— Adrian, pelo bem de toda Aquania, você receberá uma missão, talvez a mais importante de todas.
— O que deseja, mestre? — o garoto responde automaticamente.
— Delilah Sherwood, a sereia mundana. Traga-a para mim.
— Considere seu desejo já realizado, mestre Calisto. — então ele o deixou.
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