Abraçada pelo Mar
11 Capítulo 10
Kai não parava de olhar para a cauda e eu estava ficando constrangida. Nunca tive tanta atenção como naquele momento, tive vontade de me esconder dela, mas nem podia. Não sabíamos o que falar uma para a outra, afinal, não é todos os dias que você recebe uma notícia tão chocante sobre sua melhor amiga.
— Kai, por favor, diz alguma coisa... — exigi, tentando evitar seu olhar sobre mim. Era como se eu fosse o Monstro do Lago Ness ou algo do tipo. O estado de choque da morena dificultou sua fala.
— Eu... Lilah... por que você não me contou sobre isso?
— Não vamos voltar a esse assunto, Kai. De verdade. Eu descobri isso recentemente, nem deveria estar falando pra ninguém. É segredo de família.
De repente, percebo que sou uma tonta e acabo falando mais do que deveria. Os olhos estreitos de Kai se arregalaram como se eu tivesse dito que eu era a prima da Rainha Elizabeth. Eu estapeei a minha testa, praguejando internamente por ser tão idiota.
— Quer dizer que o Tyler também é uma sereia? — pergunta ela, inquieta como sempre e eu sinto a necessidade de corrigi-la, já que eu não podia reverter as minhas palavras.
— Tritão. E agora que eu falei, é melhor que saiba que Caspian também é um. Somos todos Sirenos, uma espécie de seres do mar, comandados pelo rei Calisto.
O rosto dela deve ter paralisado na mesma expressão, afinal, a garota não abandonou o olhar surpreso. Eu estava, definitivamente, ferrada. Nesse momento, tudo o que eu pensava era: "Tyler vai me esfolar", e eu nem tinha como amenizar a notícia!
— Espera... então, quando você e o Caspian foram para a praia...
— Não foi exatamente por diversão. — completei, esperando que a morena pudesse ser mais compreensiva — Ele estava me ajudando a nadar, sabe... com a cauda.
Eu aponto para as escamas que brilhavam devido o reflexo da luz do banheiro. Kai ousou tocá-las sem o meu consentimento e por isso, estremeci. Qual era a sensação de tocar naquelas coisas cintilantes? A garota recua, com um sorriso desfeito, enquanto eu cobria o meu rosto assustado.
— Desculpe. Não sabia que doía. — sussurra ela, friccionando um dedo contra o outro, como se, por meio daquilo, pudesse imaginar como deve ser tocar numa verdadeira cauda de sereia.
— Não dói, eu só estou mal acostumada. Há dois dias eu não tinha problemas ao entrar na banheira.
— Entendo.
O silêncio nos invadiu novamente. Constrangimento? Choque? Horror? Medo? Eu não reconhecia os meus próprios sentimentos, muito menos os de Kai. Ela, de repente, senta-se na borda da banheira e olha pro chão, sorridente como uma típica adolescente ao marcar um encontro com um cara.
— E aí? Você e o Caspian numa praia. Sozinhos no mar.
— Você vai cantar aquela musiquinha estúpida do "Sitting in a tree"?
— Calma aí, Peixinho. — ela ergueu os braços, se rendendo — Só quero saber se você foi inteligente o suficiente pra dar o passo.
— O passo?
— O passo. — confirma ela, quase no mesmo timbre que eu — Não rolou nada entre vocês?
Minhas bochechas esquentaram rapidamente, tentei escondê-las baixando a cabeça, mas sinto que Kai entendeu os meus objetivos. Por Deus, ela era a minha melhor amiga. É claro que ela sabia quando eu estava escondendo alguma coisa.
— Não. — minto, gaguejando. Dou uma leve tossida logo em seguida, para disfarçar, mas não deve ter funcionado de novo.
— Delilah Sherwood, você é uma terrível mentirosa. Mas eu te perdoo. — diz ela, jogando os cabelos para trás, como uma forma "graciosa" de se gabar — Agora fale logo. O que aconteceu?
As palavras me consumiam internamente. Como ela queria que eu fosse honesta se nem consigo entender meus próprios sentimentos?
— Lilah...
— Ele me beijou. — Kai deixou um grito estupidamente fino escapar dos lábios, mas eu logo tapei sua boca — Sua idiota!
— Por que eu não posso gritar? Me deixa gritar! Ai, como foi?
— Bem, considerando que eu nunca beijei ninguém debaixo d'água, foi diferente. — jurei ter visto um par de corações nos olhos dela. Kai era muito exagerada.
— Posso casar vocês?
Dei um tapa nela, afinal, Kai merecia. A garota parou de surtar apenas quando viu minha cara de decepção e medo. Apesar de internamente eu estar repleta de felicidade, eu tinha vergonha de admitir que eu estava gostando de Caspian. Era muito cedo e, com toda a certeza, muito estranho.
— Qual é o problema? — pergunta ela, mais calma — Isso não deveria ser bom?
— Não é isso. Eu acabei de contar o nosso segredo pra você, Kai. Não faço ideia do que vai acontecer a partir de agora.
— Nada. Vai ficar tudo bem, Lilah. — ela silenciou, cabisbaixa — Quer saber? Vou com você até sua casa. Talvez se sinta mais confortável.
Ela tinha razão. Eu me sentiria mais calma e confiante daquela maneira. Sorri pra garota e ela me respondeu com o mesmo gesto. Pedi, então, uma toalha pra Kai e saí da banheira com certa dificuldade. Após estar completamente seca, as pernas voltaram e eu evitei tocar na água novamente. Esperei pacientemente até que Kai limpasse o banheiro — eu não podia me arriscar — e saímos de casa. Despedi de Owen com um beijo em sua bochecha.
— Tem certeza que vai dar tudo certo? — pergunto pra ela, enquanto caminhávamos até a minha casa. Kai me olha com uma expressão duvidosa e que me deixou preocupada.
— Honestamente, não sei. Espero que dê.
Quando finalmente chegamos em frente de casa, me recusei a tocar a campainha ou chamar Tyler. Pesquei um molho de chaves que se encontrava no bolso da calça e abri a porta sem nenhuma confiança, como antes pensei que teria. Ao fazê-lo, vejo dois garotos extremamente irritados me encarando. Olhando pra Caspian, até que não era uma visão tão ruim — ele era lindo até com raiva. Balancei a cabeça, buscando a coragem que não existia em mim.
— Olá, srta. Sherwood. — Tyler começa, forçadamente, olhando para Kai — Você tem algo a me falar?
— Que tal começar pela parte que você contou nosso segredo para uma mundana? — Caspian completou, deixando-me confusa.
— Espera, como vocês sabiam disso?
— Eu chequei seu celular. — Tyler respondeu, com os braços cruzados — A última ligação que você fez foi pra Kai. Imaginei que estivesse na casa dela, dizendo coisas que não deveria.
O silêncio nos abordou por alguns instantes e me deixou desconfortável. Eu não tinha argumentos que me defendessem e talvez nem tivesse razão, mas ainda faria de novo por uma amiga que é praticamente uma irmã.
— Por favor, não culpem Delilah por ser justa. — Kai rompe o silêncio, olhando para os meninos com um pouco de medo — Ela é a minha melhor amiga e só queria manter nossa amizade. Eu que fui a idiota por bancar a ciumenta.
— Eu aprecio sua honestidade, Kai, mas isso não muda os fatos. — Caspian intervem, com os ombros rígidos — Esse era o nosso segredo. Somos estritamente proibidos de revelar para mundanos.
— Eu prometo não falar pra ninguém! Dou minha palavra de escoteira que nunca fui.
— Isso não é uma brincadeira, Kai. — meu (agora) namorado continua com o mesmo tom. Kai olha pra ele com desgosto e põe um sorriso irônico nos lábios.
— Acha mesmo que estou brincando? Não trairia Delilah nem se ela fosse a última sereia desse mundo. Eu não ligo pra fama.
Tyler e Caspian se entreolharam com desconfiança, mas eu jurei ter visto um relampejo de esperança neles. Eu tinha certeza que Tyler se importava com a minha felicidade, assim como Caspian. Lá no fundo eles queriam aceitar Kai. Eles sorriram pra mim e eu e Kai replicamos com o mesmo gesto. Demos gritinhos e nos abraçamos até a garota estalar minhas costas.
Eu nunca teria ficado tão feliz!
Kai ficou um bom tempo lá em casa, ouvindo as explicações de Tyler e Caspian sobre os Sirenos. Ouvi meu irmão contar novamente sobre a história dos meus pais, dessa vez com mais detalhes, graças a curiosidade de Kai. Quando ficou tarde, a minha amiga voltou pra casa e eu me despedi de Caspian, que também foi pra casa. Acabei adormecendo no sofá, perto de Tyler.
. . .
Me esforcei para acordar. Eu estava morrendo de sono e tive vontade de ficar em casa. Infelizmente, Tyler me obrigou a ir pra escola contra a minha própria vontade. Acabei, por fim, comendo duas torradas e um delicioso suco de abacaxi com hortelã — especialidade do meu irmão — e fui pra escola, já atrasada.
Chegando lá, cumprimento Kai e me surpreendo com um beijo de Caspian. Fico vermelha e tento esconder ficando cabisbaixa, mas não funcionou. Ele ostentou um dos seus maravilhosos sorrisos, enquanto seguíamos de mãos dadas até a sala. Aquilo era incrivelmente bom, mas o melhor de tudo foi ver a cara de desapontada da Lauren.
Ao acomodar meus livros na mesa, sinto um cheiro estonteantemente bom, o que me deixou hipnotizada. Caspian deve ter notado, já que apertou minha mão com desconfiança. Precisei de segundos para me livrar do transe. Nosso professor chega e põe alguns papéis na mesa.
— Bom dia, turma. — diz nosso professor de Sociologia — Antes de começarmos a aula, gostaria de lhes apresentar um novo aluno. Deem boas-vindas a Adrian.
De repente, um garoto moreno de cabelos levemente longos entra na sala, arrancando suspiros de muitas garotas. Assim que ele se aproxima do professor, Caspian fica estático, tão pálido quanto um fantasma.
— Qual é o problema? — pergunto pra ele, num sussurro, enquanto o garoto novo sorri para algumas pessoas.
— Ele é... ele é o meu irmão.
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