Ele me beijou.

Era tudo o que vinha na minha cabeça nesse instante. Eu estava tão perdida, que apenas me deixei levar (novamente). Caspian me fazia bem de alguma forma, e comecei a me perguntar se isso tinha a ver com o fato de sermos Sirenos e estarmos conectados com o mar. A sensação que eu sentia quando estava perto dele era a mesma que o oceano me transmitia, até tive vontade de apelidá-lo de Sr. Oceano, mas ficaria esquisito demais.

Depois de alguns segundos, fiquei desesperada. Meus pulmões ardiam e tudo o que pude dizer à Caspian, por telepatia, foi "ar". Ele entendeu na mesma hora e me puxou até a superfície. Tossi freneticamente e me apoiei na primeira pedra que encontrei, que, a propósito, era bem áspera. A dor do arranhão que eu levei ao me apoiar nela se intensificou com as águas salgadas do mar. Mordi os lábios, para não gritar e chamar atenção de alguém. Caspian sorriu e deslizou os dedos contra minha bochecha e, surpreendentemente, me beijou de novo.

— Nossa... — falei, arfando — Pelo menos me deixa recuperar o fôlego.

Ele riu. Eu fitei seus olhos por um bom tempo, dessa vez, não me senti desconfortável ou nervosa por fazê-lo. Eu poderia ficar assim para sempre — é, sei que eu sou muito clichê.

— Eu não imaginava que a minha protegida seria tão encantadora como você. — disse Caspian.

Meu sorriso de repente se desabou com suas palavras. Não, eu não estava chateada, apenas (ainda) confusa demais. O que significava aquilo? Seria mais um mistério que ele não me revelaria? Só sei que não deve custar nada perguntar.

— O que quer dizer?

Caspian estalou a língua, como se de repente tivesse caído a ficha de algo importante, algo que ele não teria me contado.

— Lembra que eu falei que precisava te dizer algo? — diz ele, envergonhado — Quando estávamos debaixo d'água? Bem... é sobre isso que eu vou te falar agora. Mas não aqui. Vamos nos secar e ir para sua casa, é mais seguro.

Minhas bochechas entraram em combustão, de tão quentes que estavam. Honestamente, não era isso que eu esperava que Caspian me dissesse. Enquanto pegávamos nossas toalhas para nos enxugar, o garoto nota minha "paralisação momentânea" e esconde o sorriso que ele sempre ostenta.

— Droga. — sussurro para mim mesma, após já estar seca e com um par de pernas novinhas em folha. Caspian me lança aquele olhar preocupado e joga a toalha nos ombros.

— O que foi?

— Eu pensei que fosse um "eu te amo". Seria mais fofo.

— Como assim? — ele continua confuso, assim como todos os garotos devem ser.

— Pensei que fosse me dizer "eu te amo" e não algo que vá, possivelmente, comprometer minha vida.

O tritão se aproxima de mim e curva os ombros por um estranho motivo que nunca irei saber. Seus olhos Oceano me encaram e sinto o formigamento contornar meus dedos do pé — ah, como era bom ter de volta meus dedos! -. Tento fechar a cara ou virá-la para longe, evitando dizer coisas mais constragedoras. Suas mãos se entrelaçam nas minhas e eu me perco novamente na sua miragem.

— É mesmo? Sendo assim... — assenti com a cabeça, lembrando da minha observação sobre garotos. Ele se inclinou e beijou minha testa, o local ficou pulsando por alguns segundos — Eu te amo, Delilah Sherwood.

— Olha só! — comentei, orgulhosa — Ele está progredindo. — Caspian me devolve um sorriso de deboche e me abraça de lado. Quando menos espero, nossas mãos estão coladas uma na outra, quase como um nó de marinheiro.

[. . .]

Acho que nunca tive tanta ansiedade por chegar em casa como agora. Meu coração estava acelerado novamente, não só porque eu estava perto dele, como também porque Caspian tinha algo a me dizer. Algo tão perturbador — creio eu — que precisou me contar em casa. Já estávamos em frente a porta, não tínhamos nenhum obstáculo para nos impedir. Correção: ele não tinha. Parece que a droga da minha ficha só resolveu cair agora. Caspian é um tritão. Tyler é um tritão. Eu sou uma sereia.

Eu não pertenço a este lugar.

— Delilah. — ele me chama tão calmamente, que fico um pouco mais tranquila. Meus olhos batiam contra a porta, minha respiração se limita como a de uma nadadora profissional, ao se preparar para uma competição acirrada. O mundo nem parece mais fazer tanto sentido (se é que ele antes fazia). Pisco os olhos e ergo o queixo para ele.

— Isso é real, Caspian?

— Depende da sua percepção.

Anotei mentalmente aquela resposta, talvez fizesse sentido algum dia. Ou talvez eu precisasse dela futuramente.

Entro na casa e vou direto à geladeira, procurando algo para comer depois do mergulho. Ao chegar até lá, noto que o post-it não estava mais anexado à porta. Acho que Tyler deve ter acordado mais cedo do que eu esperava. Pego um refrigerante com a toalha, para não me molhar novamente, me aproximo de Caspian e tomo uma breve respiração. Ele tinha cheiro de mar e não deve ser só porque acabamos de voltar da praia. Kai já chegou a me dizer que eu também tinha cheiro de mar, certa vez. Só agora compreendo o motivo.

— E aí? O que tem a me dizer? — peço, tendo dificuldade ao abrir a tampa da garrafa. Caspian, como sempre, ri da minha desgraça.

— Bem... onde estávamos mesmo?

— Na parte do "eu preciso te dizer algo".

— Oh... sim. — ele pigarreou e se ajustou no sofá, como se estivéssemos tratando de negócios — Acontece que eu não estou aqui por qualquer motivo. Como você deve saber, os Sirenos vivem sob as ordens de Calisto, nosso soberano, no reino de Aquania.

— Achei que Calisto fosse o antigo soberano.

— E é. — ele concordou, olhando para o chão rapidamente — O nosso atual é Calisto II. Eles têm o mesmo nome.

— Que brega. — bufei. O tritão prosseguiu.

— Enfim, ele sabia sobre sua existência. E, à pedido do seu pai, Caslisto me ordenou a vir até aqui e te encontrar.

Meu pai. Ele disse mesmo "meu pai"? Meu coração congelou no mesmo instante, os olhos ficaram marejados, mas não chorei. Não quis chorar, não desta vez.

— Meu pai está lá? Em Aquania?

— Não é bem assim. Quando Mortimer soube que sua mãe estava grávida, mesmo sem poder vir para a superfície, ele pediu para Caslisto te autorizar a entrar no reino de Aquania quantas vezes quisesse, assim que suas características Sirenas se desenvolvessem. Como elas já se desenvolveram, bem...

— Como você sabia que eu viraria uma sereia só agora? E como sabe tanto sobre minha vida? — pergunto, um pouco confusa e abatida. Caspian deu de ombros.

— O mar me contou. Mas não é só isso. — lá vai. Quantas paradas cardíacas eu deveria ter? — Você sabe para que eu fui escolhido por Calisto?

— Pra me encontrar e me levar até Aquania, algum dia? — sugeri, enlouquecendo pela possibilidade de visitar Aquania.

— Não só por isso. Significa que eu sou seu guardião, Delilah.

Minhas bochechas fervilharam e um sorriso bobo se formou em meu rosto. Caspian repetiu o gesto, o que fez meu coração se derreter.

— Nesse caso, Calisto não poderia ter escolhido alguém melhor para me proteger. — me encolhi perto dele e o abracei. Aquela era a melhor sensação de todas. O tritão beijou minha cabeça e não permitiu que eu me soltasse dele. Na verdade, eu nem queria.

De repente, ouvimos passos lentos virem até a sala. Quando vimos que era Tyler, nos apartamos. Ele esfregou ambos os olhos e deixou um bocejo escapar dos lábios.

— Que intimidade é essa entre vocês dois? — pergunta ele, sem tanta seriedade.

— Ah, não precisa ter ciúmes, Ty. — Caspian fala e eu ergo as sobrancelhas. Que intimidade é essa entre eles dois?

— Ty? Só eu chamo o meu irmão de Ty.

— Nós éramos melhores amigos, quando eu vivia em Aquania. — Tyler se explicou — Isso antes de você nascer. — agora fazia sentido. Era assim que Caspian sabia muitas das coisas sobre a gente.

— Ei, você viu o recado que eu deixei na geladeira? — questiono para Tyler, sem notar que um braço de Caspian estava ao redor dos meus ombros. Meu irmão fez uma expressão duvidosa.

— Que recado? Eu estava dormindo. — troquei olhares com Caspian. Ele deve ter pensado o mesmo que eu: quem teria pego o post-it, senão Tyler?

Ao me perguntar aquilo, ouço a campainha tocar. Corro até a porta para atender, mesmo sem ter ninguém para me visitar naquele momento — sinceramente, duvido que Tyler também tenha alguma visita -. Quando abro a porta, me deparo com Kai, segurando um bilhete em uma das mãos e com um olhar mortífero.

— "Fui para praia depois da aula. Não se preocupe comigo, estou com Caspian. — ela leu o conteúdo do papel. Droga, será que não tinha outra pessoa pra pegar o post-it? — Com amor, Lilah."

Ela me encarou com desgosto, como se esperasse por alguma resposta. Eu estava perdida, com certeza.

— Como foi na praia, Delilah? Estudaram muito? — falou ela, em tom de escárnio.

— Kai, eu posso explicar.

— Não precisa! — esbravejou ela — Não precisava mentir pra mim, Lilah. Você nunca faz isso.

— Eu sei, somos amigas.

— Pelo menos eu achei que a gente era. — então ela deu as costas para mim e foi embora.

No que eu tinha me metido?