Abraçada pelo Mar
8 Capítulo 07
O alarme finalmente soa, aquela teria sido uma das raras vezes que eu ficava feliz por um barulho ensurdecedor invadir meus ouvidos. Caspian apertou a minha mão, como se por meio daquilo estivesse perguntando "está pronta?". Pena que a resposta seria um "não" bem seco.
— Vocês já estão indo? — Kai me intercepta, com aquela carinha de gato abandonado que só ela conseguia fazer tão bem. Quem era o Gato de Botas comparado a Kai Mohoe?
Caspian me fitou pela segunda vez, agora com mais cuidado. Kai era perita em saber quando alguém estava mentindo. Minhas mãos começaram a suar, portanto as afastei do garoto, que finalmente desviou o olhar de mim para os próprios sapatos.
— Uh... sim, é. — respondi com uma pitada de medo e desconfiança — Caspian tem muitas dúvidas em Matemática. Parece até você, só que quatro vezes pior. Não é, Caspian?
Que idiota. Eu realmente precisava da confirmação dele? Ou melhor, Kai realmente precisava da confirmação dele? O tritão apertou os olhos e forçou um sorriso desjeitoso. Tava na cara que foi uma péssima ideia ter feito aquela pergunta.
— Pois é. Espero que possa entender, Kai. — disse ele, já me puxando para longe dela. Eu pude sentir sua ansiedade e compartilhava o mesmo sentimento dele — Adeus.
— Uhm... tchau. — sussurrou ela, antes de corrermos até o portão de saída da escola. Eu estava tão enérgica que nem notei os olhares de escárnio lançados pela Barata Suprema (vulgo Lauren).
Levamos alguns minutos até chegar em casa; pedi a Caspian para passarmos lá antes de irmos à praia. Precisei deixar minha mochila e pegar um biquini.
— Não precisa de roupa de banho. — Caspian interrompe meus pensamentos, após eu ter falado aquilo abertamente a ele. Curvei as sobrancelhas e fiquei surpresa com o comentário.
— E como espera que eu entre na água? Com essa roupa?
— Não é óbvio? — ele retruca — Quando nos secamos, voltamos a ficar exatamente como estávamos antes da transformação.
— Está querendo me dizer que somos uma imitação barata de H2O? — perguntei aquilo e ele ficou confuso. Ele ignorou o questionamento e abriu a porta de casa.
Tiro minha atenção dele e foco em procurar Tyler para poder avisá-lo sobre minha saída. Quando noto que ele está dormindo, em seu quarto — dessa vez, sem nenhum documento ou energético perto de si -, uma súbita sensação de felicidade toma conta de mim. Fazia tempo que meu irmão não se despreocupava daquele jeito (tirando um bom cochilo no meio da tarde). Eu sentia falta disso. Peguei, então, um post-it e uma caneta e pus o seguinte recado:
FUI P/ PRAIA DEPOIS DA AULA. VI QUE VOCÊ ESTAVA DORMINDO E NÃO QUIS TE ACORDAR. NÃO SE PREOCUPE COMIGO, ESTOU COM CASPIAN.
COM AMOR,
LILAH.
Caspian ficou incomodado com o quão melosa eu era, mas falei pra ele que nos tratávamos assim. Depois de ter colocado o aviso na geladeira e tudo ficar pronto, saímos de casa e caminhamos até nosso destino.
[. . .]
A areia fina e quente finalmente voltou a roçar nos meus pés, já estava com saudades disso. Caspian disse que era melhor irmos na piscina natural do dia em que tudo aconteceu, já que, de acordo com ele, tinham poucas pessoas por lá — sem contar que eu precisava tirar meu trauma do afogamento. Sim, ele havia mentido para mim sobre ter me salvado. Naquele dia, Caspian realmente notou algo de diferente em mim: ele tinha visto a minha cauda, só que, para escondê-la de mim mesma, ele me enxugou e me levou até minha casa.
— Está pronta, Lilah? — estremeci ao ouvir aquele apelido. Somente Tyler e Kai me chamavam daquela forma, mas parece que "Lilah" ficava bem mais entoado em sua voz.
— Quer uma resposta honesta? — ele ergueu as mãos e rendeu-se.
— Tudo bem, desculpe. Quer que eu entre primeiro ou...
— Por favor. — insisti.
Caspian tirou a camisa (por motivos incertos) e entrou rapidamente no mar. Contei quanto tempo levaria até sua cauda aparecer — já estava nos 24 segundos e nada havia acontecido -. Um sorriso de deboche surgiu em seu rosto e precisei de mais um tempo até entender a razão daquilo: eu fui idiota, novamente.
— Esquecendo-se de um detalhe, minha querida? — questionou sarcasticamente, mostrando-me sua mão.
A pulseira estava lá, é claro que ele não se transformaria com ela. Cruzei os braços para ele, indignada demais para dizer algo. Tive vontade de bater em Caspian, mas eu me molharia.
— Tire a droga da pulseira.
— Só se você entrar aqui. — ótima forma de chantagear alguém. Por que não fazer isso mais vezes? Bufei e me rendi.
Na mesma hora, tirei as sandálias — pelo menos elas não deveriam estar comigo quando eu voltasse a ser humana de novo, não é? — Caspian tirou a pulseira e guardou-a em um dos bolsos de sua calça. Após 12 segundos, vi uma agitação na água: suas pernas passaram a adquirir uma tonalidade negra e brilhante, eram suas escamas surgindo. No fim do processo, fiquei ali que nem uma tonta, fitando sua cauda. Era negra na parte inicial e finalizava com leves tons de cinza, um degradê perfeito.
— Sua vez. — exclamou, obrigando-me a manter o foco. Inspirei profundamente, como normalmente fazia para me desestressar e pulei para dentro do mar. A água se agitou pela segunda vez e lá estava a cauda azul. Eu comecei a afundar devido o peso dela, mas dessa vez, Caspian me segurou e me apoiou contra uma rocha semi-pontiaguda.
— Não vou te deixar cair. Prometo. — minhas bochechas esquentaram e evitei não olhar diretamente para ele — Vou te soltar vagarosamente e você vai movimentar sua cauda que nem eu estou fazendo.
Assenti. O primeiro passo foi fácil, eu realmente consegui me manter firme, mas depois dali, Caspian sugeriu que mergulhássemos. Demorou um pouco para eu ganhar sua confiança completamente, já tinha sido demais voltar ao mesmo local onde tudo começou.
— Acredite em mim. — insistiu ele — Nós, Sirenos, temos um fôlego bem "potente". É impossível morrermos afogados. Sei que você consegue.
— Espera, vocês não respiram debaixo d'água? — me surpreendi. Sei que nem tudo o que vemos na TV não é real, mas precisei perguntar.
— É claro que não. Mas mantemos contato um com o outro por telepatia.
— Eu posso ler seus pensamentos?! — gritei, praticamente me engasgando com a água salgada. Ele fez um gesto para eu diminuir o tom da voz, afinal, ainda estávamos apoiados naquela mesma rocha.
— Só quando estivermos submersos. — explicou ele — É como um dom que o oceano nos deu. Poucos Sirenos são capazes de se comunicar telepaticamente em terra firme também. — fingi que estava bem com aquilo, mas por dentro eu era uma pilha de ansiedade e nervosismo — Pronta?
— Uhum. — hesitei. Caspian segurou minha mão e a sensação de dias atrás se repetiu. Segui sua voz e deixei, literalmente, a água me levar.
Eu já estava submersa, agora, mas recusei a abrir os olhos. Estava com medo de tudo dar errado, até que, de repente, uma voz doce e calma ecooa em minha mente.
— Delilah, eu estou aqui. Abra os olhos. — era Caspian. Decidi seguir suas ordens e os abri lentamente.
Ao fazê-lo, precisei me lembrar de não abrir a boca, apesar de ser quase impossível — a beleza subaquática era de deixar qualquer um de queixo caído -. Vibrei de felicidade por meus olhos estarem tão bem acostumados àquele ambiente e me deixei ser puxada por Caspian, que apenas sorria com minha admiração.
— Eu falei, não foi? — murmurei um "sim" no pensamento e nadei junto dele, estupefada.
Nos deparamos com vários corais, peixes de diversas colorações e até algumas estrelas-do-mar que estavam anexadas a terra. Tudo aquilo era perfeito demais e só de olhar para o tritão, fiquei ainda mais feliz. Ainda me perguntava como Caspian era capaz de me deixar tão leve e tranquila. Era como se ele fosse o próprio mar.
— Que perfeita. — "diz" ele, após ficar alguns segundos me encarando.
Olhei espantada para Caspian e o garoto fica sem jeito. Parece que não era sua intenção ter pensado naquilo.
Quando menos esperei, Caspian segurou minha mão rapidamente e me entregou uma concha, que pegara no fundo do mar. Percebi que não havia uma distância tão grande entre nós, meu coração apenas disparou, espero que ele não possa ouvir suas batidas.
— Preciso te dizer algo. — revela ele, ficando ainda mais próximo. Recusei de me afastar.
— O quê? — retruco.
Antes que ele pudesse responder algo, Caspian pressiona os lábios contra os meus. Uma onda de choque percorreu por todo o meu corpo, mas me rendi completamente a ela. A concha quase cai no chão, mas a seguro com cuidado, tentando evitar a ideia de perder um presente dado por alguém tão especial. Ficamos daquela forma por mais um tempo.
Naquele momento éramos apenas eu, o garoto e o mar.
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