O dia amanheceu e eu quase havia me esquecido da conversa que eu tive ontem à noite com meu irmão e Caspian. Fiquei deitada por mais um tempo, encarando o teto do meu quarto e as estrelas fluorecentes que eram anexadas a ele. Por que aquilo tudo tinha que acontecer comigo? Eu tentei me tornar complacente quanto ao que Tyler me falou sobre mamãe ter escolhido me esconder dessa nova realidade, mas era tão difícil aceitar. Meu irmão nunca havia ocultado de mim algo tão importante, afinal.

Espantando aqueles pensamentos idiotas da minha cabeça, me levantei da cama e fiz meus afazeres diários, só parando quando cheguei no banheiro e encarei a banheira cheia de água. Tomei coragem dessa vez e entrei lá, esperando que a cauda aparecesse. Ela o fez após uns 13 segundos. Depois do meu "Momento-Sereia-Que-Eu-Nunca-Tive", me dirigi até a cozinha, cumprimentando Tyler.

— Bom dia, tritãozinho. — falei, arrancando um suspiro dele.

— É assim que vai ser a partir de agora? — pergunta ele, preparando alguns ovos, enquanto esperava a chaleira ferver.

— Você que me diz. — Tyler ficou calado por um tempo, acho que ele pensou que aquilo fosse uma ofensa — Desculpa. Não foi intencional.

Tyler se distanciou do fogão e retirou os ovos da frigideira, ainda em silêncio, ele evitou trocar olhares comigo. Meu coração saltitou que nem um potro demasiadamente agitado, eu nem sabia o que fazer.

— Tyler! — grito pelo seu nome, enquanto ele deposita a água quente numa xícara — O que foi? Qual é o problema!

— Acho que você está atrasada pra aula. — diz ele, usando o tom mais frio que podia. Novamente eu não disse nada, só olhei para ele. O que eu tinha feito? Quer dizer que eu não podia me estressar por ele ter mentido pra mim a vida inteira e ele pode, por causa de uma estúpida frase? A vida parece bem mais justa, agora!

— Você está sendo um grosso! — reclamo, retirando-me da mesa. Ele ri com ironia, olhando para os lados como se eu pudesse petrificá-lo com o meu olhar. Sereias podem fazer isso?

— Olha quem está falando. — replica, parando, finalmente, o que estava fazendo — Você não sabe o quão difícil é, para mim, viver como humano. Não sabe o que é perder a oportunidade de nadar como um verdadeiro ser do mar numa piscina ou no próprio oceano. Você não sabe, Delilah!

Eu não fazia ideia de como ele se sentia mal. Em certos pontos, não éramos tão diferentes assim, afinal, nossas vidas teriam sido transformadas completamente. Resolvi consolá-lo dessa vez, coisa que era trabalho dele. Eu o abracei, sem conseguir sequer encostar a cabeça em seus ombros — eu era pequena demais e ele, alto demais. Éramos bastante proporcionais, no fim de tudo -. Pela primeira vez em vários anos, vi meu irmão chorar. Ele se curvou até enterrar os joelhos no chão. Alisei seus cabelos negros e beijei por repetidas vezes sua cabeça. Sim, tínhamos invertido os papéis.

— Eu sinto saudades, Lilah. — sussurrou ele, entre soluços interrompidos — Do meu velho eu. De ser especial.

— Ei, — obrigo o garoto a virar a cabeça para mim — você é a pessoa mais especial na minha vida. Danem-se sereias. Danem-se tritões. E é bom que você não fale isso pro Caspian.

Ele deu uma leve risada, ajustando a coluna.

— Eu te amo, Tyler. E isso é tudo o que realmente importa. — ele me abraçou e ficamos ali por mais algum tempo. Eu não podia abandoná-lo num momento como aquele. Decidi que não iria a escola, não por não querer, mas para cuidar dele. Tyler, porém, negou. Disse que poderia cuidar de si mesmo e que eu o teria ajudado mais do que qualquer pessoa seria capaz. Concordei com suas palavras e me despedi dele, caminhando até a escola.

[. . .]

Meus olhos ainda possuiam duas olheiras, honestamente eu não consegui dormir direito ontem por causa das milhares de dúvidas que eu tinha sobre meu passado e, ainda por cima, por agora estar preocupada com Tyler. Quase desabei de tanto sono no meio dos corredores. Só não fiz isso porque uma garota extremamente idiota e estressante — e seu bando de idiotas estressantes — bateu em um dos armários com tanta força, que levei um susto.

— Nunca aprendeu que lugar de lixo é no lixo, débil mental? — diz Lauren, usando a voz gasguita e de foca atropelada que ela sempre tinha. Suas 2 amigas riram para tentar aumentar o clima.

— É lá que você sua família de baratas vive, não é? — retruco, ainda sonolenta — Então o que ainda está fazendo aqui?

As duas sonsas seguraram o riso, e logo a abelha rainha pisa no pé de cada uma. Ela deu o sorrisinho de cínica que ela não parava de exibir. Na verdade, quando aquela coisa não se exibia?

— Que fofa, ela está tentando ser engraçada. Por que não volta pro circo, amorzinho? A trupe te esqueceu? — já chega. Vou dar uns sopapos nessa garota e...

— Lauren, o que está havendo? — ouço uma voz magnífica vinda das minhas costas.

Eu sabia que era Caspian, mas ele parecia diferente. Mais chamativo. Mais encantador. Lauren, no mesmo instante, parou e olhou o garoto bem em seus olhos. Bem atrás da abelha rainha, eu vi Kai. Ela deveria estar vindo até a mim, sem entender o que havia acontecido há poucos segundos. Lauren, por fim, agitou a cabeça e se livrou do "transe" que a prendia.

— Caspian, que bom que está aqui. — ela falou, mudando o tom de voz que possuia antes — Essa maluca aqui me chamou de piranha. Vê se pode!

Eu estava incrédula. Ela realmente tinha chegado a esse ponto? Oh, sim. Estou falando de Lauren Donovan. Céus, ela é tão desnecessária!

— Ela está mentindo! — Kai me defendeu, dessa vez ela estava bem ao meu lado — Eu ouvi metade da conversa e a piranha aqui é essa sonsa!

— Não precisa dizer nada, Kai. — Caspian adiantou-se — Lauren, por que não volta pra sala? Sabemos quem é a verdadeira culpada aqui.

— Mas... mas, querido... ela te roubou de mim! Como pode ficar tão calmo com isso? — ela retruca, jogando o cabelo pro lado. O ar já estava com cheiro de falsidade.

— Em primeiro lugar, eu não pertenço a ninguém. — Caspian se aproximou de mim, ao dizer aquilo. Meu coração estava disparado — Em segundo, se escolhesse alguém para fazer parte da minha vida, você nem seria minha última escolha.

A garota bufou e bateu em meu ombro, ao passar por mim. Eu a imitei e Kai soltou uma risada bem alta.

— É assim que eu gosto de ver, amiga. — disse ela, me dando um abraço — Você tá bem?

Eu olho de soslaio para o meu herói. Ele me devolveu o mesmo sorriso.

— Acho que vou ficar bem.

— Ah, Lilah! — Kai me chama, meio preocupada — Você quer estudar aquele assunto de História comigo, mais tarde? É que a prova tá chegando e você é a única que pode me ajudar. Por favor!

Pensei em responder um "sim" imediatamente. Nós sempre estudávamos para as provas juntas. Eu a ajudava com História e Matemática e ela me ajudava com Biologia e Química. Mas então eu lembrei do pedido que Caspian me fizera ontem à noite. A verdade é que eu quero, com todas as minhas fibras, conhecer o mar. E a ideia de eu poder nadar por todo o oceano me fascinava. Deveria negar a minha própria natureza ou recusar o pedido de uma amiga? Que dúvida cruel. Pensando mais de duas vezes, cheguei a uma conclusão.

— Desculpa, Kai. — falei, evitando trocar olhares com o tritão — Eu já tinha planejado de estudar com o Caspian daqui a algumas horas. Você entende, não é?

Kai ficou cabisbaixa. Acho que ela queria ter disfarçado, mas claramente, falhou.

— Ah, tudo bem. Sem problemas. Posso pedir pro Owen me ajudar. — Owen era o irmão mais velho dela, mas eles nem sempre tinham a melhor relação — Me avisa se tiver dúvidas com Biologia. Você sempre tem.

— Me avisa se tiver dúvidas com Matemática. — repliquei com um sorriso simpático — Você sempre tem.

Então nos viramos e seguimos até a primeira aula, que inclusive seria Biologia. Dessa vez, no lugar de ficar ao lado de Kai, Caspian se tornou meu parceiro — em todas as aulas -. Me senti meio culpada, mas pensei em dar uma chance ao garoto. Eu fiquei ali, contando os segundos até tudo acabar e eu poder me encontrar com o mar novamente, ouvir o seu sussurro. Desvendar os seus segredos. Dessa vez, junto a Caspian.