Abraçada pelo Mar
6 Capítulo 05
Eu não disse nada, talvez pelo fato que eu não tinha ouvido direito. Apenas fiquei olhando para os dois, como se eles fossem extraterrestres. Droga, nunca imaginei que viver com uma geek como a Kai iria me influenciar tanto. Só sei que ainda estava dentro da banheira, presa nas centenas de escamas azuladas. Acabei notando o quanto elas brilhavam só depois.
— Delilah, diga alguma coisa. — Caspian pediu, abrindo um pseudo sorriso. Isso me deixou ainda mais irritada. Ele parecia levar tudo na brincadeira, como se aquilo fosse uma pegadinha.
— O que espera que eu diga, que tudo está bem? — falo tão alto, que minha própria voz chegou a me assustar — Que eu estou entendendo isso?
— Não a culpo de nada, Delilah. Só quero que saiba da verdade que foi escondida de você por todo esse tempo.
"A verdade escondida por todo esse tempo", disse Tyler. Quer dizer que minha vida inteira foi uma mentira? Ele não podia estar falando sério. Ah, é claro... eu acabei de ouvir um garoto dizer que era um tritão, ele não deve estar falando sério, mesmo. O que era isso agora, uma novela marinha mexicana?
— O quanto eu não conheço sobre a minha própria vida, Tyler? — pergunto com um olhar suplicante, reduzindo o volume da minha voz.
Ambos tiveram pena de, eu senti isso pelos seus rostos. Tudo caiu por cima de mim como um peso enorme. Tyler mentiu para mim desde quando éramos pequenos, Caspian deveria estar mentindo sobre ele ter vindo da Irlanda e talvez até sobre o avô doente. Eu mentia para mim mesma ao pensar que tudo estava bem e que era apenas um pesadelo.
— Vamos te contar, amor. — Tyler falou, encostando o indicador em minha bochecha. Eu estava tão aturdida, que o afastei de mim. Meu irmão ficou sem jeito, mas respeitou minha escolha — Mas antes, acho melhor sair daí.
Aquela conversa me fez esquecer, por breves segundos, que eu estava quase submersa com uma enorme cauda. Perguntei-me como faria para "sair daí" e pensei na possibilidade de eu ter que me enxugar completamente. Era assim que as sereias de H2O ou Mako fazem, não é? Espera, o que eu estou pensando, que eu sou realmente uma sereia?
De qualquer forma, eles me tiraram da banheira. Pedi um pouco de privacidade para os dois e me sequei completamente, até minhas pernas surgirem. Pus uma roupa nova e tentei me preparar psicologicamente para a bomba. Cada passo que eu dava, sentia meu estômago pinicar. Minha mente ainda estava repleta de dúvidas, as quais esperava tirar com eles.
— Pronta? — pergunta Caspian, me abordando pelas costas. O susto foi tão grande que acabei esmurrando seu braço, sem querer — Ai!
— D-Desculpa! — massageei a área atingida e me surpreendi com o quão musculoso ele era. Droga, Delilah! Foco.
— Não se preocupe, vou ficar bem. — ele me garantiu. Chegando na sala, encontramos Tyler folheando um livro antigo, pelo qual ele tinha tanto zelo. Ele me dissera, certa vez, que mamãe havia dado para ele, quando tinha 7 anos. Me aconcheguei no sofá, ao lado de Caspian. Tyler preferiu ficar na minha frente.
— Sei que você tem muitas perguntas e eu tenho muito a falar. — Tyler adiantou-se — Então... por onde prefere começar?
— Nossos pais. — exigi, ainda navegando nas centenas de perguntas — Você sempre me falou sobre mamãe, mas superficialmente.
— Tudo bem. — Tyler inspirou, e olhou para as próprias mãos — Nosso pai é um tritão e nossa mãe, humana. Mortimer se apaixonou perdidamente por ela quando a viu pela primeira vez no cais de Saint Pete. Após alguns encontros, ele revelou para ela que era um tritão, mas Maryan nunca deixou de amá-lo por causa disso.
Fiquei atenta a cada palavra, tentando me adaptar a nova realidade.
— E o que aconteceu com eles? Por que eu nunca tive a oportunidade de conhecê-los? — lutei para as lágrimas não saírem. Falar sobre meus pais era algo difícil e que eu não costumava fazer, principalmente na frente de estranhos.
— Nosso pai foi expulso do cardume dos Sirenos e mamãe, até onde eu sei, está desaparecida. — me impressionei um pouco por eles usarem o mesmo termo de Mako para indicar um conjunto de sereias ou tritões — Na última vez que eu a vi, foi quando ela apagou suas memórias usando a Skabis, uma concha extremamente poderosa, muito utilizada para manipulação. É por isso que você não se lembra de nada relacionado a ela, Mortimer ou sobre os Sirenos.
— M-Mas... — gaguejei, sem suportar ouvir mais nada — Você disse que ela morreu quando eu era pequena. Como pôde mentir pra mim sobre algo tão importante?
— Delilah, calma. — Caspian pediu, tocando em minha mão. Por que aquilo era tão reconfortante? — Tyler avisou que lhe contaria a verdade, e é isso que ele está fazendo agora.
Tyler fez um gesto de agradecimento à Caspian e prosseguiu.
— Mamãe teve que fazer isso, por culpa do nosso pai. — explicou ele — Somos o fruto do amor proibido.
— Literalmente. — adicionou Caspian. Pelo visto, a história dos nossos pais teria sido tão grave ao ponto de todos do cardume terem reconhecimento dela. Ou então o garoto dos olhos de oceano tinha uma estranha conexão com Tyler — Há uma regra, a número 1 no reino dos Sirenos. Podemos até viver em terra firme, mas somos estritamente proibidos de nos apaixonarmos por um ser humano. E seu pai Mortimer foi o primeiro a quebrar tal regulamento.
— Existia, na época, um soberano dos mares, chamado Calisto. Ele determinou que quem desobedecesse essa regra seria punido da pior forma.
— E qual seria a punição? — pergunto para ambos, mas gostaria de ouvir a resposta do meu irmão.
— Existem várias maneiras de machucar um Sireno apaixonado. No caso de Mortimer, ele foi proibido de pôr os pés no reino dos humanos. Foi por isso que nossa mãe quis apagar suas memórias. Ela não queria que você soubesse disso. — Tyler voltou a falar. O pior de tudo, é que fazia sentido.
— E por que suas memórias foram preservadas? — questionei, sem esquecer do fato de Tyler saber muitas coisas sobre os Sirenos (e por ele ser um).
— Maryan não queria que todas nossas origens fossem simplesmente apagadas das nossas existências, portanto, me escolheu para que eu pudesse falar tudo pra você quando estivesse pronta.
Havia algo que eu não compreendia. Desde o momento em que descobri sobre eu ser uma sereia, percebi que nenhum dos dois eram afetados pela água. Como poderiam ser tritões se nem cauda possuiam?
— Onde estão as caudas de vocês? — a pergunta soa tão espontânea, que ambos se espantam — Tritões também têm cauda, não é? Ou é só coisa de cinema?
— Você está certa, Lilah. — anuncia Tyler, brincando com os dedos da mão — Lembra quando eu falei sobre a regra número 1 dos Sirenos? Bem... eu também a quebrei.
Fiquei surpresa com a revelação, nunca na minha vida imaginaria que Tyler passaria por uma situação tão ruim como essa.
— Eu conheci uma humana, enquanto eu vivi por aqui. Não pude escapar dos seus encantos e, quando menos esperei, já estava completamente apaixonado por ela. Eu já tinha uma cauda, que tentei esconder por toda a minha vida, ainda mais quando mamãe se foi.
"E escondeu muito bem", pensei, imaginando como deveria ter sido difícil ocultar uma cauda enquanto vivíamos no litoral.
— Até que um dia, senti algo forte apertar o meu peito e quando entrei no mar, não me transformei num tritão, como normalmente acontecia. — continuou — Por sinal, você só conseguiu uma cauda aos 17 anos por ser uma sereia mundana, um ser do mar que vive sobre a terra pela maior parte da vida. Essa espécie demora a desenvolver as características Sirenas. Eu ainda vivi no mar por um bom tempo, quando você ainda não tinha nascido.
Fiquei encantada com tudo e ainda um pouco espantada. Era complicado absorver todas aquelas informações ao mesmo tempo. Tomei uma breve respiração e olhei para Caspian. Quase tinha me esquecido dele.
— E você? Como conseguiu esconder sua cauda? Também se apaixonou por uma humana?
— Ainda não me dei ao luxo. — respondeu com simplicidade — Gostaria de viver esses clichês mundanos, se eles não prejudicassem nossa espécie. A questão é que eu tenho uma pulseira que me proteje. Ela possui um encanto que bloqueia minhas características Sirenas ao tocar na água.
Ele então me mostrou a pulseira que eu tinha visto na sala de canto, quando nos tornamos amigos — pelo menos é o que eu acho.
— Se eu retirá-la e tocar na água, a cauda volta.
— Interessante. — fixei meus olhos e toda minha atenção em Caspian. A neutralidade em sua voz me deixava tranquila. Tyler pigarreou, como se estivesse incomodado com nosso contato.
— Ainda existem mistérios sobre nossa vida, Delilah, mas você os descobrirá com o tempo. A propósito, não poderá falar sobre isso a ninguém. Nem mesmo a Kai, para nosso próprio bem.
O pensamento de trair minha melhor amiga me esmagou, pouco menos do que qualquer surpresa que eu recebi naquele exaustivo dia. Tive que concordar, apesar de tudo. Não queria piorar a situação entre nós. Meu irmão me consolou, depois de ter me avisado sobre Kai, ele era muito bom nisso, honestamente. Sorri para ele e o abracei. Senti sua respiração aquecer minha cabeça, até que nos separamos. Ele foi para o quarto enquanto eu e Caspian ficamos juntos.
— Quero te conhecer, Caspian. — sussurro para mim mesma, só que ele, obviamente, também escutou. O sorriso que eu tanto gostava se formou em seu rosto e me preencheu — Saber mais sobre você. Sobre nós.
— Hmm... acho que já sei o que podemos fazer após a aula de amanhã.
— O que, exatamente? — peço, meio nervosa.
— Que tal uma aula de nado com um verdadeiro tritão? — meus olhos brilharam, tenho certeza que o fizeram, apesar de eu não ter visto. Não pude evitar de sorrir.
— Parece uma proposta tentadora.
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