Abraçada pelo Mar
5 Capítulo 04
Acordei sentindo falta de ar. A primeira coisa que fiz foi tomar uma larga respiração e erguer minha coluna para frente, como se eu tivesse recebido uma descarga elétrica de um desfibrilador super potente. Tossi até os pulmões arderem e só então, percebi que eu estava em casa, coberta por um edredom macio. Aquele foi o momento mais tenso de todos: deveria retirar o cobertor de mim e encarar a cauda ou não? Acabei escolhendo a primeira opção e...
A cauda não estava lá. Simplesmente havia sumido! Mas como? Foi tão real pra ser apenas uma ilusão.
— Delilah! — vi meu irmão aparecer na cozinha, que era conectada a sala de estar.
Seu rosto estava vermelho e eu sabia muito bem o que aquilo significava. Ele teve um ataque de pânico, desde pequeno ele sofre com tais crises. Tyler correu para minha direção e lançou vários beijos contra minha gélida testa. Eu estava pasma de mais para beijá-lo de volta.
— O que aconteceu, Ty? — pergunto, tão perdida quanto um urso no deserto. Ele ajeitou uma mecha do meu cabelo e sorriu.
— Você desmaiou quando estava na praia. Por sorte, seu amigo te encontrou e te trouxe até aqui.
Caspian. Seria mesmo ele? Como ele sabia pra onde eu tinha ido? Aquilo estava começando a machucar minha cabeça.
— Você me desobedeceu, Delilah. — observou ele, decepcionado. Seu olhar me deixou triste, mais do que eu deveria estar. A verdade é que eu me preocupo com ele, mas Tyler não era capaz de me protejer para todo o sempre — Por que fez essa idiotice, Lilah?
— E por que não, Tyler? Eu sou uma garota normal, posso fazer o que quiser da minha vida.
— Sabe que não é assim que levamos as coisas. — ele rebateu, cruzando os braços — Eu sou o seu irmão e, enquanto estiver com você, vou te protejer pra sempre. Mesmo que tenha que te estressar.
Sim, ele levava aquilo a sério demais. Droga, por que eu sou tão injusta com ele? Tyler deveria merecer uma irmã melhor, talvez uma bem quieta, que só come, dorme e respira. Talvez eu devesse comprar um gato pra ele. Gatos fazem isso, não é?
— Eu te amo, Lilah, mas sabe que não posso admitir certas coisas.
— É, eu entendo. Desculpa. — falei, olhando pra baixo. Quando voltei os olhos para Tyler, vi que ele estava sorridente como nunca. Esse era o meu irmão! — Mas me explica uma coisa... por que não queria que eu saísse de casa?
O sorriso de repente caiu. Tyler evitou olhar em meus olhos e encarou uma das almofadas que antes estava debaixo da minha cabeça.
— É seu aniversário. Eu queria que você ficasse aqui, comigo. — ele arrancou um dos barbantes que estava pendurado na almofada e ainda não olhou para mim.
— Mas você estava sério demais, hoje mais cedo. Parecia ter algo a mais. — ele abriu a boca para falar, mas alguém tocou a campainha. Perguntei pra Tyler se ele estava esperando por alguém, mas ele negou com a cabeça. Lembrei que Kai havia combinado comigo pra vir aqui em casa, mais tarde. Supus ser ela.
— Olha, Kai, desculpa se eu tava... — abri a porta e me surpreendi ao encontrar o garoto dos olhos de oceano bem na minha frente. Meu coração afundou de novo e quase tive vontade de pisar no meu próprio pé pra me acordar — Caspian? O que está fazendo aqui?
— Resolvi te visitar. Fiquei mal pelo que eu disse hoje mais cedo. — ele ficou cabisbaixo e eu me apoiei na porta. A esse ponto, Tyler deve ter ido pro quarto dele, resolver as papeladas da minha guarda — Será que eu posso...
Ai, Senhor! Ele ainda tava do lado de fora. Praguejei internamente pela minha lerdeza e deixei que ele entrasse. Caspian admirou alguns porta-retratos que se dispunham sobre uma mesa de madeira e depois voltou sua atenção para mim.
— Você está bem, Delilah? — perguntou, simplesmente. Por algum motivo, aquilo foi como uma bomba pra mim. Ele tornava tudo mais complicado do que deveria ser.
— Acho que sim. Quer dizer... ainda estou muito confusa sobre hoje mais cedo. Também meio tonta. — declarei, rindo de soslaio. Caspian nem piscou os olhos — O que houve? Tyler disse que você me salvou.
Caspian pensou um pouco antes de responder, fiquei imaginando se ele estava inventando alguma mentira ou se era apenas um hábito estranho dele.
— Quando ficou chateada, hoje mais cedo, perguntei para Kai aonde você poderia ter ido. Ela me falou que tinha um lugar na praia que você preferia, então fui praquela piscina natural.
— É, ela está certa, como sempre. — admiti.
— Eu gritei pelo seu nome quando cheguei perto da praia, mas você não respondeu. Foi aí que eu notei uma agitação no mar, mais esquisita que o comum. Me aproximei do local e era você. — ele completou, seus olhos pareciam estar mais escuros ao dizer aquilo — Você fez meu coração parar por um instante, a ideia de te ver afogando parecia me corroer. Sem pensar duas vezes, eu pulei na água e te tirei de lá. Tentei fazer uma massagem cardíaca, mas você ainda estava inconsciente.
Ele ficou calado depois disso. Algo muito forte dentro de mim me pediu pra eu fazer a pergunta que mais estava esperando: ele viu alguma coisa, assim como eu? Caspian teria visto uma cauda azul no lugar das minhas pernas ou era apenas uma loucura minha? Seria esquisito demais perguntar isso?
— Uhm... você viu alguma coisa estranha na praia? Quando me salvou? — pus a mão no fogo. Foi essa a sensação que me apoderou. Caspian arqueou as sobrancelhas e coçou o queixo.
— Tipo o quê?
— Ah... sei lá. Alguma cauda... um peixe grande... — ele abriu um sorriso tímido, que cresceu quando a ideia pareceu a ser realmente mirabolante.
— Está querendo dizer que um peixe te puxou? Um peixe... enorme?
— Notou ou não algo estranho quando me salvou, Caspian? — persisti com o mesmo questionamento. Ele deve ter se arrependido do que falou, pelo meu tom.
— Não. Apenas uma garota batendo os braços contra a água. — replicou, silenciosamente. Então era isso. Eu estava louca. Que bom saber, antes tarde do que nunca, não é? — Eu estava pensando... que tal se a gente sair pra você clarear a mente e esquecer do que aconteceu?
Senti minhas orelhas queimarem. O garoto mais gato da escola estava me pedindo pra sair? O que tá acontecendo aqui? É uma pegadinha? CADÊ AS CÂMERAS?
— Sério?
— Uhum. — ele balançou a cabeça — A não ser que não queira.
— Não, tudo bem. — respondo rapidamente, feito uma tonta apaixonada — Você pode me esperar enquanto eu tomo banho? — Ele assentiu.
Corri para o banheiro e enchi a banheira com água quente. Despi-me e entrei vagarosamente, mergulhando minha cabeça na água. Formei bolhas com o nariz e tentei seguir o conselho de Caspian sobre esquecer do acontecimento de hoje, só que não funcionou. Até a calma que a banheira fornecia me lembrava da minha experiência de afogamento. Retirei a cabeça de baixo d'água e inspirei profundamente, sem abrir os olhos. Acho que já deu por agora. Resolvi sair dali, mas o pânico retornou. Não pude mexer minhas pernas pela segunda vez.
"N-Não, por favor", pensei sem abrir os olhos "Não pode estar acontecendo de novo"
— Calma. Respire, Delilah. — sussurrei para mim mesma, sentindo como se minhas pernas estivessem sido coladas com cimento. Aquilo era apenas eu tentando me encorajar a abrir os olhos — Você consegue.
Eu finalmente os abri, e a cena se repetiu em minha frente. No lugar das duas pernas, havia uma cauda azul-marinho bem escamosa, dessa vez junta a parte superior do biquini igualmente escamoso, como os que as sereias de H2O usavam ao se transformarem — mas no lugar de laranja, eram da mesma cor da cauda. Não pude fazer mais nada, além de gritar.
— AAAH! — vociferei, usando todo o fôlego que ainda tinha. Ouvi o barulho de passos estrondosos, e um par de mãos socando contra a porta.
— Delilah! — era a voz de Caspian. Nem ele conseguiu me acalmar naquele instante — Abra a porta!
— N-Não consigo. — de repente, ouço a voz aflita de Tyler. Pelo barulho, ele segurava um molho de chaves e usou uma delas para abrir a porta.
— Estamos entrando! — anunciou ele. Quando os dois entraram, ficaram estáticos, olhando para a coisa que deveria ser as minhas pernas. Tyler e Caspian se entreolharam por um bom intervalo de tempo, o que só piorou tudo.
— O que. É. Isso?! — exigi, pausadamente. Eles não responderam de imediato, mas por fim, o rosto de Caspian foi o primeiro a voltar ao normal.
— Está acontecendo. — Tyler disse, evasivamente — Finalmente acontecendo.
— D-Do que você está falando? — perguntei, nervosa — Por que vocês não estão surtando?!
Eles continuaram a se encarar. Quando eu conseguir sair daqui, tenho certeza que vou estapear os dois!
— Acho que está na hora de contar pra ela. — diz Caspian, cruzando os braços.
— Do que droga você está falando? Por que vocês não estão surtando? — repeti, usando exatamente o mesmo tom de antes. Caspian se aproximou do meu ouvido, estremeci.
— Porque, Delilah, — murmurejou — somos tritões.
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