Abraçada pelo Mar
4 Capítulo 03
Chego em casa com Kai, ela iria jantar comigo novamente. Os pais dela são super de acordo com isso, já que me amam tanto quanto a própria filha. Ao abrir a porta da cabana, fico surpresa. Tinha um garoto moreno de olhos verdes sentado na poltrona, cheio de papéis e documentos. Um par de óculos repousava em seu nariz e seu olhar estava perdido e cansado. Nem pude acreditar que aquele homem bem na minha frente era Tyler. Precisei chamar seu nome para confirmar.
— Ty? — ele desvia a atenção das folhas para mim, um sorriso se formou em seus lábios e aqueceu meu coração. Kai somente sorriu para nós dois e teve que assistir a uma sessão de abraços e beijos na testa do meu irmão mais velho.
— Ah, Lilah. Como eu senti sua falta. — ele anunciou, segurando minha nuca como se eu fosse um bebê indefeso. O brilho em seus olhos voltou e era até compreensível.
Tyler e eu nunca nos separamos e essa é a mais pura verdade. Raramente vivíamos longe um do outro e, quando a distância que nos separava era grande, mantínhamos comunicação por facetime ou de alguma outra forma que pudéssemos ver um ao outro. No dia da tempestade isso não aconteceu. Ele teve que se virar sem mim e eu, sem ele. Tenho que admitir, apesar de estar com a minha melhor amiga, foi um dos momentos mais angustiantes da minha vida. Ele tinha viajado para o polo oposto da Flórida, não tinha sido qualquer coisa, no fim de tudo.
— Você comeu bem? Foi à escola? — ele começou com os longos questionamentos. Por mais que eu amasse o modo "Pai/mãe" dele, às vezes era irritante — Dormiu tarde demais?
— Calma, Tyler. Ela estava comigo. — Kai apoiou o braço em meu ombro e apontou para si mesma — Acha que essa gracinha aqui não é uma boa companhia?
— Tenho certeza que vocês se deram bem sem mim, Kai. Mas só precisava de uma confirmação.
Ele largou alguns dos papeis que ainda segurava e me explicou que estava tratando sobre a minha guarda. Até agora não entendi porque tinha que ser tão complicado.
— Tem pizza lá na mesa e refrigerante na geladeira. — Tyler avisou e nós partimos em desparada até o paraíso — Mas não comam tudo!
— Pode deixar!
Depois de comermos e conversarmos como uma verdadeira família, assitimos a um filme bem estranho sobre sereias. A verdade é que eu não gosto muito daquelas criaturas. Não que elas não sejam perfeitas, ou que não cantem tão bem quanto querubins, mas eu só achava aquilo artificial e fantasioso demais. Mas, claro... eu tinha qque assistir por causa de Kai, assim como tive que aturar a garota sofrer por Teen Wolf, TVD e outras milhares de séries e filmes. Eu nem tinha mais cérebro pra isso.
— Olha, Lilah. — ela me chama, completamente concentrada no filme. Qual era dessa vez mesmo? Aquamarine? O 13° aniversário? A pequena sereia?
— O que é?
— Você se parece com aquela garota ali. — ela aponta para uma adolescente bem bonita, de cabelos castanhos e olhos verdes. A diferença impactante entre nós duas era que ela possuía uma cauda verde repleta de escamas. Uma sereia, é claro
— Não é engraçado?
— Você andou fumando? Ela é uma sereia, Kai. Essas coisas não existem. — bufei, sem muita paciência. Aquela não era a primeira vez que Kai me comparava com aqueles seres marinhos magníficos. Olhei para o relógio do meu celular, já estava tarde — Tem certeza que não quer dormir aqui? Sabe que Tyler gosta de você.
— Nah. Melhor não. — respondeu, seguido de um bocejo — Já falei com meus pais sobre eu vir jantar aqui. É tarde demais pra mudar a cabeça deles.
Sorri pra ela e desliguei o aparelho do DVD, guiando a minha amiga sonolenta até a sala de estar. Tyler estava lá, ainda naufragado em pilhas e mais pilhas de papéis. Seus olhos estavam vermelhos de sono e ao seu lado, havia dois energéticos, um deles já consumido.
— Tyler, venha dar um tchau pra Kai. Ela vai embora agora. — pedi, obrigando-o a olhar pra gente.
— Tem certeza que quer ir, Kai? Posso te deixar em casa se preferir. — ele sugeriu, sem notar a marca enorme que seu rosto tinha ganhado. Provavelmente de ter cochilado em cima de algum livro.
— Eu tô bem, Tyler, vou sozinha. Mesmo assim, obrigada. — ele devolveu um largo sorriso para ela. Tyler beijou a testa de Kai e acenou para a garota, que seguiu pelo caminho que sempre ia ao voltar pra casa.
— E agora? O que fazemos? — pergunto pra ele. Tyler coça a cabeça e deixa um bocejo escapar. Ele apalpa minhas costas e me guia até a cama, sem me deixar falar mais nada.
— Você vai dormir, enquanto eu cuido daquela pilha de documentos. — parei no meio do caminho. Não poderia suportar ver meu irmão daquele jeito. Ele era responsável demais e ainda tinha uma vida, que não deveria ser desperdiçada daquela forma.
— Não vou se você não for dormir. — bati o pé até doer. O garoto suspirou e assentiu, saindo do meu quarto. Quando menos espero, ele volta para me informar algo.
— Ah, quase ia me esquecendo. Você não vai pra escola amanhã.
Foi tudo o que disse. Sem entender nada, gritei pelo seu nome até que ele voltasse pro quarto.
— Ei, por quê? — pergunto — Eu tenho amigos lá. Não é o meu aniversário que vai me impedir de-
— Delilah, você não vai pra escola amanhã e ponto final. — ele insistiu, mas eu ainda não tinha me convencido.
— Eu que decido as coisas no meu aniversário! As coisas servem assim, Tyler. 5 anos de diferença entre nós dois não vai mudar isso.
— Isso não foi uma sugestão! — ele gritou. Tyler nunca fazia isso, ao menos que fosse muito importante — Você não vai pôr os pés naquela merda de escola. E se tentar alguma coisa, eu vou estar de olho.
— Você não é meu pai! — exclamei sem pensar.
Aquilo doeu até em mim, por isso me senti estúpida. Tyler me jogou um olhar de ira tão forte que senti o peso sobre minhas costas. Diferentemente das outras vezes, a porta fora fechada com um baque estrondoso. Fiquei lá dentro do quarto, lutando para entender o que teria sido aquilo, para compreender as emoções que agrediam meu peito.
[. . .]
O alarme não despertou dessa vez. Eu me obriguei a acordar sozinha para não chamar atenção de Tyler. Tomei banho e pus várias coisas na minha mochila. Ele disse que estaria de olho em mim, mas duvido que me veja sair pela janela do quarto. Abri a cortina e me livrei daquele lugar, que deveria ser minha prisão. Corri até a escola sem ser notada por ninguém. Ao chegar lá, me deparo com Kai falando com Caspian. Aquilo me surpreendeu, claramente.
— D-Delilah? — Caspian pergunta, chocado ao me ver. No lugar do sorriso, um olhar de decepção se formou em seu rosto.
— Oi pra você também. — chiei e dei um abraço em Kai. Ela deu o chilique matinal dela e me parabenizou.
— Tá tão velhinha. — brincou, esfregando os olhos — Tô tão emocionada.
— Garota, você tem 17 anos. — continuamos a falar e confesso ter ignorado Caspian por um tempo. Ele deveria estar incomodado com isso, já que me puxou para longe de Kai.
— O que você tá fazendo aqui? — pergunta ele, com uma espécie de raiva incompreensível.
— Acho que eu vim estudar, sabe? Que nem você.
— Não deveria vir pra cá. — retrucou, ainda mais chateado. Ele tentou me puxar para mais longe de Kai, talvez até para fora da escola, mas eu parei no meio do caminho.
— O que você tem? É meu aniversário, não o fim do mundo. — exclamo, com a maior vontade de bater nele. Caspian tentou pegar meus braços novamente
— Me larga!
— Devia ter escutado seu irmão, Delilah. — então eu me assustei. Como ele sabia sobre Tyler ter me impedido de vir pra cá? Quer saber... nada importa mais!
— Me deixe em paz! Você e ele são a mesma coisa! — finalmente me soltei de suas mãos. Milhões de pensamentos invadiram minha mente ao mesmo tempo. Tudo o que eu pensei foi em correr, sair daquele lugar estúpido e ir para o mar, meu refúgio.
[. . .]
Deslizei meus pés na areia quente da praia. Eu estava sozinha, literalmente, numa piscina natural que ficava próxima a minha casa. O vento penetrou em meus pulmões e me encheu de paz. Eu estava precisando disso, mais do que tudo na minha vida. Arrisquei dar uns passos para frente e mergulhei os pés nas águas do mar. Dados alguns segundos, deixei todo o meu corpo boiar. Não havia barulho nenhum, ruído algum. Apenas a paz.
Eu ouvi o sussurro do mar novamente, ele me dizia palavras mescladas que não consegui compreender muito bem, mas eram agradáveis. Tudo estava tranquilo, até eu sentir um peso sobre minhas pernas. Era como se, repentinamente, alguém tivesse prendido uma âncora aos meus pés. Eu estava afundando.
— M-Mas o que...
Estava ficando pior, eu já não conseguia mover meus pés. Por instinto, talvez, senti a necessidade de olhar para baixo e me assustei com o que vi. No lugar de duas pernas havia uma cauda azul-marinho, cheia de escamas sintilantes. Tentei me mexer, mas de nada adiantava. Tudo o que eu lembro antes de ser puxada para o fundo, foi a voz do oceano. Essa teria sido a primeira e única vez que eu o entendera.
"Venha, Delilah"
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