Abraçada pelo Mar
3 Capítulo 02
— Bem, sr. Mazur, seja bem-vindo. — srta. Brown o cumprimentou. Ele desviou seu olhar de mim para nossa professora e sussurrou um obrigado. Todas as garotas estavam olhando pra ele, agora. Honestamente, ele chamou até a atenção dos garotos, que não pareciam tão contentes com sua presença.
Caspian procurou por uma cadeira vazia em uma das mesas duplas e, quando achei que ele fosse sentar do lado da Kai, Lauren, a abelha rainha da escola, pega o garoto pelo pulso e "oferece" um lugar ao seu lado. Ele assente, mas antes volta o olhar para mim pela segunda vez, fazendo com que meus dedos formigassem e meu estômago contraísse brutalmente. Não sabia se deveria estar gritando internamente por isso ou preocupada por ele parecer um stalker.
— Abram na página 56. — pede a professora, fazendo algumas anotações no quadro — Vamos aprender sobre os artrópodes.
Kai abriu seu caderno, mas não estava escrevendo sobre aracnídeos ou crustáceos. Era algo para mim. Ela rasgou uma folha e me passou um bilhete bem amassado junto a uma caneta.
NÃO LIGA PRA LAUREN, ELA É UMA VACA. TENHO CTZ QUE O GAROTO NOVO GOSTA DE VC
Li em voz baixa e olhei pra ela com uma expressão de dúvida. Escrevi de volta.
O GAROTO ACABOU DE CHEGAR AQUI. VC ACHA Q ELE É CAPAZ DE GOSTAR DE ALGUÉM TÃO RÁPIDO ASSIM? A PROPÓSITO, EU NEM GOSTO DELE MESMO
Ela anotou mais uma coisa,mas dessa vez não me passou. Vi de longe que ela havia escrito um "gosta, sim". Roubei o papel de sua mão, o amassei até virar uma bolinha minúscula e joguei no chão.
— Eu não gosto dele, tá! — não tinha notado que eu falei tão alto, mas a sala inteira ouviu, inclusive a professora, que fez questão de virar para mim.
— Espero que esteja falando sobre artrópodes, srta. Sherwood. Caso não esteja, a sala do diretor sempre estará aberta pra você. — me encolhi na cadeira e pisei no pé de Kai.
As aulas se passaram lentamente, como sempre. Os professores lançaram várias perguntas sobre seus respectivos assuntos para o garoto, já que queriam testar os conhecimentos dele. Tenho que admitir, eu o subestimei muito. Caspian respondeu cada uma como se fossem óbvias demais pra ele. Lauren apertava o braço do garoto a cada vez que ele acertava — ou seja, sempre -. Dadas algumas horas, finalmente saímos de lá.
— Você vai almoçar aqui mesmo? — Kai pergunta, desviando a minha atenção. Estávamos no refeitório, prestando atenção no movimento do lugar. Notei que Caspian estava sentado na mesa de Lauren e dos jogadores de futebol, ou como eu preferia dizer, os "Montanhas de Esteroide".
— Não. Aqui tá muito mal movimentado. — encarei a abelha rainha de longe e esquivei o olhar do mais novo casal. Praguejei por eu estar incomodada com Caspian e Lauren juntos, mas ignorei qualquer sensação de raiva — Vou para a sala de canto.
— Você sempre vai pra lá... Quer companhia? Posso ficar com você até o horário da minha aula de natação.
— Eu vou ficar bem, obrigada. — despedi-me dela e fui para a sala 06.
Eu não almocei. Toquei algumas notas do violino que estava na estante do professor e comecei a cantar. Primeiramente foi baixo, mas então fui aumentando a voz. Enfiei meus fones no ouvido e acompanhei a melodia da música, sem notar o mundo ao meu redor. Puxei o caderno de desenhos da minha mochila e fiz rabiscos aleatórios, até que se tornaram círculos, traços e formas repletas de curvas mais precisas.
De repente, um barulho quebra todo o ritmo que me guiava. Arranquei os fones de ouvido e larguei o caderno ao chão, para encarar o garoto novato. Eu o recebi com uma expressão surpresa, perplexa.
— Nossa. Você... canta muito bem. — comentou, olhando bem no fundo dos meus olhos. Balancei a cabeça para focar no que eu estava fazendo. Dei de ombros e voltei minha atenção ao caderno de desenhos. Coloquei-o no colo e continuei com os rabiscos, falando com ele sem contato visual.
— Achei que você estivesse com Lauren. — falei. Com a velocidade que eu estava desenhando, a caneta deslizou pelos meus dedos e caiu no chão. Caspian se curvou e a entregou de volta para mim. Só agora eu tinha notado que ele possuía uma pulseira com o formato de uma lua minguante. Ele recuou, quando eu a vi — Pulseira legal.
— Valeu. Eu ganhei da minha mãe há um tempo. Ah, e eu não tô com a Lauren. Só pra você saber.
— Não é o que parece. De qualquer forma, isso não é da minha conta. Você pode ficar com quem quiser do mundo inteiro. — levantei-me do chão e abri a mochila para pôr o caderno de volta lá — Será que pode me dar licença? Eu tenho aula de canto agora.
— Não é por isso que está aqui, não é? — ele observou, sem desistir — Por que está sozinha? Poderia ter pedido companhia da sua amiga.
— Isso não é da sua conta, acredite. Bem, se não vai sair, eu saio. — quando estava prestes a ir embora, sua mão se encontra com meu pulso. O choque fora tão grande que a sensação de hoje mais cedo retornou. Ele estava me deixando mais confusa do que eu imaginava.
— Desculpe se falei algo de errado. — disse, próximo ao meu ouvido — Será que podemos recomeçar?
Olhei pela terceira ou quarta vez para seus olhos. Eram tão azuis quanto o mar e por fim me perguntei porque seria tão ruim dá-lo uma chance. Enrijeci os ombros e soltei sua mão da minha vagarosamente. E então, pela primeira vez desde que ele chegou aqui, eu sorri.
— Sou Caspian Mazur. Qual é o seu nome? — ele estendeu a mão para me cumprimentar. Fiquei por um tempo olhando para ela, sem saber o que fazer.
— Delilah Sherwood.
— Ótimo começo. Será que podemos sair daqui, senhorita? — pediu com um tom brincalhão. Cedi ao seu pedido. Saímos da sala 06 e fomos até a piscina olímpica da escola, onde provavelmente me encontraria com Kai, já que ela tem aula de natação.
Expliquei a ele o quão eu era apaixonada pelo mar e como a água me mantinha calma. Caspian me falou sobre seus pais e que eles tinham vindo da Irlanda, há poucos dias. Eu apenas assenti, apesar de perceber que ele não tinha um sotaque tão definido.
— O que te fez vir pra cá tão repentinamente? — pergunto, mordiscando um pedaço do sanduíche de atum que eu comprei na cantina. O garoto preferiu comprar apenas um salgado e um refrigerante de uva.
— Eu tenho um avô que mora aqui e ele está muito mal. — Caspian ficou cabisbaixo, parando um pouco só para organizar seus pensamentos — Os médicos disseram que era a idade, mas achamos que é algo a mais. Meus pais pagaram uma secretária particular pra ele, mas... eu não sei, tenho medo de ele...
— Não precisa continuar. Eu entendo. — aquilo me lembrou da minha mãe, na verdade. Ele ainda não sabia sobre ela, já que não me senti confortável o suficiente pra falar sobre um assunto tão delicado à um completo estranho, mesmo pra alguém com o mesmo carisma que Caspian.
— Então... seu aniversário é amanhã. — concordei com a cabeça, lembrando que eu tinha contado pra ele mais cedo — 17 anos, né?
— Sim. É o que o tempo diz, pelo menos. — rimos — Por quê?
— Sei lá... dizem que 17 é uma idade especial, de tomar decisões importantes.
— Bobagem. Tomamos decisões ao longo de toda nossa vida. Ao menos que você seja submisso a alguém. — retruquei, limpando as mãos num guardanapo.
— É... também pensei nisso. — o silêncio nos envolveu por um minúsculo instante, e quando um de nós tentou começar um novo assunto, fomos atacados por uma morena alta e esbelta que eu costumava chamar de irmã.
— Boo!— ela surgiu do nada da água, sua cabeça era a única a aparecer na superfície da piscina. Kai jogou jatos de água para nós dois e veio ao nosso encontro. O mais estranho de tudo tinha sido Caspian, ele se desviou das gotas como se fossem ácido.
— O que foi, cara? — perguntei, rindo daquela situação idiota — Ela só molhou a gente. Água não machuca, sabia?
Ele ficou encarando uma das gotículas que estava na palma de sua mão. Parecia algo magnífico pra ele, o que deixava tudo cada vez mais estranho.
— É... — declarou ele, sem tirar os olhos da mão — É só água.
Curvei as sobrancelhas, mas resolvi deixar pra lá. Esperei Kai trocar de roupa para irmos embora e me despedi de Caspian, que nos abandonou com um olhar perdido e repleto de dúvidas. O que teria acontecido com ele?
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