Abraçada pelo Mar
2 Capítulo 01
Eram 5:30 da tarde, sei disso pelo fato de o alarme ter explodido em meus ouvidos quando acordei do meu cochilo. Havia a mensagem PIJAMA/KAI estampada na tela, que não parava de piscar, como se eu realmente estivesse falando com a sonsa que eu tanto amava. Kai Mohoe era a minha melhor amiga, correção, a minha irmã. Eu a conheci quando tinha uns 4 anos e desde então, somos muito unidas. Tínhamos combinado uma festa no pijama na minha casa, devido a "AT" do meu irmão. AT, em nossa língua, significava Ausência Temporária, e quando se tratava de Tyler, tudo ficava perfeito.
Mal termino de arrumar a cama e recebo uma ligação. O toque Smells Like Teen Spirit me agita antes mesmo de atender a chamada. Isso sempre era um problema.
— Alô, aqui é do zoológico?— a voz que eu reconhecia muito bem falou pelo outro lado da linha. Pra entrar no "modo zoeira", deixei que a garota terminasse o insulto.
— Não, por que?
— Só queria informar que eu tenho um animal perto da minha casa. Ele se chama Delilah.— nós duas caímos na gargalhada, Kai ainda mais. Respiramos profundamente e ela voltou a falar comigo — Você tá pronta pra festa do pijama, hoje?
— Não, imagina. Você deve ter falado sobre isso a semana inteira! — brinco — É claro que eu tô e vocé sabe disso, dona Mohoe.
— Desculpe se hoje temos a AT do Tyler, miga. — ela rebateu. A linha ganhou uma estática surpreendentemente agradável, mas tive que ouvir Kai reclamar sobre isso por um tempo.
— Escuta, se eu fosse você me apressaria. — alertei, dando uma rápida olhada no relógio de pulso que minha mãe deixou para mim — Parece que hoje teremos uma tempestade daquelas.
— Só me fala quando uma tempestade não atinge aqui. Por favor, estamos falando de Saint Pete, Delilah.
— De qualquer forma, tome cuidado. Não quero ter que preparar o seu velório nessa chuva. Meu cabelo ficaria horrível.
— Credo, sua sem coração! Você é estranha. — ela riu novamente e foi interrompida pela mãe dela, que mandou um beijo pra mim e pro Tyler — Eu tenho que ir. Meu pai vai me deixar aí e ele não curte demoras.
— Adeus, então.
— Ah, e eu ainda vou te comprar um presente de aniversário. Não se preocupe.
— Tchau, Kai. — insisti. Daqui a 2 dias seria meu aniversário de 17 anos e eu obriguei Kai a não me dar nada. Infelizmente, é difícil mudar a cabeça de uma tagarela como ela.
Desliguei a tela do celular e inspirei calmamente, sentindo o ar úmido da praia de Saint Pete invadir meus pulmões. Eu amava aquilo. Tyler sempre dizia que meu sangue era feito de mar e que meu coração era o farol que iluminava todo o oceano. Mamãe sempre ria daquelas comparações — pelo menos é o que ele me dizia, já que nunca tive a oportunidade de conhecê-la. Ela morreu quando eu tinha poucos anos de idade, e acabou deixando a mim e ao Tyler sozinhos nesse mundo. Não tínhamos indícios de onde estava nosso pai, nem tínhamos sequer uma família que morasse perto da gente, portanto, para que eu não pudesse ser enviada à um orfanato, Tyler conseguiu minha guarda ao completar 18 anos. Desde então vivemos juntos, sendo sustentados por sua herança.
Para distanciar a cabeça do mundo, fui para a praia, que ficava a 19 metros de distância da minha casa. Tranquei a porta e me certifiquei que Kai não chegaria mais cedo. Tirei as sandálias e deixei que a brisa pudesse me envolver novamente, assim como as ondas quentes do mar. Quando pude encontrar equilíbrio para então ir embora, senti um peso no coração que se assemelhava a um chamado. Era como se o mar estivesse gritando pelo meu nome. "Que idiotice a minha. Já estou imaginando coisas nessa idade.", pensei, rindo.
Voltei para casa e lá estava Kai, com uma cesta de coisas pra gente comer. É hoje que eu engordo uns 6 quilos!
— Já podemos começar aquela maratona de Smallville que você me prometeu, Sirena? — pergunta ela, fazendo um gesto pra eu abrir a porta.
— Sirena? Essa é nova.
— É. Significa "sereia" em espanhol. Ou algo assim. — explicou, pondo as coisas na minha cama e tirando alguns doces — Você visita tanto a praia que parece até peixe.
— Não tenho culpa se eu tenho uma paixão incondicional pelo mar. Deveria entender isso, você nasceu no Havaí.
— Não é a mesma coisa. Ah, esquece. Só ligue a TV enquanto eu ponho os salgadinhos num pote.
Fiz o que pediu e liguei logo no noticiário local. Por coincidência, era o momento da moça do tempo falar algo. Um quadro bem vistoso fora exposto atrás dela e na tela dizia FORTE TEMPESTADE A VIR À SAINT PETE. Mudei de canal só de pensar em como Tyler deveria estar lá fora. Ele precisou resolver alguns negócios da papelada que o permitiu ser meu guardião, o processo ainda estava aberto, mas não demoraria muito para ser resolvido por completo.
— Lilah, feche as portas. — Kai me falou lá da cozinha — Tô com medo desse temporal.
Assenti e fechei a porta meio velha da minha simples casa. Me joguei no sofá, pus um DVD de Smallville e comecei a cantar o tema de abertura da série, feito a louca que eu era. A gente começou a assistir desde o início, enfiando a mão na pipoca, nos enchendo de docinhos e nutella, porque sim. Depois de um tempo, a chuva se formou e fez um barulho maravilhoso quando tocou no telhado. Peguei um edredom enorme e joguei por cima de Kai, que estava gelada de frio.
A chuva ficou mais forte, virou um toró. Alguns raios cortaram o céu da Flórida com todo o esplendor e causaram ainda mais pânico na gente. Recebi uma ligação de Tyler, que estava louco de preocupação. Ao falar que eu estava junto da Kai, ele se acalmou mais um pouco. Quando terminei de falar com ele, a TV se apagou sozinha. Levamos um baita susto, e eram 10 da noite.
— D-Delilah, se algum alienígena estiver por perto... — começou ela com seu chilique inconsistente — eu vou te oferecer pra eles.
— Deixa de ser idiota, garota. Deve ter sido só um raio. — precisei de exatos 38 minutos para convencer Kai que não era nada demais. Finalmente ela conseguiu dormir.
[. . .]
BRRR
O celular vibra, indicando 8:04 da manhã. Assim que eu vi o horário, gritei no ouvido de Kai. Estávamos muito atrasadas pra escola!
— Acorda, Kai. Os alienígenas estão aqui! — tentei, mas ela só bufou. Não tive escolhas senão empurrá-la para o chão. Fiz aquilo e ganhei uma chuva de tapas. Espera... chuva. Ela parou!
— Você quer tomar banho primeiro?
— Vai você logo. Eu preparo os cereais. — fiz tudo correndo e quase me engasguei com as primeiras colheradas daquela bomba de açúcar matinal. Após escovarmos os dentes e organizarmos o sofá-cama, tranquei a casa e voamos até o colégio, que não ficava tão longe.
Li a placa ST. PETERSBURG HIGH SCHOOL e pensei no quão estúpida era a ideia de manter o nome da cidade pra tudo. Escolas, praias, shoppings, píer... praticamente tudo levava o nome "Saint Petersburg". Kai me puxou até as portas da escola, feito uma velocista. Procuramos por nossa primeira aula, Biologia com srta. Brown, a mulher de bom gosto. Entramos na sala 13 e todos os alunos, e também a professora, nos encararam como se eu tivesse um par de antenas ou uma cauda.
— Srta. Sherwood, srta. Mohoe. — cumprimentou a srta. Brown com os óculos na ponta do nariz — Não acham que estão meio atrasadas?
— Desculpe, senhorita. Isso não vai acontecer novamente. — escolhemos nossas carteiras de sempre e abri meu caderno na matéria dela. Antes que Pearl Brown pudesse falar algo, nosso vice-diretor abriu a porta da sala e pediu licença à professora. Todos os alunos, sem nenhuma exceção, mantiveram a postura quando ele falou.
— Bom dia, srta. Brown. — cumprimentou desjeitosamente — Desculpe pela interrupção, mas parece que temos um novato, hoje.
Troquei olhares e risadas abafadas com Kai, esperando que fosse um daqueles caras nerds ou uma garota tímida. Caso quiséssemos começar uma amizade com um novato, seria muito mais fácil assim. Mas então o garoto novo entrou na sala e meu coração afundou de uma maneira que eu nunca tinha sentido antes.
— Esse é Caspian Mazur. Espero que o recebam bem.
O garoto olhou para mim e sorriu de soslaio, como se estivesse envergonhado por alguma coisa. Droga... como aquele sorriso conseguiu me entorpecer tão rapidamente?
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