About Doomed

2 It's just alcohol, baby


"I became insane with long intervals of horrible sanity."

– Edgar Allan Poe

Capítulo 2: It's just alcohol, baby

– ...Floren? — Scott chamou, despertando a garota — Você ao menos está me ouvindo?

Ela piscou.

– Sim? — ela balançou a cabeça — Quer dizer, não. Você estava falando comigo?

– Meu Deus, garota — praguejou ele — Em que mundo você estava?

Ela não respondeu, apenas se concentrou nas fitas em seus dedos e começou a trança-las, como sua professora tinha instruído.

Depois que a criatura tinha desaparecido na tenda da cigana, ela havia saído correndo dali, sem se importar com o vento que insistia em chicotear seu rosto, deixando suas bochechas rosadas, e só tinha parado quando chegara ao seu banco habitual no parte, onde ela e Scott geralmente se encontravam, e que por sinal, se encontrava sentada ali, ao lado de sua bolsa que ela tinha deixado para trás.

– O quê aconteceu? — perguntara ele — Onde você estava? Sua bolsa estava aqui e você não, então pensei que algo tinha acontecido.

Ela demorou um tempo para dizer:

– E aconteceu.

Scott era a única pessoa no mundo, tirando Stephen, que sabia sobre as criaturas que a atormentaram a vida toda, e ele também sabia de que lugar ela tinha vindo há quatro anos atrás. Florence confiava nele, e ele confiava nela, mas mesmo assim, ela não queria sobrecarregar o amigo com preocupações ridículas de sua vida.

– FLORENCE! — ele berrou novamente para acordá-la e ela deu um pulo, deixando as fitas em sua mão caírem no chão.

– Mas que droga, Scott — ela praguejou de volta — Vou ter que começar tudo de novo!

– Nossa, que pena, minha vida nunca mais vai ser a mesma.

Ela revirou os olhos.

– Sobre o que você estava falando, afinal?

– Eu estava te pedindo algo — ele respondeu sem olhar para ela. Florence sorriu.

– E o que seria isso?

– Olha — começou ele largando suas próprias fitas no chão e olhando diretamente para ela, unindo as mãos em sua frente como se estivesse orando — Eu sei que você odeia esse tipo de coisa, mas por favor, vai comigo na festa da Teri?

– Ela não é a sua namorada? — perguntou ela — Por que diabos eu precisaria ir com você.

– Agora ex-namorada.

– Já? — riu ela — Você não ficaram juntos por tipo um mês? — ele não respondeu e ela riu mais — E eu gostava dela, diferentemente das outras ela é até que legal.

– É, eu sei, mas... — ele apenas deu de ombros, voltando para suas fitas — Ela não é meu tipo.

– Você diz isso sobre todas.

– Eu sei — admitiu ele, sem olhar para ela — Mas é a verdade.

– Então por que no mundo você quer ir nessa festa? — ela exigiu saber.

– Todo mundo vai estar lá — respondeu ele — E vai ser divertido, depois de tudo o que aconteceu hoje você precisa se divertir.

Florence sentiu seu rosto empalidecendo, mas não olhou para frente.

– Eu não sou muito estilo festeira.

– É, eu sei — concordou ele — E é por isso mesmo que você deve ir — ela não cedeu — Ah, por favor, Florence, é só uma festa e você nunca nem foi em uma para saber se gosta ou não. Se você não gostar, prometo que vamos embora.

– Você nem sabe se eu já fui à alguma festa — apontou ela — Você não tem como saber o que eu fiz ou deixei de fazer antes de me conhecer.

Ele revirou os olhos e ela acabou de trançar outra fita, depositando-a em uma cesta ao seu lado. Estavam fazendo isso quase o dia inteiro. Naquele dia de manhã, quando chegaram na escola (atrasados para variar), sua professora de literatura, a Srta. Laureen, fez com que todos os alunos a ajudassem a organizar o Festival da Mágica, como era chamado o evento que acontecia na cidade todos os anos (e que sempre atraia ainda mais turistas), onde acontecia uma grande festa que reunia todos os artistas da cidade para um grande espetáculo de ilusionismo, e que Florence por sinal adorava.

E todos os anos, sua escola era obrigada a colaborar na organização e decoração do evento. E como essa tarefa era obrigação dos últimos anos, até mesmo Scott, que não era muito de colaborar com o Festival, fora obrigado a ajudar. Então os dois estavam ali, sentados naquela perda em algum lugar distante no parque, com o encargo de traças milhares de tranças usando fitas pretas e brancas que seriam espalhadas por todo o festival.

– Mas eu já te conheço tempo o suficiente para saber que você não é desse tipo.

Ela olhou para ele. Scott era um garoto alto e aparentemente magro, mas que escondia um corpo definido por trás das roupas de marca que vinham de quase todos os lugares do mundo, trazidas por sua tia Randy cabelos eram pretos e desalinhados, ainda mais bagunçados pelo vento que parecia querer combatê-los, e usava óculos encobrindo grandes olhos verdes com pequenos pontinhos azuis. Ele era bonito e já tinha ficado com praticamente todas as garotas de sua escola, e mesmo assim, ele perseguira Florence em seus primeiros dias na escola e de algum jeito que ela nem ao mesmo percebera, entrara em sua vida, se tornando algo que ela nunca pensou que poderia ter: um amigo.

Desde então eles eram quase que inseparáveis. E mesmo Scott tendo seu pequeno grupo de amigos homens que sempre iam com ele em todas as festas e que pareciam praticamente morar em sua casa de tanto irem lá, ele sempre arrumava tempo para ficar com ela, e Florence adorava isso. Scott era alguém mais do que presente em sua vida, e como Stephen costumava dizer as vezes, eles eram quase como um só ser, determinados a fazer tudo para agradar o outro.

– Tudo bem! — cedeu ela — Mas se você estiver me levando apenas para escapar da Teri eu juro que te mato, e vamos no meu jipe, caso eu queira fugir de lá e te deixar para trás — ele assentiu sorrindo — E já vai sabendo que eu não concordo com essa de você sair com mais da metade das garotas da cidade, então não me meta em seus problemas de relacionamento.

– Mais da metade das garotas da cidade? — repetiu ele — Como você é boazinha, eu tenho certeza que já saí com pelo menos 95% das garotas dessa cidade.

– Tarado.

Ele sorriu ainda mais.

– Vou considerar isso com um "você é o gostosão, Scott".

Ela revirou os olhos novamente, mas não conseguiu se segurar e sorriu.

***

– Sabe — comentou Stephen — De todas as coisas que eu pensei que eu poderia ver na minha vida, essa é definitivamente a última opção.

Florence terminou de descer as escadas e cruzou os braços, sentindo seu rosto esquentar. Tinha ficado pelo menos o resto do dia tentando descobrir que roupa se usava em uma festa, mas não conseguido descobrir, e quando pesquisou na internet, se decepcionou ao perceber que não tinha nenhuma daquelas roupa. Então se decidiu apenas por uma blusa florida que formava um laço na bainha, deixando sua barriga um pouco exposta (o que deixava-a extremamente constrangida), um colete curto jeans de tom claro e uma saia com camadas de renda branca.

Ela não tinha se maquiado, apenas jogara seu cabelo castanho na altura dos ombros para um lado e pronto. Já tinha feito até demais por uma festa que ela nem ao menos queria ir.

– Muito engraçado — rebateu ela — E só para constar eu estou sendo obrigada a ir.

– Por quem, por Scott? — perguntou ele rindo — Por favor, Scott não consegue nem ao menos espantar uma mosca.

– Bom, ele consegue ser intimidante quando quer.

– Não duvido disso.

Ela começou a andar até a porta e pegou seu moletom cinza de sempre no cabideiro, e as chaves de seu jipe azul marinho (que mais parecia preto) que tinha sido presente de Stephen no ano anterior.

– Eu preciso te dizer as regras básicas, considerando que você nunca foi à uma festa antes? — perguntou Stephen quando ela estava quase chegando a porta.

– Regras básicas? — perguntou ela e se virando e encarando o pai adotivo.

– Sim — concordou ele tentando fazer uma cara séria — Não beber, não dirigir quando estiver bêbada, não deixar se aproveitarem de você....essas coisas.

– Como você espera que eu dirija bêbada quando eu não deveria estar bebendo?

– Apenas não faça! — determinou ele — E tente não voltar muito tarde, vou te esperar acordado.

– Você não vai aguentar — desafiou ela — Vai acabar dormindo — depois se virou e passou pela porta.

– Isso é o que vamos ver, mocinha! — ele gritou quando ela já estava do lado de fora. Florence riu e andou até seu carro, destravando-o.

Em pouco tempo, já estava em frente à casa de Scott, e teve que sair do carro para bater na porta, já que Randy, tia dele, não gostava muito dela, e odiava que buzinassem em frente à sua casa. Ele atendeu depois do terceiro toque.

– Mas o quê...? — começou ele sem terminar, encarando-a dos pés a cabeça. Ela sentiu o rosto esquentar novamente.

– Apenas vamos logo, okay?

Ela dirigiu-se rapidamente até o carro e se jogou lá dentro, afundando no banco enquanto Scott permanecia parada boquiaberto, ela se apoiou de lado e gritou da janela:

– Ou você entra, ou eu vou embora agora!

Ele balançou a cabeça para acordar e também dirigiu-se ao carro rapidamente, sentando no banco do passageiro, e ele não disseram mais nenhuma palavra até chegarem a um sobrado gigantesco, donde luzes saíam por todas as janelas, iluminando a rua e os grupos de pessoas que se agarravam por todos os lados.

– Por que mesmo eu vim? — ela perguntou horrorizada.

– Para se divertir — lembrou-a Scott — E você vai fazer isso, Floren, nem que eu tenha que te embebedar.

– Stephen me proibiu de beber.

– Pena que ele não está aqui.

Ele sorriu maliciosamente e pulou do carro, andando até a porta de Florence enquanto ela o encarava, depois permitindo que ela descesse dando-lhe a mão como ela via em filmes. Ela recusou a mão e ele sorriu, fechando a porta.

– Vem — ele a puxou pela mão em meio aos casais que se agarravam no lado de fora, e quando ela pensou que estava livre de multidão, eles entraram na casa, e ela sentiu o ar sumindo de seus pulmões.

O lugar estava tão lotado que ela mal podia andar e sentia como se não conseguisse respirar. A música alta explodia em seus ouvidos enquanto as pessoas dançavam e se espremiam para lutar no ritmo, todas acumuladas em um mesmo cômodo. Scott a arrastou até outro cômodo, que ela supos ser a cozinha, onde uma grande bancada cheia de copos de plástico vermelho estavam cheios de um líquido que ela mal podia identificar a cor graças às explosões de luzes que explodia pela casa e que parecia-lhe suspeito.

Scott pegou um deles e entregou à ela.

– Tome isso — gritou ele por cima da música. Ela negou com a cabeça.

– Eu nunca tomei álcool na vida! — ela gritou de volta — E ainda temos dezessete anos, nem deveríamos estar tomando essas coias.

– Ah, por favor — ele revirou os olhos — Experimente, você vai se sentir melhor, pode confiar em mim.

– Você está querendo me deixar bêbada, Scott Darell?

– Só quero que você se divirta — garantiu-lhe ele, depois aproximou-se do ouvido dela e disso, num tom mais baixo: — Quero que você esqueça por um minuto por tudo o que você passou.

Ela o encarou quando ele se afastou e depois fitou o copo estendido a ela, e tomando toda a coragem do mundo, pegou o copo da mão dele e o entornou em sua boca.

Florence sentiu sua garganta queimando quase que instantaneamente e quase tossiu, mas a algo a deteu e ela piscou. Ela sentia cada parte de seu corpo como se estivesse flutuando, sua cabeça começou a doer mas, estranhamente, ela não se importou, apenas ficou parada enquanto o líquido parecia subir pelo seu corpo como se seu sangue estivesse pegando fogo. E quando todo aquela sensação não parecia mais do que normal, ela sorriu, como se sentisse-se bem.

Ela pegou outro copo da mesa e o virou completamente de uma vez e soltou um exclamo de alívio, como se estivesse bebendo água. Ela se sentia completamente diferente, como se estivesse livre e tonta ao mesmo tempo, e a única coisa que queria fazer, vendo todas aquelas pessoas dançando ao seu redor, era fazer o mesmo.

A música mudou de repente e ela riu para Scott que a encarava preocupado, como se tivesse feito algo errado, mas ela apenas não conseguia entender o que era.

– Eu amo essa música — ela começou a se virar para ir na direção das pessoas que pulavam e dançavam como se tivesse muito espaço entre eles, a luz refletindo em seus corpo e brilhando — E eu realmente preciso dançar nela — ela riu — Quer dizer, no ritmo dela, ou... — ela esqueceu a palavra — Algo assim — ela agarrou a mãos dele — Vem comigo.

Agora foi a vez dela de arrastá-lo até a pista de dança, empurrando o que pareceram milhares de pessoas até achar um lugar até que coubessem os dois. Ela rapidamente começou a dançar e a se mexer como se fizesse isso sempre. Um garota começou a se aproximar dela mas ela estava muito fora de si para conseguir afastá-lo, então Scott, que parecia estranhamente sóbrio, teve que empurrar o garoto para longe, que apenas deu de ombros e se aproximou de outra garota.

Pareceram apenas segundos quando o cabelo dela começou a ficar encharcado de suor, e ela já tinha sido cotovelada várias vezes, mas mesmo assim não ela se importava. E parecia ficar com ainda mais energia a cada segundo, seu coração batendo forte em seu peito.

Em algum determinado minuto, os amigos de Scott apareceram e o arrastaram para longe, mesmo sobre os protestos do menino, e quando se viu sozinha no meio da pista, Florence apenas deu de ombros e continuou dançando, fechando os olhos.

Era uma sensação maravilhosa. Mesmo sabendo que estava tonta, ou pelo menos tendo quase certeza disso (já que naquele ponto ela já não tinha certeza de nada), ela se sentia livre, como se não tivesse problemas em sua vida, como se tudo o que tinha acontecido com ela...não tivesse realmente acontecido. Ali, dançando sem conseguir se controlar e sem tendo real consciência sobre os próprios atos, ela sentia como se tudo fosse apenas um pesadelo distinto...apagado pelo tempo.

Ela abriu os olhos novamente, e levou um tempo até perceber a cena a sua frente, e quando percebeu, ela congelou.

A máscara branca estava parada a sua frente, direcionado a ela como se realmente tivesse olhos, e como se estes a estivessem fitando. Ela recuou e bateu em alguma pessoa, mas não se virou para se desculpar. A máscara e o homem (ou criatura que a carregava) se aproximaram, e ela não deve certeza se realmente estava vendo aquilo ou se era apenas efeito do álcool, e se sentindo sóbria novamente, ela recuou mais um passo e a criatura se aproximou.

Quando percebeu que estava encurralada, ela sentiu seu coração batendo rápido novamente, mas agora tinha plena consciência de que o álcool não estava causando isso. Ela estava com medo.

Talvez ela estivesse realmente muito bêbada, ou apenas aquele dia deveria ser um dos únicos em sua vida em que ela teria um pingo de coragem, porque quando o mascarado se aproximou, ela estendeu a mão sem pensar e retirou sua máscara.

Então deu um grito.