About Doomed

3 Here comes the darkness


“Adestrei-me com o vento e minha festa é a tempestade.”

– Cecília Meireles

Capítulo 3: Here comes the darkness

Ela se viu do lado de fora antes mesmo de conseguir raciocinar direito. Tudo parecia um turbilhão de imagens, seus pensamentos não eram claros, e sua visão menos ainda.

Florence abriu caminho pela multidão até que conseguisse chegar até a entrada, onde se apoiou e soltou o ar que não percebeu estar segurando.

Isso não é real, Florence — ela tentou se convencer, Não é real. Não é real...

Ela balançou a cabeça tentando apagar a memória do que tinha acabado de acontecer mas logo as imagens voltaram, dessa vez lentamente:

Ela viu a si própria gritando quando tirara a máscara da pessoa a sua frente, mais por susto do que por medo. Na sua frente encontrava-se um dos amigos de Scott, um dos muitos que viviam perseguindo-a por alguma razão que ela desconhecia. Ele gritara "Boo" assim que ela retirou sua máscara, e o coração da menina batia com força em seu peito.

Ela esfregou os olhos com o dorso da mão. A bebida ainda queimava-lhe as veias, e tudo estava confuso, muito confuso. Ela não conseguia olhar ao redor sem ver uma máscara branca encarando-a de volta. E mesmo sabendo que nenhuma delas passava de algum convidado usando algo tão comum naquela cidade quanto uma máscara, ela continuava a sentir medo, como se qualquer uma delas pudesse pular em cima dela e atacá-la a qualquer momento.

Sua cabeça ficou de repente mais pesada do que o normal, e ela se jogou ainda mais na parede. Alguém havia lhe empurrado com força para fora da casa, e ela já estava toda molhada. Uma chuva leve tinha começado há alguns minutos atrás, que logo se transformou em uma mais intensa e perigosa.

Florence se viu perguntando o que poderia ter na bebida que Scott lhe dera para que ela ficasse naquele estado. Ela não apenas se sentia bêbada e desorientada, mas se sentia estranha, como se alguém a observasse de longe avidamente.

E Florence não se sentia perfeitamente sã para olhar ao redor e tirar suas próprias conclusões. Na verdade, ela sentia como se estivesse sendo enforcada, como se todo o ar em seus pulmões tivesse indo embora deixando-a completamente vazia.

Era esse o problema, ela se sentia vazia, como se não tivesse chão.

Ela fechou os olhos com força e os abriu com dificuldade. A chuva continuava queimando seu corpo com aqueles pingos fortes e úmidos que penetrava em sua roupa, deixando-a suja e grudenta. Florence se sentia exposta, mas também compreendia que no momento era difícil encontrar a verdadeira definição da palavra em sua memória.

O quê estava acontecendo com ela?

Ela tentou andar novamente e finalmente conseguiu se desgrudar da parede, conseguindo se sustentar com os próprios pés, ela olhou ao redor tentando se lembrar de onde estacionara seu carro. Ou ela estava tentando se lembrar qual era a cor de seu carro... Ela tinha certeza de que era um jipe. Preto? Verde? Azul-escuro?

Algo do tipo, foi tudo o quê sua mente "sóbria" conseguiu pensar de volta para ela.

De repente uma mão segurou em seu ombro e ela se virou quase gritando, mas logo reconheceu a pessoa (o que foi estranho, considerando o estado em que ela se encontrava no momento) e relaxou. Ela tinha arregalado os olhos com o susto, e pelo que conseguia se lembrar desde que entrara naquela festa, aquele era provavelmente o momento em que ela se sentira mais sóbria.

– Onde diabos você estava? — perguntou Scott. Florence franziu a testa. A voz dele parecia distante, como se ele gritasse para ela através de um vidro.

– E-eu... — ela tentou se lembrar onde estava há um minuto atrás — Por aí, dançando, vivendo. E você?

– O quê aconteceu com você? — ele parecia preocupado, mesmo Florence não conseguindo compreender os tons que a voz dele assumia enquanto ele falava.

– Máscaras — foi tudo o que ela conseguiu dizer.

Scott estava tão molhado quanto ela, os dois estavam parados na frente da casa sob uma chuva impiedosa, os cabelos encharcados pingando sobre os ombros. Florence o encarava com uma curiosidade peculiar. De algum modo, ele estava bonito ali, não que ele não fosse nas outras horas, mas ali, parado sob aquela chuva que grudava sua camisa em seu corpo e fazia com que pingos escorressem em seus cílios longos fazia com que Florence realmente o enxergasse pela primeira vez.

Ela balançou a cabeça tentando conter os pensamentos. Era a bebida, só podia ser a bebida.

– Máscaras? — repetiu ele — Mas do que... — ele entendeu e passou uma mão em seu cabelos, fazendo pingos de água voarem no rosto de Florence — Onde ele estava? Mais alguém o viu?

Ela negou com a cabeça.

– Claro que não, seu idiota — retrucou ela — Ninguém n-nunca...nem vai...v-ver — ela suspirou fundo irritada com a própria incapacidade de formular uma frase completa — Só eu vejo. Só eu vou sempre ver.

– Florence, acho melhor eu te levar para casa...

Ele colocou uma mão sobre seus ombros e ela a retirou de lá com um tapa.

– Eu estou bem — testou garantir ela, sem muito sucesso — S-só preciso encontrar... — ela esquecera a palavra novamente -, o que eu estava procurando, só isso.

– Você quer dizer seu carro?

– Acho que sim.

Ela passou por Scott e começou a andar novamente. Uma súbita tontura se impregnara nela como uma praga, e ela sentia que cada passo que dava era incerto, como se não tivesse certeza se conseguia fazer isso sozinha. Mas obviamente ela recusaria a ajuda de alguém, principalmente a de Scott.

Quando finalmente encontrou seu jipe, Florence caminhou até ele, mas Scott chegou na frente dela e bloqueou sua passagem, detendo-a.

– Você não está pensando mesmo em dirigir nesse estado, está?

– Não espero que o carro dirija sozinho — ela apontou um dedo para a cara dele — Viu, estou ótima.

– Você nem ao menos consegue falar uma frase completa sem se enroscar ou esquecer uma palavra!

– Isso não é...- ela piscou e demorou um tempo para se lembrar da palavra — ...mentira. Quero dizer, verdade.

Scott apenas a encarou como se dissesse "sério mesmo?". Ela o ignorou e revirou os olhos, sentindo sua tontura piorar com o gesto.

– Eu dirijo — ele tentou convencê-la.

– Não — ela negou — O carro é meu, dirijo eu.

Ela o empurrou para o lado com uma imensa dificuldade e conseguiu abrir a porta para entrar no carro, retirando seu moletom cinza que estava esticado no banco e o vestindo com pressa. De repente ela sentia frio. Scott entrou logo depois, seus cabelos pingando sobre seus bancos de couro. Em uma situação em que ela se encontrasse com mais condições de discutir, ela brigaria com ele por isso.

– Você vai acabar nos matando, isso sim — ele disse enquanto colocava o cinto de segurança com brutalidade, fazendo o objeto não obedecer ao seu comando. Ele desistiu e olhou para frente — Se eu morrer saiba que você estará retirando do mundo uma das belezas mais marcantes desse mundo, e pode deixar que minha tia vai meter um belo de um processo em você!

– Se você morrer, eu morro junto.

– Não necessariamente.

– Eu digo no sentido figurado.

– Ah — foi tudo o quê ele disse.

Florence deu de ombros. O que não era muito apropriado numa situação como aquela. Por que ela falara aquilo? Ela respirou fundo tentando conter a raiva enquanto tentava se convencer mentalmente de que todas as suas ações eram culpa da bebida. E apenas da bebida. Só podia ser a bebida.

Ela ligou o motor e ficou feliz ao perceber que ainda se lembrava de como fazer isso. As ruas de Becky Hill costumavam ser sempre vazias, tirando uma ou outra que possuía um restaurante ou um pub onde os jovens da cidade se reuniam. Florence tentava ao máximo se concentrar na estrada enquanto Scott continuava a reclamar ao seu lado, assistindo os poucos postes que iluminavam as ruas piscarem graças à chuva, que tinha ficado ainda mais forte se é que era possível.

O vento mudou de direção e ela estremeceu. O frio penetrava nas roupas dela sem alguma razão aparente. O clima não estava nem quente, nem frio, apenas... Temperado, mas mesmo assim Florence sentia frio. Talvez, pensou ela sem conseguir controlar-se, algo ruim esteja prestes a acontecer.

Era isso que Stephen sempre lhe falava quando ela estremecia de repente, que algo ruim estava para acontecer e que era melhor ela se preparar, e considerando o fato de que ele conhecia o passado dela tão bem quanto ela só fazia com que ela acreditasse ainda mais em suas palavras. Ele sabia que com ela não deveria se brincar com esse tipo de coisa.

Um dos postes piscou outra vez e ela engoliu em seco. Acontecera tão rápido que ela quase acreditou que poderia estar imaginando. Mas não, ela sabia que isso não era verdade. O vislumbre fora tão rápido que a única coisa que ela teve certeza de que vira foi a máscara. Aquela mesma máscara branca de sempre, que vinha perseguindo-a, encarando-a assustadoramente de volta como se realmente pudesse vê-la, mesmo ela sabendo que não possuía olho. Toda aquela história desafiava as leis da física, e ela já tinha entendido isso.

Ela se virou para o olhar sob o poste novamente quando passou por este, mas como de costume, ao virar, a criatura não estava mais lá e mesmo assim seu coração batia forte como se ela estivesse. Florence virou para frente novamente e arregalou os olhos assim que Scott gritou seu nome, tentando virar o carro.

Alguém entrara na frente de seu carro do nada, e Florence não teve tempo de desviar completamente, seja lá quem estivesse no meio da estrada, bateu exatamente em sua porta e o carro derrapou no chão molhado.

Ela gritou.

Seu corpo inteiro doía quando finalmente o barulho dos pneus cantando e dos próprios gritos, assim como os de Scott cessou. O carro parou com um baque quando bateu em um dos muros ao redor da pista, e o corpo de Florence foi jogado contra a porta exatamente quando o corpo de Scott se chocou com o dela, prensando-a ali. Ela sentiu a dor em toda a região da lateral de seu corpo como se ela tivesse caído sobre milhares de facas afiadas. Seu braço fez um estralo quando Scott finalmente saiu de cima dela, e ela gritou de dor.

– Florence, você está bem? – sua voz saia mais embargada do que nunca, e tentando compreender o que ele lhe falava, ela sentiu como se seu corpo inteiro pulsasse.

Ela olhou para ele e quase gritou mais uma vez. No topo de sua cabeça uma mancha de sangue escorria por seus cabelos como suor. Então ela sentiu uma dor oscilante em sua própria cabeça, e ao levar os dedos até lá para se certificar de que estava tudo bem, sua mão voltou coberta por um líquido viscoso e avermelhado.

Sangue.

Ela sentiu como se todo seu corpo fosse desabar ali e nunca mais voltar ao normal, até que Scott se aproximou dela para examiná-la e ela arregalou os olhos, o sangue na cabeça dele não era dele, era dela.

Por um breve momento, ela desejou poder chorar, mas então a lembrança de algo fez com que ela ignorasse as próprias dores.

– A pessoa que estava na estrada – ela se virou no carro tentando enxergar pela chuva para ver se tinha algo lá fora – Eu ouvi o barulho de alguém batendo na porta do carro. Acho que eu atropelei alguém.

Florence se sentia subitamente sóbria, mas Scott que continuava a examiná-la com a testa franzida como se tivesse medo de que ela caísse dura no chão a segurou pelo braço, ele também olhava para fora da janela embaçada agora, os óculos pendendo em um ângulo estranho na lateral de seu rosto, claramente quebrados.

– E-eu – gaguejou ele, tentando encontrar as palavras corretas – Não tenho certeza, Florence, mas acho que a gente devia chamar a polícia ou a ambulância, qualquer coisa!

– Ótimo – ela disse com raiva – Você liga que eu preciso ver se eu matei alguém!

– Florence – Scott gritou, mas ela não o ouviu, abriu a porta do carro mesmo sentindo muita dor e saiu, deixando a porta aberta ao passar.

A chuva agora queimava-lhe como ácido, e ela se sentiu um pouco tonta ao tentar ficar de pé, se apoiando no próprio carro para tentar se estabelecer. Seu coração batia forte em seu peito, ameaçando querer sair pela sua boca.

E então ela viu.

Estirado a alguns metros de distância estava um corpo imóvel. A pessoa estava virada de lado de costas para Florence, a chuva chicoteando em seu corpo estranhamente parado. Florence correu até lá. Sua cabeça parecia querer explodir enquanto bombardeava-a com um turbilhão de pensamentos e preces para que a pessoa estivesse viva.

Por favor não esteja morto, ela repetia para si mesma em pensamento, por favor não...

Ela parou. Só quando conseguiu chegar perto o suficiente da pessoa foi que percebeu que se tratava de um garoto. Ela se agachou ao seu lado e deitou suas costas no chão. Ele tinha cabelo curto e rente a cabeça num tom alaranjado que parecia muito escuro sobre a luz do luar, seus olhos estavam fechados, mas seu rosto carregava uma expressão séria e definida, as linhas de seus rosto acentuadas mesmo em uma momento como aquele. Florence não teve coragem de esticar a mão para tocá-lo.

Ele era lindo, disso ela tinha certeza, mas sua imagem lembrava-lhe uma pintura de um Anjo Caído que uma vez ela vira em um museu que Stephen a levara há alguns anos. Ela tinha ficada impressionada na época com o fato de que alguém poderia ter aquela expressão, mas agora que ela a via ao vivo bem na sua frente, a única coisa que conseguia sentir era admiração e uma curiosidade irracional. O garoto era lindo, mas de algum modo sua beleza demonstrava crueldade e perigo.

E mais uma vez ela sentiu aquilo: admiração.

Ela ouviu passos por trás dela mas não se virou, tendo certeza de que se trava de Scott.

– Ai meu Deus – ela ouviu a voz dele por cima dos trovões que brilhavam no céu – Você matou o cara!

– Será que está mesmo morto? – ela sussurrou mais para si do que para ele.

Tomando uma coragem de um lugar desconhecido, ela levantou a mão para que pudesse encostar no pescoço do garoto para checar sua pulsação, mas antes que ela pudesse fazer qualquer coisa, ele abriu os olhos e ela pulou para trás com o susto.

Então tudo acontecera rápido demais:

O garoto se levantou em uma velocidade incrível que ela mal conseguiu acompanhar e sacou uma pistola da parte de trás de sua calça e apontou-a para a cabeça de Scott, que largara o celular que estava em sua orelha no chão molhado e levara as mãos para o alto, como se estivesse se rendendo. Florence assistiu petrificada a cena à sua frente, sem saber o que fazer. Sua boca estava aberta, mas ela não sabia o que dizer, não sabia se gritava ou ficava parada. Ela não sabia de nada. Por um momento pensou que a bebida poderia estar atuando em seus pensamentos novamente, mas algo dentro dela dizia que isso era improvável.

Então o garoto se virou para ela, os cabelos molhados pingando ao redor do rosto, mas sua expressão continuava como a que ela vira quando ele estava de olhos fechados, perigosa e admiravelmente linda.

– Quem é você? – perguntou ele e Florence se espantou ao ouvir sua voz, como se estivesse esquecido de que ele também poderia falar.

– E-eu... – gaguejou ela tentando encontrar a própria voz. Ela pigarreou – Sou Floren...ce VanChester.

– Ótimo – ele disse surpreendendo-a – Entre no carro, agora.

– O quê?

– Entre no carro ou o humano aqui morrer – ele fez um gesto com a arma que estava apontada para a cabeça de Scott, que por sua vez se encontrava parado na mesma posição de antes, encarando o garoto a sua frente – E eu disse agora, por que ainda não foi?

Ela se levantou quase se esquecendo da própria dor que se alastrava por seu corpo e de que o garoto possuía uma arma que poderia disparar a qualquer momento, e o encarou, com os braços cruzados.

– E por que você quer que eu faça isso?

– Apenas faça – ele fez uma cara como se estivesse lidando com uma criança irritante que não o deixava em paz – Ou você quer que eu repita a parte do faz logo ou ele morre?

Ela não se mexeu e ele engatilhou a arma, fazendo-a descruzar os braços. Florence o encarou enquanto caminhava até seu carro novamente, e sem tirar os olhos dele, entrou no carro e fechou a porta.

Segundos depois, Scott estava novamente sentado no bando do passageiro e o garoto se encontrava no bando traseiro, a arma ainda apontada para Scott.

– Se você queria que eu dirigisse, por que você não apontou a arma para a minha cabeça? — ela perguntou de repente – Ele não tem nada a ver com essa história, seja lá o que isso for, deixe-o ir.

Ele sorriu como se debochasse dela, mas não parou de encará-la.

– Porque eu te conheço o suficiente para saber que você deixaria que eu atirasse na sua cabeça ao invés de dirigir para mim.

– E como você...?

– Chega de perguntas- ele a interrompeu – Apenas ligue a droga do carro e dirija.

– E pra onde você pretende ir? – ela perguntou seca.

– Apenas dirija – declarou ele – Na hora certa você vai entender.

Sem ter paciência para perguntar mais nada, ela ligou o carro enquanto se perguntava sobre o que aquilo tudo se tratava. Que tipo de brincadeira doentia era aquela?

Ela girou a chave uma, duas, três vezes, mas o carro não pegou, e ela soltou um lamento impaciente quando tentou uma quarta vez, sem sucesso. De repente o garoto ruivo segurou sua mão, impedindo que ela tentasse outra vez, e ela olhou para ele, sentindo seu rosto esquentar com o toque, mas ele não a olhava de volta.

Ele exibia uma expressão de alerta, como se estivesse no meio de uma guerra, e olhava atento para o lado de fora do carro pelas janelas do jipe. E quando Florence estava prestes a perguntar o que tinha acontecido, um barulho alto cortou o silêncio e ela olhou para o lado assustada. Aporta de seu lado havia sido arrancada de seu devido lugar, e Florence gritou ao ver quem a tinha arrancado.

Parecia um ser humano comum, o corpo coberto por um capuz preto e grosso que tampava seus olhos de visão alheia. Ele usava apenas uma jaqueta de couro que deixava seus braços musculosos e tatuados expostos. E Florence poderia achar que se tratava apenas de um cara musculoso se não fosse pelo fato de que ele tinha arrancado a porta de seu jipe com apenas uma mão e que estava rugindo para ela como um leão.

E antes que ela pudesse ao menos se mexer ou pensar em alguma coisa, ela sentiu seu corpo sendo puxado para fora do carro e uma dor aguda que cortava suas costelas. Ela tinha sido jogada tão subitamente para fora do carro em direção a um dos muros da estrada, que não tivera tempo nem para gritar.

Sua visão, que ela já sentia como se estivesse turva, piorou ainda mais, e ela só conseguia enxergar borrões, um mais claro do que o outro, se atracando na sua frente, ela não conseguia se levantar, mas conseguiu erguer a cabeça o suficiente para tentar entender a cena à sua frente.

Então ela entendeu. Era o tal do garoto ruivo que estava se atracando com o homem músculos. Ela se sentia tão desorientada que no primeiro momento acreditou que eles estavam dançando, mas quando conseguiu tirar esse pensamento da cabeça percebeu que eles estavam lutando. O garoto tinha sacado uma adaga de sua calça e golpeava o homem musculoso em todos os lugares que podia, e este, por sua vez, contra-atacava, chutando e socando o garoto quando podia.

Florence observou enquanto o garoto se movia como se fizesse parte do vento, seus movimentos exibindo perfeita destreza e estranhamente, pensou Florence, conforto, como se fizesse aquilo todos os dias. Seja lá quem fosse o garoto ruivo, ele definitivamente era uma arma mortífera.

Ela finalmente conseguiu se sentar se apoiando no muro e depois se levantou a dor entorpecendo seus sentidos. Ela ainda conseguia ver a batalha, pelos menos parte dela. O garoto agora estava com um capuz listrado na cabeça, ele girava e apunhalava seu oponente, e Florence percebeu meio tarde demais que ele tinha perdido sua arma, que descansava no chão a uma bela distância dos dois. E quase como que ouvindo os pensamentos dela, o garoto se jogou no chão e escorreu na estrada, chegando até onde sua arma e pegando-a, apontando-a e atirando no homem musculoso.

Florence sentiu seu coração dando um pulo quando ouviu o tira, a surpresa estampada no rosto enquanto ela via o corpo caindo no chão. Longos minutos pareceram se passar enquanto ela encarava o corpo imóvel no chão, uma poça de um líquido mais denso se formava ao lado de sua cabeça.

Como se só agora se lembrasse da presença de Florence, ele se virou lentamente para ela, e ela engoliu em seco. Ele tirou o próprio capuz exibindo seus cabelos ruivos embaraçados e olhos pretos como a noite. Ela enrijeceu e recuou.

– Fique longe de mim – ela ordenou com dificuldade para falar – Seu assassino!

Ele riu e olhou para o corpo morto na sua frente. E ela novamente se lembrou da imagem do Anjo Caído do museu, eles tinham o mesmo sorriso, como se ver tanto sangue era algo a ser apreciado. Ela tentou deixar os pensamentos de lado enquanto ele se aproximava.

– Eu acabei de salvar a sua vida.

– Você matou aquele homem.

– Homem? – repetiu ele indo até o corpo e segurando a cabeça na direção dos olhos dela para que ela visse seu rosto agora sem o capuz – Isso se parece com um homem para você?

Florence gritou. No começo, não viu nada demais, mas quando prestou mais atenção, viu que onde deveria ter os olhos da pessoa, com as pupilas e tudo mais, estava completamente branco. O nariz não passava de dois pequenos riscos paralelos no meio do rosto deformado, e a boca era costurada. A linha que fora usada marcava os lábios.

– O quê... – tentou formular ela, mas suas palavras se perderam em sua garganta.

– Isso é o que menos importa agora, tenho que leva-la até a Sede.

– Eu não vou a lugar nenhum com você.

– É claro que não vai – disse ele – Mas se eu fosse você, e tivesse esse mesmo machucado que você têm na lateral do meu corpo, eu iria. Pelo bem da minha própria vida. A não ser, é claro, que você queira morrer.

– Eu não estou... – ela parou quando sentiu uma leve pontada na região das suas costelas e suas pernas vacilaram. O garoto a segurou antes que ela pudesse desabar no chão. Florence sentiu suas pálpebras pesarem e fechou os olhos — ...morrendo.