About Doomed
4 Take a deep breath
"A loucura é vizinha da mais cruel sensatez. Engulo a loucura porque ela me alucina calmamente."
– Clarice Lispector
Capítulo 4: Take a deep breath.
Cinco anos atrás
O vento mudou de direção e os galhos secos da árvore acompanharam seu movimento melancolicamente. A neblina já havia quase desaparecido, deixando uma brisa leve para trás. Através do vidro, era possível se a ver a copa das árvores, o céu, e nada mais. A janela era pequena, e as grades pioravam ainda mais a visão já limitada do mundo exterior.
A única coisa que ela sabia era que já era quinta-feira. Quintas-feiras eram dias intermináveis segundo uma enfermeira que havia lhe dito isso mais cedo naquela mesma manhã. Não que isso fizesse diferença na vida dela. Nada fazia diferença em uma vida como aquela.
Os raios solares já estavam quase sendo visíveis pelo pequeno retângulo na parede oposta a sua cama, atravessando a neblina como se esta fosse feita de papel. Era uma manhã triste, aquela, como todas as outras haviam sido até aquele momento...
A porta se abriu de repente mas a menina Florence não se virou. Já há muito ela tinha desistido da ideia de que um dia seriam seus pais a baterem naquela porta. E como se ouvisse os lamentos da menina, uma enfermeira entrou em seu campo de visão e ela se limitou a respirar fundo. Era isso o que sempre fazia: respirava fundo para não chorar, ou pior, gritar.
A enfermeira (Jule, como ela havia se apresentado anos atrás), se aproximou da Florence de doze anos com o sorriso mais angelical que sua face monstruosa e assustadora conseguia fazer, exibindo em sua mão direita o pote com as pílulas de Florence, como se esperasse que a menina se alegrasse. Florence apenas a encarou.
– Está um dia lindo, não? — ela falava enquanto pegava a primeira pílula — Candy, a nova coordenadora dessa espelunca, decidiu que permitiria o banho de sol dessa manhã — ela fez um barulho de desaprovação com a garganta — Só está no cargo há dois meses e já se acha boa o suficiente para fazer esse tipo de coisa.
– E por que ela não poderia? — perguntou Florence impetuosamente.
– Isso aqui não é nenhuma colônia de férias pra vocês ficarem tomando sol — sua voz era quase tão afiada quanto seu olhar, que agora se encontrava fixo na garota — Agora abra a boca antes que eu perca a paciência.
Florence obedeceu e Jule sorriu, até mesmo seu sorriso era afiado.
– Boa menina.
Ela recolheu o pote que descansava em cima da cama e deu um tapinha na bochecha de Florence, então saiu do quarto. Florence cuspiu a pílula o mais longe que conseguiu com nojo, esta bateu em uma das paredes acolchoadas branca e caiu no chão, encarando a menina ameaçadoramente.
Florence recolheu seus pés para junto de si e abraçou suas pernas dobradas. Ela veria o sol novamente, e isso quase fez com que ela sorrisse, mas então o lembrete mental de que aquela seria uma vez dentre poucas outras a fez fechar os olhos com força.
Aquela vida era uma tortura, e o pior de tudo era saber que ela merecia cada segundo...
Os segundos se tornaram minutos e os minutos uma hora completa, e foi então que ela decidiu se levantar e pegar a pílula que se encontrava parada no chão para escondê-la debaixo do travesseiro para que na hora que ela fosse permitida a ir no banheiro ela a levasse consigo e desse descarga nela, tirando-a de sua vida para sempre. Já se passara um ano desde que ela começara a fazer esse tipo de coisa, quando na última vez que o banho de sol lhes fora concedido, uma garota (Sarah, era assim que Florence acreditava ser seu nome) havia lhe ensinado esse truque. Florence sorriu para o quarto branco com a memória, desejando que fosse encontrar a menina novamente.
Ela ficou muito tempo ali, parada no meio do quarto (ou jaula, como ela considerava aquele lugar) sorrindo sem um motivo aparente, e quando bateram na porta novamente, ela pulou sobressaltada e passou a mão em seu cabelo preso enquanto a cabeça de Jule aparecia na porta.
– Hora de ir, garota — Florence apenas piscou então Jule revirou os olhos — Maluca — murmurou ela abrindo mais a porta para que Florence passasse.
Ela hesitou antes de começar a andar, como se tivesse medo de que seus pés descalços fossem tomar um choque ao tocarem no chão que não pertencia ao seu quarto. Mas a vontade de ver o sol mais uma vez em sua vida era mais forte. Então ela saiu.
Os corredores da Casa de Recuperação para Crianças Problemáticas, ou Good Morning, como os funcionários da clínica costumavam chama-la. Se o apelido tinha intenções carinhosas ou não, Florence não sabia dizer, mas para ela, aquele lugar era o próprio Inferno. De seus dois lados, Florence via a si própria refletindo em espelhos gigantes que iam do teto ao chão, ocupando toda a extensão do corredor, fazendo com que ele parecesse infinitamente maior.
Se alguém lúcido fosse acidentalmente internado naquele lugar, ele definitivamente ficaria louco. Aquele corredor era feito para isso, supunha Florence, onde nem ao menos as portas que você sabia que existiam ali podiam ser vistas.
E além de tudo, ver sua própria imagem (que fora corroída pela solidão e a tristeza que a consumiam por dentro) era pior ainda. Seus olhos eram fundos e círculos roxos cobriam toda a sua lateral, deixando seus olhos castanhos com um tom mais escuro e assustador. Seu rosto era pálido, e na iluminação fraca do corredor, que piscava e oscilava, tudo nela ficava cada vez mais triste, dos cabelos castanhos que há muito já haviam perdido o brilho para o camisola larga e branca que cobria seu corpo até um pouco abaixo dos joelhos. Talvez, pensou ela, ela fosse a tristeza em si, vagando pelo mundo perdida e sem rumo.
Elas finalmente chegaram ao fim do corredor e Florence sentiu seu coração batendo mais rápido ao ver a porta que dava para o lado de fora, com uma brilhante placa em cima desta com os dizeres "SAÍDA". Era como chegar ao fim de um labirinto, tendo a certeza de que nunca mais voltaria aquele lugar. Mas não para Florence, pois ela sabia que depois daquele labirinto teria outro, e mais outro, e mais outro...
– É o seguinte, doida — Jule começou ao se por na frente da menina antes desta alcançar a porta — Antes de sair você precisa fazer a sua consulta semanal, se o doutor autorizar que você saia — ela deu um sorriso — Ou seja, se ele considerar que você não é uma ameaça para a sociedade, você poderá sair.
Florence engoliu em seco mas assentiu. As consultas sempre foram a pior parte. Um médico gordo fazia-lhe perguntas que sempre eram as mesmas e anotava alguma coisa em seu bloco sem nem ao menos olhar para a cara da menina. Para o que aquilo servia ela não sabia, mas que ela era obrigada a fazê-las era claro.
Jule a conduziu para uma das portas que ficavam escondidas no espelho e que Florence nunca conseguiria encontrar sozinha. A enfermeira abriu a porta lentamente, exibindo um sorriso afetuoso (com o mais próximo de afeto que ela conseguia exibir) para o único residente que se encontrava sentado em uma cadeira atrás de uma mesa branca sem quase nada em cima, além de seu bloco de anotações e um prato de hambúrguer que deixou Florence com água na boca. Fazia anos que ela não comia nada do que gostava, sendo obrigada a ingerir refeições saudáveis que eram sugestões da clínica. Para ela aquilo mais se parecia com veneno.
O médico não levantou o olhar quando Jule sorriu para ele e muito menos quando ela empurrou Florence para dentro do quarto para que se sentasse na cadeira no outro lado da mesa, de frente para o médico que nunca a olhava nos olhos. Ela se perguntou se isso acontecia com todo mundo ou se era algo pessoal com ela. Seja lá qual fosse sua mania, deixava Jule muito irritada, que saiu do quarto batendo a porta atrás de si, e mesmo assim não chamando a atenção do homem rechonchudo.
– Srta. Florence, bom dia — saudou ele ainda sem levantar o olhar. Florence apenas piscou — Então — começou ele após uma longa pausa — Como vem passado nesses últimos dias?
– Acredito que você já saiba a resposta.
– E por que acha isso, criança?
– Venho aqui todos os dias, o senhor faz sempre as mesmas perguntas, eu faço na semana sempre as mesmas coisas então você recebe sempre as mesmas respostas.
Com essa resposta impetuosa da menina, ele levantou o olhar como se fizesse isso pela primeira vez, estudando-a com seus olhos miúdos por trás das lentes retangulares de seu óculos.
– O quê disse?
– Falei que minha semana foi ótima, muito obrigada por perguntar.
Mesmo com a rebeldia, Florence não tirava o tom morto de sua voz, que saia baixa como se estivesse atravessando uma placa de vidro.
– Algo novo a reportar? Sentiu-se diferente nessas últimas semanas?
Ela pensou em responder "por acaso vocês mudaram a medição para que eu me sentisse diferente?" mas não o fez.
– Não que eu me lembre — ela disse ao invés.
Ele assentiu, o olhar já novamente fixo em suas anotações.
– Viu alguma máscara branca ultimamente?
Essa era sempre a pior pergunta, mesmo Florence tendo sempre a mesma resposta.
– Não.
O terapeuta anotou mais algumas palavras e uma raiva súbita preencheu a garota, fazendo com que ela completasse:
– Eles me atormentaram a vida toda. Mas ninguém acreditava em mim — ele não levantou a cabeça — E nem você acreditam.
O Dr. George suspirou e largou a sua prancheta e a caneta em cima de sua mesa, levantando o rosto novamente para a menina com o olhar assustado sentada a sua frente.
– Eu compreendo, criança — pela primeira vez, desde que Florence conhecia o médico, a voz dele parecia até que gentil, como se sua verdadeira intenção fosse realmente a de ajudá-la — Mas não posso vê-los, me desculpe.
Ela assentiu e olhou para as próprias mãos que prendiam-se uma a outra como se fossem garras afiadas, deixando marcas nos lugares onde a unha rasgava a pele.
– Ninguém pode.
O resto da seção foi como qualquer outra havia sido. O terapeuta voltou a olhar apenas para as suas anotações e Florence voltou a responder o que sempre respondia. No final, Dr. Clenton decidiu que ela poderia ir para o lado de fora, então ela quase sorriu. Quase, porque Jule voltou alguns segundos depois para dentro da sala e a escoltou até a saída.
E foi só quando ela abriu a porta que Florence percebeu a quanto tempo ela não estivera no lado de fora. Mesmo por sua pequena janela (se é que ela poderia chamá-la assim) quando alguns raios de sol ultrapassavam a grade e atingiam seu rosto que geralmente se encontrava escondido nos travesseiros, e ela sentia seu toque queimando suas bochechas, ela nunca realmente sentia o sol. Então ali, parada na saída daquela clínica maldita, de frente para um dia tão lindo quanto aquele, onde as folhas secas das árvores ao seu redor caíam no chão e onde o vento batia em seus cabelos fazendo-os voar ao redor de seu rosto, ela se sentiu muito bem. Mesmo sabendo que sua felicidade duraria pouco.
Crianças de diversas idades andavam de um lado para o outro sem muitas vezes comunicarem-se entre si, caminhando no pequeno espaço que lhes era permitido, cercados por mais grades de ferro altas. Eles estavam do lado de fora, mas mesmo assim o contato com o mundo exterior era proibido.
De repente ela sentiu uma leve pressão em seu ombro e se sobressaltou. Ela não estava acostumada com contatos físicos, mas ao se virar e se deparar com uma menina loira vestindo o mesmo a camisola branca larga no mesmo estilo que a dela com um sorriso estampado no rosto, ela relaxou.
– Você é aquela menina do ano passado, não? — perguntou a loira.
Ela assentiu.
– Você é a Sarah, se não me engano.
Sarah sorriu ainda mais. Era incrível como alguém poderia sorrir em uma lugar como aquele.
– É muito bom te ver de novo, Florence.
Elas ficaram muito tempo ali, os olhares não se encontrando, paradas no meio do pátio com os braços cruzados uma de frente para a outra, cada uma absorta em seu próprio devaneio.
Florence não sabia muito bem o que dizer, "como vem passado?" não era a pergunta certa. Mas ela nem ao menos conseguia prestar atenção na menina, estava ocupada demais pensando em sua própria vida. Ela se perguntava mentalmente como chegara aquele lugar, onde nem ao menos podia ver o mundo fora das grades. Mas ela já sabia a resposta.
Sem dizer uma palavra, ela começou a andar na direção de uma das grades, onde a sombra de uma enorme árvore se estendia pelo chão nos dois lados. Um no outro lado da grade e outro dentro dela. O vento era um pouco mais gelado ali, e a única coisa que ela podia fazer era ficar parada observando o outro lado.
Maluca. Era assim que Jule a havia chamado. Mas ela não era a única, Florence já tinha ouvido aquelas palavras antes, vindas da boca de seus próprios pais.
Pais. Será que mesmo depois deles terem-na internado naquele lugar, deixando-a à mercê de pessoas como Jule, ela ainda poderia considerá-los como seus pais? Mas é claro que podia, já que, afinal, eles eram tudo o que ela tinha.
Ela não estava ali sem nenhuma razão, tudo tinha uma razão, e ela sabia que o dela eram máscaras brancas. Máscaras que a perseguiam desde criança aparecendo somente para ela. Ela tinha sido idiota de contar isso para seus pais. No que ela estava pensando?
O vento ficou mais forte naquela região que ela se encontrava e ela sentiu alguns fios de seu cabelos roçando em seu rosto. Florence sabia que bem lá no fundo, todos estavam certos, ela realmente deveria ser louca. Por que outra razão ela veria aquelas máscaras? Rostos sem olhos cheios de amargura.
Mas o que era ser louco? Não ter razão? Ou ver algo que ninguém mais via? Porque se fosse, com certeza ela seria louca. Mas ser insano era mais do que isso. Talvez, pensou ela, era ter uma linha de raciocínio diferente da de todo mundo. Mas se fosse isso, ela não poderia ser louca, porque ela acreditava e concordava quando diziam que ela era doida.
De repente, enquanto Florence se via perdida em pensamentos, uma sombra apareceu no outro lado da grade, na parte exterior, muito próximo dela, então ela levantou a cabeça com as sobrancelhas franzidas.
Então ela pulou para trás.
Parado na sua frente, encarando-a como se realmente tivesse olhos, se encontrava um homem (ou ela pensava ser um homem) alto de terno de risca preto, assim como eram as calças, seus sapatos polidos, as luvas de couro e o chapéu na cabeça. E o único acessório que contradizia o resto era o que mais a assustava, a máscara branca com o sorriso preto.
Por um instante, Florence não teve certeza se ele realmente se encontrava ali ou se era sua mente pregando-a uma peça, mas então a a criatura se mexeu e chegou mais perto dela, como se não houvesse uma grade entre eles. Florence não conseguiu fazer nada a não ser segurar sua respiração, esperando pelo pior. Então uma mão segurou seu ombro e ela se virou sobressaltada, quase dando um grito mas não encontrando a voz para tal.
Para sua surpresa, parada atrás dela, com as sobrancelhas também franzidas e olhando exatamente para onde a máscara branca se encontrava, estava Sarah, ela segurava o ombro de Florence como se quisesse lhe transmitir confiança. Mas o que realmente a surpreendia não era o fato dela estar ali, mas sim por ela estar olhando exatamente para a máscara.
Mas antes que Florence pudesse dizer qualquer coisa, Sarah falou:
– Você não está sozinha, Florence.
Ela apenas a encarou, sem conseguir dizer nada. Até mesmo seus pensamentos pareciam ter cessado, ficando completamente em branco, como se tivessem esquecido que deveriam estar pensando ou formulando milhares de perguntas.
– Eu sei que parece ruim — ela continuou, agora olhando para Florence — Mas tudo tem uma solução. A única coisa que você precisa entender é que você não é a única, e que, é claro, eu tenho um plano.
Ela disse essas últimas palavras com um sorriso no rosto, um daqueles sorriso que as pessoas dão como se estivessem tramando alguma coisa que iria chocar o mundo. Florence não via aquele sorriso há anos. E foi por isso que ela ouviu a garota quando ela começou a contar o que chamara de "o plano".
Talvez, se ela não tivesse ouvido a garota, tudo teria sido diferente, e Sarah provavelmente ainda estaria viva. Talvez a máscara branca a teria alcançado e ela não teria sido obrigada a entrar no carro de um completo estranho. Talvez até ela própria estaria morta.
Mas ela a escutou e entrou, horas mais tarde, em um carro.
Então ela foi para Becky Hill e conheceu Scott. Então ela ficou bêbada em uma festa. Então ela atropelou um garoto e foi atacada.
Ela não sabia naquele momento, mas ao escutar a garota, ela escreveu o próprio destino a sangue. E foi por causa dessa simples escolha, uma escolha sem volta e cheia de arrependimento, que ela o conheceu...
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