Abdication
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Melanie acordou com um alvoroço incomum. Nem nas ruas as pessoas faziam tanto barulho.
– Que diabos está acontecendo? — ela resmunga.
– Seu cabelo está maravilhoso nessa manhã, Melanie — Matthew zomba dela.
A morena mostra o dedo do meio para ele, que dá risada.
– Hillary não sai do banheiro — Jasmine responde.
– E o de baixo?
– Eu acabei de desocupá-lo — Matthew conta. — Martin está lá. Eu não o recomendaria até a parte de tarde, depois da limpeza da camareiras. Confiem em mim, eu conheço aquele cara. Ele faz um estrago pela manhã.
Jasmine faz uma cara de nojo e Melanie bate no tapa do moreno.
– Pare de ser desagradável.
– O que foi? Vocês preferem entrar no banheiro e serem surpreendidas com aquele odor floral? — ele zomba de novo. — Imagino que deva cheirar a carnívoras, não a bromélias...
Melanie o fuzila e volta a olhar para Jasmine.
– Há quanto tempo ela está lá?
– Pelo menos trinta minutos.
– E quanto tempo nós temos?
– Já são sete horas! — Jasmine se desespera. — Eu nem tomei banho! Frederick irá nos matar.
Melanie afasta a garota e começa a socar a porta do banheiro.
– Caiu dentro do vaso, Alteza? — ela grita.
Hillary resmunga algo que ninguém entende. Melanie volta a socar a porta sem parar, insistentemente, até que Hillary a abre e encara a morena.
– O que você pensa que está fazendo?
– Colocando ordem nessa porra — Melanie rosna e pega Hillary pelo pulso. — Vamos, saia daí. Não há um banheiro só para você, Alteza.
Hillary se afasta de Melanie.
– Você parece aquelas faveladas falando. Quanta falta de classe.
Melanie encara aquela criatura. Cabelos, compridos, lisos e pretos como carvão, olhos azuis escuros, pele tão pálida e doentia quanto a de Amber. O jeito dos olhos, o nariz fino, o formato dos dentes brancos e brilhosos... ela é mesma filha de Vincent, não só na aparência. O jeito prova o que um DNA comprovaria: eles tem os mesmos genes. O mesmo jeito arrogante e prepotente, a mesma forma ridícula de pensar, o veneno escorrendo dos lábios, o nojo impregnado em cada palavra, em cada centelha de olhar furtivo que ela lança para todos os lados.
Jasmine olha para Hillary.
– Desculpe, Hill. Estamos atrasados, eu precisava usar o banheiro. Sinto muito.
– Você não tem que se desculpar — Melanie fala antes que Hillary diga alguma coisa. — Você não está errada.
Jasmine assente e entra no banheiro com uma toalha em mãos. Hillary pousa os dedos compridos e pálidos na cintura.
– Eu ouvi falar de você — ela sorri cinicamente. — A prostituta do setor Fieldmann.
– Provavelmente já, sou muito requisitada pela parte nobre de Meurer — é a vez de Melanie sorrir. — Principalmente pelo seu pai. Você já sabia que ele tentou me comer?
Hillary passa os olhos por todo o corpo de Melanie, a fuzilando. Provavelmente se tivesse a capacidade de queimá-la viva, ela o faria.
– Não me olhe assim, Alteza. Não tenho nada contra, mas eu não curto.
– Do que você está falando? — ela rosnou.
– Eu não faço sexo lésbico.
– Você é uma decepção.
Melanie finge tristeza.
– É mesmo? Me dá licença que eu vou ali chorar um pouco.
– Pare com isso, Hilly — Matthew sussurra.
– Hilly? — Melanie zomba. — É algum tipo de apelido fofo pós-sexo?
Hillary explode e a segura pelos cabelos.
– Eu estou cansada das suas tiradas sem graça.
– Se fossem sem graça, você não estaria tão nervosa. Juro que se eu jogasse no time, tentaria seduzi-la e tudo acabaria em sexo.
– Por que você só fala de sexo? — Matthew pergunta. — Não vê que está complicando as coisas?
– Porque, adivinhem: eu sou uma prostituta! Sim, uma vagabunda, uma vadia, puta... Não me importa a maneira como vocês falam. Estou cansada de tentar esconder algo que vocês fazem questão de jogar na minha cara em cada oportunidade que tem! — ela grita, se desvincilhando das garras de Hillary. — Estou cagando e andando para você, Alteza.
Quando Hillary tenta atacá-la novamente, Melanie está preparada e a joga contra a parede, estalando boa parte do chalé e fazendo Hillary cair no chão, mas ela logo se levanta. Melanie sorri ao ver um roxo abaixo dos olhos dela.
– Se você não fosse uma favelada encrenqueira, poderíamos ser amigas.
Melanie ri alto.
– Eu nunca seria amiga de uma pessoa como você.
– E por quê?
– Porque pessoas como você me enojam.
– Posso dizer o mesmo — Hillary a encara com o nojo de sempre.
Melanie cansa do desprezo dela e ataca, por pouco não acertando um soco nela. Se Hillary não tivesse desviado, teria acertado seu olho em cheio.
– Parem com isso. Parecem duas crianças! — Matthew tenta separá-las, mas Hillary parece tão furiosa quanto Melanie.
– Essa pobretona vai me pagar.
– Pode vir.
– Cão pulguento não me assusta.
Melanie atacou de novo, dessa vez riscando os braços de Hillary com suas unhas. A filha de Vincent a acerta um soco na garganta, fazendo com que Melanie tivesse que se afastar para recuperar o fôlego.
– Está cansada, vadia?
– Hilly, pelo amor Deus...
– Me deixa, Matt! — ela grita, aproximando os punhos dos lábios. — Me deixa.
Então Melanie percebe que os dois tiveram algo pelo rápido olhar cheio de sentimento que trocaram. As palavras sempre foram o seu forte, sim. Ela era muito boa para detectar fraquezas nas pessoas. Só perdia para o seu dom com facas, sim. Ela não é muito boa de luta, mas com palavras e facas...
– Será que os namoradinhos podem transar depois? Temos um impasse para resolver aqui.
Essa é a vez de Hillary atacar, mas Melanie está pronta para ela, a acertando um chute na barriga. A herdeira do Senhor de Meurer chuta-lhe as pernas, fazendo Melanie perder o equilíbrio. Hillary aproveita para lhe dar um soco enquanto ela está tentando se levantar e Melanie a agarra pelos pés, a fazendo cair. A ex-prostituta se levanta com dores nas canelas, mas começa a chutar o estômago de Hillary sem parar para recuperar a força. Alguns são mais doloridos, porque ela vê a morena se encolher, outros são fracos, o que a dá tempo para recuperar a força. Melanie não se importa.
Braços a agarram pela cintura e ela tenta chutar quem a afastou de Hillary, logo agora que ela estava ganhando a briga. Melanie se remexe nos braços fortes, provavelmente de um homem, tentando se livrar, mas ele é tão forte quanto ela.
– Você poderá mostrar como é boa de briga quando Frederick pedir, Melanie — a voz de Josh entra pelo seu ouvido. — Não é brigando com a filha do Senhor de Meurer que você vai conquistar uma nota boa.
Ele a arrasta escada abaixo e ela encontra Martin saindo do banheiro com os cabelos molhados e trava.
– Será que você pode buscar uma roupa para mim? — ela pede. — De frio, por favor. Um casaco e uma calça jeans...
Ela não tem tempo de falar tudo porque Josh já a arrastou para fora do chalé.
– Que diabos você está fazendo aqui? Eu nem escovei os dentes, pelo amor de Deus...
– Por que você estava brigando com Hillary?
– Você tem uma escova de dentes sobrando no seu quarto? E roupas de mulher? Por que eu nem tomei banho!
Josh bufa e a leva para a casa de dois andares atrás dos chalés. A casa grande tem dois andares e é parecida com os chalés no formato, mas há coisas que fazem os dois se divergirem, mais do que o espaço, é claro. A casa em que os treinadores estão é provavelmente duas ou três vezes maior do que os chalés, tem os móveis claros e a lareira é elétrica, há telefones e comunicadores em holograma por todos os lados, televisões ligadas em canais abertos e fechados, não apenas no programa de Herbert Duninghan e canais de política. Não há notícias na televisão dos treinandos, apenas Vincent discursando e coisas do tipo.
Josh a leva para o andar de cima e ela vê como o corredor é extenso, cheio de portas brancas dos dois lados. O loiro para em frente a uma das portas e a abre. É um quarto bem comum. Uma cama de casal cheia de cobertores, escrivaninha com um comunicador comprido de tela de vidro, provavelmente um tablet, uma televisão média presa na parede, livros organizados pelo tamanho nas prateleiras e...
– O banheiro é ali — ele aponta para uma porta do outro lado do quarto, perto da sacada.
– Eu preciso de escova de dentes, toalha...
– Tem tudo no armário.
– E minha roupa?
– Eu arranjo uma pra você. Vai logo.
Melanie bufa e vai para o banheiro e pela fresta que deixou na porta, ela vê Josh se jogar na cama e ligar a televisão. De dentro do box de vidro ela tem uma visão perfeita dele, o que significa que se ele virar o olhar para a porta...
Melanie deixa a fresta na porta do banheiro um pouco maior, propositalmente, é claro.
Ela pega uma escova de dentes nova e depois de escovar os dentes faz xixi. Ela não percebeu que estava com a bexiga cheia até que sentou no vaso. Depois disso, ela foi tomar banho. A morena prendeu os cabelos em um coque e sentiu a água quente cair contra sua nuca. A água estava pelando de quente, mas ela não se importou. Estava muito frio e o vento do quarto de Josh estava entrando no banheiro. Melanie quase se arrependeu de tê-la deixado aberta até que vê o olhar de Josh vidrado nela enquanto ela ensaboa as costas com dificuldade.
Josh tenta desviar o olhar e Melanie sorri e vira-se para a parede, sabendo que ele a observa.
Depois do banho ela se seca com uma toalha verde e a enrola no corpo.
– Onde está a roupa?
– Aqui — Josh entrega uma calcinha e sutiã branco para ela, calça preta, uma blusa de manga comprida verde musgo e um casaco bege que bate no meio das coxas por cima, com listras do mesmo tom da blusa e mais claros e um tênis branco com listra vermelha.
– De onde você tirou tudo isso?
– As roupas de baixo são de Amber — ele olha para ela. — Ela deixou aqui. As outras roupas Savannah emprestou.
Savannah Huddington, a treinadora de cabelos lilás. Ela deve ter quase o mesmo corpo que Melanie, porque as roupas estão confortáveis, já a calcinha e o sutiã...
– Isso explica porque as roupas de baixo são tão apertadas.
Josh dá uma risadinha e se senta na beirada da cama.
– Por que você e Hillary brigaram?
– Discutimos por causa do banheiro.
– Banheiro?
– Só tem dois banheiros naqueles malditos chalés. Hillary acha que é uma treinadora com seu próprio banheiro. Brigamos.
– Você não devia ter feito isso, Melanie. O pai de Hillary é muito influente...
– Não ligo para Vincent.
– Melanie...
Ela se aproxima dele.
– Ele tentou me tocar, Josh — ela sussurra -, mas eu não deixei. Eu prometi a mim mesma que não dormiria com ninguém até eu conseguir o que eu quero.
Os lábios de Josh ficam a centímetros dos dela.
– E o que você quer?
– Você.
Ela deixa a toalha cair e percebe o olhar de Josh por todo o seu corpo. Melanie se afasta para o outro lado da cama e coloca as roupas que ele separou para ela. Josh só a olha, mas não faz nada.
– Por que a sua cabeça nega algo que o seu corpo implora? — ela pergunta, se aproximando dele novamente.
– Melanie, por favor...
– Responda minha pergunta.
– Já conversamos sobre isso.
– Eu não gosto do seu irmão. Eu não quero o seu irmão — ela sussurra.
– Mas ele gosta de você.
– E eu quero você tanto quanto você me quer. Não é justo que tenhamos que resistir a algo assim só porque...
– Só porque o meu irmão gosta de você — ele se afasta. — Sim, Melanie, nós temos que resistir porque meus irmãos são as pessoas mais importante para mim nesse mundo. Andrew estava perdido e agora que ele se achou, eu não quero que tudo volte a ser como era antes.
Ela fica confusa.
– Como era antes?
Josh balança a cabeça.
– Não cabe a mim te contar sobre isso — ele a olha no fundo dos olhos e segura seu rosto com as duas mãos, a fazendo olhar para ele. — Eu gosto de você, mas não me sinto bem para fazer algo do qual eu me arrependerei depois.
Ele a beija na testa e sai do quarto. Melanie fica sentada na cama por mais algum tempo, pensando. Ela percebe que nunca havia sido rejeitada por um homem antes e que o que ela sente não é simplesmente vontade de tê-lo em sua cama, mas sim de tê-lo perto dela não só porque ele é bonito e porque ela o deseja, mas também porque ela o admira. A atitude dele de negar os próprios sentimentos e vontades só para que o irmão tenha a felicidade que ele merece é tão altruísta, tão humana...
Melanie pergunta a si mesma se abriria mão da sua felicidade pelo seu irmão e sabe que a resposta é sim.
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Frederick separa os chalés: o primeiro contra o segundo e o terceiro contra o quarto. Melanie irá lutar contra Benjamin. Ela espera ansiosamente por isso desde o momento no navio.
– Josh e Tyler farão uma demonstração para vocês — Frederick decide.
Melanie sente o seu corpo tremer.
Josh e Tyler se posicionam. A morena vê o ódio relampejando nos olhos de Josh e teme por isso. Ele vai quebrá-lo ao meio.
O Duninghan ataca e o Whitmore lhe acerta um soco no olho. Josh se afasta com a visão turva e o olha com mais raiva ainda.
– Nervosinho, Destruidor? Será que eu serei o Comandante Destruidor de Destruidores?
– O posto é meu.
Josh dá uma rasteira em Tyler e soca-lhe o pescoço e chuta-lhe a barriga. Sangue sai da boca de Tyler e ela sente dó dele. Pelo canto do olho, Melanie vê Hillary com as mãos na barriga e o medo nos olhos. Ela irá lutar com Christian Whitmore depois de ter levado uma surra alguns minutos atrás.
Frederick dá a luta por encerrada quando Tyler diz que não aguenta mais. Pai ajuda o filho a levantar.
– Vamos começar logo com isso. Andrew Duninghan do terceiro chalé contra Matthew McNaughton do quarto chalé.
Foi uma luta difícil. Os dois lutavam bem e machucavam um ao outro. Era complicado dizer quem estava ganhando. Depois de quinze minutos, Frederick deu a luta como empatada e um ponto para cada. Esses pontos iam acumulando para o final do PMI e a chalé vencedor ganhava mais dinheiro.
Os nomes iam passando, passando e passando. Jasmine perdeu para Beatrice e Hillary desistiu depois de dez minutos de luta, quando Christian deu uma joelhada em suas costelas, a fazendo urrar de dor. Ela foi para a enfermaria. Martin ganhou de Morgana. Melanie não conhecia ninguém do primeiro e do segundo chalé, comandados por Tyler e Amber, respectivamente, por isso não se importava em prestar atenção na luta deles.
O sol estava alto e brilhando. Melanie tirou o casaco e jogou-o na grama, onde eles estavam lutando. Sim, na grama.
– Dez horas — Josh a respondeu depois que ela perguntou.
Melanie sentiu sua barriga roncar. Ela só tomou um suco de laranja e comeu um bolinho de chocolate mais cedo. A fome havia tomado conta dela.
– Melanie Hemingski do quarto chalé e Benjamin Beckering do terceiro chalé — Frederick chama os dois.
A morena respira fundo. Chegou a hora de mostrar para o que ela veio.
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