Abdication
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Melanie foi para o meio do círculo de pessoas formado. Ela flexiona as pernas e aperta os punhos próximo a mandíbula. Benjamin Beckering faz o mesmo.
– Como você está, nutte? — Benjamin pergunta enquanto começa a se mover devagar.
Melanie não sabia alemão, mas sabia que os Beckering sabiam. Para Benjamin estar chamando-a assim, não deve ser boa coisa. A sua desconfiança só aumentou quando Frederick Whitmore deu um sorriso maroto como se fosse um adolescente.
– Sem ofensas, Benjamin.
– Você pode dizer na nossa língua, eu não me importo.
Ele parece surpreso e a morena usa isso ao seu favor, porque o ataca com um soco no olho no mesmo instante, fazendo-o ficar cego por alguns segundos muito bem aproveitados por ela, que lhe deu uma rápida porém certeira rasteira.
Benjamin está caído no chão e Melanie pisa no seu membro. Ele urra de dor, mas enrola a mão ao redor da canela dela e a faz cair. Benjamin controla o sofrimento no meio das pernas e sobe em cima de Melanie, distribuindo socos pelo seu rosto.
Melanie se encolhe rapidamente, protegendo o seu corpo como pode. Uma hora é a da caça, outra a do caçador. Suas costas ficam expostas, mas Benjamin demora alguns segundos para recuperar o fôlego, lhe dando tempo para se levantar. Ela acerta um chute no peito do loiro e ele cai, arfante. Melanie chuta seu estômago com mais força do que chutou o de Hillary mais cedo até que Benjamin levanta a mão, pedindo ajuda. Desistindo.
A morena o soltou, aliviada. Seu rosto estava latejando e ela sentia o gosto do sangue que escorria do nariz direto para os lábios. Melanie estendeu a mão e o ajudou a levantar, sem rancor. Ela lutava porque era preciso e sabia que Benjamin também pensava assim.
Bom, ela achava que ele pensava assim.
– Melanie Hemingski do quarto chalé é a vencedora da 8ª luta — Frederick fala. — Vamos em frente.
Ajudar Benjamin havia sido um erro. Estender a mão para ele havia sido um erro. Ouvir Frederick havia sido um erro.
Algo a acerta dolorosamente nas suas costas e Melanie tem milésimos para ver quem lhe deu uma joelhada enquanto cai. Benjamin Beckering.
Depois de seu peito bate contra a grama, Melanie sente o seu corpo ser virado e quando as costas encostam no chão, ela sente como se todas as suas costelas estivessem sendo retiradas uma a uma sem anestesia. É uma dor insuportável na base da coluna que se estende por todo o seu corpo.
Benjamin começa a pisar em suas costelas, como se ele estivesse sapateando em cima dela. Ele a chutava em todos os cantos e ninguém fazia nada.
Um estrondo. O alívio quando Benjamin parou de chutá-la a invadiu, mas a morena não criou coragem de abrir os olhos. Um grito de ataque, barulhos de osso se chocando com osso, pele com pele, e um urro de dor. Melanie desperta da sua dor e vê um loiro jogado no chão apanhando dos irmãos Duninghan.
Os dois estavam batendo nele por ela.
De repente a dor voltou com tudo, pontilhando a sua visão e percorrendo desde as suas costelas até a sua cabeça. Olhando para baixo, ela viu o sangue que escorria do seu nariz já na sua garganta, dando a impressão que alguém havia a cortado, e os hematomas avermelhados e roxos que já estavam expostos.
A dor parece ter se ajustado ao seu corpo e o seu cérebro parece começar a aceitá-la como uma parte de si, mas algo dentro dela pesa. Seus olhos, ela percebe. Ela não consegue mantê-los aberto.
Então Melanie decide fechá-los, tendo certeza que não seria para sempre.
+++
– O meu critério é que o homem tem que ser bonito, não pode ter mais de quarenta anos e tem que ser rico — Desirée a conta. — Não fico com velhos, porque desprezo homens mais velhos desde o que meu pai fez comigo; precisa ser rico porque eu não me deito em qualquer muquifo e bonito porque apesar de ser uma prostituta, eu ainda sou uma garota.
Desirée Moritz, uma amiga sua das ruas. Seu pai era um bêbado desprezível, era exatamente assim como a loira o descrevia. Alta, de cabelos claros e enrolados, olhos azuis esverdeados e uma pele clara invejável, Desirée é a garota mais bonita que Melanie encontrou nas ruas.
– Com as mulheres os critérios são os mesmos — Desirée continua. — Não faço distinção, mas é claro que eu cobro a mais.
Desirée tinha a opção sexual indefinida, ela havia a contado quando as duas se conheceram. Melanie já sabia que gostava de homens desde cedo e mesmo tendo que se submeter a prostituição, isso não iria mudar.
– Eu não quero fazer isso.
Desirée tinha dezessete anos e Melanie só quinze. Ela nunca tinha feito nada do tipo. Ela havia beijado só dois garotos do seu setor...
– Você precisa. Não há como sobreviver nas ruas sem a prostituição e muitas vezes conseguimos até abrigo por uma noite.
– Nunca sobra dinheiro?
– Vai tudo em comida, roupas de frio e cobertores. As noites de inverno, Melanie, são as piores. Quase congelamos. Uma pensão é cara demais, até a da mais simples.
Desirée ajeitou a roupa e a maquiagem de Melanie, destacando os seus olhos e a fazendo usar cores escuras. Elas caminharam até o setor Fieldmann. Uma mulher parou Desirée, que se inclinou sobre o vidro do carro.
Alguns minutos depois, ela voltou para a conhecida.
– Me encontre aqui ao amanhecer.
– Espera — Melanie segurou o braço da loira. — O que eu faço?
Desirée sorri de leve.
– Seja ousada como você nunca seria em circunstâncias normais, Melanie. Homens gostam de mulheres ousada na cama.
Ela esperou. Cinco, dez, quinze minutos. Meia hora. Até que um carro preto parou e o vidro escuro foi abaixado. Um cara de cabelos loiros escuros, olhos azuis e pele bronzeada no estilo sulista está dentro do carro. Ele a pergunta quanto é a hora, ela responde. Ele concorda e ela entra no carro. Para Melanie, o caminho até o motel foi muito mecânico.
Quando ele trancou a porta e ela se deparou com aquela enorme cama redonda, a banheira no meio do quarto com champanhe e taças os esperando, ela se aparou. O pânico tomou conta do seu corpo até que o loiro tocou os seus ombros.
– Por que você está tensa?
– Eu... — para que mentir? Ela nunca mais o veria na vida mesmo. — Eu nunca...
Melanie não precisa continuar.
O loiro deposita um beijo em seu pescoço e faz uma trilha até a clavícula dela. Suas mãos no zíper nas costas, o descendo. O vestido cai e ela retira os saltos, ficando mais baixa do que ele. Ele a puxa pela cintura para um beijo. Melanie sente um gosto doce desconhecido quando a língua dele entra dentro da sua boca, porém delicioso.
Ela começou a relaxar até que os dois estivessem seminus e aos beijos na enorme cama redonda com lençóis de seda branca.
– Eu nem sei o seu nome.
A morena pensa em dizer, mas ela se lembra das dicas de Desirée. Seja misteriosa, a voz da loira ecoa na sua cabeça. E ousada.
– Eu não o disse.
Melanie faz um movimento e gira para cima do loiro.
– Eu sou Tyler — ele balbucia.
A morena pressiona os dedos contra o feixe do próprio sutiã nas costas e o retira. As mãos de Tyler se esticam para tocar seus seios, mas ela o repreende. A morena para com os dedos na barra da cueca boxer dele. Desirée sempre disse que ela deveria se acostumar, porque dificilmente mudaria de vida, e que podia até começar a aproveitar depois de um tempo. Melanie decidiu aproveitar logo. Ela não sabia o que fazer, mas usou a imaginação.
Homens gostam de mulheres ousada na cama.
– Eu estou no comando agora.
Melanie acorda com um pulo. Foi só uma lembrança, ela diz a si mesma, grata. Apesar disso, ela percebe como a sua testa está suada e até que sua intimidade estava molhada. Ela não conseguia acreditar que havia tido uma lembrança erótica com Tyler da sua primeira vez e que estava excitada com aquilo.
Os lençóis e suas vestes são claras, o piso e as paredes são da mesma cor e a luz dá uma sensação monótona e cansativa. Nostálgica.
Andrew está a observando de uma poltrona amarela no canto do quarto. Ela se assusta com a aparência dele. Seus olhos azuis sempre vivos tem um tom cansado e meio morto e olheiras se acumulam abaixo dos seus olhos. Seus cabelos estão bagunçados e pelo modo como ele caminha até ela, a morena percebe que ele esteve sentado na poltrona por muito tempo.
– Você acordou, Bela Adormecida.
Ela tenta falar, mas ela sente um gosto amargo na boca.
– Por quanto tempo...? — ela consegue sussurrar, uma sensação estranha na garganta. — Eu dormi... eu dormi por quanto tempo?
– Você levou uma surra feia. Fraturou algumas costelas e eles precisaram de alguns remédios especiais.
– Como assim?
– Não se preocupe, Vincent bancou tudo.
– Vincent? — ela se espanta.
– Benjamin confessou que lhe bateu daquele jeito porque Hillary disse que arranjaria drogas para ele aqui dentro da ilha. Vincent comprou o silêncio de todos e pagou pelo Kalxifor usado em você.
– Mas se Benjamin confessou...
– Ah, não foi para todo mundo. Ele disse para Frederick. Christian ouviu e me contou. Nos conhecemos há muito tempo. Ele achou que você ficaria preocupada se, sabe, tivesse que abrir mão da remuneração para pagar o seu tratamento.
Ela se indigna.
– Benjamin quebra as minhas costelas e eu que teria que pagar pelo meu tratamento se o benevolente Senhor de Meurer não se apiedasse da minha situação?
Andrew sorri diante da ironia da morena.
– É bom ouvir o seu sarcasmo novamente.
Ela então se lembra do que eles estavam falando.
– Quanto tempo?
– Cinco dias.
Parecia demais. Sim. Era demais. Quanto treino ela não perdeu?
Andrew parece notar a preocupação da morena.
– Eu pedi para Josh compensar o que você perdeu — ele conta. — Meu irmão disse que poderia treinar você nas horas vagas dele. Frederick concordou e disse que vocês dois poderiam usar as salas subterrâneas de treinamento.
– Salas subterrâneas? — ela questiona.
Andrew sorri.
– Sim, são maravilhosas! A entrada fica na base da árvore e... — ele balança a mão. — Você vai ver.
Ela tenta se sentar e consegue sem dificuldade. Andrew a ajuda ficar de pé e Melanie mexe os dedos das mãos e dos pés. Mexe os braços e pernas. Faz alguns alongamentos e até dá dois pulinhos. Apesar do gosto ruim na boca, ela está bem.
– Eu preciso escovar os dentes — ela diz e então vê o seu cabelo pelo canto do olho. Está oleoso e horrível — e lavar o cabelo.
Andrew a ajuda a ir até o banheiro, apesar de Melanie conseguir andar normalmente.
– Direi a Frederick para a esperarmos para o jantar no refeitório — Andrew beija a bochecha dela. — É bom se preparar psicologicamente. Josh não é fácil e Frederick disse que o seu treino deveria começar logo que você tivesse alta.
+++
Melanie sentiu uma fome enorme. Andrew lhe disse que lá embaixo era calor e que não havia ventilação, mas mesmo assim ela decidiu usar umas roupas mais quentes, afinal ela passaria no refeitório e lá era frio. Ela colocou uma calça jeans clara e com alguns pequenos rasgos, uma blusa de manga curta rosa clarinha, com o comprimento até o meio das coxas e com o desenho de uma concha fechada, além dos tênis coral.
Ela passa no refeitório e enche o seu prato de macarrão e carne de carneiro cozida, além de salada verde e frutas. Ah, e o suco de laranja, é claro.
Melanie embala em uma conversa alegre com os companheiros de quarto. Hillary fica emburrada, mas se obriga a ouvir a voz da morena, já que ela conversa com Matthew sobre como foi estar na enfermaria.
– Olha, eu dormi o tempo todo.
Ele dá uma risada leve e muda de assunto. Eles conversam sobre como era a vida dela depois que saiu da casa. Melanie não escondeu o que fazia para sobreviver, mas preferiu ocultar as suas experiências.
Já no fim da noite, Frederick pediu a palavra.
– Nossa vencedora do quarto chalé, Melanie Hemingski, está de volta. Não tive tempo de parabenizá-la pelos pontos adquiridos para o seu chalé e nem pela bela luta que ocorreu antes daquele rápido desentendimento...
Ele a olha e ela assente com a cabeça, mas guardando a sua raiva para si. Ela o odeia por menosprezar uma surra que a fez ficar cinco dias no hospital.
Depois do seu discurso de como é terminantemente proibido agredir um treinando fora do horário determinado para as lutas e bla bla bla, ele os liberou. Alguns ainda ficaram no refeitório para comer, outros simplesmente para conversar. Josh toca a parte nua do ombro dela e Melanie sente um arrepio.
– Boa noite para quem pode dormir, já eu tenho uma hora de treino com alguém — ele murmurou para todos e se retirou do refeitório. Uma chamada.
Melanie também se levantou e deu boa noite aos amigos e um beijo na bochecha de Andrew. Ela seguiu Josh.
Ele foi para trás do refeitório, passou pela casa de dois andares onde os treinadores estavam ficando e subiu por vale. Melanie o seguiu e sentiu as coxas doloridas quando parou perto de uma árvore. Josh tirou uma lanterna do bolso e a ligou. A árvore que Melanie chamava mentalmente de bristlecone pine, suas enormes raízes ocupando boa parte do local. O feixe de luz que sai da lanterna se concentra em um buraco perto do ponto de encontro entre uma raiz e outra.
– Tem uma escada ou algo do tipo?
– Tem uma rede no fundo — Josh fala. — Deixa que eu pulo primeiro.
E então ele se jogou com a lanterna nas mãos. Alguns segundos depois, Melanie ouviu o baque do seu corpo batendo contra algo e os feixes de luzes irregulares voltarem a se suavizar. Ele apontou a lanterna para cima.
– Pode pula! — ele grita.
Melanie respira fundo e segue a luz. Ela se joga. De olhos fechados, ela sente o seu corpo chocar-se contra uma rede que afunda e depois a joga para cima, a fazendo pular como em uma cama elástica. Josh a puxa e a luz da lanterna foca-se em seus olhos verdes. Ela consegue ver o mar azul escuro de Josh, parecendo meio sombreados e obscuros.
Ela sente como se tivesse viajado para outro planeta, outra galáxia... Melanie nunca se sentiu assim na sua vida. A morena nunca havia sentido aquele tipo de aperto no peito e uma vontade simples de abraçá-lo e não aquele desejo fervoroso que ela sempre sentia ao ver um homem malhado e bonito. Seu estômago começou a dançar e ela se lembrou das várias vezes que ela se jogou para cima de Josh e ele a rejeitou.
Estou cansada de agir como uma prostituta, ela diz a si mesma. Chega!
Ele a encarava intensamente, a desejava e já havia a beijado e a tocado, mas sempre negava tudo não só para ela, mas para ele mesmo. Se ele não a queria, tinha quem quisesse. Ela nunca foi de se rastejar para um homem, sempre foi ao contrário. Não mais.
– Nós viemos aqui para treinar, não é mesmo? — ela desfaz a conexão entre o olhar deles. — Então vamos treinar.
Ela vê o olhar magoado dele no mesmo instante e logo se arrepende. Em poucos segundos a mágoa desaparece e ele se recompõe. Josh pressiona a mão contra a parede e as luzes são acesas, uma a uma.
É realmente maravilhoso.
Vários alvos em espirais, bonecos humanos e vários tipos de armas para treinar a mira. Sacos de pancadas de todas as formas e tamanhos. Vários compartimentos prateados e salas separadas com vidro para simuladores, como se você estivesse lutando com uma pessoa de verdade e não com um holograma.
Havia um comunicador na parede e uma televisão média desligada, mas que provavelmente mostrava só imagens de Vincent e notícias de política e as entrevistas de Herbert. Estava tudo tão organizado, tão bonito.
– Acho que podemos começar.
Fale com o autor