Todos sabem aquilo por que passei. Mas ninguém o sente como eu... Já passou uma semana e continuo a pensar no dia em que aquela pessoa tocou à minha campainha, na minha casa, às (quase) cindo da manhã. Foi estranho mas de certa forma agradeço-lhe a visita. Eu havia sonhado com o acidente pela segunda vez este mês. Antes acontecia quase todas as noites; cheguei a ficar eufónica de tanto gritar, mas com o tempo (e já passou bastante) aprendi a controlar-me. Gritos mudos invadem o meu quarto e o nó na minha garganta é tão grande que tenho o receio de sufocar. E no escuro posso ouvir o choro da mãe, o seu soluçar, os seus punhos a bater contra a parede do meu quarto. E ao seu lado o semblante passivo do pai, que também chora sem barulho e tenta inutilmente agarrá-la. E eu sei. Sei que choram por mim; por não estarem ao meu lado, por me ter abandonado.

Estou, neste momento, a ter inglês com a senhora Gonçalves. Ela faz-me demasiadas perguntas, não posso nem mordiscar a ponta da minha caneta preta que ela não me larga. Fala muito, sempre a olhar-me fazendo, ocasionalmente, perguntas a outros alunos como que a esclarecer o facto de não estar pregada a mim. Agora a sério, por vezes é incómodo mas posso confirmar o meu apreço por ela. Tem um modo muito meigo de ser e um olhar maternal que me é bastante familiar. Para além de que é elegante e raramente erra profissionalmente. A mãe também era elegante e otimista mas acho que não posso dizer que fazia "tudo" bem... E quando era assim, ficava possessa! Que ninguém se aproximasse dela nesses dias... (eu ria-me sempre). A sua cara ficava vermelha e ela começava a roer as unhas. O pai costumava dizer que naquelas alturas ela era mais minha irmã do que minha mãe.

Com o queixo apoiado na minha mão direita (e sim, eu escrevo com a mão esquerda), eu tentava acompanhar a matéria escrita no quadro. Por vezes, quase que inconscientemente, bocejava ou revirava os olhos, não por desprezo mas porque ansiava pelo intervalo.

Por fim, saímos e a senhora Gonçalves seguiu-me até à porta fazendo-me parar quando a vi. Tocou-me no ombro com calma e virei-me para encará-la.

—Desculpe?

Falei com a curiosidade que brotava do meu intimo.

—Você... Tu és mesmo uma rapariga especial, não és?

Olhei-a espantada. Não guardava nenhuma resposta comigo para uma pergunta (afirmação?) daquelas.

—Eu não sei o que lhe dizer...

Ela riu baixinho.

—Não precisas de dizer nada.

Sorriu uma ultima vez antes de se dirigir à sua secretária. Sai da sala com a intriga a percorrer-me o corpo. Atravessei todos os corredores em passo apressado. Senti-me até mesmo mal por ter achado as suas aulas exaustivas, entediantes.

Senti algo a bater contra mim. Olhei para baixo e um rapaz de dez anos, suponho, tem o pescoço esticado e o rosto pasmo vidrado no meu. Deu dois míseros passos para trás.

—Peço desculpa.

—Hum... Como te chamas?

—Samuel. Ia agora para a aula.

—Bem Samuel, eu acho que estás um nadinha perdido. — Ele assentiu — A básica é daquele lado. — Apontei com o indicador pondo-me de cócoras para que ele visse o mesmo que eu.

Ele concordou e saiu pela porta à nossa esquerda. Continuei a andar.

—Menina?

Oiço alguém a ser chamado ao longe. A chamada é repetida e decido virar-me para trás. Era Samuel.

—Sim?

—Eu menti... Ando à procura da minha irmã. Ela esqueceu-se do telemóvel em casa e a nossa tia pediu-me que lho entregasse.

Sorri com a sua timidez.

—Chamo-me Katrina. Agora diz-me; como é a tua irmã?

—É bonita.

—Ai sim? E que mais?

—Ela... grita muito! — Disse numa careta e ri-me do que acabara de dizer. — Mas não lhe digas nada, por favor.

—Tudo bem, eu não digo.

—Há! E tem o cabelo demasiado comprido!

—De que tamanho ao certo?

Ele pôs o dedo próximo do umbigo e depois corou.

—É do tamanho do teu.

—Não te preocupes, eu gosto do meu cabelo "demasiado comprido"! — Ri-me. — Mas qual é a cor? E os olhos?

—É amarelo, quer dizer, loiro. E os olhos são azuis.

Acho que sei quem é...

—Qual é que é o nome mesmo?

—Jena.

Pois...

—Ela é da minha turma. Penso que sei onde ela poderá estar.

Caminhámos pelo corredor. Pedi-lhe que agarrasse a minha camisa por causa da multidão de alunos e adentrámos pelo pátio indo em direção ao carvalho que jazia perto do bebedouro que os rapazes da equipa de atletismo, basquete e futebol usavam quando acabavam cada treino. Íamos conversando sobre assuntos aleatórios para evitar que uma bolha de silêncio constrangedor se arrastasse até nós. E confirmei as minhas suspeitas ao avistar a silhueta fina e encurvada de Jena, acompanhada de Thomas.

Thomas é alto e entroncado. Tem cabelos castanhos, claros e finos como Samuel mas os olhos são castanhos ao contrário do pequeno que tem as mesmas iris grandes e azuis da irmã.

Ela olhou-nos confusa e Thomas também. Samuel correu para o primo e Jena inclinou-se na sua direção sem tirar os olhos dos meus. Parei de andar, já o levara até lá, podia ia embora depois de lhe lançar um aceno amigo. Sinto Jena atrás de mim e viro-me antes que ela me tocasse. Tinha uma expressão nervosa.

—Obrigada.

Levantei as sobrancelhas e segundos depois ela ergue o telemóvel.

Sorri.

—Não tens de quê.

Continuei o meu caminho.

—Espera um pouco. Não queres ficar connosco? Ao pé do carvalho?

—Não. Prefiro ficar sozinha... Mas obrigada!

—Okay...

Fui-me embora. Instantes mais tarde tocou a campainha e comecei a dirigir-me à sala. Não me preocupei em chegar a horas ciente de que o professor de filosofia chegava sempre mais tarde que qualquer um. Olho para o lado e assusto-me com Jena que caminha junto de mim.

—Mas como... Que fazes aqui?

—Estou a ir para a aula, e tu?

—O mesmo.

—Filosofia?

—Hum hum.

—Ótimo.

Não estava a entender nada daquilo. Jena é mesmo uma personagem bizarra.

—Porque é que ages assim?- Cheguei até a sentir-me mal depois de ver a sua cara com um ponto de interrogação em cada pálpebra.

—Assim como?

—Vens ter comigo, falas comigo, convives comigo...!

—Continuo sem entender. Que mal isso tem?

—N-nada! Não tem nada de mal. Apenas... Esquece.

Ficámos ambas em silêncio. Tenho a sensação de que ela está ainda mais confusa do que eu.

—Não temos aula.

Escuto o Júlio dizer à Jena quando passa por nós.

—Não?

—Não; parece que o velho vai para a reforma. Estão a tentar arranjar substituto para ele. — dirigiu-me um olhar de julgamento. Ignorei-o por completo. Não era a primeira vez que me olhavam de lado.

Dei meia volta juntamente com Jena. Filosofia era a nossa ultima aula. Atravessei os portões negros que davam entrada para o colégio e saída para a calçada e para o trânsito lá fora.

—Onde moras?

Porque raio haveria de dizer-lhe?!

—Hum... Não é da tua conta.

—Sim, claro. Só estava a tentar arranjar assunto.

Suspirei... Não foi uma boa tentativa!

—A dois quarteirões daqui, o terceiro edifício à direita.

Que se lixe! A miúda não tinha cara de quem me ia esfaquear a meio a noite, por isso...

—Eu moro a cinco. A primeira casa à esquerda.

Assenti.

O caminho foi percorrido em silêncio. Mais uma vez, contei os meus passos e Jena parecia concentrada nos seus pensamentos. Também não fiz questão de acordá-la dos seus devaneios; não estava com disposição nem vontade de conversas ridiculamente caprichosas e barulhentas. Eu apenas queria estar só, e Jena não me deixava réstia nenhuma de sossego!

Pensando em como eu era e em como eu sou, não há muito a revelar. Extrovertida, calma; teimosa, tolerante; impaciente, pensativa; viva, a sobreviver. É só ligarem os opostos e poderão perceber o quão irónica é a minha existência! E a Jena parecia-me muito mais familiarizada com o "exterior" do que eu... Ou isso ou então disfarçava muito bem, muito bem mesmo. Por isso é que não consigo entender o porquê de estar aqui ao meu lado.

Existem várias possibilidades! Interesse, deboche... Mas amizade? Não sei. Isto é, amizade a sério? Do tipo que nos arrasta para uma festa quando estamos deprimidas. Que nos segura o cabelo quando vomitamos. Que nos afaga os ombros quando nos sentimos tão mal que pensamos até em afogar-nos numa banheira cheia de água fria! Não que tenha chegado a esse extremo, mas... e se chegasse? Seria Jena a estar ali? Seria Sandra? Ou seria apenas eu e aquele frio? Aquele frio tão ridiculamente aconchegante. Frio até nos fazer doer a cabeça e os dedos. Frio que nos faz esquecer e por isso me é considerado como um aconchego. Sim, eu gosto desse frio... Faz-me não pensar neles, naquele carro e no calor que fazia nesse dia. Faz-me bem mas... Até que ponto pode algo fazer-me bem se o que eu quero é alguém ali, ao meu lado, a impedir-me de evaporar para sempre?

Olho uma ultima vez para Jena. Retribuo-lhe um aceno de despedida enquanto viro à direita e ela segue em frente.

Até amanhã...

Notas finais
Comentem! :)