Abandono.
6 Arranhada!
Notas iniciais
A Jena e eu temo-nos tornado cada vez mais próximas... Desde aquele dia em que saímos juntas do colégio que ela me tem procurado cada vez mais e, sinceramente, também já não me importo muito com isso.
Irmos juntas para as nossas respetivas casas também se tornou rotina e agora ambas esperamos uma pela outra para o fazer.
Hoje faz chuva, muita chuva para dizer a verdade. O céu está quase negro e há tantas nuvens que duvido que os anjos consigam olhar cá para baixo! Olho pela janela da sala. Consigo avistar o pátio e um gato vadio que corre e sobe para cima do carvalho. Ele mia assustado fazendo ecoar por todas as gotas de água e por todas as partículas de ar o seu miado de desespero. Olha frequentemente para baixo e para cima enquanto se remexe entre as folhas avermelhadas com o seu pelo branco sujo erriçado! Ouve-se um trovão e todos os alunos viram o rosto, assim como eu, lá para fora. Segue-se um relâmpago e Angelina, uma rapariga muito branca de cabelos negros aos cachos, solta um grito agudo que continua a soar nos meus ouvidos. Júlio gargalha e exclama:
—Estás um nadinha atrasada Angie! O trovão foi à bocado.
Todos riem! O Júlio tem várias facetas; ele é o aluno exemplar com as notas altíssimas e os óculos retangulares bem assentes no nariz, ele é o aluno não exemplar conhecido pelas inúmeras festas e casos de uma noite, ele é o rapaz que se chateia com a simples e regular pronuncia da palavra "não" e é também o rapaz mais compreensivo que poderão vir a conhecer. Ele é o Tom e o Jerry ao mesmo tempo, ele é o nada e o infinito. Ele é bom e é mau. Tão simples quanto isso! O Júlio tem várias caras e assim que comecei a estudar com ele, neste mesmo ano, consegui perceber isso. O Júlio é imprevisível; ele tanto pode ser o vosso melhor amigo como no dia seguinte ser o pior!
Angelina, ou Angie se preferirem, deu-lhe um tiro com o revólver que trazia escondido na pequena mala de colo. Jorrava sangue e mais sangue, a alcatifa manchada de vermelho escuro. Os olhos do rapaz vazios refletindo o pouco de luz que sobrava do candeeiro da sala. As mãos trémulas caídas junto ao peito e um ultimo sorriso de gozo escapou-lhe dos lábios enquanto Angie se aproximava e deixava cair, sobre ele, as restantes balas por usar. O rosto alegre e uma gargalhada vencedora. Conseguíamos ver tudo isso no seu semblante ereto e nos seus olhos furiosos a encarar Júlio que continuava a rir. Angie, frustrada, bufou e a aula continuou sem nenhuma outra interrupção.
Júlio continuava a respirar. Pelos vistos, as fantasias obscuras de Angie teriam de esperar.
Foi-nos dada permissão para sair segundos antes do toque e esperei que a multidão passasse para ir, assim como Jena, para fora daquele cubículo branco e verde.
Demos várias voltas pela escola enquanto conversávamos sobre a nossa infância. Sobre ela ter vivido em Castelo Branco até à data em que se mudara para cá e em como tinha saudades das praias fluviais da sua terra. Por algum motivo nunca lhe falei dos meus pai, da instituição ou da Sandra. Contei-lhe apenas que nasci em Santarém, que vim para Lisboa aos cinco anos e que os meus pais se chamavam Ana e Luís. Que morreram quando tinha nove anos e ponto. Não lhe disse mais nada. Não lhe falei do acidente, nem da enfermeira boa e do enfermeiro mau, nem mesmo de Sandra. Se já me doía falar assim com ela, sem pormenores nem nada, não queria pensar como seria se alguma vez lhe contasse os detalhes...
Chegámos a um cercado de pessoas perto do carvalho. Thomas, como sempre, também estava lá.
—O que é que se passa? — Jena perguntou-lhe tocando-lhe no cotovelo para que olhasse para si.
Thomas passou a mão pelo pescoço enquanto suspirava alto.
—É um gato, acho eu. O que eu sei é que veio uma parva qualquer a correr, que me empurrou, gritou qualquer coisa e que depois veio uma manada inteira atrás dela!
Ambas rimos do desembaraço de Thomas.
Jena agarrou-me a mão para que a seguisse e começou a furar por entre o amontoado de pessoas enquanto pedia "com licença" e "peço desculpa" ao mesmo tempo que se certificava de que eu ainda não tinha fugido.
Conseguimos chegar à primeira fila e pude ver Angie agachada junto ao carvalho enquanto falava baixo e meigamente na direção do felino que descia, ou tentava descer, a grande árvore. Continuámos ali até que Jena sussurrou ao meu ouvido.
—Anda, vamos embora. Mais cedo ou mais tarde o animal sai dali.
Assenti. Virei ligeiramente o corpo mas voltei a olhar para o gato. Os seus olhos amarelos fixos nos meus e eu permaneci quieta dando, ocasionalmente, um passo ou outro em frente até ficar quase ao lado de Angie. Ela levantou-se erguendo os braços para o alcançar. Mexeu-lhe nos bigodes com a ponta dos dedos e nesse instante ele salta para cima dela ressaltando para cima de mim. As unhas presas à minha camisola com o estampado de um panda. Angie levanta-se do chão depois de ter caído e caminha até nós continuando com os sussurros. As suas mãos alcançaram-no e pegaram nele com calma mas no ultimo segundo ele sopra e arranha-me a cara fazendo Angelina largá-lo.
Levei a mão ao rosto automaticamente. Olhei para o gato que corria para fora do recinto escolar e encarei Jena que entretanto já estava à minha frente. Dois míseros fios de sangue decoravam a minha bochecha. Jena aproximou-se mais de mim e torceu o nariz quando, também ela, mexeu no arranhão.
—Não é bonito... Bora, eu levo-te à enfermaria para desinfetar isso.
Fui com ela.
Patrícia, a enfermeira, examinou e tratou-me a ferida com algodão e álcool. Senti os seus dedos quentes sobre a minha pele. Não me queixei uma única vez. Só queria sentir a minha mãe ali, ao meu lado.
—Já passou...
E por sua vez ouvia a minha mãe a dizer o mesmo.
—Já está quase querida.
Sorri... A mãe quase nunca me tratava de querida. Na verdade, chamava-me ursinho! Eu sei, também nunca entendi!
—Pronto! Já podes ir embora.
Concordei e despedi-me dela com Jena.
Fomos para a aula que já começara fazia quinze minutos. Pedimos desculpa ao professor, explica-mos o ocorrido. Angelina confirmou tudo. Sentei-me no meu lugar, Jena no seu.
Fiquei ali a pensar no meu pai, que abraçava a cintura da minha mãe ou então depositava um beijo no seu pescoço. Ela tratava do meu joelho ou das minhas mãos feridas e depois soltava um riso abafado ao olhar para a minha cara de choro. Andava até mim e cercava com ambas as mãos as minhas bochechas deixando um beijo e uma caricia em cada uma delas. Depois vinha o meu pai que, assim como ela, me beijava os olhos enquanto dizia "Que menina tão chorona! Nem parece minha filha!". E ria muito. E a mãe também ria. E eu ria com eles.
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