Abandono.

4 A meio da noite...


Limpo o suor da testa. Retiro, com o punho, a ultima gota da minha bochecha, daquelas pesadas carregadas de saudade. Respiro fundo com dificuldade, doem-me os pulmões e tenho a voz rouca. O meu cabelo está ligeiramente molhado e a almofada também; foi um sonho.

Levanto-me da cama sem esforço e dirijo-me à casa de banho com os pés descalços no chão frio. Retiro a roupa- o pijama que era do pai (a camisa que ele usava aos domingos)- devagar enquanto impeço continuamente recomeçar a chorar. Solto o cabelo do coque desarrumado. Olho-me nua no espelho; os olhos inchados e o rosto vermelho e molhado coberto de sal. Sou bonita; não tenho complexos quanto a isso mas sei que para ser uma "gata" teria de ter mais... carne. Teria de ter as curvas mais acentuadas e os seios maiores apesar de achar que estão bem assim. Não tenho sardas no resto do corpo e os meus fios castanhos chegam-me até a dois palmos abaixo do peito. Sento-me, ainda despida, no pequeno banco de ferro que está a um canto da minúscula divisão. Junto as pernas como que com frio embora não tivesse e pego na escova vermelha que uso para pentear este cabelo tão fácil de domar. Começo a penteá-lo com cuidado, atenta a qualquer estrago por mais mínimo que este fosse. Começo a entrelaçar os meus dedos nele num ritmo demorado e preciso fazendo uma única trança que contornava o meu pescoço até cair morta por cima do meu peito, prendo-a com um elástico branco e levanto-me guardando novamente o assento. Olho-me mais uma vez naquele pedaço de vidro possuído com o dom de refletir uma alma como a minha.

Se me fosse concedido um desejo, pediria tornar-me num espelho, um espelho que pudesse refletir aquilo que quisesse... Poderia refletir-me a mim junto da mãe e do pai, o meu urso Náninu! Não sei. Apenas acho que...Talvez tudo se tornasse mais simples e já não teria de esperar pela noite para os ver de novo junto das roseiras a arrancar ervas daninhas e a beijarem-se por baixo da água dos regadores automáticos. Seria tudo bom e ridiculamente tranquilo como antes.

Com o pulso, volto a limpar o olho direito; faço uma careta e encolho os ombros. De que me serve ser bonita ou orgulhosa agora? Não está cá ninguém para me ver... Entro dentro da cabine do chuveiro, vejo a água a cair e a escorrer pelo ralo. Molho-me sem esperar que aqueça e um arrepio demorado percorre-me todo o corpo. Continuo com a trança; a que a mãe me costumava fazer era mais bonita. Ficava durante vários minutos a pentear-me o cabelo enquanto ambas contávamos o nosso dia... Lembro-me de que costumava fazer-me duas tranças, ambas a contornar-me cada orelha, quando estava muito feliz e somente uma, grossa e semelhante a uma corrente como esta, quando havia discutido com o pai ou algo do género. Era um momento só nosso e eu gostava de ficar a ouvi-la.

Quando posso constatar que já estou suficientemente molhada, puxo o elástico e posso sentir, por um bom momento, todos os meus fios castanhos ficarem lisos outra vez. Não que esperasse algo ou alguém mas continuo debaixo da queda de água como se ansiasse por algo que não tinha... O que até é verdade de certa forma.

Oiço a campainha tocar e o seu barulho assusta-me ao ponto de ter dado uma cotovelada no regulador da temperatura pondo-a extremamente quente e queimando-me. Desligo-a apressada e ofegante; o meu peito subia e descia ao ritmo da minha respiração e citei um palavrão em meio ao susto. Saio do chuveiro já calma e caminho através da porta do cubículo pelo corredor e coloco a mão na maçaneta mas detenho-me; olho pelo orifício da porta e, parece-me, consigo ver uma rapariga da minha altura. Ou isso ou um rapaz com demasiadas curvas... Está a usar um cap negro e parece ter o cabelo curto já que não vejo nada brotar daquela pequena ranhura entre o seu coiro cabeludo e o acessório. Ponho novamente a mão na maçaneta e rodo-a sem pressa abrindo a porta. Consigo ver o estranho virar-se para me encarar mas com apenas uma fresta aberta, volto a fechar brutamente a porta sem me dar a chance de o ver. Corro até à casa de banho e apoio-me à parede azul escura cheia de veios acinzentados (a única em contraste com as restantes brancas também em azulejo) que, já agora, não estava tão fria como seria de esperar... Eu conseguia sentir a sua frieza e também conseguia notar o morno do chão aquecido... Oiço tocar novamente à campainha um, duas, três vezes... Eu quase que me mostrara nua à frente de um perfeito desconhecido! Tomei consciência daquilo que, sem reparar, poderia ter feito e tinha uma espécie de peso vergonhoso dentro de mim. Como é que não percebi?!

Acho que esta é uma daquelas alturas em que preciso de, mais uma vez, encarar-me ao espelho e de dizer o quanto sou idiota enquanto prego uma bofetada a mim própria.

Ao invés disso, optei por rir. Rir como uma louca ri. Sozinha num apartamento a rir de mim mesma interpretando aquele ato inconsciente como uma anedota! Ri demasiado, começou a doer-me o estômago e escorreu-me pelo rosto uma lágrima minúscula feita da mais pura e simples (e estupida) alegria!

Molhei a cara e enxuguei-a lembrando-me da pessoa que estava lá fora. Visto o meu roupão cor de laranja e dirijo-me novamente à porta. A vantagem de não viver sequer no primeiro andar mas sim no rés de chão é que consigo, através do orifício da porta, olhar para quem está lá ao fundo, da parte de fora do edifício. Abri-a e desci os quatro degraus que me levariam até à "porta das portas". No entanto, já lá não estava ninguém... Deve ter-se cansado de esperar. Mas levando o assunto a sério, o que quereria alguém falar comigo a esta hora? Não era minha intenção abrir a porta do prédio mas sim conversar com o individuo através da porta vidrada; aquela visita intrigou-me.

Voltei para dentro e olhei para o relógio que repousava em cima da cómoda do meu quarto; 4:38 da manhã. Teria de voltar a dormir se queria ir à escola no dia seguinte, enfim, nesse mesmo dia!

Deitei-me acomodando-me sobre o colchão e as minhas duas almofadas rosadas. O teto continuava cinzento e o chão continuava a ser de madeira, o abajur preto em forma de quarto minguante continuava a imitir luz assim como o candeeiro da mesma cor em lua cheia, os lençóis vermelho sangue tapavam-me e faziam-me fechar os olhos tanto era a minha exaustão e as cortinas brancas em renda com pormenores em prateado continuavam ali a deixar passar o decreto da lua que, por simples coincidência, também se encontrava em quarto minguante... Não tem nada a ver com o meu antigo quarto, que era branco e tinha um candeeiro em forma de morango no teto, um abajur em formato de All Star com o padrão da tropa na horizontal e uma pequena poltrona cor de rosa cheia de peluches, incluindo o meu ursinho Náninu. Continuo a ter uma poltrona, mas é cinzenta (mais escura que as paredes) e tem um pequeno trilho de pelos que a faz ser macia para quando me quero sentar. Nela está apoiado um violoncelo lindo que pertencia à minha mãe — e que agora está dentro da sua típica bolsa negra — e , claro, o Náninu; o único que sobrou da minha grande coleção.. Eu não sei tocar, mas também nunca fiz questão de aprender... Já cá não está a mãe para me ensinar. Talvez numa outra altura. Também tenho uma secretária tirada de uma loja de antiguidades. Não que seja antiquada, tem uma nova pintura e acrescentei (pedi que acrescentassem) algumas gavetas e prateleiras para que pudesse colocar as minhas coisas lá dentro — como fotos, molduras, recortes e prendas do dia da mãe e do pai — , o meu computador e o meu ipad estão lá. Um armário consideravelmente grande com portas de correr espelhadas ao longo de uma parte da parede contrária à da janela e, por fim, um tapete azul escuro (à margem do preto) ao lado da cama e dois pufes; um grande bordô e um mais pequeno azul (também escuro mas não tanto como o tapete) perto do armário. Gosto do meu quarto, está como eu e a Sandra o imaginávamos na instituição...

Levantei-me uma ultima vez para ir buscar um copo de água e o meu urso (que só dorme comigo ocasionalmente) e adormeci. Desta vez não sonhei. Nem sonhos maus, nem sonhos bons. Apenas fui engolida pela imensidão do escuro das minhas pálpebras fechadas.

Notas finais
É um pouco dramático (talvez até demasiado) mas queria dar a entender que Katrina tem realmente problemas com o passado. Ela continua a ver os pais e, para ela, eles terem morrido foi a pior coisa que lhe poderia ter acontecido.