Notas iniciais
Bom, apesar de nenhum review vou postar, quem sabe aparece uma alma boa para dizer palavras de consolação para meu trabalho. t-t *dramática*

As horas se passaram e nossa caminhada demorara muito mais que o esperando, paramos uma vez durante o dia e só fomos chegar ao vilarejo na noite do dia seguinte, meu coração doeu quando chegamos neste, estava destruído como o meu lar, era terrível rever aquela imagem. Entramos no vilarejo destruído e meio queimado, olhei para Lhogran, ele olhava como se fosse normal, os outros também olhavam com indiferença.

Meus pés doíam e continuava sendo puxada pela maldita coleira, imaginara que tudo poderia mudar depois de eu ter me enturmado com Lhogran, mas tudo continuara como antes.

Enquanto passávamos notava os corpos estraçalhados e o sangue jorrado pelas paredes, andei chocada.

Thomas se virou para o Arclaro e pareceu falar com ele em um dialeto desconhecido por mim, ele falou algo como: “Armäncts ahalsten baiarenoa colafatanet”, o Arclaro rugiu e fechou os olhos, Thomas seguiu pela cidade e abriu uma portam ouvi um grito infantil. Corri para a frente do cavalo tropeçando em meus próprios pés doídos, me enforcando corri para ver a garota e tentar impedir, meu pescoço doía e continuei a puxar, era uma menininha, de longos cabelos negros e pele morena, os olhos eram azuis brilhantes e o rosto como de uma boneca, lábios afilados e doces. Ela estava com medo no canto da sala. Thomas a levantou e trouxe para fora. Então ele olhou para Lhogran.

─ “Naerhash aisnoa, eneoque ayrenos lsote voama, rateeane ahare!!” ─ falou ele veemente. Segundo a reação de Lhogran era uma ordem. Ele assentiu e correu para uma casa ao lado.

Corri para a menininha e a segurei nos braços.

─ Esta bem querida? ─ falei preocupada.

Ela chorava.

─ Sim senhora... ─ falou chorando. ─ A senhora esta presa, esta sangrando, seu pescoço. Por quê? ─ perguntou ela.

─ Por nada. ─ falei tocando o pescoço, o sangue escorria.

─ Veja sua imbecil, essas as consequências de se contorcer loucamente, já não bastasse seus pés agora teremos que gastar com remédios no inferno do seu pescoço. ─ falou Thomas furioso.

Abaixei a cabeça e pedi desculpas.

Lhogran voltou com duas garotas puxadas, uma parecia mais velha e tinha os cabelos bagunçados e sujos, a outra era jovem, devia ter cerca de treze anos, esta tinha os cabelos castanhos enrolados, bem arrumados, suas roupas eram nobres e tinha olhos verdes como esmeraldas.

Thomas olhou-a com interesse. Então entendi, só uma sairia de lá, e pelo olhar de Thomas seria a linda e nobre garota.

─ Thomas... ─ comecei.

─ Não. ─ ele se adiantou, sério, para mim.

─ Thomas ela é um bebê, eu me responsabilizo, por favor. ─ pedi.

─ Não. Não podemos levar uma criança, o rei não aceitará.

─ Thomas por favor...

─ Deixe Thomas, ela se responsabilizará creio eu. ─ falou Lhogran.

─ E olhe Thomas, quando esta menina crescer, será linda, morena de olhos claros, parece um anjo. ─ falou Thaircont.

Thomas olhou duro. Então apontou o dedo na minha cara e falou com raiva:

─ Leve-a, mas você se responsabilizará fronte ao rei, não me queimarei por sua imbecilidade. ─ falou duro.

─ Sim. ─ respondi.

As outras jovens estavam ao meu lado.

─ Mate a mais velha Lhogran.

Não houve tempo para que eu me pronunciasse, o sangue respingou em mim, me manchando mais uma vez.

─ Annabelle já não aguento mais seu fedor, esta terrível, você, jovem nobre ─ apontou ele para a linda jovem. ─, onde há um rio por aqui?

Receosa a menina respondeu:

─ Ao leste senhor.

─ Andemos, não aguento mais seu fedor, Annabelle. ─ falou Thomas furioso.

Andamos até chegar ao rio, ao chegarmos já amanhecera. Olhei para meu vestido e meus cabelos, meus cabelos estavam marrons empapados de terra e sangue, secos em bolos. Meu vestido antes branco estava absolutamente sujo e manchado.

Todos montavam acampamentos, os homens brincavam e Lhogran acendia uma fogueira, faltava um homem, Hoxy. Me aproximei lentamente de Lhogran e perguntei:

─ Onde esta Hoxy?

Ele me olhou curioso.

─ Esta caçando, querida, ele logo voltará com carne para todos nós, você pode descansar, tome um banho, lave seu vestido, dê um banho em sua nova filha e venha para o almoço, depois deite-se, durma...

Thomas estava se aproximando.

─ Tome criatura imunda, isto é um sabonete que tira todo tipo de mancha. ─ ofereceu ele, peguei da mão dele e senti o cheiro.

─ Nossa que cheiro horrível, falei quase vomitando.

─ É pra tirar sujeira, não para cheirar bem. ─ então ele estendeu a outra mão. ─ E este é um sabonete comum, para se lavar, me entregue intacto, pois é de meu uso pessoal, e espero que não esteja sujo e fedendo quando me entregar. ─ falou ele rabugento.

─ Obrigada. ─ falei sorrindo.

Puxei a menininha pelo braço e a levei para o rio, a minha sorte era que o rio era levemente longe do acampamento, havia arbustos impedindo a visão do rio. Tirei o meu vestido e o da menininha.

─ Qual seu nome querida? ─ perguntei.

─ Sophie. E o seu?

─ Annabelle meu bem. Quantos aninhos tem?

Ela fez três com os dedinhos. Sorri.

─ Vou tirar seu vestidinho para lavá-lo, com este sol logo estará seco.

─ Tudo bem tia Anne.

─ Enquanto isso brinque no rio, só tome cuidado.

─ Tudo bem. ─ falou ela indo brincar entre as pedras na beirada do rio.

Não demorei muito até remover as sujeiras da roupa dela, então coloquei sobre o arbusto, então comecei a luta para deixar o meu branco, após esfregar várias vezes e enxaguar as queimaduras de minhas mãos já se abriam em carne viva, então decidi deixar o vestido um tempo com o sabonete e fui me lavar.

Não conseguia aguentar meus pés sobre a perna, caí várias vezes tentando me segurar. Lavei meus cabelos e as feridas de meu corpo, meus pés tinham desde cortes leves até cortes com cerca de um centímetro e meio de profundidade.

Fui até o arbusto e chamei Lhogran.

─ Lhogran! ─ gritei.

Ele apareceu.

─ Sim?

─ Me ajude, preciso de um pente. ─ pedi.

─ Buscarei meu bem.

Logo ele voltou trazendo o pente.

─ Muito obrigado.

─ De nada pequena.

Passei o sabonete no cabelo e com muito trabalho o penteei, tive de passar o sabonete três vezes para que meu cabelo voltasse ao loiro dourado dele, então cuidei de minha pele que também já estava encardida. Então enxaguei meu vestido e ele estava branco, o coloquei para secar ao lado do de Sophie, este que já estava seco. Após terminar meu banho dei um banho caprichado nela, penteei seu cabelo e ela voltou a parecer o anjinho que era. Continuamos na água por um pouco mais de tempo, então sai e chamei Lhogran novamente.

─ Sim? ─ perguntou ele a chegar.

─ Não tenho roupa, teria algo para me emprestar? ─ pedi envergonhada.

─ Já volto. ─ disse ele.

Então logo voltou e me entregou uma grande blusa.

─ É minha e esta limpa, vista-a até a hora da sua secar.

─ Obrigada Lhogran!!!

─ Nada.

Então vesti a blusa ─ que para mim era um vestido ─ e arrumei Sophie, vesti o vestidinho azul com o qual ela estava antes, penteei o cabelo dela e esta saiu feliz pulando. Pude ouvir os homens falando do quão fofa ela estava, penteei meu cabelo e entrei no vilarejo, Hoxy já havia voltado e estava com grandes pedaços de carne na mão, colocando na fogueira. Todos os homens se voltaram instantaneamente para mim.

Permaneceram em silêncio e voltaram à suas atividades, parando eventualmente para me olhar. Thomas que havia saído rapidamente do acampamento voltou. Quando me viu parou e semicerrou os olhos.

─ Então você é branca, não morena. ─ falou ainda com os olhos semicerrados. ─ devolva-e meus sabonetes.

Então os entreguei, observando Thomas também, ele tinha músculos extremamente definidos e braços e tronco imensos, a pele era branca com um leve aspecto bronzeado, os cabelos estavam molhados e desciam por seus ombros. Ele se virou e pude notar os ombros largos. Me virei envergonhada e me sentei com Sophie, ela encostou a cabeça em minhas pernas.

Pouco antes do almoço meu vestido secou, então devolvi a camisa de Lhogran e vesti meu vestido. Thomas passou a me observar a cada minuto mais, podia sentir os olhos dele queimando sobre minha cabeça.

Meus cabelos secaram ficando ondulados.

Então Thomas se aproximou trazendo um cinto na mão.

─ Coloque-o, seu vestido ficará melhor assim.

Me levantei e quase cai com a dor, então me firmei e coloquei o cinto, me sentei de novo gemendo de dor. Thomas se abaixou e sentou ao meu lado.

─ Deixe-me ver os estragos que você fez. ─ então estendi as mãos. Ele fez uma cara feia. ─ Lhogran traga o remédio e venha ver o que esta criatura fez.

Ele veio correndo com a pasta na mão.

─ Nossa, suas mãos estão na carne viva. ─ Lhogran pegou-as e passou o remédio, conforme ele passava eu sentia mais dor. ─ Vamos, deixe-me ver este pescoço.

Estendi a cabeça para cima e ele olhou.

─ Este é um dos menos piores. ─ falou Thomas.

Lhogran passou o remédio rapidamente e pegou meus pés.

─ Thomas, trate de buscar as agulhas e linha, vamos precisar dar pontos nos pés dela.

Thomas franziu o cenho.

─ Você é muito sensível, garota. ─ falou ele se levantando.

Não demorou muito até ele trazer a agulha e linha.

─ Querida, tire Sophie daqui. ─ Sophie se virou. ─ E aviso previamente, isso vai doer. Feche os olhos e permaneça sempre de olhos fechados.

Houve uma pausa de tempo, então senti uma forte picada nos pés, grunhi baixinho e tampei o rosto, a cada picada parecia doer mais. Ele parou e passou algo, então a tortura parou, então voltou pior em outro lugar do pé. A dor continuou por meia hora. Então Lhogran anunciou:

─ Acabou, não se levante.

─ Obrigada.

Então o almoço saiu, sentada eu escutava as conversas com a garota novata, ela se chamava Linda, e era o centro das atenções. Ela se aproximou e pegou Sophie pelo braço, colocou comida para ela e a deixou ao meu lado. Observei tudo, então Thomas se aproximou.

─ Tome. ─ falou ele entregando um prato.

─ Mas...

─ Coloquei para você, coma, você deve ficar forte para partirmos. ─ falou Thomas ainda carrancudo.

─ Obrigada. ─ respondi calmamente e me direcionei a comida.

Senti o sabor leve da comida, Hoxy havia pego um veado, dera para fazer comida para todos, e ainda sobrou pedaços de carne, estes que Hoxy enfiou no sal e colocou no galho de uma árvore pra secar. Comemos todos animados, parti os pedaços de carne para facilitar para Sophie comer.

Os homens conversavam calorosamente com Linda, esta que se portava muito bem diante de comida, era educada e um tanto quanto esnobe. Thomas se sentara na beira do rio, sozinho, já notara que ele era um pouco antissocial, até mesmo com os seus, daqui dava para ver ele sentado encima de uma pedra apreciando a comida, olhei para o outro lado, Thaircont era o que mais se animava com a garota Linda, Lhogran ria das brincadeiras e os outros a questionavam.

─ Titia, terminei. ─ falou ela, me virei instantaneamente.

─ Deixe do seu lado, mais tarde vou lavá-lo. ─ falei terminando o meu e deixando ao lado do dela. ─ Venha. ─ chamei. Ela colocou a cabeça no meu colo e rapidamente dormiu. Me encostei do lado de fora da cabana e adormeci também.

─ Annabelle. ─ alguém chamou.

Abri os olhos. Era Thomas. Olhei ao redor, era noite.

─ Não temos muitas cabanas, quero que durma nesta, entre logo, algum animal pode aparecer e atacar. ─ falou ele sério.

Olhei para a cabana.

─ Mas esta é a sua...

─ Entre com a pequena antes que eu mude de ideia, vá. ─ falou ele voltando a ser carrancudo.

─ Tudo bem.

─ Levante-se e vá que eu levo a pequena. ─ falou ele sério.

Me levantei e entrei na cabana, era com certeza a mais arrumada, apesar de se tratar apenas de um amontoado de panos um sobre o outro, era quente e aconchegante. Me deitei e Thomas veio atrás com Sophie nos braços, ele a deixou ao meu lado e saiu, a arrumei e cobri com um cobertor de pele.

Estava tão cansada que dormi ao encostar a cabeça no travesseiro.

Naquela noite sonhos me atordoaram, sonhei com minha família, que agora estava toda morta, tive lembranças do tempo que eu e meu irmão éramos pequenos e brincávamos juntos, como crianças normais. Seria tudo tão perfeito se tivesse continuado como estava.

Há uma semana meu pai havia providenciado meu casamento com um dos jovens mais desejados do vilarejo, era um dos melhores guerreiros, ele era bem mais velho que eu e já havia se casado uma vez, mas era rico e poderoso, meu pai estava hiper orgulhoso, e minha mãe também ficaria orgulhosa, e então aconteceu.

Tudo poderia estar sendo diferente, não fosse os malditos Signatas, e aqui estava eu tratando bem e convivendo com os assassinos de minha vida. Contraditório e terrível aos meus olhos. Não queria aquilo, mas pelo que vira estava sem saída.

A noite não seria boa, estava com medo do futuro, e devo admitir que Linda me afugentava.

A curiosidade me invadiu, e depois de pegar todas as garotas, para onde iríamos? O que fariam conosco?

A luz bateu em meu rosto.

─ Annabelle, o dia nasceu, poderia sair rapidamente? ─ perguntou Thomas.

─ Sim.

Sai e ele esperou.

─ Como estão os pés, creio que esteja melhor, não reclamou ao levantar. ─ falou ele curioso. Levantei a sola dos pés. Os machucados não estavam tão vermelhos e parecia começar a fechar. ─ Estão melhores, não vai andar tanto hoje. ─ falou ele.

─ Como assim? ─ perguntei.

─ Pois bem, recebi uma carta do corvo de um outro grupo de buscas, esta noite nos dirigiremos os dois até a grande cidade de Halägarr, de lá traremos duas almas puras, mas desta vez vocês ficarão aqui, no acampamento. Hoxy e Thaircont cuidarão de vocês, seja cautelosa, e esta noite te recomendo ficar dentro da minha cabana, esta envolvida em encantos que a protegerão em ocasiões especiais. Entendeu?

Fiz que sim com a cabeça.

─ Viajaremos em Arclaros...

Olhei a direita e os vi. Levei um leve susto como de costume.

─ Acalme-se, todos estarão conosco. Pela manha deveremos voltar, estaremos com no mínimo outras quatro garotas e outros sete homens, se prepare, durante o dia provavelmente Hoxy e Thaircont irão a caça, preciso que seja cautelosa e qualquer sopre este apito. ─ falou ele entregando-me um apito fino e pequeno. ─ É o apito que usamos para chamar Arclaros, sempre há um Arclaro do pacto por perto, quando este apito soar eles vão correr a toda velocidade para atender ao dono do apito e seus companheiros. Este aqui é seu daqui em diante. ─ falou ele, sério, pegou minha mão e fechou-a com o apito dentro.

─ Obrigada. ─ respondi sorrindo.

─ Lembre-se, qualquer animal vai atacar sua criança, cuide bem da...? ─ perguntou ele.

─ Sophie.

─ Um belo nome a propósito. Boa sorte e faça de tudo para não morrer. ─ falou ele sério e ainda carrancudo.

─ Farei.

Então ele se virou e chamou seus homens, Lhogran estava sério, os três homens montaram em seus Arclaros e gritaram, os animais partiram em disparada deixando-nos sozinhos. Linda parecia não ter acordado ainda, me sentei na beirada da cabana e observei, Thaircont e Hoxy observavam o longe, vendo os amigos terminarem de partir.

Hoxy se virou para mim.

─ Annabelle seu nome não é? ─ perguntou.

─ Sim...

─ Pode avisar à Linda por que não estamos aqui mais tarde quando ela despertar?

─ Sim.

─ Vamos à caçada, para esta noite precisaremos de no mínimo dois veados, muitos virão, temos de nos preparar... ─ falou Thaircont.

─ E depois? ─ perguntei.

─ O império, afinal, esta aqui para ser candidata a se casar com vossa alteza. ─ falou Hoxy levantando uma sobrancelha.

Estremeci.

─ Vão antes que fique tarde para caça.

─ Sim.

Os dois partiram.

Por volta de meio dia, quando o sol queimava minha pele, Linda acordou. Sophie já acordara e estava brincando, desta vez brincava com gravetos como se fossem bonecas.

─ Thomas, Veemont e Loki foram até Halägarr pegar jovens, lá se encontrarão com outro grupo de Signatas, então retornarão pela manhã de amanhã. Hoxy e Thaircont foram à caça para ter comida para dar ao outro grupo. ─ falei para a garota zumbi que saíra da cabana.

─ Ahn, só estamos eu você e a pequena aqui? ─ perguntou ela embolando-se nas palavras.

─ Sim. ─ respondi seca.

Ela foi até a beira do rio e lá ficou por um tempo.

A tarde se passou rápida, Hoxy e Thaircont chegaram no meio da tarde. Linda com seu jeitinho irritante.

─ Ah, não estamos tão felizes. ─ falou Thaircont respondendo alguma pergunta de Linda.

─ Por que? Pegaram dois veados, deveriam estar felizes. ─ falou ela com sua voz doce.

─ Não temos mais ervas para temperar. ─ falou Hoxy triste. ─ Em nossa cultura usamos muito ervas... ─ ele se virou para mim. ─ Annabelle, você não é de Rainsk?

Virei pra ele.

─ Sim.

─ Os temperos que vocês usam e os que nós usamos são parecidos, você sabe colher ervas? ─ perguntou Thaircont.

─ Sim, vocês tem sal? ─ perguntei me levantando.

─ Temos sim, o suficiente pra toda essa carne. ─ respondeu Thaircont.

─ Então alguém venha comigo colher as ervas? ─ perguntei limpando as mãos.

─ Eu vou, tenho algum conhecimento. ─ disse Hoxy.

─ Thaircont e Linda, cuidem de Sophie. ─ falei séria, Sophie me olhava com os olhos tristes, devia estar preocupada.

─ A senhora não vai demorar né titia? ─ perguntou ela agarrando minha mão.

─ Não meu amor, voltarei o quanto antes. ─ falei me agachando e abraçando ela. Ela assentiu. ─ Vamos? ─ perguntei.

─ Sim. ─ Hoxy respondeu.

Ele deixou o animal apoiado num grosso galho de árvore, ele estava completamente sujo de sangue, começamos a caminhada, de tempo em tempo eu parava pegando cera folha e sentindo cheiro e gosto, Hoxy só observava, o seu cheiro me atrapalhava levemente.

─ Hoxy, poderia tirar esta camisa e fazer algo com ela? Esta atrapalhando no cheiro. ─ falei envergonhada.

─ Ahh, claro, me desculpe. ─ disse ele ficando vermelho e tirando a blusa e a jogando longe. ─ Pronto. ─ disse sorrindo, sorri de volta.

Ele tinha a musculatura desenvolvida como a de Thomas, voltei à minha busca de ervas, quando o sol começou a se por já tinha conseguido quinze ervas diferentes, a maior parte de cheiros fortes e cores igualmente fortes. Quando chegamos ao acampamento para nossa surpresa todos já estavam lá, era um grupo de dezessete pessoas, onze homens e seis garotas, eles conversavam animados. Todos olharam para os recém chegados.

Hoxy riu alto e correu para abraçar seus companheiros.

─ ANNABELLE! ─ gritou Thomas furioso.

─ Então Thomas, andam deixando suas moças escaparem para ajudar? ─ perguntou um homem que não conhecia.

─ O que? ─ perguntei.

─ Você andou, que inferno, demoramos tanto para fazer os pontos, senta no chão agora. ─ ordenou ele. Me sentei e ele olhou os meus pés. ─ Por sorte do seu pescoço os pontos romperam, mas a ferida esta fechada.

─ Então Thomas anda tomando cuidados especiais com uma das garotas, que gracinha Thomas, antes só cuidava de princesas. ─ falou o estranho.

─ Cale-se Joseph, ela será do rei, só consegui três ate agora. ─ falou Thomas.

Sophie apareceu correndo e pulou encima de mim.

─ Titia, você demorou. ─ disse ela chorando.

─ Mas voltei, e com os temperos. ─ falei limpando as lágrimas dela.

─ Uma criança? ─ Joseph perguntou.

─ Não é responsabilidade minha, ela impediu que eu matasse a pequena e os meus subordinados concordaram com ela, eles que se justifiquem perante ao rei. ─ falou Thomas duro.

─ Nossa, esta ficando velho complacente. ─ respondeu Joseph.

─ Não me questione, e seja sincero, a menininha é mesmo uma gracinha. ─ disse ele sorrindo e bagunçando os cabelos negros de Sophie.

─ É, Thomas já esta na época de arranjarmos um casamento para você!

Joseph riu e Thomas não interferiu, se virou e saiu com um leve sorriso no rosto, parecia concordar com Joseph.

─ Ele já esta velho, precisa mesmo de uma esposa. ─ disse Joseph.

Sorri para ele e me levantei pegando as ervas.

Dali pra frente fizeram uma grande fogueira, Thaircont arrumara a carne, Hoxy pediu para temperá-las, mas não permiti, afinal, deveria saber fazer isso melhor que ele.

Comecei a arrumar as carnes e em meia hora elas estavam no fogo, demorou mais uma hora para o “banquete” ser servido. Todos comeram como bárbaros, ajudei Sophie a comer e depois coloquei meu prato.

─ Nosso senhor, Thomas tem razão de proteger a menina, esta cozinha bem, o rei amará saber das qualidades dela, nunca comi uma carne tão gostosa nem na própria capital. ─ falou Joseph, fiquei feliz com a afirmação.

Então me sentei com Sophie no meu colo e prestei atenção nos novos, eram na verdade dois grupos que se juntaram, quatro garotas foram pegas pelo grupo de Joseph e outras duas pelo outro grupo. Entre o grupo de Joseph havia uma garota que me irritava, ela tinha a pele pálida os cabelos negros e olhos de gato, ela olhava para mim de vez em quando com seu olhar incisivo.

Conforme a lua ia alta as conversas diminuíam e grupos pequenos se formavam, fiquei com Sophie no colo até que ela dormisse.

─ Thomas! ─ chamei.

Ele saiu da conversa entre ele Joseph,Thaircont e Lhogran e veio.

─ Sim?

─ Esta noite...

─Durma na cabana, acredito que passarei a noite conversando com Joseph. ─disse ele se sentando ao meu lado. ─ Você esta bem? ─ perguntou. Olhei assustada para ele. ─ Não é sempre que sou mau criatura! ─disse ele fazendo carinho na cabeça de Sophie.

─ Você... Não tem família? ─ perguntei. Ele me olhou sério. ─ Me desculpe! ─ pedi me encolhendo.

─ Fique calma, não sou tão monstruoso. Não tenho não, estou desde jovem servindo ao rei. Às vezes sinto falta disso. Mas só poderei quando tiver a autorização do rei.

─ Joseph tem? ─ perguntei curiosa.

─ Sim, duas filhas, um menino mais velho e uma esposa linda. Ele é somente cinco anos mais velho que eu. ─ disse ele com o olhar perdido.

─ Tem vontade de ser pai? ─ perguntei curiosa, prestei atenção no colar dele, tinha uma aliança no meio. Ele tocou o colar.

─ É o símbolo da aliança com o rei, temos que usar o colar e também uma queimadura na nuca. Olhe. ─ falou ele se virando e tirando o cabelo da nuca, uma imensa cicatriz em forma de aliança. ─ Mas voltando, tenho sim vontade, não sei se tão cedo, mas tenho.

Fiquei em silencio.

─ Por que todas as garotas que pegam são novas?

─ Porque devem ser virgem. E raramente se contra uma garota virgem e mais velha, logo os Arclaros tem preferência pelas jovens. ─ falou ele sério.

Thomas era um tanto quanto estranho, era forte, tinha uma expressão carrancuda e era sério, parecia um homem que já havia passado por muito na vida e havia se tornado frio, até hoje me lembrava da expressão dele quando nos conhecemos, agora ele estava tão diferente, não conseguia entender.

─ Senhor Thomas, por que você foi tão duro no inicio, não me parece mais tão terrível agora...

Pareci ter pego no ponto certo, ele se assustou com a pergunta.

─ Ahn... Sou assim... Não espere que venha a te tratar bem sempre, se estou te tratando melhor nos últimos dias é pelo meu humor, quando estiver estressado não vai ser bem assim. ─ falou ele confuso.

Olhei receosa.

─ Volte para seus amigos, eles te esperam. ─ falei.

Thomas se virou, e lá estavam Joseph, Thaircont e Lhogran olhando curiosos. Thomas se levantou e balbuciou um “tchau” envergonhado, então seguiu e se sentou. Deu uma ultima olhada para mim e se virou, entregando-se à conversa com seus conterrâneos.

Notas finais
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