Notas iniciais
Perdido em seu eu, Max se envolve em um ciúme patológico por Érica. Sua vida está voltada nesse desejo de querer está com sua amada, e tudo que vai contra isso provoca a sua ira.

Estava anestesiado, flutuando no êxtase do beijo de Érica. Tocava os meus lábios não acreditando que ela havia me beijado. Me perdia na minha memória, sentindo ainda a fragrância suave do seu perfume e o gosto sagaz do seu beijo. Eu ainda não havia me dado conta, mas já estava me tornando um escravo dessa paixão arrebatadora.

Sob a sombra de uma árvore, eu estava paralisado, observando Érica jogar vôlei com outras garotas. Ao me ver ali, ela saiu da quadra e veio em minha direção.

— Thaís, entra aqui no meu lugar. Vou dar um tempo! — disse ela, já se aproximando de mim.

— Oi! E aí, como cê tá?

— Tô bem. — respondi.

Érica percebeu minha expressão e perguntou:

— Acho que cê tá chateado comigo, né? — ela percebeu.

— Não, eu entendi. Fantasiei as coisas, foi isso. É que cê é a primeira garota por quem me apaixonei.

Érica agachou e se sentou ao meu lado:

— Talvez ainda seja cedo pra gente falar sobre paixão. Cê não acha?

— Acho.

Respondi, deixando escapar um suspiro carregado de sentimentos.

— Mas cê se engana, Max. Aquilo que te disse mais cedo, de que pensei muito em você e que também te quero, é a mais pura verdade. Esse seu jeitinho meigo e atrapalhado mexeu muito comigo. — ela sorriu. — Mas cê conhece as regras daqui. Se Ricardo souber de algum envolvimento nosso, ele poderá contar pra dona Elizabeth. E eu não posso perder a oportunidade de ficar aqui. Cê me entende?

Minha expressão se iluminou ao ouvir suas palavras.

— Então, isso significa que você ainda quer ficar comigo?

— Claro. Mas vamos ficar as escondidas, não precisa ninguém ficar sabendo.

— E... e... eu aceito! Te quero muito, Érica.

Respondi nervoso, mas animado com a ideia.

Nesse momento, Ricardo passava por nós, fazendo Érica decidir voltar para a quadra.

— Acho melhor eu voltar pro vôlei. Depois a gente se fala mais.

Eu e Érica já estávamos profundamente envolvidos, emaranhados em uma história que desafiava completamente a minha noção. Precisávamos nos encontrar às escondidas, o que apenas apimentava ainda mais essa paixão proibida. Encontrávamos maneiras surpreendentes de esconder não apenas da dona Elizabeth, mas também de Ricardo, que a cada dia se tornava um obstáculo em nosso caminho. Bastava eu estar a sós com Érica para que ele se fizesse presente, como uma sombra insistente em nosso romance clandestino.

Estava na tediosa aula de química, contando os minutos para o seu fim. A professora Maria da Soledad, uma figura que parecia se deleitar ao transmitir a matéria, tentava explicar as propriedades coligativas, enquanto a maioria dos alunos, inclusive eu, se encontrava completamente desconectado.

As aulas dela eram irônicas; ela falava um monte de coisas sem sentido, e ninguém parecia prestar atenção, exceto Letícia que mergulhava nos raciocínios filosóficos da professora. Enquanto Maria explicava os conceitos, eu me distraía rabiscando caricaturas na tentativa de capturar os traços de Érica, ansioso pelo momento de revê-la.

Finalmente, a torturante aula chegou ao fim. Arrumei meu material rapidamente, saltei da cadeira e saí da sala. Letícia me acompanhou, iniciando uma conversa sobre o tema da aula.

— Cê entendeu o que a professora falou? — perguntou ela. — Na ebulioscopia, o ponto de ebulição do líquido aumenta, e na tonoscopia ocorre uma diminuição do vapor do líquido. A crioscopia estuda a diminuição do ponto de congelamento causado pelo soluto não-volátil. E a osmoscopia estuda o surgimento da pressão osmótica de soluções. A matéria é simples, e as fórmulas não são difíceis. Acho que vai ser fácil. E você, Max, o que acha?

— Acho que deu uma bugada aqui no meu cérebro. — respondi, afastando-me dela. — Depois a gente se fala mais, Letícia, agora preciso ir.

— Gente, me deixou aqui falando sozinha! — lamentou ela, abrindo seu livro. — Vou estudar essas fórmulas melhor, não posso confiar. Nota baixa, jamais.

Avistei Davi ao longe, já na saída do portão, e me dirigi a ele, mantendo os olhos atentos à porta da sala de Érica, na esperança de vê-la sair.

— Cê tá cada dia mais linda. — elogiou Davi, flertando com Suzana, que passava por ali.

— Vigia não, olha que dona Elizabeth te pega. — alertou Suzana.

— Tô vigiando, e tô gostando do que tô vendo. E onde tá Érica? — disse Davi, virando-se para mim.

— Acho que ela ainda não saiu. — comentei, ansioso.

— E cês dois como estão? — perguntou Davi.

— Eu tô completamente apaixonado, é claro. Às vezes, tenho medo dela não gostar de mim da mesma forma. — confessei.

— Max, vai com calma. Da forma que cê tá fazendo, cê sufoca a garota. Cês tão tendo um lance escondido. Então, entenda que nem sempre vão poder ficar juntos, ainda mais agora com Ricardo na cola de vocês. — aconselhou Davi.

— E se ela não gostar mais de mim, Davi?

— Cara, isso é um tipo de coisa que pode acontecer, e cê terá que saber lidar com isso. — concluiu Davi.

Minha paixão por Érica tornava-se uma obsessão assustadora, e o medo de perdê-la aumentava. Sentia uma necessidade constante de mantê-la próxima, como se a distância pudesse apagar esse sentimento vital.

A simples ideia de perdê-la desencadeava inseguranças e receios profundos. Manter Érica por perto não era apenas um desejo, mas uma compulsão, uma ânsia de assegurar sua presença em minha vida a qualquer custo.

Ao olhar novamente em direção ao corredor que dava acesso à sala de Érica, a vi vindo com um sorriso nos lábios, acompanhada de Ricardo em uma conversa descontraída.

— Não sei por que cê tá tão preocupado, Ricardo. A matéria é fácil, se você estudar um pouquinho, irá conseguir tirar uma nota boa. Tô confiante. — disse Érica, demonstrando sua confiança na matéria.

— Eu queria ter essa confiança que cê tem. Mas sou um burro xucro, não consigo aprender fácil as coisas não. — respondeu Ricardo, revelando sua insegurança.

— Ninguém é burro. O que acontece é que alguns têm uma facilidade maior em aprender, e já outros têm mais dificuldades. — ponderou Érica, tentando confortar Ricardo.

— Você bem que poderia me ajudar. Que tal a gente estudar juntos?

— Desde que a gente só estude. — respondeu Érica, deixando claro os limites.

Eu, por outro lado, me via consumido por um ciúme descontrolado, meus pulsos tremiam de raiva. Tentei manter a calma, mas Ricardo parecia provocar-me intencionalmente.

— Não se preocupe é apenas isso, estudar. Não vai acontecer nada que cê não queira.

Os dois pararam a conversa, e Ricardo, de forma delicada, alisou os cabelos de Érica, colocando-os atrás da orelha. Em seguida, com o dedo indicador, alisou o canto da boca dela como se estivesse limpando algo.

Foi o suficiente para eu perder completamente o controle e partir para cima dele, desferindo um soco. Ricardo cambaleou para o lado, mas manteve-se em pé. Érica, visivelmente nervosa, soltou um berro:

— Tá louco, Max?

— Esse cara tava te tocando! — me justifiquei, ainda tomado pela raiva.

— Cê é um imbecil, estávamos apenas conversando. — repreendeu Érica, deixando claro que não aprovava minha atitude.

Ela saiu apressada na frente, desprezando minha companhia. Eu fiquei sem chão, não queria magoá-la; não podia magoá-la. Ricardo, claro, não perdeu a oportunidade de provocar:

— Vou pegar leve, não vou revidar esse soco. Até mesmo porque tô vendo que cê é um tremendo idiota. Acha mesmo que aquele mulherão vai querer ficar contigo? Se olhe no espelho, seu mongoloide.

Lancei-lhe apenas um olhar de desprezo, optando por não responder à sua provocação. Eu estava triste, parado no pátio da escola, tentando assimilar o que acabara de acontecer. Davi se aproximou, tentando me animar:

— Mandou muito mal. Cê tem que controlar mais esses seus pulsos, rapaz.

— Ela agora deve estar me odiando. Não aguentei quando o vi tocando ela, parecia que eles iriam se beijar ali na minha frente. — confessei, deixando a emoção me dominar.

— Acalme esse seu coração, controle a sua emoção e vá lá conversar com ela. — aconselhou Davi.

— Ela não vai querer falar comigo. — respondi, abalado.

— Cê não vai saber disso se você não tentar. Mas primeiro controla essa sua emoção, pelo o que conheço Érica, ela vai saber te ouvir.

— Cê acha isso mesmo?

— Sim, eu acho.

Eu já não sabia mais como viver sem pensar em Érica; estava completamente dependente dessa paixão. Deixei Davi para trás e corri para procurar Érica, esperando que houvesse alguma maneira de me redimir. Fui apressado até a república, passando como um furacão pelo portão e pelo jardim, até encontrar Letícia, que tentou entender o que havia acontecido:

— Max!

— Agora não, Letícia!

— Mas o que foi aquilo na escola?

— Cê sabe onde tá Érica? — perguntei, demonstrando urgência.

— Cara, cê tá transtornado.

— Só quero saber de Érica. Cê sabe onde ela tá?

— Ela tá no dormitório. Mas cê tá lembrado que não pode ir lá, né? — alertou Letícia.

Não dei importância a isso, parecia pouca coisa diante do meu desespero. Eu estava ansioso e com medo de Érica não me querer mais. A palavra ofensiva que ela usara para me referir pela primeira vez ecoava em minha mente, como se eu ainda a ouvisse me chamando de imbecil, e isso me atormentava profundamente.

Fui apressadamente até o quarto onde Érica estava e a encontrei em uma conversa com Thaís, uma bad girl, metida a roqueira, que não hesitou em me cobrar satisfações:

— O que faz aqui, oh, esquisito?

— Preciso falar com você, Érica! — Falei, me aproximando de Érica.

— Cê sabe que não pode vir aqui, Max.

— A dona Elizabeth vai te arrancar o couro quando souber que esteve aqui. — alertou Thaís.

— Por favor, Érica, me perdoe! — Eu insitia.

— Cê tem é que pedir perdão pro Ricardo.

— Não, pra ele não. Será que cê não percebe que ele tá querendo nos separar?

— Então, não tenho nada pra te perdoar. — respondeu Érica, firme em sua posição.

As palavras dela atingiram meu peito como flechas. Não entendia como ela podia ficar do lado de Ricardo. O ciúme me atormentava, e a ideia de encontrar Ricardo naquele momento me fazia pensar no que seria capaz de fazer contra ele.

— Acho melhor a gente não insistir mais nisso. Não posso ser expulsa daqui, vamos terminar antes que a coisa fique mais séria. — disse Érica, tentando encerrar a conversa.

— Não faz isso, Érica, eu preciso de você. A culpa é daquele desgraçado! — desabafei, sentindo-me descontrolado.

— Chega! Sai daqui, Max! — Érica recriminou.

Prostrei-me aos pés de Érica, implorando para reatar, enquanto Thaís, revoltada, saiu do dormitório proferindo ameaças.

— Já chega, vou chamar a dona Elizabeth para parar com essa palhaçada!

Thaís partiu, e Érica tentou me acalmar.

— Levante-se, Max. A dona Elizabeth vai te expulsar da república se te pegar aqui.

— Então vamos conversar!

— Tá bem. Mas não agora. Sai daqui antes que a dona Elizabeth chegue e te encontre por aqui. Depois eu te procuro e a gente conversa, pode ser?

— Cê vai me procurar mesmo?

— Sim, agora vai.

Sai imediatamente da ala feminina, dirigindo-me ao jardim para ficar o mais distante possível dos dormitórios. Sentado sob uma árvore, meditei, observando o horizonte distante. Naquele momento, tomei consciência de como me excedi. Perdi completamente o controle. O medo de perder Érica me dominava, como se algo tomasse conta de mim e tentasse controlar aquilo que eu já havia perdido. Davi veio até mim, visivelmente preocupado com a situação.

— O que deu em você? Ficou maluco, cara?

— Ela não me quer mais. — respondi, desolado.

— Max, desse jeito cê sufoca a garota. Tem que aprender a controlar as suas emoções. — aconselhou Davi, tentando me acalmar.

— Eu fui ao dormitório feminino falar com ela.

— Eu sei. Eu falei pra você procurar a Érica para conversar. Mas não pensei que cê fosse fazer a loucura de entrar no dormitório.

— Eu precisava falar com ela. Eu amo muito a Érica, Davi.

— Cara, isso tá virando uma obsessão. E se prepara, a dona Elizabeth vai te procurar. Pela forma como a Thaís passou por mim ali, a coisa não vai ficar boa pro seu lado.

A notícia de Davi me deixou preocupado. Não imaginei que Thaís fosse contar de fato para a dona Elizabeth, que eu havia desobedecido uma das regras da república. Não sabia se estava preparado para as consequências. O que mais me inquietava não era sair da república, mas sim ficar longe de Érica.

O dia passou, e nada da dona Elizabeth me procurar, nem ela e nem Érica, que havia prometido conversar comigo. A incerteza pairava sobre meu futuro na república e, principalmente, sobre meu relacionamento com Érica.

À noite, no refeitório, estava me preparando para o jantar junto com Davi, ansioso e aguardando Érica. Percebi também a ausência de Ricardo, o que me perturbava. "Será que os dois estão juntos?" Essa dúvida martelava minha mente, mas eu tentava afastar a ideia de que Érica faria algo assim. A incerteza me desesperava, o jantar já havia sido servido, e nada dos dois. Davi notou minha inquietação e fez uma pergunta óbvia:

— Tá inquieto, Max. É por causa de Érica?

— Por que ela não veio jantar? Nem ela e nem Ricardo. Será que os dois tão juntos?

Davi levantou uma sobrancelha e torceu o pescoço, franzindo a boca como se lamentasse. Notei que ele também estranhou a ausência dos dois, mas mesmo assim, tentou me acalmar.

— Cara, se eu fosse você não ficaria pensando muito nisso. Come sua comida. Cê teve sorte que até agora a dona Elizabeth não te procurou. Talvez Thaís não tenha falado nada.

Comecei a jantar, mas a cada garfada, meu olhar se voltava para a porta do refeitório, ansioso pela chegada de Érica. A incerteza sobre o que estava acontecendo me consumia.

Para o meu desânimo, Érica tornou realidade aquilo que eu suspeitava, pois apareceu novamente acompanhada de Ricardo. Entretanto, desta vez, notei algo diferente em sua expressão. Em vez do sorriso encantador, havia um olhar cabisbaixo e preocupado. "Certamente pensando em como explicar sua traição!", pensei.

Érica olhou na minha direção, e eu fiquei ali, me segurando, tentando controlar o ciúme. Percebi que Davi não parava de me observar, tentando decifrar meus pensamentos. Ela respirou fundo e veio em minha direção. Fiquei nervoso, balançando as pernas e, de repente, minhas mãos trêmulas derrubaram o garfo. Agachei-me para pegar, e ouvi a voz dela já ao meu lado:

— Oi, Max!

Bati a cabeça na mesa ao me levantar. Instintivamente, levei a mão à cabeça para aliviar a sensação momentânea de desconforto

— Não precisa explicar nada, eu já entendi.

— Entendeu o quê? — questionou Érica.

— Você e o Ricardo.

— Pois saiba que eu fui conversar, sim, com o Ricardo. Com ele e com a Thaís. Pedi para que eles não contassem nada sobre a gente para a dona Elizabeth, eu sei como isso poderia te prejudicar.

— Mas a Thaís contou para a dona Elizabeth, eu vi quando ela passou por mim. — revelou Davi.

— Ela não contou. Ela pensou bem e viu que, além do Max, eu também seria prejudicada.

— Então, cê e o Ricardo não têm nada um com o outro? — indaguei aliviado.

— Nem com o Ricardo e nem com você. Acabou, Max. A verdade é que a gente nunca devia ter se envolvido. Isso foi um erro. Uma tremenda inconsequência da minha parte. A partir de hoje, entre nós, só amizade, nada mais que isso. — declarou Érica, encerrando de vez a situação.

Era como se um alívio e um desespero caíssem sobre mim naquele momento. Estava feliz por saber que ela não tinha nada com o Ricardo, e triste por não poder mais beijá-la. Fiquei na minha, tentando dar tempo ao tempo, na esperança de uma hora as coisas mudarem e Érica voltar a me procurar. Voltei a me isolar e me trancar no vácuo da minha solidão. Érica não se preocupava mais comigo, brincava, se divertia, dava gargalhadas com todos, inclusive Davi, mas nunca junto a mim.

— E aí cara, como cê tá? — perguntou Davi.

— Estou bem. — Respondi tristonho.

— Foi melhor assim, mano. Essa história de vocês dois não iria terminar bem.

— Eu gosto tanto dela. Ela também parecia gostar de mim. A gente estava bem, mesmo sendo um namoro escondido. Tudo por culpa daquele desgraçado. — Falei com ódio.

— Ei, vira essa página.

— Eu não consigo. Ela tá me evitando, Davi. Ela não quer mais nem falar comigo.

— Cê é muito estressado, Max. Vai acabar fazendo com o que ela perca o direito de ficar aqui. Esse é o motivo dela não querer falar contigo.

— O motivo é ele, o maldito do Ricardo.

— Pô cara, essa sua obsessão por essa garota já tá virando doença. Tô indo nessa, cê vai ficar aí? — Falou Davi, se levantando.

Balancei a cabeça positivamente. Deixava-me perder no labirinto da minha mente. Acredito que ela não queria perder a chance de ficar na república e por isso preferia não me procurar mais. Com isso entendi que, muito mais do que o amor de Érica, eu estava perdendo também a sua amizade. Fiquei assim, guardado em meu canto, esquecido e me mordendo de ciúmes, remoendo as minhas mágoas e com uma vontade louca de enforcar o Ricardo.

Notas finais
Érica mais uma vez se afastou de Max, e Ricardo era o pivô disso. O ódio em relação ao Ricardo só aumentava, o que Max fará? Não deixe de comentar.