ANTROPÓFAGO - Diário de um Canibal
3 A fábrica de soda cáustica
Notas iniciais
Existia próxima a cidade uma floresta chamada Mossaíh. Ganhou esse nome por causa de John Mossaíh, um grande fazendeiro torturador de escravos que tinha suas terras onde hoje é a cidade de Braço Forte. Conta a história que John Mossaíh levava os seus escravos fujões para a floresta e lá os torturavam diante dos demais escravos, para que eles aprendessem a lição. Há quem diz que, andando pela floresta ainda é possível ouvir os gemidos dos negros e o arrastar de suas correntes. John foi pego em uma tocaia pelo os próprios negros, sendo torturado, massacrado e deixado vivo pendurado de cabeça para baixo em uma árvore no meio da floresta. Dias depois, as autoridades daquele local foram atrás de John e ninguém achou nada, nem um vestígio de seu corpo. Reza a lenda que o fantasma de John Mossaíh assombraria a floresta ainda hoje e todos os que se atrevem a entrar no coração daquele território desaparecem sem deixar pistas. Se o sumiço dos curiosos tem a ver ou não com John Mossaíh ninguém sabe, mas poucos se atrevem a conferir a veracidade da informação.
O que essa história tem a ver comigo? Simples, a maluca da professora Maria da Soledad resolveu fazer um passeio em uma antiga fábrica de soda cáustica, que para o desespero de todos se localiza nas extremidades da floresta Mossaíh.
Jéssica, era uma menina negra, cabelos crespos e volumosos, olhos castanhos e arregalados. Ela estava de pé em frente ao ônibus, os braços cruzados sobre o peito, expressando sua firme determinação em não participar daquela excursão.
— Não vou para esse passeio, simples assim. Imagina, eu me enfiar em meio a uma floresta mal-assombrada.
A professora Maria, uma mulher de estatura média, cabelos grisalhos presos em um coque firme, e óculos na ponta do nariz, mantinha-se ereta, as mãos na cintura, encarando Jéssica com uma mistura de autoridade e paciência. Seu olhar por cima dos óculos demonstrava a convicção.
— Esse passeio é de suma importância, e quem não for vai ficar sem nota.
Jéssica não se deixou dobrar.
— Pois então, me deixe sem nota. Prefiro ficar sem nota a me aventurar em um lugar mal-assombrado.
Letícia, ao lado de Jéssica, tentava acalmar os ânimos.
— Confesso que também tô com medo, Jéssica. Mas vamos todos juntos não há o que temer.
Jéssica suspirou, pesando as palavras:
— Cê não tá entendendo, Letícia. Meu tio foi nessa floresta e nunca mais ninguém ouviu falar dele. Conheço várias pessoas que, assim como meu tio, se aventuraram e desapareceram.
Maria, com seu tom autoritário, tentou encerrar a discussão:
— Isso é bobagem. O ônibus vai nos levar diretamente para a fábrica e vai nos trazer de volta para cá. Ninguém vai adentrar em meio à floresta.
Mas Jéssica estava decidida:
— Eu tô fora, professora!
Maria encolheu os ombros, resignada:
— Você que sabe, Jéssica. Mas vai ficar sem nota.
É claro que o passeio da professora não alegrou a maioria. Mas não tive medo algum. Eu sempre achei essa história uma babaquice. Tudo bem, não desprezo o fato de que o tal John tenha torturado os seus escravos, muitos fidalgos da época faziam isso. E é natural também os escravos tê-lo matado como uma forma de vingança. Mas daí a achar, que o seu fantasma esteja solto pela floresta torturando a quem nela entrar, é demais, pura história da carochinha.
Naquele momento tenso em frente ao ônibus, o que mais atormentava meus pensamentos, era o que se passava na cabeça de Érica. Já não sabia mais como agir. Tentava de todas as maneiras me aproximar dela, mas ela continuava a me evitar.
Não era uma rejeição arrogante; ela ainda me tratava bem, apenas preferia manter certa distância. Minha cabeça girava, meu coração parecia ferver no peito. No fundo, eu mantinha uma tênue esperança de que ela pudesse me dar mais uma chance.
Nesse momento, Davi se aproximou, quebrando um pouco da tensão com sua voz descontraída:
— E aí, tá com medo de encarar a floresta Mossaíh?
Respirei fundo antes de responder, tentando manter uma calma que não sentia completamente:
— Não. Acho tudo isso uma bobagem, eu não acredito em fantasmas.
Davi, com seu jeito descontraído de sempre, continuou:
— Eu também não. Mas as meninas estão morrendo de medo. Até a Thaís, que é toda durona, tá com medo. Mas parece que a Letícia conseguiu convencer a Jéssica a ir também.
Ele notou que eu segurava um livro e perguntou:
— Que livro é esse?
— Érica que me emprestou. — Respondi brevemente.
Davi percebeu meu estado e comentou:
— Cê ainda tá na fossa, por causa dessa história com a Érica, né?
— Ela nem olha mais na minha cara. — Falei, deixando escapar um pouco da frustração que estava guardando. — O que eu fiz foi tão grave assim, Davi?
Davi sacudiu a cabeça com convicção:
— Não, claro que não. Ela só tá com medo de perder a vaga dela aqui na república.
Enquanto conversávamos, eu percebi que Ricardo, ao longe, me observava com uma expressão de deboche. Uma onda de ódio percorreu meu peito ao vê-lo.
— Tudo por culpa daquele otário. — Rosnei, quase sem perceber.
Davi tentou acalmar as coisas:
— Não dá moral para o Ricardo, ele tá fazendo tudo isso só para te provocar.
E então, para minha surpresa e alívio, Érica começou a se aproximar de nós. Nem podia acreditar que ela finalmente estava disposta a conversar.
— Max!
Érica chamou, sua voz suave carregando uma mistura de sentimentos.
— Vou deixar vocês dois a sós.
Davi, educadamente, se retirou para nos deixar a sós. Érica olhou nos meus olhos, e pude ver a hesitação em seu olhar.
— Cê ainda tá com raiva de mim? — Perguntei, minha voz um pouco mais baixa do que o normal.
— Não. Desculpe, Max. Sei que tô te evitando. E sei que de alguma forma isso te machuca. O Davi me falou um pouco sobre as conversas que cês costumam ter.
— Ele falou sobre nossas conversas, foi? — Perguntei, surpreso.
— Sim. Sobre os sentimentos que cê nutre por mim. — Ela confirmou, desviando o olhar por um momento.
— Eu gosto muito de você, Érica. Desde o primeiro dia que te vi eu me encantei. — Confessei, sentindo o peso daquelas palavras.
Érica suspirou, seus olhos encontrando os meus novamente.
— Olha, Max, eu também gosto muito de você. Mas não dá para a gente continuar mantendo esse nosso "romance". Eu errei em ficar alimentando esse seu sentimento. Eu não tive noção da proporção que tudo isso estava tomando. Fui egoísta e não me dei conta de que tudo isso poderia te machucar. Me desculpe, Max, mas entre a gente não haverá mais nada além de amizade.
Aquelas palavras caíram como um peso em meu peito, uma mistura de decepção e resignação.
— Tá bem. Talvez cê esteja certa. Seremos apenas amigos.
Amigos? Se tem uma coisa que dói, é quando a pessoa que você ama diz que quer ser apenas sua amiga.
Não, Érica, eu não posso ser seu amigo. Como amigo, eu não posso sentir o beijo dessa sua boca carnuda; como amigo, eu não posso tocar a sua pele e acariciar os seus cabelos; como amigo, eu não posso tê-la em meus braços e torcer para o tempo parar e você ficar para sempre aqui comigo. Não, eu não posso ser seu amigo.
Por outro lado, foi melhor assim. Com a minha amizade, Érica voltou a falar comigo e voltamos a nos dar bem como antes. Ela brincava e me olhava de lado com um sorriso no canto dos lábios, como se dissesse: "Que bom que estamos bem!".
Enquanto lidava com os remanescentes resquícios dos meus sentimentos por Érica, a professora Maria da Soledad ficou animada na porta do ônibus, organizando a entrada dos alunos.
— Vamos todos entrar no ônibus que já tá na hora. Anotem tudo o que vocês puderem, pois irei cobrar. Irei pedir um trabalho para ser apresentado, sobre como funciona essa fábrica. Ou melhor, como funcionava, já que ela está desativada.
Jéssica questionou ainda amedrontada:
— Sério mesmo isso? Vou ter que entrar nesse ônibus?
Letícia, com um tom de súplica, tentou acalmar os ânimos:
— Jéssica, por favor, não complica, eu já tô aqui morrendo de medo e cê ainda faz drama.
Thaís acrescentou com um ar preocupado:
— Depois da história do tio da Jéssica que desapareceu, até eu já tô com medo.
Davi, colocando pilha, comentou:
— Olha, não é falando não, mas eu também já ouvi umas histórias macabras sobre essa floresta.
Letícia, agora mais nervosa, perguntou:
— Ai gente, sério?
Érica, sempre perspicaz, não perdeu tempo em apontar:
— Deixe de conversa fiada, Davi. Tá óbvio que ele tá tirando onda com a nossa cara, gente.
A professora Maria, impaciente com as conversas paralelas, interveio:
— Vamos deixar de conversa e entrar logo no ônibus.
E assim foi. Na hora do passeio, era gente reclamando de um lado, gente se lamentando do outro, gente se recusando a entrar no ônibus. Mas todos eram pressionados pela professora, que argumentava que aquilo fazia parte da aula e era de suma importância conhecer como funcionava aquela fábrica, mesmo que agora desativada. O grupo, então, foi se acomodando no ônibus, misto de curiosidade e apreensão pairando no ar conforme o veículo dava partida. E assim, entre conversas temerosas e olhares inquietos, partimos para a tão esperada e temida excursão.
Letícia, com seu olhar tranquilo voltado para a janela, comentou com serenidade:
— Não há nada demais, uma floresta como outra qualquer.
Jéssica, visivelmente inquieta, observou as árvores ao redor e murmurou:
— Essas árvores são gigantescas, bem assustadoras.
Thaís, tentando dissipar o clima de tensão, interveio com firmeza:
— Isso são eucaliptos, não há nada de assustador. Também não viaja, né Jéssica?
Davi, com os olhos arregalados e uma expressão assombrada, interrompeu a conversa:
— Gente, vocês viram?
Letícia, agora preocupada, perguntou:
— Eu não vi nada. O que cê viu, Davi?
Thaís, cética, rolou os olhos e murmurou:
— Para de graça! Tenho certeza que ele não viu nada.
Davi, ainda visivelmente abalado, mostrou suas mãos trêmulas:
— Cara, olha pra mim, tô tremendo até agora.
Letícia, ansiosa pela resposta, implorou:
— Pelo amor de Deus, Davi, o que cê viu?
Davi respirou fundo antes de responder, sua voz carregada de temor:
— Eu vi um vulto, ali em meio aos pés dos eucaliptos. Um homem branco...
— O meu tio era branco. — Murmurou Jéssica, pálida de medo.
Davi continuou sua narrativa, detalhando com precisão:
— Esse homem tinha mais ou menos um metro e oitenta, barba ruiva, usava um chapéu na cabeça.
Thaís, incrédula, perguntou:
— Cê tá falando sério, Davi?
Davi assentiu com convicção:
— Eu juro. E digo mais, ele segurava um chicote com umas lanças cabulosas na ponta.
Jéssica, agora apavorada, gritou em desespero:
— Ah não gente, não quero ir mais não. Pare esse ônibus, eu quero descer!
— Tem certeza que cê quer descer? — Davi questionava, com deboche.
Jéssica, se dando conta, respondeu:
— Não, eu quero voltar! Volte esse ônibus!
A professora Maria, irritada com a confusão, interveio enérgica:
— Silêncio, gente! Olha essa algazarra aí. Davi, chega!
Enquanto as garotas gritavam, pedindo para Davi parar, eu observava a cena de longe. Divertido com a forma como as meninas estavam amedrontadas com a história que ele contava. Ao olhar para trás, avistei Érica isolada no fundo do ônibus, seus olhos fixos no lado de fora, como se buscasse respostas nas sombras das árvores que passavam rapidamente. Por um instante, hesitei, mas criei coragem e fui até ela. Se era amizade o que ela tinha a me oferecer, eu abusaria disso.
Ao me sentar ao lado de Érica, a respiração parecia presa em minha garganta, os nervos me fazendo tremer ligeiramente. Busquei iniciar a conversa com algo leve, tentando quebrar a tensão que pairava sobre nós.
— O que foi? Não tá acreditando nas histórias de Davi, tá?
Érica virou-se para mim, seus olhos carregando uma expressão que eu não conseguia decifrar de imediato.
— Não. Eu nem prestei muita atenção. Estava aqui com os meus pensamentos longe.
— Eu trouxe o seu livro. — Apontei para o volume que segurava.
— Gostou?
— Gostei sim. Acho que no fundo consigo compreender Hannibal. — Respondi, tentando manter o tom leve da conversa.
— Depois te empresto os outros que tenho do mesmo autor. — Ela ofereceu, pegando o livro e levantando-se. — Então tá. Vou lá conferir a veracidade dessas histórias horripilantes do Davi.
Disse, saindo sem olhar para trás, deixando-me com mais perguntas do que respostas.
Fiquei ali, observando-a se distanciar, perdido em um mar de pensamentos confusos. O que de tão grave eu fiz? Será que toda essa rejeição é só por conta da minha discussão com o Ricardo?
Falando em Ricardo, não demorou muito para ele vir me provocar, assim que me viu sozinho no fundo do ônibus, como se fosse um predador à espera de sua presa.
— Ainda tá correndo atrás da Érica? Desista, Max, ela apenas fez uma caridade quando ficou contigo. — Ricardo provocou, com seu sorriso de deboche.
— Não me enche o saco, Ricardo. Não se toca? Érica também não quer nada contigo. — Respondi, tentando manter a calma.
Ele sorriu de forma arrogante, como se estivesse prestes a contar a melhor piada do mundo para os amigos ao redor.
— Olha isso, meninos! Então, cê não sabe?
— Não sei, o quê? — Respondi confuso.
Beto, um dos amigos de Ricardo, se intrometeu:
— Conta aí, então. Ele precisa saber da novidade.
Ricardo olhou para mim com um sorriso malicioso antes de soltar sua "novidade":
— Entre Érica e eu rolou muito mais do que um simples beijo. Posso te garantir uma coisa, ela é quente.
Aquelas palavras atingiram como um soco no estômago. Não queria acreditar, mas a forma como Érica vinha se distanciando ultimamente, somada às atitudes de Ricardo, começaram a fazer sentido.
— Isso não é verdade. — Murmurei, mais para mim mesmo do que para eles.
Ricardo apenas riu, provocando enquanto saía:
— Acredite se quiser. Vamos nessa, rapaziada. Ela é quente, Max.
Mentira, isso não pode ter acontecido. Sinceramente, quem estou enganando? Por que não pode ser verdade? Érica já não é mais a mesma. E da forma que eles se entrosaram de uns tempos para cá, não é difícil de acreditar que o Ricardo esteja falando a verdade.
Meu peito apertava, inundado por uma mistura de desespero e ódio. Comecei a detestar tudo: o passeio em si, a música que a turma começou a cantar, os buracos na estrada, as gargalhadas do Davi e, principalmente, a voz do Ricardo. Tudo me irritava, tudo me lembrava daquela sensação de ter sido ludibriado e traído. E ali, no fundo do ônibus, eu me senti sozinho, lutando contra a tempestade de emoções que ameaçava me consumir por inteiro. As minhas mãos estavam frias, a cabeça latejava incessantemente e em minha mente, as imagens do Ricardo e da Érica juntos, se amando, se entrelaçando.... Parecia que eu iria explodir a qualquer momento! Uma lágrima quente escapou dos meus olhos, percorrendo o meu rosto em uma trilha salgada.
Acalmei-me apenas um pouco quando ouvi a voz da professora, anunciando que havíamos chegado ao nosso destino.
— Prontinho, chegamos. Vamos descer todos devagar e vamos nos manter sempre juntos. Sem afobação. Vamos lá!
Desci do ônibus meio sem jeito, tentando me conformar com a ideia de ter perdido Érica para sempre. Mas mesmo naquele momento de desespero, ela continuava malditamente linda; seu olhar, seus cabelos, seu sorriso. "Minha nossa, o que fiz de errado para lhe perder?" Questionava-me em um lamento interno.
Davi se aproximou de mim, tentando forçar uma conversa.
— As garotas piraram com as histórias que eu contei.
— Ela ficou com ele. — Minha voz saiu pesada, carregada de ódio e mágoa.
Davi franziu o cenho, sem entender a que eu estava me referindo.
— Quem ficou com quem?
— A Érica. — Respondi, o olhar fixo em algum ponto distante. — Ela e o Ricardo... transaram.
Davi arregalou os olhos, claramente surpreso com a minha afirmação.
— Calma, Max, não vai acreditar nas lorotas de Ricardo.
Ele tentou me acalmar, mas eu já estava tomado pela raiva e pela tristeza.
— Como eu posso não acreditar? — Minha voz tremia de emoção contida. — Érica não quer mais saber de mim.
Davi suspirou, tentando encontrar as palavras certas para me fazer enxergar a situação de outra forma.
— Cara, cê tá indo em uma onda completamente errada. Não dá crédito a essa história que o Ricardo tá contando. Isso que cê tá sentindo por Érica não é amor. É uma obsessão que já tá te consumindo. E cê não tá se dando conta disso.
A nossa conversa foi interrompida quando a voz da professora nos chamou para iniciar a visita à fábrica.
— Gente, todo mundo aqui, por favor. Vamos prestar atenção. Esse aqui do meu lado é o senhor Lázaro Miguelle. Ele é o diretor dessa fábrica, trabalhou nela durante anos. E hoje será o nosso guia.
Lázaro, um senhor de aparência experiente e tranquila, dirigiu-se a nós:
— Eu vou mostrar pra vocês passo a passo de como a soda era fabricada. Desde o processo inicial até o produto final. Vamos lá?
A professora então distribuiu máscaras para todos, explicando:
— Mas antes da gente começar a nossa expedição pela fábrica, todos devem usar essa máscara. Como a fábrica foi desativada recentemente, ainda há muito cheiro de amônia por aqui. Outra coisa importante também. Não toquem em nada, não podemos entrar em contato direto com o produto. Todos bem equipados? Vamos dar início à nossa expedição.
Lázaro começou a caminhar pelos corredores da fábrica, Maria da Soledad ao seu lado e Letícia do outro, prontamente anotando tudo o que o diretor dizia. Os demais alunos, incluindo eu e Davi, seguimos atrás, ainda com as palavras do Ricardo ecoando em minha mente como um mantra cruel.
— Para produzir o hidróxido de sódio... — continuava Lázaro — ...a soda cáustica que conhecemos, usava-se a mesma reação que ocorre quando se separa o oxigênio e o hidrogênio da água. A reação é feita usando energia elétrica. Passando uma corrente elétrica por uma solução de sal em água. Vamos passar por aquela sala ali e vocês vão ver direitinho como tudo isso funcionava aqui na nossa fábrica. — Ele explicava, apontando para uma porta à frente.
— Vamos gente, e não se esqueçam de anotarem tudo, pois irei cobrar depois. — Maria incentivava, enquanto avançávamos pelo corredor.
Mas nada disso me interessava naquele momento. Minha mente estava turva, preenchida pelos pensamentos sobre Érica e Ricardo. Qualquer coisa, eu pegaria as anotações da Letícia. Do jeito que ela andava grudada no diretor, se a professora pedisse para escrever um livro sobre a soda cáustica ela tiraria de letra.
Davi, percebendo a minha apatia, cutucou-me com o braço.
— Aff, Max! Que cara é essa, parece que comeu e não gostou?
— Nada não, só tô triste. — Respondi, sem muita convicção.
— Vem comigo! — Ele me interrompeu, puxando-me em direção a outra sala.
— Para aonde cê tá indo? — Perguntei, confuso.
— Vem comigo! — Ele repetiu, adentrando o salão sem esperar por minha resposta.
Davi insistiu para entrarmos em uma sala, mas ao passar pela porta, deparei-me com o letreiro "Perigo, apenas funcionários treinados" e uma onda de preocupação me invadiu. No fundo da sala, avistei outra porta que levava a um corredor, onde grandes canos de metal colorido passavam pelo teto. Davi adentrava pelos corredores, claramente procurando algo, e eu o seguia, preocupado com as possíveis consequências.
— Aonde estamos indo, Davi? — Perguntei.
— Vem, Max! Eu quero pregar uma peça nas meninas. Elas vão levar um susto! — Ele respondeu, com uma empolgação suspeita.
— O que cê vai fazer? Não devíamos ter entrado aqui! — Exclamei, percebendo a insensatez da situação.
Érica, que vinha logo atrás, interveio:
— Cês tão malucos? O que fazem aqui?
Fiquei surpreso ao vê-la ali conosco. Ela nos flagrou desviando do caminho e decidiu nos seguir.
— É coisa do Davi. — Tentei justificar.
— Preciso encontrar outra saída, quero pegar as meninas lá na frente. — Davi explicou, com um brilho travesso nos olhos.
Érica sorriu meio travessa também e propôs:
— Tudo bem, eu vou com vocês.
— Cara, isso tudo tá muito errado. — Comentei, sentindo-me cada vez mais desconfortável com a situação.
— Deixa de ser careta, vem logo. Não tem perigo nenhum, a fábrica tá desativada, é só a gente não tocar em nada. — Davi insistia, tentando me convencer.
Eu me sentia completamente deslocado naquela situação. Davi parecia obcecado em assustar as meninas e ignorava os possíveis perigos da fábrica. Érica, por sua vez, surpreendia-me com sua disposição em se aventurar nas pegadinhas de Davi. Eu, por outro lado, permanecia mergulhado em uma confusão de sentimentos. Observava Érica com um misto de fascínio e preocupação, tentando desvendar os segredos por trás de seu comportamento. A presença dela ao meu lado despertava uma série de emoções contraditórias: felicidade por tê-la ali comigo, medo de que algo desse errado, raiva ao lembrar das palavras de Ricardo e ansiedade em relação ao desfecho daquela situação incerta.
Entramos em uma enorme sala, onde se destacavam dois imensos cilindros metálicos que, em tempos passados, eram utilizados para armazenar grandes quantidades de soda cáustica. Uma passarela se estendia acima deles, provavelmente para os funcionários inspecionarem o produto. Era evidente que a fábrica já não estava mais em plena atividade, pois o local parecia abandonado. No entanto, restava ainda soda nos cilindros, o que representava um perigo iminente. Davi, sem hesitar, decidiu subir na passarela, apesar dos nossos alertas sobre o risco que estávamos correndo:
— Davi, melhor não, isso pode ser perigoso. — Érica advertiu, preocupada.
— Relaxa gente, vamos só ver como funciona. — Davi já subia as escadas, ignorando nossos avisos.
— Cara, cê tá maluco? Estamos falando de soda cáustica, isso pode ser perigoso. — Eu tentei argumentar, mas Davi estava determinado.
— Cara, a gente só vai olhar se ainda tem soda no cilindro. É provável que eles estejam até vazios. Não tem perigo, a gente só vai subir a passarela, olhar e depois descer. — Ele tentou acalmar os ânimos.
— Então vamos ser rápidos. — Érica se juntou a ele, subindo as escadas logo atrás.
— Vem Max, deixa de ser frouxo! — Davi chamou, incitando-me a segui-los.
Sem muita escolha, subi também. A passarela era alta, e lá de cima tínhamos uma visão privilegiada de todo o salão. Caminhávamos com cuidado, conscientes de que a estrutura já não era tão sólida. Ficamos impressionados ao notar que ainda havia soda nos cilindros. Érica, inadvertidamente, pisou em uma garrafa de plástico que caiu no cilindro, dissolvendo-se rapidamente.
— Nossa, olha só o efeito que a soda causa quando cai um objeto sobre ela! — Érica exclamou, surpresa.
— Seria o fim se caíssemos ali. — Davi comentou, olhando para baixo.
— É melhor descermos, já não tô tão confiante. — Érica começou a recuar, preocupada com a situação.
— Não, espere! Há uma saída ali na frente. — Davi apontou para o outro lado da passarela.
— Loucura isso que estamos fazendo. Quero só ver quando a professora der por nossa falta. — Eu estava cada vez mais nervoso, imaginando as consequências de nossa escapada.
— Não vai dar nada. Vamos sair lá na frente. Assim a gente pode ver melhor aquele outro cilindro ali. — Davi estava decidido, ignorando os riscos.
Eu já não sabia o que pensar. Por um lado, estava fascinado pela aventura, mas por outro, o medo da reação da professora e o perigo iminente da soda cáustica me deixavam apreensivo. O que aconteceria quando descobrissem nossa ausência?
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