Notas iniciais
Atrás das grades Max sofre com o terror de sua própria consciência.

Fui arrastado pela floresta, algemado e com uma arma sempre apontada para a minha cabeça, até chegar ao local onde estava estacionado o camburão da polícia civil. Sem cerimônias, eles me jogaram dentro e partiram rumo à delegacia de Braço Forte.

Durante o trajeto, uma torrente avassaladora de lembranças dilacerantes inundou minha mente. Em um instante, reconheci tudo o que eu tinha sido, o monstro que habitava dentro de mim. Minha cabeça fervilhava em meio a um turbilhão de pensamentos e sensações. Mais ameaçador do que a tropa da polícia civil era o exército do foro íntimo que carregava dentro de mim. Desejos, pensamentos e emoções que constantemente me dominavam. Sentia meu braço machucado, minha mente atordoada, meus pés cansados, meu coração partido e meus olhos vermelhos de lágrimas contidas. Eu estava sendo levado para um julgamento onde eu era o réu, culpado pelo sangue inocente que escorria por entre meus dedos. A cada momento, me distanciava mais da minha amada. Tudo o que eu desejava era apagar esse período sombrio e retornar ao refúgio dos braços de Érica. No entanto, quanto mais eu lutava para me redimir, mais monstruoso eu me tornava. Era como se uma força estranha e surreal estivesse me dominando.

Ao chegar em Braço Forte, fui recebido por uma multidão enfurecida, cujos gritos e maldições ecoavam pela cidade. Entre os clamores de raiva, as vozes exaltadas exigiam vingança e justiça.

Uma mulher, com os olhos cheios de fúria, vociferou:

— Ele merece morrer!

Um homem, com punhos cerrados, berrou:

— Desgraçado! Vai apodrecer na prisão!

Outra mulher, com o rosto contorcido de ódio, incitou:

— Vamos matá-lo!

Observando a cena de dentro do camburão, senti um peso no coração ao encarar a multidão raivosa que se aglomerava do lado de fora, clamando por meu sangue. O veículo da polícia civil seguia seu caminho pela cidade, indiferente aos gritos que ecoavam pelas ruas estreitas e tortuosas de Braço Forte.

A delegacia assim como a maioria da cidade ainda conservava a estrutura do tempo antigo. Localizava-se em um edifício de dois pavimentos sólidos e austeros, com janelas de cantaria protegidas por pesadas grades, localizada no centro da cidade, ao lado oeste da Matriz.

O camburão parou diante da imponente delegacia de Braço Forte. Alguns dos espectadores tentaram se aproximar, mas foram contidos pela tropa de choque, que formava uma barreira entre a multidão e o veículo. O Capitão Álvaro Azevedo interveio, dirigindo-se à multidão com autoridade:

— Se afastem! Deixem que a polícia cuide disso.

Sara Campestrini e Hugo Castanho se aproximaram, observando a agitação. Sara comentou, surpresa:

— Onde toda essa multidão estava escondida?

Hugo respondeu, analisando a situação:

— Braço Forte é uma cidade pacata, nada acontece aqui. Para eles, isso é um verdadeiro espetáculo.

Determinada, Sara afirmou:

— Espetáculo ou não, vou ter uma conversa séria com nosso amigo aqui.

Dentro da delegacia, fui conduzido até a sala do Delegado Moraes. Álvaro entrou comigo, fazendo a introdução:

— Com licença, Dr. Moraes! Mais um inquilino para a sua residência.

O delegado, surpreso, examinou-me com preocupação:

— Meu Deus, o que aconteceu com essa criatura?

Sara, tomando a frente, explicou:

— Ainda não sabemos. O jovem aqui não é muito conversador. Preciso de uma cela isolada para mantê-lo. Ele pode ser perigoso, não podemos colocá-lo com os outros presos.

Moraes lamentou a situação:

— Nossa delegacia é antiga e pequena. Ambos os pavimentos estão lotados. Não temos nenhuma cela reservada. A única disponível fica lá embaixo.

Hugo, demonstrando estranhamento, perguntou:

— Embaixo?

O delegado confirmou, com seriedade:

— Sim, no porão.

Houve uma troca de olhares entre eles. Sara decidiu:

— Não sabemos do que ele é capaz. Portanto, é no porão que ele deve ficar.

Atravessamos vários metros do corredor em silêncio, ignorando os poucos prisioneiros que eram mantidos ali, eles gritavam e tentavam a todo custo chamar a atenção, até mesmo com insultos. Ao final do corredor, uma escada descia para o porão. As celas não eram localizadas em um local muito favorável, no subsolo a luz solar era difícil penetrar, apenas umas lâmpadas incandescentes penduradas no teto, dava ao ambiente uma claridade tímida. Ao descer a escada, sinto um forte odor de mofo e de cadáver de algum bicho morto. Fui deixado sozinho no fim do porão, em uma cela completamente distante das outras.

No fim do dia, Sara Campestrini escoltada por dois policiais da polícia civil, desceu até o porão onde eu estava. Parou a certa distância. Deixando entre ela e as grades o espaço de um pequeno corredor de mais ou menos um metro. O olhar dela me fitava de tal forma que parecia zumbir em meus ouvidos.

Eu me mantinha sentado na cama de cimento apenas a observando. Seus olhos castanhos examinavam-me meticulosamente, talvez surpresa com o meu estado.

Sara se apresentou com firmeza:

— Sou Sara Campestrini, psicóloga forense. Estou encarregada de resolver o caso em que você tá envolvido. Vamos direto ao ponto. Quem é você, e por que feriu aquelas pessoas?

Eu continuava em silêncio, pois não havia razão nenhuma para machucar aquelas pessoas. Eu era controlado por uma força frenética da qual não tinha explicação, sentia prazer ao ver o desespero das minhas vítimas.

Sara insistiu:

— Você não consegue falar?

Baixei a cabeça por um momento, refletindo, antes de responder:

— Eu sou Maxwell Lenzi.

Sara pareceu surpresa com meu sobrenome:

— Lenzi? Descendente de italianos?

Respondi, cauteloso:

— Meu avô paterno era italiano. Mas qual a importância da minha descendência?

Ela recuou:

— Na verdade, não tem importância alguma. Também sou descendente de italianos. Quis apenas quebrar o gelo. O que aconteceu com você? Como conseguiu essas cicatrizes?

Conforme Sara conversava, se aproximava ainda mais da cela. Porém, deu uma passada para trás, assim que me pus em pé. Os policiais ao seu lado empunharam suas armas e as apontaram para mim. Um sorriso irônico brincava em meus lábios ao notar o temor que eles tinham de mim.

— Eu morri, Doutora. O que você vê é apenas uma alma decadente vagando pelo mundo. — Comentei, minha voz ecoando com um tom sombrio.

Sara não recuou, mantendo sua postura firme:

— Almas não costumam sair por aí machucando as pessoas. Os mortos não me perturbam, são os vivos que me dão trabalho.

— Gosta de manter a pose de durona, não é, Doutora? — Respondi, com uma voz firme. — E odiaria pensar que é uma pessoa comum, semelhante às mulheres que matei. Tem medo de mim, doutora?

— Você é apenas um pobre coitado, Maxwell, culpando o mundo por seus problemas. Não me faz medo, apenas repugnância.

Me aproximei ainda mais da cela, percebendo Sara deu mais um passo para trás.

— Sabe o que eu faria se estivesse do lado de fora, Doutora? — Continuei, com um tom frio. — Te amarraria, arrancaria todo o seu couro, deixando seus músculos expostos. E faria tudo isso com você ainda vida. Depois, arrancaria seu coração e me saciaria com o seu sabor. Deve ser um gosto deslumbrante, seu sangue deve ser ainda mais quente por conta do seu temperamento.

Sara mostrou-se incomodada com minhas palavras, mas não se deixou intimidar:

— Você não tá do lado de fora. E é aí dentro que vai ficar, apodrecendo junto com os ratos. — Ordenou aos policiais. — Vamos! Acredito que nosso amigo quer ficar um pouco a sós.

Os dias se passavam e eu continuava trancado na minúscula e escura cela, com poucas refeições ao dia. Uma jarra de água era deixada ao lado da cama de cimento, enquanto minhas roupas desgastadas eram trocadas por outras ainda mais deterioradas. O ambiente era sujo e abafado, com um cheiro sufocante, e minha higiene era limitada a um banheiro sem porta no fundo da cela.

As visitas de Sara se tornaram quase que diárias, onde ela me inquiria sobre todos os aspectos da minha vida: desde minha estadia na república até minha infância e minha relação com meus pais e amigos. Até mesmo detalhes sobre meus animais de estimação eram abordados.

Naquele dia, Sara veio sozinha até a minha cela, puxando uma cadeira que já estava ali próxima e se sentando com uma prancheta em mãos. Eu estava sentado na cama escorado na parede de lado para ela. Do jeito que eu estava, continuei.

— Boa tarde, Max! — Saudou Sara, já acomodada.

— Boa tarde, doutora! Tô surpreso. Onde estão as duas sombras que sempre lhe acompanham? — Comentei, curioso.

— Julguei que não fosse necessário a presença deles. Espero não estar errada. — Respondeu ela.

Sentei-me na cama e fiquei de frente para Sara, observando-a atentamente.

— Não tem mais medo de mim, doutora? — Indaguei, intrigado.

— Eu nunca tive medo de você, Max. Apenas me precavi. Eu vim aqui hoje pra te conhecer melhor, saber um pouco mais da sua história. Você já me disse que não é daqui de Braço Forte, que nasceu em Ouro Preto. Eu queria ouvir um pouco mais sobre a sua infância. — Explicou ela, com um tom tranquilo.

— Não sei em que minha infância possa te interessar tanto. — Respondi, um tanto relutante.

— Por favor, só me conte. — Insistiu Sara.

— Nasci em uma família bem-sucedida, morávamos em uma casa grande de dois andares, tão grande que nos perdíamos dentro dos cômodos. Meus pais nunca quiseram filhos, fui um acidente. Minha mãe tentou me abortar por duas vezes, mas na hora lhe faltava coragem.

Enquanto eu narrava minha história, era como se um filme se desenrolasse em minha mente, trazendo à tona lembranças há muito guardadas. Sara permanecia atenta a cada palavra que eu mencionava, fazendo anotações em sua prancheta conforme julgava necessário. E assim, prossegui com meu relato.

— Fui criado como um fardo na vida deles. A pessoa que eu considerava como mãe era Lourdes, minha babá. Ela sim cuidava de mim como uma verdadeira mãe. Eu não odiava meus pais; eles não são culpados por eu ter aparecido em suas vidas. Tinha os melhores brinquedos, as melhores roupas, frequentava a melhor escola, e mesmo assim me sentia pobre. Aquela "mordomia" toda não me satisfazia. Passava os dias solitário, procurando alguma diversão entre aqueles brinquedos caros, que para mim não tinham a menor graça. Só me animava quando Lourdes terminava seus afazeres e reservava um minuto do seu tempo para brincar comigo.

Ao fim da tarde, sentava-me na sacada, observando as crianças brincarem na rua, suas roupas sujas de tanto caírem no chão. Corriam de um lado para o outro, jogando uma bola de tênis (ou, às vezes, uma feita de meia pelas próprias crianças) em uma lata de óleo, marcada no asfalto. Cruzavam seus tacos, contando de dez em dez no tradicional jogo de bets. Mesmo com seus jogos improvisados, era possível ver a felicidade estampada em seus rostos. Aquilo para mim era uma liberdade da qual eu não desfrutava, trancafiado nos muros daquela mansão. Não tinha amigos. Na escola, sentava isolado, em uma cadeira no meio da sala, encostada na parede. Parte das aulas eu dormia; na outra, fazia caricaturas dos meus colegas, especialmente das garotas que mais me interessavam. Mas nunca tive coragem de me aproximar de nenhuma delas.

— O que acontecia se você tirasse nota baixa na escola? — Perguntou Sara curiosa.

Me levantei e comecei a andar pela a cela enquanto respondia Sara.

— Meu pai me batia e me trancava no sótão em meio a uma montanha de livros se eu tirasse nota baixa na escola. Dizia que eu tinha que decorar todos, só assim ele me tiraria de lá. Mas em alguns eu nem pegava, passava meu tempo fazendo desenhos em meu caderno. Sabia que ele não iria verificar meu aprendizado, estava "ocupado" demais pra isso. Na maioria das vezes, me esquecia lá, e era Lourdes quem, no fim do dia, pegava a chave e me soltava.

Sara me olhava com atenção, anotando cada detalhe em sua prancheta.

— Com o que ele te batia, Max? — perguntou Sara, com uma expressão séria.

— Com o cinto. Ele usava a parte da fivela que era para doer mais. Dizia que quanto maior o castigo, maior o aprendizado. Seu pai já lhe bateu com o cinto, Doutora?

Sara fez uma breve pausa antes de responder.

— Meus pais preferiam outra forma de educar, sem muita violência. Mas você não teve nenhum amigo na escola, Max?

— Não. Eles me chamavam de esquisito. E os que procuravam ser meus amigos eram só para que eu pagasse o lanche deles na cantina.

— E você nunca fez nada contra nenhum deles?

Questionou Sara, tentando encontrar alguma pista de comportamento psicopata em minha infância. Mas minha resposta foi acompanhada apenas pelo eco silencioso da cela. Pois minha infância foi marcada somente pelo o medo e tristeza.

Sozinho durante horas, preso naqueles cômodos repletos de cortinas, vasos e quadros que eu tinha medo de tocar e quebrar. Observava a vida passar por trás dos portões que mais pareciam uma prisão, distanciando-me da liberdade que as crianças do meu bairro desfrutavam. Com o passar do tempo, já adolescente, meus pais souberam de uma república localizada em uma cidadezinha do interior. Para eles, era uma oportunidade de se livrar de mim, mas para mim, era a liberdade pela qual eu ansiava há tanto tempo.

Cheguei à república ansioso, sentindo que finalmente seria dono da minha própria vida, mas ao mesmo tempo com medo de me relacionar com os outros. Logo percebi que a tão sonhada liberdade ainda teria que esperar, pois todos lá éramos subordinados às regras impostas pela dona Elizabeth. No entanto, as regras não eram o meu pior problema. Eu tinha medo das pessoas.

Meus colegas me olhavam de cima a baixo, alguns riam de mim, o que me incomodava profundamente. Parecia que eu não estava pronto para enfrentar o mundo. Mas nenhum deles me incomodava tanto quanto Ricardo.

Ricardo se aproximava de mim com dois de seus amigos, zombando e fazendo piadas. Eu gaguejava ao tentar responder, o que apenas o divertia mais.

— Olha só, galera, que coisinha esquisita. Qual é o seu nome, rapazinho? — zombou Ricardo.

— Meu no... nome é Ma... Ma... Maxwell! — gaguejei.

— Ma... Ma... Ma...! Já vi tudo, é mais um idiota — debochou Ricardo.

— Temos que dar as boas-vindas a ele — disse Beto.

— Verdade. Pega ele pelas pernas e deixa que eu pego pelos braços. Vamos jogar ele dentro da caixa d'água — ordenou Ricardo.

Os três me agarraram e me jogaram dentro de uma caixa d'água que havia no meio do pátio, rindo ao me verem todo molhado. A humilhação era insuportável.

Aos poucos, fui me adaptando e me tornando menos estranho, se é que isso era possível. Ricardo continuava a me provocar, inventando apelidos pejorativos e fazendo trotes, como colocar creme dental em meu rosto enquanto eu dormia ou insetos na minha gaveta de roupas. No início, isso me incomodava, mas depois eu já não dava tanta importância. Eu continuava na minha zona de conforto, isolado de tudo e de todos, guardado em meu mundo particular.

— E por que você nunca contou para a dona Elizabeth sobre as façanhas de Ricardo? — perguntou Sara.

— Ela não iria acreditar, e mesmo que acreditasse, não daria importância para isso. Ninguém nunca se importou comigo, Doutora. Nem meus pais, nem meus professores, nem meu amigo Davi, e nem sequer Érica — respondi.

— Érica? Quem é Érica? — questionou Sara, interessada.

— Simplesmente a garota mais fascinante que já conheci — respondi, com brilho nos olhos.

Érica! Apenas ouvir seu nome já me envolvia em encantos. Como resistir aos pequenos detalhes que te formavam? Seu rosto, seus olhos que se encontravam nos meus, seu sorriso, teus lábios carnudos. E tua pele, tão clara, tão frágil, tão linda, tão delicada. Esse jeito tão seu de pôr o cabelo por trás da orelha. Teu corpo, tuas pernas, tuas mãos... Ah, as mãos! Como descrever a suavidade destas, que entrelaçavam os dedos aos meus e me faziam perder em meio a esse sortilégio? E o encanto dos seus movimentos, desfilava por onde passava, fascinava, provocava, se fazia presente. Um brilho próprio indescritível.

Ela me transportava para outro lugar, um lugar encantado, onde o tempo não existe, e o coração a todo instante palpitava acelerado. Era sonho, era realidade, já não sabia mais. O que sabia é que quando estava com ela, tudo desaparecia, e até os pássaros cantavam mais suave. Roubava-me a calma, a alma, o corpo, a mente, a razão, a emoção. Ela invadia meus sonhos, delírios. Provocava meus desejos mais inconfessáveis, eu desejava possuí-la. E por vezes, me desesperava. Já não a tinha mais.

Um despertar qualquer me arrancou desse sonho em que me encontrava e me colocou diante da minha realidade. Estava trancafiado em um cárcere, tendo como companhia apenas os ratos rabugentos, que apareciam na esperança de furtar um pouco da minha comida. Eu andava de um lado ao outro inquieto. Sentei-me na cama e com uma pedra comecei a riscar a parede. Alguns ratos se aproximavam discretamente.

— Olá amiguinhos! Estão com fome? — disse, oferecendo-lhes comida. — Aqui oh! Podem comer, eu já não tenho mais fome.

Larguei o prato e os ratos vieram se aproximando e atacaram a minha comida. Fiquei ali só observando. Meu corpo naquela jaula se atormentava com os demônios de minha mente, tornando-me algoz dos meus delírios. Penetrava profundamente na intimidade dos meus pensamentos, um poço de sombras e ilusões que me transportava para um mundo umbrático e caótico.

Ao aproximar mais uma noite, o silêncio abriu sua cortina negra e uma luz surgiu na fresta da porta, que foi se abrindo lentamente no alto da escada do porão. Ouvi passos leves descendo a escada e tomando rumo de onde eu estava. Seus cabelos longos e negros balançavam suavemente enquanto ela se aproximava, seu sorriso desaparecendo por trás de uma expressão séria e preocupada ao me ver naquela situação. O verde dos seus olhos parecia se perder em uma mistura de tristeza e compaixão. Levantei-me da cama, incrédulo diante da visão que se materializava diante de mim. Era como se um fantasma vindo do passado estivesse ali, naquela cela, diante de mim.

— Érica... Como você descobriu que eu estava aqui? — minha voz saiu trêmula, embargada pela emoção que inundava meu peito.

Sentia uma mistura avassaladora de alegria e tristeza, de saudade e desespero.

— O que aconteceu, Max? — sua voz era suave, mas carregada de preocupação e dor. — Por que fez isso consigo mesmo?

As lágrimas já inundavam seus olhos enquanto falava, e eu sentia meu coração se partir ao vê-la assim.

— Érica... Senti tanto a sua falta. — minhas palavras saíam como um lamento. — Queria tanto poder te abraçar, sentir seu toque novamente... Sentir seu beijo.

Seus olhos se encheram ainda mais de lágrimas, refletindo a tristeza que também dominava meu ser naquele momento.

— Muita coisa aconteceu, Max. — sua voz era um sussurro entrecortado pelo soluço da emoção. — Não podemos mais ficar juntos.

— Eu preciso de você, Érica. — minha voz saiu em um sussurro, carregado de desespero e amor. — Tudo o que fiz foi por amor a você. Não me abandone... Só quero tê-la ao meu lado mais uma vez. Como eu queria ter o poder de atravessar essas grades e te abraçar, sentir o calor do seu corpo junto ao meu.

Nesse momento de aparente transcendência, as grades que me aprisionavam pareciam se dissipar diante da presença de Érica. Sua mão na minha era como um portal para um mundo onde só existíamos nós dois, onde a luz que emanava dela banhava cada canto sombrio da minha cela, afastando a escuridão que me cercava. Era como se flutuássemos juntos em um mar de sonhos e fantasias, onde o tempo e o espaço se diluíam diante do nosso amor.

— Nada mais importa agora. — murmurei, sorrindo, enquanto sentia meu coração transbordar de felicidade.

Mas então, como um pesadelo que se insinua em meio ao sonho, vi o sorriso em seu rosto se transformar em dor e desespero. Seu peito foi banhado em sangue, suas mãos manchadas enquanto tentava conter o fluxo vermelho que escapava de sua ferida. Recuei instintivamente, horrorizado com a visão terrível que se desenrolava diante de mim.

— Érica, cê tá ferida! O que aconteceu? — minha voz saiu em um grito desesperado, ecoando pelas paredes vazias da cela.

Ela passou a mão sobre o ferimento, seus olhos refletindo uma tristeza profunda e inexplicável.

— Olha o que você fez, Max. — sua voz era um sussurro entrecortado pela dor, enquanto sua figura se desvanecia na escuridão que começava a se fechar ao nosso redor.

— Não, Érica! — gritei, chamando por ela enquanto a escuridão a envolvia e a levava para longe de mim. — Onde cê tá? Não me deixe!

Agachei-me e comecei a chorar. Naquele instante fui me dando conta de que tudo aquilo não passava de fruto dos meus delírios, e que Érica jamais esteve presente ali.

Aquela foi só a primeira vez em que o real e o surreal se misturavam em minha mente, me fazendo perder o controle da razão. O "fantasma" de Érica sempre se fazia presente durante os longos dias trancafiados naquela jaula. Na maioria das vezes não dizia uma só palavra, apenas me olhava com seu olhar triste e cabisbaixo, sempre com as mãos sujas de sangue.

Esse "fantasma" era na verdade o reflexo da minha própria consciência, uma sombra que me acusava do mal que eu havia causado. Suas mãos manchadas de sangue eram um lembrete constante do peso das minhas ações, das vidas que eu havia ceifado. Era uma tortura que me consumia, uma loucura que me arrastava para o abismo do remorso e da culpa. Havia momentos em que desejava ardentemente a morte como uma libertação, uma forma de escapar desse tormento incessante. Não seria nada justo, eu tinha que viver para estar frente a frente com Érica novamente, ansiava euforicamente por esse reencontro.

Naquela noite, Sara Campestrini desceu mais uma vez ao porão, acompanhada não apenas pelos dois guardas habituais, mas também por Hugo Castanho, Álvaro Azevedo e o delegado Dr. Moraes. Eles mantiveram uma conversa próxima à escada, mantendo uma distância segura da minha cela.

— Olhem a condição deste lugar. Não podemos continuar mantendo ele aqui. — Sara expressou sua preocupação.

— Como eu disse, esta é uma prisão antiga, sem estrutura. A menos que o deixemos com os outros presos. — Respondeu o delegado Moraes.

Os olhos de Sara se voltaram para mim, enquanto eu permanecia sentado na cama, observando-os.

— Não. Não se esqueçam de que ele é um canibal. Ele é capaz de devorar um por um daqueles presos que estão lá. — Sara alertou, firme em sua decisão.

Hugo expressou sua opinião:

— Sara, com todo respeito, acho que você está exagerando. Olhe para ele, não passa de um moribundo. Ele é quem corre risco de ser morto se ficar junto com os outros presos.

— Não o subestime, Hugo. Ele é como uma fera enjaulada. Esse rapaz carrega consigo uma força sobrenatural. — Sara rebateu, convicta de suas palavras. Álvaro sugeriu:

— A solução talvez seja transferi-lo. Talvez para algum presídio em Ouro Preto.

Hugo ponderou:

— Antes de ser transferido para um presídio, ele precisa ser julgado. Eu aconselharia mantê-lo aqui até o julgamento.

— Não. Aqui ele não pode ficar. — Insistiu Sara.

Álvaro concluiu:

— Então a solução é transferi-lo o quanto antes. Moraes tomou a palavra:

— Vamos para a minha sala, lá podemos discutir melhor sobre isso.

Enquanto eles saíam do porão, eu pensava freneticamente em uma maneira de escapar daquela situação, antes que fosse transferido para longe, distanciando-me ainda mais da minha amada.

Notas finais
E agora, será que Max conseguirá fugir da prisão? Por favor, comente o que achou do capítulo...