ANTROPÓFAGO - Diário de um Canibal
13 A fuga
Notas iniciais
Sara Campestrini e eu estabelecemos uma espécie de ritual durante os três meses que estive sob custódia. Era quase sagrado nossos encontros noturnos, iniciando por volta das sete ou oito horas. Ela vinha preparada para me interrogar, buscando penetrar em minha mente e desvendar todas as atrocidades que cometi. E eu não hesitava em detalhar cada momento, enfatizando a satisfação que sentia ao ouvir os gritos de minhas vítimas, suplicando por misericórdia. Eu me sentia como um deus soberano diante daquela situação, alimentando-me do sofrimento alheio.
— Você não se sente culpado, Max, por ter tirado a vida de tantas pessoas inocentes? — Questionava Sara, buscando entender minha psique perturbada.
— A senhora come carne de animais, doutora? — Retorquia eu.
— Sim. — Respondeu ela.
— Já parou para imaginar a agonia de cada um deles, condenados à pena de morte apenas para saciar sua fome? — Provocava eu. — Não acredito que as pessoas que matei sejam mais inocentes do que essas pobres criaturas.
— Não podemos comparar seres humanos com animais, Max.
— O que a faz pensar que sua vida tem mais valor do que a de um animal? — Perguntava eu, desafiador. — Por dentro somos iguais, formados por músculos, órgãos e ossos. O que faria se descobrisse, que toda a carne que comeste até então, se tratava de carne humana? Por ventura essas lhe perderiam o sabor? No fim, somos todos animais, doutora. É fácil apontar uma arma em minha cabeça e me condenar por ter matado pessoas inocentes. Talvez, muito desses "inocentes", mantinham em suas geladeiras carnes de criaturas indefesas em que não tiveram nenhum pudor em matar. Por serem considerados animais, carregavam consigo a desgraça de ter que saciar a fome do bicho homem. É interessante como os humanos se comovem com a morte uns dos outros, mas não têm piedade ao matar e torturar os animais.
Sara respirou fundo, ajeitou seus papéis e se levantou da cadeira.
— Por hoje a nossa sessão acabou — declarou ela.
— Percebo que ficou incomodada com o que eu disse — comentei, notando sua reação.
— Temos maneiras diferentes de pensar, Maxwell. Mas saiba que comparar seres humanos a animais não diminuirá sua culpa. Como eu disse, a sessão acabou por hoje. Amanhã continuaremos nossa conversa — respondeu Sara.
— Doutora Campestrini! — chamei, vendo-a se preparar para sair.
— Sim, Max? — Ela se virou para me ouvir.
— Cês falaram sobre me transferir. Quando será isso? — Perguntei, preocupado com o destino que me aguardava.
— Ainda não foi decidido. Vamos levá-lo para um lugar mais decente. Eu sei que gosta de ser tratado como um animal, mas os direitos humanos nos impedem de tratá-lo como tal — explicou Sara, antes de sair da sala.
Sempre defendi a conduta de um vegetariano, nunca aceitei essa pena de morte aos animais, apenas para saciar a fome do bicho homem. No entanto minha boca salivava ao lembrar-me do sabor excitante da carne humana.
Eu continuava a procurar uma maneira de sair dali. Mas ainda não tinha a menor ideia de como fazer isso. Andava inquieto de um lado ao outro da cela procurando uma solução.
Já era madrugada e ainda não haviam levado a minha janta. Quando o som metálico da pesada porta no alto da escada ressoou pelo porão, quebrando o silêncio angustiante que pairava sobre o lugar. Aproximaram-se da cela o veterano policial Noronha, já conhecido pelos seus anos de serviço na cidade, acompanhado de um jovem e ainda aprendiz de nome Rafael Garcia.
— Levante-se, encoste de frente para a parede com as mãos voltadas para trás. — Ordenou Noronha, sua voz carregada de autoridade.
Resoluto, permaneci sentado na cama, encarando-o sem mover um músculo.
— Não ouviu rapaz? Se preferir podemos voltar para trás e te deixar com fome.
Com um suspiro resignado, ergui-me e obedeci suas instruções, levantei e encostei de frente para a parede com as mãos voltadas para trás. Enquanto o velho policial ajeitava minha refeição na cama de cimento, o jovem Garcia mantinha sua arma apontada para minha nuca, preparando-se para me algemar. Observando o reflexo de um pedaço de espelho pregado na parede, percebi que Noronha havia se descuidado e sua arma estava desengatilhada.
Num movimento calculado, no instante em que Garcia avançava para me algemar, girei meu braço, agarrando seu pulso e apontando sua própria arma em direção ao companheiro.
Este último reagiu rapidamente, tentando alcançar seu próprio revólver, mas foi atingido pelo disparo da arma de Garcia. Que se descontrolou na briga dos nossos braços.
Sem hesitar, aproveitei o momento de descontrole e mordi a orelha de Garcia, fazendo-o afrouxar o controle sobre sua arma. Num gesto rápido, desferi-lhe um soco no meio do nariz e um tiro fatal no meio da testa, silenciando-o instantaneamente.
— Será que estão mortos? — Murmurei para mim mesmo, ofegante, com a arma de Garcia em mãos.
Conferi os corpos caídos no chão da cela, constatando que Garcia estava sem vida, enquanto Noronha agonizava com um tiro no peito. Temendo que os disparos tivessem alertado alguém, apesar do porão ser isolado e a porta ser resistente, decidi agir rapidamente.
— E agora o que eu faço? Preciso dar um jeito de sair daqui. — Ponderava em voz baixa, aproximando-me de Noronha.
Sem piedade, amordacei Noronha com pedaços de sua própria roupa, embora suas condições já o impedissem de fazer qualquer barulho significativo. Arrastei-o para fora da cela, algemei seus braços cruzados para trás utilizando suas próprias algemas e, com a ajuda da algema de Garcia e seu cinto, amarrei seus pés a uma viga de ferro no teto, deixando-o suspenso de cabeça para baixo.
— E agora? Só há uma saída, pela porta principal. E é por lá que eu vou sair.
Murmurei para mim mesmo, avaliando as opções enquanto vestia a roupa do soldado Garcia e pegava sua arma e a chave do Chevette do velho Noronha, cujo carro eu já conhecia, pois ele era vizinho da república da dona Elizabeth.
Subi lentamente a escada em direção à saída. Como já era madrugada, os detentos estavam dormindo, facilitando minha passagem pelo corredor. Ao chegar à última cela, fui flagrado por um detento magricelo e maltrapilho, que fixava o olhar em minha direção. Sem pensar duas vezes, peguei o molho de chaves do cinto da calça e joguei para ele, proferindo:
— Viva a liberdade!
Ele avançou alegremente, agarrando o molho de chaves com euforia, enquanto eu continuava meu caminho.
Ao passar em frente à recepção, vi o Dr. Moraes entretido mexendo no computador. Continuei andando, mas sua voz me deteve:
— Espere!
Virei-me rapidamente, já com a arma em mãos, e disparei dois tiros que atingiram seu peito. Sem perder tempo, corri o máximo que pude, sabendo que os tiros chamariam a atenção dos outros policiais.
Dirigi-me ao Chevette vinho do policial Noronha, estacionado próximo à entrada da delegacia. Com um tiro certeiro, estilhacei o vidro da janela, pois não havia tempo para procurar a chave.
Logo atrás, dois policiais que mantinham guarda do outro lado começaram a disparar em minha direção. Um dos tiros passou raspando, ferindo meu braço direito. Saltei para dentro do carro enquanto a polícia continuava a atirar. Disparei três tiros em direção a eles, sem parar para ver se atingiram o alvo.
— Mas o que está acontecendo aqui? — Indagou Sara, já dentro do carro, atordoada com a situação.
Arranquei com o carro sem rumo certo, a adrenalina pulsando em minhas veias. Observando pelo retrovisor, vi o carro de Sara Campestrini, correndo em alta velocidade ao notar minha fuga. Pelo som dos pneus, era evidente sua fúria. Eu precisava de uma saída rápida.
Tomei a direção da ponte que ligava Braço Forte à floresta de Mossaíh. Logo atrás, o furgão preto da polícia civil se aproximava. Era provável que fosse o inspetor Hugo.
Encurralado, sem outra opção em mente, joguei o Chevette contra o lago. O carro mergulhou nas águas obscuras, indo em direção ao fundo. Rapidamente, saí pelo buraco que havia feito na janela do carro, nadando pelo fundo do lago na tentativa desesperada de escapar dos tiros que Sara disparava, mirando às cegas.
— Morre, desgraçado! — Gritava ela, a voz distorcida pela raiva.
Com pouco fôlego, consegui alcançar a margem do lago, já dentro da densa floresta de Mossaíh. Saí da água e adentrei a floresta, mantendo-me alerta para não ser avistado por nenhum policial. Mas o cansaço e a falta de forças acabaram me vencendo, e desmaiei atrás de um arbusto.
Minutos depois, fui despertado por latidos desconfiados de um vira-lata escanzelado que se aproximava cautelosamente. Era evidente que o cachorro não pertencia à polícia.
— Rambo, o que foi? — Chamou o dono, se aproximando ao me notar. — O senhor tá bem?
Ao virar-me, deparei-me com um senhor de bigode grisalho e um chapéu casual masculino antigo, segurando uma espingarda de dois canos paralelos nas mãos. Mantive-me alerta, observando-o, enquanto ele se aproximava sem demonstrar espanto algum com minha aparência desfigurada.
— Seu braço tá machucado. Venha, vou te ajudar — estendeu-me a mão com um convite gentil.
Por um momento, hesitei, sem saber o que fazer diante da oferta.
— Venha, moro aqui próximo! Vamos para minha casa que eu cuidarei desse ferimento — insistiu ele, apoiando-me em seus ombros e conduzindo-me até sua modesta residência.
A casa, de pau a pique, não ficava longe do local onde nos encontrávamos. Apesar da simplicidade, a gentileza do senhor tornava o lugar acolhedor.
— Entre, fique à vontade. Nossa casa é simplesinha, espero que não se importe — disse ele, abrindo a porta para mim.
— Muito obrigado, o senhor é muito gentil. — Agradeci com um gesto de cabeça, reconhecendo sua generosidade.
— Não precisa agradecer. Vou buscar minha caixa de primeiros socorros. Temos que cuidar desse ferimento antes que infeccione.
Assim que entrou, o senhor acordou sua esposa, e pediu para que ela preparasse algo para comer, enquanto ele cuidaria do meu ferimento.
— Alzira! Alzira, estamos com visita! — chamou ele, adentrando o quarto onde a esposa dormia.
Enquanto aguardava, eu percorria a sala, observando os objetos simples que decoravam o ambiente. Logo, o senhor retornou do quarto, trazendo consigo uma caixa de primeiros socorros.
— A minha esposa vai preparar alguma coisa para o senhor comer. Sente aí, deixe eu cuidar desse seu ferimento — disse ele, indicando uma cadeira próxima.
Concordei, sentando-me enquanto ele ocupava uma cadeira em minha frente. Com cuidado, ele colocou a caixa de medicamentos ao lado e começou a tratar do ferimento em meu braço.
— Este ferimento parece ser causado por um tiro. Estava perseguindo algum bandido? — perguntou, sem rodeios.
— Bandido? — repeti, ainda confuso.
— Sim. O senhor não é da polícia?
Fiquei surpreso com a pergunta, demorei um instante para compreender o que ele insinuava. Entendendo sua interpretação equivocada devido à minha vestimenta, optei então, em manter a ilusão.
— Ah, sim! Eu sou da polícia — respondi, cedendo à falsa identidade.
Neste momento, Alzira saiu do quarto, cumprimentando-nos com um sorriso amigável.
— Boa noite! — saudou ela.
— Boa noite, senhora! — devolvi o cumprimento, cortesmente.
O senhor então apresentou sua esposa, Alzira, e trocamos breves cortesias.
— Prazer! — disse eu, cordialmente.
— Vou preparar algo para o senhor comer — anunciou Alzira, seguindo em direção à cozinha.
Enquanto isso, o senhor terminava de amarrar a faixa em meu braço.
— Prontinho. O senhor já pode ir tomar seu banho. Só tome cuidado para não molhar a faixa — instruiu ele.
— Tem toalha limpa no guarda-roupa, pega lá para ele, Onofre — sugeriu Alzira, enquanto mexia nas panelas.
— Eu já levo a toalha para o senhor. O senhor pode ir por ali. O banheiro fica ali fora — indicou Onofre, gentilmente.
O banheiro da casa ficava do lado externo, assim como o restante da construção, suas paredes eram feitas de pau a pique, e a porta, velha e comida por cupins, era de madeira maciça. Não havia encanamento em toda a casa, e para o banho, utilizei um balde e uma cuia feita de cabaça.
Apesar da simplicidade do ambiente, sentia-me acolhido ali. A generosidade do casal dispensava qualquer luxo. Após o banho, vesti uma roupa emprestada por Onofre, enquanto Alzira preparava uma sopa.
— Mas olha só! A minha roupa caiu muito bem em você. Sente-se, fique à vontade — comentou Onofre ao me ver.
— Aqui está, espero que o senhor goste — dizia dona Alzira me entregando um prato de sopa.
— Tenho certeza que ele irá gostar. A sopa da Alzira é de cair os beiços de tão boa — acrescentou Onofre, elogiando a esposa.
— Obrigado, meu bem — respondeu Alzira, sorrindo para o marido.
Após provar a sopa, agradeci pela refeição.
— Tá tudo muito bom, obrigado.
— O que aconteceu com seu rosto? — perguntou Alzira, curiosa.
Aquela pergunta me entristeceu. Desde que cheguei àquela casa, nenhum dos dois havia mencionado minha aparência física, o que me fazia sentir um pouco de alívio, como se pudesse temporariamente esquecer o monstro que eu me tornara.
No entanto, a pergunta dela revelava que eles haviam notado minha decadência, mesmo que não a mencionassem.
— Deixou o moço sem graça, mulher! — brincou Onofre, tentando amenizar o clima.
— Me perdoe, não tive a intenção. O senhor não precisa responder — disse Alzira, demonstrando sua preocupação.
Não que eu não quisesse responder. Mas preferia manter a ilusão de que era um cara normal, preferia não confrontar a realidade sombria que me consumia.
— Tivemos um filho. Ele teve oitenta por cento do seu corpo queimado — explicou Onofre, enquanto observava um quadro na parede.
— É o rapaz da foto? — perguntei.
— Sim. Meu filho fazia parte do corpo de bombeiros. Passou a vida toda sonhando com isso. Foi para o Rio de Janeiro para estudar e se formar, e com muito esforço e determinação conseguiu realizar seu sonho. Um sonho que acabou se tornando um pesadelo — continuou Onofre, com pesar na voz.
— Eu não gosto nem de lembrar disso — lamentou Alzira, entristecida.
— O senhor está comendo, não vou tirar seu apetite com minhas histórias — concluiu Onofre, tentando não prolongar o assunto.
— O que aconteceu? Por favor, continue — pedi, ansiando por entender melhor a história.
Onofre respirou fundo antes de continuar, seu olhar distante denotava a intensidade da memória que reavivava.
— Meu filho era recém-formado, e estava aqui tirando suas primeiras férias. Quando soube de um incêndio em uma fábrica — começou ele.
— A fábrica de soda cáustica! — interrompi, tentando disfarçar minha surpresa.
— Isso mesmo. O senhor conheceu a fábrica? — questionou Onofre, curioso.
— Não, mas já ouvi falar. E o seu filho, se queimou? — desviei o assunto, evitando levantar suspeitas.
— Ele era teimoso e apaixonado pela profissão. Sabia bem da carência do corpo de bombeiro aqui de Braço Forte. Propôs então ir ajudar. Eu e a mãe dele insistíamos, dizendo que ele estava de férias, que precisava descansar. Mas ele queria ajudar, ele gostava disso. Pessoas precisavam dele, era o que ele dizia. No entanto, uma das explosões acabou pegando ele de cheio, e ele teve sequelas terríveis, oitenta por cento do seu corpo queimado — explicou Onofre.
Alzira, visivelmente emocionada, complementou:
— Era difícil até para banhá-lo. A sua pele se dilacerava no toque de minhas mãos. A roupa colava em sua pele, algumas vezes eu preferia até deixá-lo nu. Com o tempo, as feridas foram cicatrizando, mas ele nunca voltou a ser o mesmo. Tinha dificuldades para respirar, ingerir alimentos. Geralmente eu fazia essa sopa, ele gostava e era o que conseguia comer.
A história era comovente, eu conhecia bem o sofrimento do filho do casal.
— O fogo não destruiu só a parte externa do seu corpo. Todos os seus órgãos ficaram afetados. Dois anos depois do acidente, nosso amado filho não resistiu e veio a falecer — concluiu Onofre, levantando-se da cadeira. — Chega de histórias por hoje, é melhor irmos dormir, o dia já está quase amanhecendo — sugeriu, como se buscasse alívio na noite que se aproximava.
Alzira, preocupada com meu conforto, ofereceu:
— O senhor pode deitar naquela cama ali na varanda. Já coloquei travesseiro e lençóis limpos.
Deitei-me, deixando-me levar pelos pensamentos que a história do casal havia despertado em mim. Era como se eu pudesse sentir a agonia do filho deles, como se fosse minha própria experiência. A narrativa ecoava em minha mente, recriando as sensações daquele fatídico dia do acidente. O cansaço gradualmente tomou conta de mim, e logo me vi mergulhando no sono.
Porém, fui abruptamente despertado pelo latido insistente do cachorro Rambo, como se algo o estivesse perturbando. Ergui-me da cama, passando pelo quarto do casal, onde os vi profundamente adormecidos, alheios aos ruídos ao redor. Dirigi-me até a porta dos fundos da casa, seguindo na direção das latidas persistentes. Ao abri-la, deparei-me com uma cena intrigante: uma jovem de roupa branca estava sentada sobre uma pedra, de costas para mim, contemplando o horizonte. À sua frente, o cachorro latia ferozmente, como se tentasse alertá-la de algo. No entanto, ela permanecia imóvel, sem demonstrar qualquer reação. Os primeiros raios de sol começavam a iluminar o cenário, banhando a grama com uma luz suave que alcançava os pés da jovem.
— Hei, quem é você?
A moça virou-se lentamente, revelando seu rosto ensanguentado. Um arrepio percorreu minha espinha ao reconhecê-la como Érica.
— Max! O que cê fez?
Érica! Minha amada Érica! Meus delírios mais uma vez me confundiam entre o sonho e a realidade. Era um desespero vê-la daquela forma. Sentia o peso da culpa caindo sobre mim, e o sangue das minhas vítimas escorrendo em minhas mãos.
Ouvi barulhos, e um cheiro forte de café. Dei-me conta de que o dia de fato havia amanhecido e dona Alzira se encontrava próxima a um girau de madeira coando o café.
— Bom dia! — cumprimentou ela ao notar que eu havia despertado.
— Bom dia! — respondi, levantando-me da cama.
— Deixei uma bacia de água no banheiro, caso queira lavar o rosto antes do café — ofereceu Alzira, gentilmente.
— Farei isso — concordei, agradecendo.
Alzira continuou enquanto eu me dirigia ao banheiro:
— Onofre foi até a cidade, comprar alguns mantimentos para a casa. Eu queria me desculpar, fui indelicada ontem com o senhor ao lhe perguntar sobre a cicatriz.
— Não tem problema. Vou lá lavar o meu rosto.
Lavei meu rosto e retornei à cozinha para tomar café. Dona Alzira se aproximou de mim com uma máscara de meia face moldada em ferro nas mãos.
— Tome! Era do meu filho. Ele dizia que se sentia melhor usando isso. Esconde a cicatriz dos curiosos — entregou-me a máscara.
Agradeci e coloquei-a sobre o meu rosto. Realmente me sentia melhor assim, antes costumava jogar meus cabelos longos sobre a minha face esquerda para esconder a cicatriz.
— Parece que foi feito sob medida, encaixou direitinho em seu rosto — comentou Alzira.
— Verdade, assim eu me sinto bem melhor — concordei.
— Sente-se, tome o seu café — convidou ela.
Antes mesmo que eu terminasse o café, ouvi cavalgadas se aproximando. Era seu Onofre, que retornava. Entrou afoito com um jornal nas mãos.
— Alzira! — chamou ele.
— O que foi, homem? — perguntou Alzira, notando o tom de urgência na voz do marido.
— Faz favor aqui — disse Onofre, estendendo-lhe o jornal.
Pelo olhar assustado dos dois, era possível deduzir o que se encontrava impresso ali. Naquele momento, eles já sabiam que eu não era da polícia, mas sim um bandido.
Levantei-me da cadeira perante o olhar assustado do casal. Agarrei uma faca que estava jogada sobre o armário e parei por um instante, encarando-os com firmeza. Eles me observavam ofegantes, com medo do que eu poderia fazer, suplicando conforme eu me aproximava.
— Por favor, tenha misericórdia, nunca fizemos mal a ninguém nesta vida! — implorou Alzira.
— Vai embora, nos deixa em paz — suplicou Onofre, abraçando Alzira.
Misericórdia! Essa palavra parecia ter fugido do meu dicionário nos últimos anos. No entanto, naquele instante, uma compaixão pelos dois me cobria. Não poderia maltratar quem tanto me ajudou. Mesmo tendo tão pouco, deram-me o melhor conforto que puderam. Não seria justo retribuir ferindo-os.
Passei por eles e corri para fora da casa. Peguei o cavalo, que já se encontrava arreado, montei-me e corri para longe dali. Eu tinha consciência do risco que corria. Agora eu era a caça da polícia, não podia ser pego pela escolta de Sara Campestrini. Mas também não podia me esconder para sempre na floresta. Assim, nunca mais veria Érica. Preferia a morte a ficar sem ela.
Ao me aproximar da cidade de Braço Forte, ainda ao longe, pude avistar a polícia realizando rondas por toda a área. No entanto, percebi que era época de carnaval, e os moradores estavam ocupados com os preparativos para os bailes, usando fantasias e máscaras. Essa situação me oferecia uma oportunidade perfeita para me infiltrar sem ser notado.
Desmontei do cavalo e o afastei para longe, evitando chamar atenção desnecessária. Era arriscado chegar montado, pois isso poderia atrair a atenção da polícia, e eu temia que, por descuido, eles pudessem acertar o cavalo.
Aproximei-me da ponte que conectava Braço Forte à floresta de Mossaíh, mantendo-me escondido por trás de alguns arbustos às margens da estrada. Dois policiais faziam ronda sobre a ponte, mas estavam distraídos com a agitação da festa que se desenrolava nas ruas. Mais abaixo, pude identificar um trecho onde era possível atravessar o rio, utilizando algumas pedras que emergiam das águas. Com discrição, atravessei pelas pedras e me misturei aos foliões.
Vestia um sobretudo e a máscara de meio rosto, gentilmente cedida por dona Alzira. Com o capuz cobrindo minha cabeça, transformei-os em uma improvisada fantasia, garantindo que minha identidade permanecesse oculta. Com os sentidos alertas em meio à agitação do carnaval, observava atentamente cada movimento ao meu redor, ciente da presença constante da polícia.
No entanto, ao virar a esquina, fui completamente absorvido pela visão de uma jovem de pele clara, cabelos negros e longos amarrados em um rabo de cavalo. Ela caminhava pela calçada na contramão dos foliões, que seguiam em direção a um carro de som. Uma corrente elétrica percorreu meu corpo, fazendo meu coração acelerar, pois a ideia imediata que surgiu em minha mente foi que aquela poderia ser Érica. Em meio à minha confusão mental, onde o real e o imaginário se entrelaçavam, minha mente fervilhava de delírios, enxergando muito mais do que meus olhos captavam.
A moça adentrou por uma porta estreita, em um prédio na esquina por onde passávamos. Decidi então seguir seus passos, percorrendo a calçada na mesma direção que ela havia seguido. Precisava ter a certeza se aquela jovem era ou não a minha amada Érica.
Ao me afastar da multidão, percebi que havia chamado a atenção de um policial que estava a poucos metros de mim.
— Você aí, espere!
Sabia que se parasse, seria facilmente reconhecido e preso novamente. Por isso, apressei-me e adentrei pela mesma porta pela qual a moça havia passado. Subi uma escada com degraus desgastados, determinado a encontrá-la. O policial não hesitou em me seguir de perto.
O prédio se tratava de um condomínio, de corredores estreitos e cheios de portas, que davam acesso aos apartamentos. No final do corredor do terceiro andar vejo uma mulher, próxima a porta, golpeando o tapete no batente, no intuito de tirar a poeira.
Não pensei duas vezes e avancei sobre ela a levando para dentro, lhe amordaçando. Com a mão esquerda eu segurava a faca e pressionava contra o seu pescoço, enquanto com a direita lhe apertava a boca, sufocando o seu grito. Ela esbugalhava os olhos de medo, e aquilo me excitava. O seu cheiro despertava em mim o regalo adormecido, e o desejo desvairado por sangue. A fera malsã e mórbida que morava dentro de mim, se salivava ao se deparar com a olência de sua carne. Mas não poderia esquecer a policia do lado de fora, atenta ao primeiro vacilo meu. Ouvi passos e vozes próximos a porta.
— Bom dia! O senhor viu um homem de capuz subindo aqui recentemente? — Perguntou o policial.
— Não senhor, acabei de sair. — Respondeu o homem.
— Obrigado! — Disse o policial, antes de descer a escada.
Percebi que o policial esperou por um momento antes de se retirar.
Naquele momento minha pele se estremecia, ao instante em que minhas narinas sentiam a fragrância, do perfume daquela mulher que estava presa em meus braços. Eu a desejava como nunca, necessitava desesperadamente sentir o seu sabor. Conforme seu medo aumentava, também aumentava o meu apetite pela o sabor da carne humana. A faca perfurava lentamente sua pele, e rasgava sua jugular, jorrando litros de sangue ao longe. Ela enfiava as unhas sobre a minha coxa, extravasando a dor que sentia, e tudo isso me excitava ainda mais.
Já sem forças foi desfalecendo-se, e lentamente cedendo ao chão. Uma orexia incontrolável brotava em mim, minha boca salivava, e já não tinha mais controle dos meus atos. Deixava-me levar pelo o desejo mentecapto que sentia. Cortei o seu peitoral, seguindo o mesmo ritual que havia feito com as demais vítimas. Arranquei o seu coração para fora, e ali mesmo o devorei ainda quente. O prazer que eu experimentava era perverso, uma sintonia de êxtase e horror que ecoava pelos recônditos mais sombrios da minha alma. Eu me rendia ao selvagem deleite de ser predador, um ser destituído de humanidade, guiado apenas pelo instinto voraz. Era uma experiência arrebatadora, assombrosa em sua intensidade, e eu tremia diante da monstruosidade do meu próprio ser.
Depois do prazer, vinha a culpa que me envolvia. Aquela mulher inocente não tinha culpa alguma, não merecia o destino brutal que eu lhe impusera. Seus sonhos, esperanças e ambições foram ceifados de maneira cruel e impiedosa, tudo por minha culpa.
Sentado no chão, encostado na parede, junto ao corpo inerte, deixei as lágrimas correrem livremente, como uma penitência pelos meus pecados. Eu não podia continuar assim, não podia mais ser o monstro que me tornei. Ansiava por acordar desse pesadelo, por encontrar Érica e redimir-me diante dela, mas o medo me consumia. Sabia que ela não poderia mais me aceitar, que nosso conto de fadas havia sido dilacerado para sempre. O reino encantado que um dia construímos desmoronou-se em ruínas, e eu me via perdido em meio aos escombros da minha própria loucura. Nada do que eu fizesse poderia trazer de volta o que havia sido perdido, e isso me dilacerava por dentro. A culpa e o remorso eram agora companheiros inseparáveis, e eu temia que essa sombra me perseguisse para sempre.
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