Notas iniciais
Finalmente Max estava diante daquela que ele tanto amou durante todos esses anos.

Eu não havia vistoriado a casa. Com a pressa e o medo de ser pego pelo policial, nem me dei o trabalho de saber se havia mais alguém na casa. E para minha surpresa, ao olhar para o lado, vejo um garotinho de mais ou menos dois anos de idade. Ele estava paralisado na porta do meio, assistindo aquele ambiente tétrico.

Sua fisionomia inanimada não demonstrava reação alguma. Não chorava, não sorria, não demonstrava medo. Apenas me olhava fixamente nos olhos. Eu enxergava criança como algo sagrado, angelical, uma criatura divina. Não poderia machucá-lo. Já bastavam as marcas que ele carregaria por toda a vida ao assistir a uma cena tão grotesca.

Levantei-me e me aproximei dele, que continuava no mesmo lugar, imóvel, apenas acompanhando com o olhar cada movimento que eu fazia. Peguei-o em meus braços e andei por todos os cômodos, verificando atentamente se havia mais alguém na casa. Pelo que parecia, apenas os dois moravam ali.

— Qual o seu nome? — perguntei, tentando estabelecer alguma comunicação, mas o menino não respondia, apenas me encarava com o olhar fixo.

— Não quer conversar? — continuei, mas ele apenas balançou a cabeça negativamente.

— Está com fome? Posso fazer algo para você comer — sugeri. Desta vez, o menino balançou a cabeça positivamente.

Mesmo sem dizer uma palavra, conseguimos manter uma comunicação. Fui até a despensa e encontrei um macarrão instantâneo, o mais prático que tinha ali para fazer. Eu tinha que ser breve. A polícia estava empenhada em me pegar, e não poderia deixar o menino ali sozinho naquele ambiente macabro.

Tinha que pensar em uma saída rápida antes que os vizinhos estranhassem a quietude do apartamento. Enquanto a criança degustava o macarrão que eu havia preparado, fui até a janela para observar o movimento da rua. Escondi-me atrás da cortina para não ser visto do lado de fora.

Para minha surpresa, não pude acreditar no que meus olhos viam. Era Érica, na sacada ao lado, no apartamento vizinho. Eu tinha certeza, dessa vez não se tratava de mais uma de minhas alucinações; era minha amada Érica.

A minha doce menina agora era uma mulher. E que mulher! Seus longos cabelos lisos e brilhantes, negros como uma noite escura, seus olhos pequenos e verdes como esmeraldas reluzentes, seus lábios rosados e carnudos, seu nariz pontiagudo, como esculpido pelo mais talentoso dos artistas. Fiquei trêmulo ao vê-la ali tão próxima a mim.

Ela dançava ao som do samba que ecoava na rua, alisando os cabelos e sensualizando no rebolado. Como era linda! Meus olhos brilhavam fascinados com sua beleza, mas também se encheram de lágrimas ao lembrar que ela não me pertencia.

Não demorou muito para Davi também aparecer na sacada. Ele aproximou-se de Érica e a abraçou por trás. Ela virou-se de frente e lhe deu um demorado beijo. Ver os dois ali abraçados e felizes me fez lembrar do triste dia do acidente. Enquanto eu descia em direção ao cilindro de soda cáustica, eles me ignoravam, deixando-me à mercê da minha própria sorte.

Durante esses dez anos que se passaram, não houve um só dia em que não me lembrasse desse maldito acidente e da imagem de Érica e Davi abraçados. Essa lembrança me doía como uma ferida aberta. Mas eram essas memórias que me impulsionavam a seguir em frente e procurar o meu grande amor.

Não era justo que eu fosse condenado a esse inferno em que vivia, enquanto eles se regozijavam, felizes, sem sequer sentir a minha falta.

Um flashback me transportou de volta para aquele momento fatídico, onde a soda cáustica se espalhava pelo salão, incendiando tudo em seu caminho. Enquanto eu lutava para escapar das chamas vorazes, meus olhos encontraram Érica e Davi, abraçados e alheios ao perigo iminente que se aproximava.

A dor da traição se misturava com a angústia da situação, enquanto eu buscava desesperadamente por uma saída. Cada imagem, cada sensação daquele dia continuava a assombrar-me, alimentando a chama da vingança que ardia dentro de mim.

A minha mente atordoada trabalhava em uma ideia de como sair dali sem ser flagrado pela polícia. Me assustei quando alguém bateu na porta e mexeu na maçaneta.

— Juliana! Juliana, cê tá aí? — uma voz feminina ecoou.

Olhei para o garotinho, que me encarava com olhos assustados. Pela primeira vez, vi o medo refletido em suas pupilas.

— Eu não vou te fazer mal. Pode comer o seu macarrão tranquilamente — murmurei, tentando acalmá-lo para evitar que ele começasse a chorar.

Enquanto isso, do lado de fora, a mulher continuava chamando.

— Juliana! Cê tá me ouvindo?

Aproximei-me da porta, segurando um punhal nas mãos e atento a qualquer movimento. Do lado de fora, ouvia a mulher conversar com mais alguém.

— Parece que não tem ninguém — disse o policial.

— Eu não a vi saindo. Tem alguma coisa errada. Eu conversei com ela hoje mais cedo e ela não disse que iria sair. Pelo contrário, disse que ficaria em casa arrumando as coisas — respondeu a mulher, preocupada.

— Então se afaste, eu vou arrombar a porta — determinou o policial.

Eu não podia esperar ali enquanto a porta estava prestes a ser arrombada, e eu corria o risco de ser capturado. Rapidamente, peguei o que pude e me arrumei. O apartamento em que eu estava ficava em uma esquina, com um lado voltado para um beco e, no andar de baixo, uma loja com um toldo cobrindo a fachada.

Sem escolha, percebi que precisava agir rapidamente. Não sabia quem estava do outro lado da porta ou quantas pessoas estavam lá. Enquanto eu ponderava, a porta era violentamente sacudida na expectativa de ser arrombada. O pequeno garoto permanecia sentado onde eu o deixara, olhando-me com uma expressão inalterada.

Reunindo coragem, saltei para cima do toldo, caindo sobre alguns caixotes de madeira empilhados abaixo. O dono da loja emergiu, irritado ao ver sua fachada danificada.

— Mas o que tá acontecendo aqui? — ele exclamou, confuso.

Levantei-me rapidamente, encarando o homem, que se assustou ao ver minha aparência. Sem dar-lhe chance de reação, corri e entrei em outro beco. Ali, encontrei uma tampa de ferro que cobria o esgoto. Tirei o punhal de dentro da mochila, verifiquei se não havia ninguém por perto e, com a ponta do punhal, removi a pesada tampa de ferro.

Rapidamente, me esgueirei para dentro do bueiro e me escondi lá, consciente de que não podia dar bobeira pela cidade, sob o risco de ser capturado pela polícia. Eu estava exausto, faminto, e o ambiente do esgoto onde me encontrava não era nada acolhedor.

Porém, mesmo nessas condições, minha mente estava completamente focada em Érica. Precisava chegar até aquele apartamento e me colocar diante do meu grande amor. Não podia permitir um final feliz para Davi e Érica — eu é que deveria estar ao lado dela, não ele.

Caminhei por um tempo dentro das manilhas do esgoto, cada passo pesado refletindo minha exaustão. Finalmente, parei e me sentei em uma lata velha de tinta, que estava jogada ali. Ratos e baratas compartilhavam o espaço comigo, mas não havia outro lugar para descansar.

Precisava permanecer ali e esperar até que anoitecesse. Era arriscado demais perambular pela cidade naquele momento, com a polícia tão ativa. O som das sirenes ecoava acima de mim, enquanto meus olhos pesavam e meu corpo cansado sucumbia ao sono.

Horas depois, acordei com um sobressalto, assustado por um rato que passara por cima do meu pé. Perdido na escuridão do esgoto, não tinha noção do tempo que havia passado. Mas já percebia que era noite, pois a escuridão substituíra os raios de sol que entravam pelas frestas.

Era hora de sair do meu esconderijo. Com cuidado, abri lentamente a tampa de ferro, observando atentamente se havia alguém por perto. O beco estava mal iluminado e vazio, oferecendo pouca movimentação. Sai cautelosamente, tentando me esconder o máximo possível. Minha aparência suja e maltrapilha me assustava quando vi meu reflexo na vitrine de uma loja próxima.

Um flashback me transportou para um dia em que eu estava sentado embaixo de uma árvore e Érica sentada ao lado.

— Mas cê se engana, Max. Aquilo que eu te disse mais cedo, de que eu pensei muito em você e que eu também te quero. É a mais pura verdade. Esse seu jeitinho meigo e atrapalhado mexeu muito comigo. Mas você conhece as regras daqui. Se o Ricardo souber de algum envolvimento nosso, ele poderá contar para a dona Elizabeth. E eu não posso perder a oportunidade de ficar aqui. Você me entende?

Minha expressão se iluminou ao ouvir suas palavras.

— Então, isso significa que você ainda quer ficar comigo?

— Claro. Mas vamos ficar escondidos, não precisa ninguém ficar sabendo.

— E... e... eu aceito! Eu te quero muito, Érica. — Respondi nervoso, mas animado com a ideia.

Tudo o que ansiava era regressar ao passado, abraçado por Érica, revivendo os momentos mágicos que compartilhamos. Cada lembrança dela era um bálsamo para minha alma cansada, como pequenos fragmentos de luz em meio à escuridão da solidão.

Ela era meu porto seguro, meu refúgio em um mundo caótico. Sua ausência deixou um vazio insuperável em meu coração, como se uma parte de mim tivesse sido arrancada violentamente. Era como se eu estivesse vagando em um deserto árido, buscando desesperadamente um oásis de conforto que agora parecia inalcançável.

Ao olhar para o lado, vejo Davi saindo do prédio e entrando em um carro. O ódio que eu sentia naquele momento para aquele que um dia chamei de amigo era assustador. Olhei e vi um taxi parado um pouco à frente de onde eu estava, sem muita demora abri a porta de trás, entrando abruptamente. O taxista ficou assustado e me repreendeu:

— Ei, como entra assim no meu táxi? Eu não tô livre! — ele exclamou, olhando para trás e, ao encarar meu rosto, sua expressão se transformou em choque. — Meu Deus!

— Mas agora cê vai ficar livre. — Respondi, decidido.

Sem pensar muito, peguei um fio de cobre encapado, desses usados para energia, que estava sobre o banco traseiro, e o passei em volta do pescoço do taxista.

Ele tentou desesperadamente se libertar, mas era inútil, pois eu puxava com toda minha força. Quando ele finalmente parou de se debater, percebi que estava morto. Joguei o corpo para o lado e ocupei o seu lugar no volante. Liguei o táxi e saí em perseguição ao carro de Davi.

Eu tinha medo, mas o desejo de vingança o superava. Depois de uma certa distância, Davi desceu do carro e entrou em um prédio. Desci do taxi em que eu estava e entrei atrás dele. Ele foi direto para um banheiro público, que tinha ali mesmo no primeiro piso do prédio.

Eu o acompanhei, mantendo distância suficiente para não chamar sua atenção. Quando ele entrou em um dos boxes do banheiro, eu fiquei do lado de fora. Antes que ele pudesse perceber, fechei a porta do banheiro e coloquei uma lixeira para impedir que alguém entrasse.

Ouvi o som da descarga e logo depois Davi abriu a porta, assustado ao me ver ali do lado de fora.

— Boa noite! — Falei.

— Max! — Exclamou, assustado.

— Incrível, você me reconheceu. Para o Ricardo a ficha demorou a cair. — Disse.

— O que cê se tornou, Max? Esse não é você.

— Claro que não sou. O Max que cê conheceu morreu no dia em que caiu naquele cilindro de soda. E você nem se preocupou, pois estava louco para ficar com Érica.

— Isso não é verdade. Eu e Érica ficamos muito mal quando percebemos o que aconteceu. Nós iríamos atrás de você quando tudo explodiu. Mas tivemos que sair do local o mais rápido possível.

— Veja só, Davi, o monstro que eu me tornei. — Minhas mãos tremiam levemente enquanto retirava a máscara, expondo meu rosto desfigurado.

Davi ficou desconfortável ao me ver naquele estado, mas tentou agir com naturalidade.

— Cê não é nenhum monstro. Cê não precisa fazer nada disso. Deixa eu te ajudar, Max?

— Cê vai me ajudar a ficar com Érica?

— O quê?

— Claro que não. Cê a quer para si. Eu amo Érica, eu sempre a amei, e cê não respeitou isso.

— Calma, Max, não foi bem assim que aconteceu. Cara, já se passaram dez anos. Muita coisa aconteceu.

— Pra vocês muitas coisas aconteceram, pra mim nada aconteceu. Só dias e mais dias de angústia. Cê me acha um monstro, Davi?

Fui me aproximando aos poucos de Davi. Sentia no seu olhar o medo tomando conta. Ele temia pelo o que eu pudesse fazer. Tentava procurar lá no fundo algum vestígio que tenha sobrado na nossa amizade. Ele se afastava conforme eu me aproximava, até encostar-se na pia.

— Claro que não. — Davi tentou apaziguar, desesperadamente. — Hei, sou eu, o seu amigo. Lembra?

— Está mentindo, e eu odeio mentiras. — minha voz saiu áspera, carregada de uma raiva avassaladora.

Peguei minha faca e a cravei em sua barriga. Davi se contorceu de dor, caindo de joelhos e pressionando a mão sobre o corte que eu havia infligido. Num impulso de ira descontrolada, puxei a faca novamente e a cravei uma segunda vez, liberando minha raiva acumulada.

Depois, retirei a chave de seu bolso e saí apressadamente dali. Peguei o carro de Davi, pois não podia arriscar ser visto em um táxi, especialmente com o corpo do taxista ao meu lado. Minha mente estava turva, envolvida por uma névoa de fúria e desejo. O único pensamento que permeava minha mente era o rosto de Érica. Eu precisava vê-la novamente, confessar-lhe meu amor.

E assim, guiado por uma determinação cega, segui em direção ao meu destino. Ao chegar ao prédio, percebi que estava isolado, cercado pela polícia que já havia fechado todas as vias de acesso. Eles estavam prestes a iniciar a perícia no corpo da mulher que eu deixei sem vida ali.

Eu precisava encontrar uma maneira de entrar, mas precisava ser cauteloso, especialmente porque o prédio onde Érica estava ficava próximo. A chance de ser pego pela polícia era enorme. Ainda dentro do carro de Davi, circulei discretamente pelas ruas próximas, procurando uma oportunidade de chegar até o prédio onde Érica estava.

Foi então que avistei um pé de carvalho do outro lado da rua, cujos galhos se estendiam até uma das janelas do prédio. Era a minha chance de entrar despercebido. Estacionei o carro do outro lado da rua e, com cuidado, corri sorrateiramente até a árvore. Comecei a subir rapidamente, sentindo a pressão da urgência em cada movimento.

Ao alcançar o topo, uma viatura da polícia se aproximou e parou exatamente ao lado do carro que eu havia estacionado. Encolhi-me atrás dos galhos, respirando aliviado ao perceber que não haviam me visto. Olhando pela janela do apartamento, avistei um pôster com o rosto de Érica. Ali, tive a certeza de que estava no apartamento da minha amada.

A janela estava apenas encostada, e não foi difícil abri-la. Entrei no quarto e fui tomado por uma sensação de encantamento ao me encontrar ali. Como se sob um feitiço, fui direcionado até diante do seu pôster, onde fiquei parado, incrédulo por finalmente ter encontrado o meu grande amor.

— Minha amada, como eu ansiei por esse momento — murmurei, passando a mão pelo pôster.

Fui me aproximando ainda mais daquela imagem na parede e comecei a beijá-la, enquanto lágrimas amargas escapavam dos meus olhos. Depois de uma década de separação, agora finalmente eu estava próximo daquela que tanto desejei todo esse tempo.

No entanto, ali ainda não era ela, apenas uma representação, uma imagem que capturava todo o seu encanto. Enquanto eu estava ali, hipnotizado diante do pôster de Érica, ouço uma voz do meu lado, que me faz voltar à realidade.

— Meu Deus, Max, não pode ser!

Era Érica, ali, bem próxima a mim. Ela parecia chocada e assustada por me ver naquela situação. Agora sim, era ela. Desta vez não era nenhum devaneio ou imagem presa na parede. Minha Érica estava ali na minha frente, em carne e osso.

— Érica! — chamei, me aproximando.

— Por favor, não se aproxime! — ela disse, visivelmente assustada. — Foi você que matou todas essas pessoas que estão sendo noticiadas na mídia? O que cê fez, Max? Em que cê se tornou?

— Tudo o que eu fiz foi por amor a você. — respondi, tentando me explicar. — Não houve um dia durante todos esses anos que eu não tenha pensado em você. O que cê fez, Érica? Por que cê me traiu? Era para eu estar casado com você, não o Davi.

— Todos nós pensávamos que cê tivesse morrido. — ela explicou, com a voz embargada. — Eu não te traí, Max, nem estávamos mais juntos.

— Cê e o Davi não se importaram ao me ver ali, caindo no cilindro de soda cáustica. — retruquei, lembrando-me daquele terrível momento. — Cês dois se abraçavam contentes, enquanto minha pele se dilacerava naquele calor sufocante.

— Não é verdade, ficamos muito preocupados contigo. — Érica contestou, entre lágrimas. — Mas não poderíamos continuar ali, o lugar estava correndo risco de explosão. Se ficássemos, correríamos o risco de morrer.

— Se eu estivesse em seu lugar, eu daria a minha vida pra te salvar. — rebati, magoado. — Eu jamais te deixaria lá.

— Eu não poderia fazer mais nada, Max. Nem eu, nem mais ninguém. — ela respondeu, com pesar. — Eu sinto muito por tudo o que aconteceu.

— Cê nunca me amou. — acusei, sentindo a dor da traição. — Eu fui apenas um brinquedo para você, não é mesmo? Cê só se divertia comigo.

Naquele momento, as memórias do passado surgiram arrastando-me de volta ao jardim da república universitária, onde Ricardo nos flagrou aos beijos. Lembrava-me vividamente do olhar de descrença de Ricardo, dos seus comentários mordazes e de suas risadas. E, acima de tudo, recordava-me das palavras cruéis de Érica, que confirmavam que o beijo era só uma forma de brincar comigo.

Me aproximei e fiquei bem diante dela, enquanto passava a mão pelo o seu rosto admirando-a. Eu olhava para aquele rosto delicado, e enxergava em seus olhos a doçura daquela menina que eu tanto amei. Mas agora envolvida com a malícia da mulher que havia se tornado.

Seu cheiro, sua delicadeza, sua beleza, tudo para mim era encanto. Como eu desejei esse momento, como eu sonhei em está assim diante da minha amada Érica novamente. Meus olhos se lacrimejavam ao fixar-me em seus olhos. Que estavam amedrontados, assustados com a minha presença.

— Mas agora acabou. O Davi e o Ricardo estão mortos. Agora sou só eu e você. Ninguém mais vai nos separar, meu amor — disse eu, com uma mistura de determinação e aflição.

Érica, com lágrimas nos olhos, parecia preocupada.

— Onde tá o Davi, Max? O que cê fez com ele? — perguntou ela, sua voz carregada de angústia.

Eu percebia o desejo dela de fugir, de correr o mais longe possível de mim. Mas suas pernas pareciam travadas pelo medo que a dominava.

— Está com medo de mim, Érica? — inquiri.

— Não. Cê não é esse monstro que tá me apresentando. Cê ainda é aquele rapaz que me encantou naquela república — respondeu Érica, com uma mistura de esperança e apreensão em sua voz.

— Cê não me vê como um monstro? — insisti, observando atentamente sua expressão.

Mesmo que sua boca afirmasse não sentir medo, seus olhos revelavam a verdade.

— Largue esse punhal! Vamos conversar — pediu Érica, tentando manter a calma apesar do medo evidente.

— Eu não vou te machucar, só quero que venha comigo. Vamos fugir, meu amor? Vamos para um lugarzinho só nosso, longe de tudo e de todos. Agora acabou, ninguém mais vai impedir a nossa felicidade. Agora não tem mais a dona Elizabeth, não tem mais o Ricardo e nem mais o Davi. De agora em diante será só nós dois e mais ninguém! Vem comigo, Érica? — implorei, com esperança renovada.

— Eu vou, mas largue o punhal — concordou Érica, com uma voz trêmula e receosa.

Observando o medo nos olhos de Érica, eu compreendia que convencê-la não seria fácil. Por mais que eu tentasse resgatar a paixão que um dia nos uniu, era evidente que o passado estava perdido para nós. Agora, o que ela sentia por mim era apenas medo. E era nesse medo que eu encontrava minha força. Érica seria minha, de uma forma ou de outra, mesmo que isso significasse matar nós dois. A determinação se misturava com a escuridão que tomava conta de minha mente.

Não havia mais espaço para a razão, apenas para a obsessão que me consumia. Eu estava disposto a tudo para tê-la ao meu lado novamente, mesmo que isso significasse cruzar todos os limites.


Notas finais
Todo esse caminho de carnificina que Max percorreu tinha um destino, Érica. E agora depois de encontrar o seu grande amor, o que ele fará? Uma coisa é certa, ele está disposto a matar e morrer por ela.